Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

«Manuais Escolares: Sensacionalismo e Inconsequência» [Paulo Guinote, “Público”]

Manuais Escolares: Sensacionalismo e Inconsequência

Paulo Guinote

23 de Janeiro de 2017, 10:22

Há que ir além da arraia-miúda, ter coragem de elevar o olhar e apontar o dedo a quem tem mesmo grandes responsabilidades nisto tudo. E parar de acusar os professores.

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Alguns dias passados sobre os programas e debates da RTP3 e TVI sobre o processo de produção e comercialização dos manuais escolares, tendo pousado rapidamente a poeira levantada de forma muito agitada por aqueles dias, já é possível fazer um balanço do que (não) passou.

Comecemos pelo fim: a única consequência que se pode identificar daquilo tudo é que o Ministério da Educação (ME) vai encomendar um estudo para, em 2017, saber como é constituído o preço de um manual escolar. Sim, é verdade, com tanto grupo de trabalho e estrutura de missão ao longo das décadas, incluindo encomendas estranhas para sistematização de legislação já sistematizada por parte de alguém que também por ali passou, em Portugal, em 2017, aparentemente (sublinho o “aparentemente” por razões óbvias), o nosso ME não faz ideia da forma como se chega a um determinado preço de um artigo que ele impõe, em regra, como obrigatório para muito mais de um milhão de alunos (e esperemos por manuais para o pré-escolar, que deve ser o must da próxima temporada). Eu acho que o que se passa é outra coisa… o ME já sabe, sempre soube, mas precisava de um pretexto para anunciar o estudo que já deve estar mais do que alinhavado. Mas isso são os truques habituais para iludir a opinião pública.

Continuando. Comum a ambas as reportagens, embora com maior gravidade e ligeireza na da RTP, a imputação aos professores da responsabilidade por obrigarem os pais a comprar manuais, optando por aqueles em que os grandes grupos editoriais lhes dariam maiores ofertas, falando-se mesmo em viagens. Nada surgiu em qualquer das reportagens como prova documental da “denúncia”, muito pouco sobre o verdadeiro processo que determina o calendário e procedimento das adopções (responsabilidade do ME), nem grande coisa sobre tudo o que anda em volta dos materiais auxiliares que também são promovidos em catadupa em cada momento que um ministro ou secretário de Estado, pela sua cabeça ou como simples testa de ferro, decide alterar calendários e natureza de provas de avaliação externa ou inventa mesmo novas alterações às provas existentes ou aos programas das disciplinas, com destaque para o Português e a Matemática. Nada ainda sobre a implicação que a adopção do Acordo Ortográfico nas escolas de forma obrigatória teve em tudo isto.

O que apareceu de mais relevante: o enorme desperdício de manuais e outros materiais não adoptados ou não utilizados (reparem que não me pareceram manuais já usados a ser destruídos), algumas pessoas a fingirem que nada era com elas (o senhor da Autoridade da Concorrência, a ex-ministra que sacudiu para o secretário de Estado a responsabilidade por não ter conseguido um acordo com as editoras, o mesmo que não teve qualquer problema em não querer, sequer, um acordo com os professores sobre a sua carreira), outras com a pose de quem sabe dominar o “mercado”, um pseudo-arrependido a dizer banalidades sem concretização (o lamentável “promotor escolar”) e alguns professores a tentar descrever algumas perversões do sistema (o Luís Braga e o Carlos Grosso, por exemplo), mas parecendo ficar na mesa da edição o mais importante e decisivo em todo este processo e que é o nível da macro-decisão, aquela em que se decide o que muda, quando e que permitiu a existência de um processo de concentração e cartelização do mercado dos livros escolares.

O que passou ainda por aquelas reportagens foi uma enorme hipocrisia de algumas figuras que apareceram e o não cumprimento da promessa de denunciar certas cumplicidades institucionais e pessoais. Foi suave o tratamento dado a uma confederação parental demasiado prisioneira das suas parcerias, foi inexistente a relação estabelecida entre o secretário de Estado incapaz de negociar um acordo bom para o interesse público e o ex-secretário de Estado capaz de ir administrar um dos grupos empresariais do sector, bem como a investigação sobre a coincidência de preços entre manuais de grupos teoricamente concorrentes ficou pela mera enunciação do facto e apresentação de documentos de outros tempos. A verdade é que terão existido denúncias bem mais recentes para a Autoridade da Concorrência que ficaram por investigar, enquanto o seu dirigente máximo constata evidências e faz nada. O auto-branqueamento dos poucos políticos que apareceram já era esperado, estranhando eu mais que ninguém ligado aos pareceres do Conselho Nacional da Educação aparecesse a dar a cara pelo que escreveu, quando tão rápidos são a aparecer quando o assunto é outro. Tenho umas ideias sobre a razão, mas logo se verá qual o movimento editorial. O movimento editorial que também não foi investigado, fazendo uma verificação de nomes entre quem apoia a produção de legislação na esfera pública e quem publica na esfera privada a explicar aquilo que os normativos se esmeram por tornar opaco e carente de explicação anotada e comentada.

Entendamos uma coisa: eu acho que os nossos manuais estão ao nível do melhor que existe em qualquer parte do mundo e que as editoras têm todo o direito de explorar um mercado que o poder político lhes deixou nas mãos. Só que… então não deveríamos todos poupar e evitar os luxos? Não será possível produzir manuais escolares muito mais baratos sem uma redução catastrófica da “qualidade”, quando na escola existem recursos digitais para ir em busca dos materiais que teoricamente mais encarecem os manuais: as imagens e infografias? Não seria possível ao ME produzir (ou encomendar) manuais e materiais “marca branca” para concorrência verdadeira no mercado? Sem promiscuidade de autorias de metas e manuais, programas e livros de apoio?

A questão da reutilização, no meio disto tudo, é importante mas tem sido usada como pretexto para outro tipo de luta. A esse nível, defendo a liberdade de todos: do Estado para impor regras a quem usa materiais recebidos de borla e das famílias para optar por querer essa possibilidade ou optarem por comprar e guardar os seus livros. Afinal, um manual também é um livro e tem a mesma dignidade de outros que possamos ter nas nossas estantes. Terá mesmo, porventura, maior importância na nossa formação como leitores do que tantos outros.

O balanço final parece-me magro para tanto alarido. Afinal, repito o que disse no debate da RTP3: há que ir além da arraia-miúda, ter coragem de elevar o olhar e apontar o dedo a quem tem mesmo grandes responsabilidades nisto tudo. E parar de acusar os professores por todas as tropelias (há quem faça algumas, mas a esses apliquem o devido castigo, não metam lama na ventoinha), mesmo quando os apresentam como meros idiotas úteis, operacionais involuntários de grandes interesses. Tenham a coragem para ir mais além. Se (v)os deixarem.

Paulo Guinote

[“Público”, 23.01.17]

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Negócios, Lusa e “cidadãos”

«Um grupo de cidadãos deve tornar público, na próxima segunda-feira, um manifesto contra o AO90, que conta, entre outras com as assinaturas de Eduardo Lourenço e António Lobo Antunes, disse à Lusa fonte do Grupo de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990, que promove a iniciativa.»

Perdão? Um grupo de cidadãos que promove uma iniciativa? Quem são esses “cidadãos”, que os não conheço de lado nenhum? Qual é a “iniciativa” que promovem esses “cidadãos”, que de tal nunca ouvi falar? E essa “fonte” desse tal “Grupo de Cidadãos” (parabéns pelas maiúsculas, têm imensa pinta) é quem, ao certo? Um anónimo que soprou umas cenas? Alguém ligado aos “Negócios”? Um quadro da Lusa, isto é, algum inside job? E se é um inside job e se o caso foi soprado estaremos, por conseguinte, a assistir a um blow job?

Eu cá dispensava perfeitamente a obscenidade.

Impacto do Acordo Ortográfico avaliado no Parlamento

“Jornal de Negócios”/Lusa 20 de Janeiro de 2017 às 15:09

O requerimento para a constituição do Grupo de Trabalho foi apresentado pelo PSD e aprovado hoje de manhã com a abstenção do PS.

A comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto aprovou hoje a criação de um Grupo de Trabalho para a avaliação do impacto da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990, disse à Lusa fonte parlamentar.

O requerimento para a constituição do Grupo de Trabalho foi apresentado pelo PSD e aprovado hoje de manhã com a abstenção do PS.

Os deputados aprovaram ainda, desta feita por unanimidade, a proposta do Bloco de Esquerda para uma audição do presidente da Academia de Ciências de Lisboa (ACL), Artur Anselmo, naquela comissão.

Em declarações à agência Lusa, o deputado social-democrata José Carlos Barros afirmou que a proposta de criação deste grupo de trabalho surgiu pelos recentes alertas da ACL, que referiram “a necessidade de aperfeiçoar as bases do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), que gerou instabilidade ortográfica, que não estabelece uma ortografia única e inequívoca, que deixa várias possibilidades de interpretação, em muitos casos”.

“O Acordo Ortográfico tinha dois objectivos, um de ordem política que era no âmbito da Língua Portuguesa e que sempre foi relativamente consensual, que tem a ver com o papel de reforçar o papel da Língua Portuguesa como uma língua de comunicação internacional. O outro objectivo é de ordem técnica, que é a definição de uma base ortográfica comum”, explicou José Carlos Barros.

José Carlos Barros afirmou que o PSD continua a ser a favor do objectivo de ordem política, que “é o de reforço da Língua Portuguesa e que nunca esteve em causa”.

“O que a ACL vem dizer é que este objectivo de ordem técnica não está a ser cumprido, o que nós entendemos é que devemos perceber porque é que não está a ser cumprido este objectivo técnico”, disse o deputado social-democrata, realçando que “a política não se deve meter na ortografia”.

A constituição do Grupo de Trabalho deve ser abordada numa reunião da comissão parlamentar, que acontecerá na próxima semana, e a audição do presidente da ACL não está ainda agendada.

Questionado pela Lusa sobre o Grupo de Trabalho para acompanhamento da aplicação do Acordo, que funcionou entre 2014 e 2015, o deputado social-democrata afirmou que foi entregue um relatório sem conclusões, “por falta de consenso entre os diferentes partidos políticos”

Entretanto, um grupo de cidadãos deve tornar público, na próxima segunda-feira, um manifesto contra o AO90, que conta, entre outras com as assinaturas de Eduardo Lourenço e António Lobo Antunes, disse à Lusa fonte do Grupo de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990, que promove a iniciativa.

Também na próxima semana, na quinta-feira, a ACL vai deliberar sobre uma proposta de revisão do AO90, segundo o calendário de sessões.

[Fonte: Impacto do Acordo Ortográfico avaliado no Parlamento – Cultura – Jornal de Negócios] (“links” meus)

 

 

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“Ou” o quê?!

Para variar, não concordo. Parece-me, aliás, de certa forma surpreendente este artigo de Nuno Pacheco.

Pelo tom conciliador e pela concomitante admissão tácita de que afinal é possível “aperfeiçoar” (ou “despiorar”, como diz Anselmo) aquilo a que o próprio, com imenso rigor terminológico, chama “o monstro”: «Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa, para que, “remendando” o AO ou deitando-o fora, não haja mais escolhas impensadas, baseadas em panaceias há muito desmentidas.»

Uma inovação absoluta, vindo isto de uma pessoa que sempre se bateu contra, contra e nada mais do que contra o aleijão ortográfico, sem tergiversações (“conciliábulos mornos”, diz bem), sem hesitações ou tibiezas e, sobretudo, sem concessões de qualquer espécie.

“Ou”? “Ou” o quê?!

“Aperfeiçoar” o  monstro para ele ficar ligeiramente menos monstruoso? “Rever” o cAOs para o tornar um bocadinho menos caótico? “Remendar” o maltrapilho a ver se ele deixa de ser miserável?

Discussão? Ah, está bem, isso pode ser: discuta-se então qual a melhor forma de acabar com o miserável, maltrapilho, caótico, monstruoso AO90.

Acordemos, para desacordar de vez

Nuno Pacheco

19 de Janeiro de 2017, 7:30

Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa

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Neste Janeiro pleno de sol, eis que regressam as acaloradas discussões sobre a Língua Portuguesa. Voltou à RTP, na passada terça-feira, o magazine Cuidado com a Língua!; foi lançado um novo livro do tradutor, revisor e professor Marco Neves intitulado A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra & Paz); e o PEN Clube promoveu no Goethe Institut, em Lisboa, no dia 9 de Janeiro, mais um debate sobre o acordo ortográfico (AO90). Aliás, é este último que mais promete dar que falar, com o anunciado “aperfeiçoamento” que a Academia de Ciências de Lisboa prepara e de que já foram surgindo alguns tópicos: regresso à diferenciação de “óptico-ótico” e de “pára-para”, clarificação do uso dos hífens, reposição de consoantes ditas mudas (pelo menos as que permanecem no Brasil, caso de recepção-receção); ou revisão do uso dos sufixos pan- e com-. Haverá conciliação? Arriscando uma metáfora marítima, esta tentativa de “aperfeiçoamento” arrisca-se a ser vista por uns como um inadmissível rombo no navio, e por outros como o lançamento de bóias de ferro aos náufragos.

Recordando os alertas dos saudosos José Pedro Machado e Vasco Graça Moura, entre tantos outros que se cansaram de argumentar contra os perigos do “monstro” que aí vinha, é possível olhar para a tentativa da ACL como a confirmação clara de um falhanço: se o AO precisa de emendas, e não serão poucas, nunca devia ter entrado em vigor no estado em que está. Os que lamentam a sorte das “pobres criancinhas” caso haja agora mudanças, deviam ter pensado na quantidade de disparates que as obrigaram a aprender para agora, aos poucos, terem de os desaprender. É por isso que os fautores do acordo não querem mudar uma só vírgula: para não ajudarem a sublinhar a sua incompetência.

É, pois, tempo de deixar a habitual lassidão portuguesa e enfrentar o problema. Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa, para que, “remendando” o AO ou deitando-o fora, não haja mais escolhas impensadas, baseadas em panaceias há muito desmentidas. É curioso que um defensor do AO (considerando-o, ainda hoje, “obra meritória”, que “já não pode ser denunciado por Portugal, como país digno”), D’Silvas Filho, tenha publicado há dias no seu blogue e no Pórtico da Língua Portuguesa um texto onde condena, nos vocabulários ortográficos, “a sanha contra as consoantes não articuladas” por uma “obsessão no simplificacionismo. A língua é um complexo que traz consigo a herança de muitas gerações de falantes que a foram aperfeiçoando na comunicação. A língua é mais do que ortografia, mas esta tem interferência na linguagem, por exemplo, nos retornos sobre a fonia. Só se deve alterar a ortografia com pinças, com ciência, senão a fluidez da comunicação intergerações e o encanto das virtualidades da língua podem perder-se.” Foi isto que foi feito com o AO90? Só um lunático responderá pela afirmativa.

Apesar da vã retórica, nenhum benefício foi ainda mostrado como resultante da imposição das regras do AO90. O silêncio dá jeito, porque encobre todo o tipo de más opções e desvarios. Mas na língua não há silêncios. Ela rodeia-nos a toda a hora, falada, escrita, viva, múltipla. Um exemplo: numa extensa entrevista que o escritor brasileiro Pedro Maciel fez a Mário Soares e que permaneceu inédita até a Folha de S. Paulo a publicar postumamente, no dia 9, a última questão foi sobre a língua. Perguntou Pedro Maciel: “Não é uma bobagem a reforma ortográfica da língua portuguesa, já que a língua é um organismo vivo, dinâmico e muda-se conforme as novas gerações?” Respondeu Mário Soares: “O que é admirável na nossa comunidade é a variedade, a riqueza e as diferentes contradições. Os brasileiros têm locuções, maneiras de escrever e de falar diferente dos portugueses que enriquecem extraordinariamente a nossa língua, da mesma forma que os africanos e os portugueses. Cada um dá o seu tributo. Eu não sou um grande purista da língua e acho que as línguas são organismos vivos e são os povos que fazem as línguas. Não sou pela uniformização, mas pela variedade e pela diversidade dentro de uma unidade.”

Que siga a discussão.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Nuno Pacheco, jornal “Público”, 19.01.17. Destaques meus.]

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Admirável Língua Nova (Parte II) [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte II)

Manuel Matos Monteiro

17 de Janeiro de 2017, 14:32

Nunca ocorreu a nenhuma das luminárias do Acordo Ortográfico que não se encontram dois falantes de português em 261 milhões que pronunciem exactamente do mesmo modo todos os vocábulos que conheçam?

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Com o Acordo, se ler que “Cristiano Ronaldo tem pé de atleta”, poderá tratar-se de um elogio ao talento do futebolista ou de uma micose superficial na pele dos pés do herói nacional, provocada por fungos. Se não adoptar o Acordo, a micose é grafada com hífenes. É essa a lógica da língua portuguesa. (Lógica que o Acordo mutila) [ver texto anterior, Admirável Língua Nova, Parte I] Quando queremos ler meramente a soma dos seus constituintes, naturalmente não hifenizamos.

Repare o leitor nas seguintes construções frásicas: “O robô tem um braço de ferro e outro de metal” e “As confederações patronais entraram num braço-de-ferro com os sindicatos”. O hífen desfaz o valor literal e confere outro sentido. Pense-se no cavalo. Um rabo de cavalo não é um “rabo-de-cavalo”, tal como um cavalo de batalha não é um “cavalo-de-batalha” (várias acepções). Pense-se no camelo. O asco que seria engolir baba de camelo e o prazer suave e demorado (para alguns) que é a baba-de-camelo.

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A grande farra

Primeiras entradas da anunciada “revisão” do AO90.

Mas em que consistirá ao certo a dita “revisão”, hem?, perguntareis. Bom, responderei então de novo, haja pachorra, que seja pelas alminhas de quem já lá mora, salvo seja: a “revisão” do AO90 consiste, ao certo, em proibir que se chame “revisão” à coisa (é obrigatório dizer “aperfeiçoamento”, não “revisão”) e em fazer umas “concessões” aos portuguesitos, coitadinhos, enquanto se “adota” definitivamente — na íntegra e agora à descarada, já sem qualquer disfarce — a ortografia brasileira.

Quanto às “concessões” aos portuguesitos, coitadinhos, a “revisão” (ai, não, o “aperfeiçoamento“) resume-se ao que aparece no artigalho hoje publicado (e blindado contra cópia ou sequer citação) pelo pasquim electrónico “ptjornal”: a “Academia das Ciências de Lisboa” (uma coisa parecida com a Academia do Sporting, em Alcochete, com a diferença de que nesta treina-se o pontapé na bola e naquela aperfeiçoa-se o chuto na cabeça) vai determinar que “para” volta a ter acento para que para se distinga de para o que significa, portanto, que a ACL para para “refletir” de vez em quando sobre a melhor forma de por por cima o que não pode por por baixo da mesa.

Confuso? Nada disso. É lá agora confuso! Basta saber onde colocar os acentos que o AO90 “mandou” tirar e agora a ACL “manda” tornar a por por cima das letrinhas de quem para para pensar como “há de” escrever em acordês.

Pelos vistos devemos todos desde já agradecer penhoradamente pelas (duas!) “concessões”. Por mim, cá vai disto, fica já a minha parte dos obrigadinhos despachada: um ganda “brigádjinhu, viu” aos brasileiros, esses altruístas, e um não menos ganda “obrigadão” aos senhores da ACL, esses mãos-largas, essas grandes cacholas que vão “melhorando” (ou “despiorando”, como há quem diga, aliás com imensa lata) o AO90, a mais extraordinária aldrabice de aquém e de além-mar.

Depois destas (duas!) “concessões”, portanto, que são assim uma espécie de entradas ou aperitivos, os comensais da ACL vão atirar-se imediatamente ao conduto (ervilhas) e ao presigo (língua), tudo ao molho, toca a enfardar que isto nas academias não há fome, o que há é muito apetite: corta daqui, retalha dali, mistura d’acolá, reponha-se o P em “receção”, ó parceiro, chegue-me daí o sal, olha o facto, pois, vá lá, aquele C pode voltar, sim, os tugas vão adorar isso, e como fica “confecção”, hem?, os brasileiros pronunciam éqção ou éção?, não há mais língua, hem?, pst, ó menina, trazia mais uma travessazinha de língua com ervilhas, hem?

Enfim, tenhamos um módico de pudor, ao menos desviemos o olhar de tão deprimente espectáculo, os ilustres comensais a refocilar nas travessas, a empanturrar-se alarvemente com seus assados, refogados e estufados de língua cortada em fatias muito fininhas.

Em todos estes cozinhados os tachos pegaram mesmo, curioso paradoxo. O alarve repasto descambou numa farra ignóbil. Compete-nos a nós, que não fomos tidos nem achados e não tivemos absolutamente nada a ver com semelhante patuscada, pôr fim ao regabofe, ir lá dar-lhes sopa.

imagem de IMDB

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Lisboa: veredicto ou veredito? Porto: beredito ou beredicto?

http://www.cmjornal.pt/maissobre/veredito

c) Conservam-se ou eliminam-se facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção».

A palavra veredicto/veredito insere-se, portanto, nos casos mencionados na alínea c), aqueles que, por haver oscilação na pronúncia, aceitam dupla grafia.

1 No Brasil, a forma veredicto, com c pronunciado, era a recomendada até há pouco tempo, mas a{#c|}tualmente é mais comum ouvir a forma sem essa consoante, daí a legitimidade de veredito (informação dispensada pelo consultor Luciano Eduardo de Oliveira).

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/sobre-a-palavra-veredictoveredito/29722

«No Brasil, a forma veredicto, com c pronunciado, era a recomendada até há pouco tempo, mas a{#c|}tualmente é mais comum ouvir a forma sem essa consoante, daí a legitimidade de veredito»

Portanto, segundo o AO90, do qual o “Ciberdúvidas” é o órgão central, a grafia de qualquer palavra depende da forma como “é mais comum ouvir”[-se] essa palavra.

Logo, a “legitimidade” da grafia de uma palavra está garantida desde que seja “mais comum ouvir” essa mesma palavra sendo pronunciada de determinada forma. Por conseguinte, certa forma de escrever certa palavra apenas será “ilegítima” caso não seja assim tão comum, ou seja incomum de todo, ou seja muito pouco “comum ouvir a forma” assim ou assado da dita palavra.

Genial. Brilhante. Supimpa. Chiquérrimo, sei lá.

Isto significa, por exemplo, que  valem num jornal lisboeta ambas as grafias “veredicto” ou “veredito”, assim como valem num jornal do Porto, Braga ou Fafe, também por exemplo, ambas as grafias “beredito” ou beredicto”. Desafio qualquer um a demonstrar que no Norte de Portugal em geral não “é mais comum ouvir” proferir beredictos, nos tribunais ou fora deles, e que, pelo contrário, de Coimbra para baixo não é muitíssimo mais “comum ouvir a forma” veredictos. E isto sempre e só em meios onde se professa a chamada “pronúncia culta”, bem entendido, que nós somos todos gente do melhorio, de Norte a Sul (e Ilhas), não queremos cá misturas nem nada, longe vá o agoiro, “pronúncia culta”, como gente fina, é outra loiça.

Mas olha qu’isto não está mesmo nada mal visto, não senhor: o AO90 diz que a escrita de cada qual depende da zona de cada um. Maravilha.

E não apenas a grafia das palavras é determinada geograficamente, segundo o AO90, consoante a região onde o escrevente costuma estar, como a coisa pode variar dentro dessa região, de cidade para cidade ou até, não sejamos picuinhas, dentro do próprio aglomerado populacional, de uma Freguesia para outra, de bairro para bairro, de rua para rua, de um prédio para o prédio ao lado.

Excelente. E, já agora, porque não há-de a escrita mudar também dentro de cada prédio,  consoante o andar, escrevendo-se em cada um deles como “é mais comum ouvir” dizer isto ou aquilo ao pessoal do mesmo piso?

Assim com’assim, visto que no 1.º andar da Redacção do “Correio da Manhã” “é mais comum ouvir a forma” veredicto mas no segundo andar “é mais comum ouvir a forma” veredito, bom, então está tudo explicado, é normalíssimo que um jornalista do 1.º escreva “veredicto” (a forma que para ele é mais comum ouvir) e três jornalistas do 2.º andar escrevam “veredito” (a forma que o trio mais comummente escuta, note-se).

Caramba! As coisas que a gente aprende, à conta da “maravilhosa língua universal”, no ILTEC, no “Correio da Manhã”, no “Ciberdúvidas”, em todos esses vespeiros onde zumbem com extraordinária pronúncia mentes cultas de elevadíssima craveira inteletual.

Fantástico.

 

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