Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Mês: Junho 2016

Espeleologia do Paleiolítico

http://pgl.gal/xxii-coloquio-da-lusofonia-decorrera-em-setembro-em-seia/Sucedem-se as notícias sobre o “potencial económico da língua“, essa inacreditável invenção que se baseia num mirabolante “universo de 340 a 400 milhões de falantes lusófonos“.

Por mero acaso, por extraordinária coincidência, esta colossal patranha apenas ocorreu a meia dúzia de iluminados quando outra meia dúzia impingiu à força o AO90 aos tais “340 a 400 milhões“.

É de tal forma evidente este nexo de causalidade que nem carece a coisa de grandes ou detalhadas explicações: basta saber ler, digo eu, e conseguir discernir alguma coisinha de entre o emaranhado paleio neo-colonialista, neo-imperialista e, em suma, neo-neanderthal.

Por exemplo, aqui vão dois textos, um mais noticioso (mais neolítico, digamos), o outro mais na base do paleio (do paleiolítico, portanto), publicados com poucos dias de intervalo.

Esmiucemos os dois nacos de prosa simplesmente lendo-os em sequência, um atrás do outro. Entre ambos (o paleiolítico e o neolítico) nota-se perfeitamente o tal nexo de causalidade: as grandiloquências de um servem de respaldo verborreico aos grandes negócios de que fala o outro.

E tudo à custa de uma língua lascada. A deles.

 

jn_default_imgA minha língua na tua

Afonso Camões, Director

05 Junho 2016

Olhemos o planisfério à procura de laços. Aí está. Há pelo menos uma nação no Mundo cuja capital está em cinco continentes: é a língua portuguesa, património comum de sete estados soberanos, adoçada e declinada com diferentes acentos e musicalidades em cada ponto da cartografia onde espetamos o alfinete de cabeça colorida.

Assim é, desta pontinha na Europa ao Brasil, de Cabo Verde a São Tomé, Angola e Moçambique, e também Timor. Podemos espetar ainda outro em Macau, onde o português, apesar de ser usado por uma minoria, partilha com o mandarim o estatuto de língua oficial.

Se isto não é mercado, onde é que está o mercado? Porque será que, em poucos anos, a língua portuguesa já é ensinada em quase duas dezenas de universidades chinesas? A resposta é de previsão estatística e vem-nos da UNESCO: até 2050, haverá entre 340 e 400 milhões de falantes lusófonos. E aqui, o sábio olho chinês para o mercado revela visão rasgada sobre o Mundo e o incerto futuro.

É que a língua portuguesa, tradicionalmente de cultura e diplomacia, pode e deve voltar a assumir a condição de língua global de comércio, como o foi no período da primeira globalização, com os Descobrimentos. A miragem imperial dissolveu-se há muito. Mas o português já é a quarta língua mais utilizada na Internet, a terceira mais utilizada no Facebook e no Twitter, e o poder económico do mundo lusófono, em crescimento, já representa 4% da riqueza mundial.

Não se percebe, a esta luz, que passados 20 anos, assinalados em breve, sobre a criação da CPLP não haja uma verdadeira aposta recíproca em transformar a geografia lusófona num verdadeiro mercado comum, facilitador de transacções e de livre circulação, pondo termo a esse negócio hipócrita e corrupto que se esconde por detrás da teia burocrática e da concessão de vistos para viagens ou comércio.

Numa comunidade de estados soberanos vigora o princípio da reciprocidade. Pelo que o ónus destes atavismos é de cada um e de todos os sócios, a começar por nós. Nas vésperas de um 10 de Junho que o presidente Marcelo leva pela primeira vez para fora de Portugal, para homenagear a nossa diáspora, e a poucos dias do 20.º aniversário da CPLP, é dever dos nossos políticos valorizar a língua como activo verdadeiramente estratégico, com futuro.

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A maravilhosa “língua unificada” pelo AO90… em Português europeu

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Biblioteca online tem mais de 3.000 livros gratuitos em português europeu

Lusa/Diário Digital

26.06.16

Uma biblioteca online disponibiliza gratuitamente mais de 3.000 livros em português europeu, além de ter 25 reedições de títulos que estavam desaparecidos e um espaço de edição de originais de novos autores.

O projecto www.bibliotronicaportuguesa.pt nasceu em 2007, no Departamento de Literaturas Românticas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pela professora Ângela Correia e alunos, mas autonomizou-se no ano passado para um endereço próprio.

A generalidade destes livros está disponível em formatos que permitem impressão ou que podem ser descarregados gratuitamente para leitura em dispositivos pessoais.

Diário Digital / Lusa

[Transcrição integral de notícia da “agência” Lusa, publicada pelo “Diário Digital” (online) em 26.06.16. Corrigi o acordês do original.]

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«O tecido da língua» [Teresa Cadete, revista Caliban]

A desobediência civil torna-se um dever sagrado perante um Estado ilegal ou corrupto. E o cidadão que compactua com tal Estado participa nessa corrupção e ilegalidade.

O tecido da língua. Assincronias e impasses discursivos em torno do AO 1990

Teresa Cadete
Junho 16, 2016

No início dos anos 1930, o filósofo alemão Ernst Bloch (1885-1977) discorre sobre a simultaneidade do que não é simultâneo, como sendo inerente a uma evolução cultural e às formas de mal-estar causadas por qualquer assincronia. No rasto e na encruzilhada de diversas formas de experimentalismo nas primeiras décadas do século passado – e no horizonte não assim tão longínquo da dilaceração do tecido social na Primeira Guerra Mundial – Bloch discorre sobre a coexistência entre o que vai desaparecendo, o que é violentamente eliminado e o que teima em permanecer. Enquanto um órgão transplantado se incorporaria no novo tecido integrador, de acordo com um princípio de organicidade, tal não aconteceria no caso da “montagem técnica e cultural”, que desintegraria o contexto da “antiga superfície” para formar um contexto novo, dominado por uma “fantasmagórica intermitência” (E. Bloch, Erbschaft dieser Zeit, Frankfurt am Main: Suhrkamp, p. 221).

Provocar formas de entropia não é, como sabemos, o apanágio de movimentos vanguardistas e dos respectivos efeitos próximos e longínquos, destrutivas e desconstrutivas. Em muitos casos as ameaças de destruição não ultrapassam uma latência que tem porém a possibilidade de exercer uma eficácia argumentativa. Poder-se-ia dizer que desde as primeiras manifestações desse “pathos de novidade” (H. Arendt, The Human Condition, University of Chicago Press 1958, p. XXX) o mais tardar desde os finais do século XVIII, a des-sincronia e assincronia convivem com quase todos os sectores da vida mundana, das artes à política, da economia às ciências. Lido nesta óptica, o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels celebra, numa linguagem torrencial e em meados do século XIX, o júbilo das rupturas causadas pela acção, tanto produtiva e mercantilizante no plano político, tanto revolucionária e iconoclástica, da burguesia face a códigos de sacralização e valores tradicionais da aristocracia.

Desde a dupla revolução, as mais diversas formas de iconoclastia política, económica, ideológica e artística (para mencionar apenas alguns domínios) parecem não só coexistir como rivalizar entre si, o que pode também conduzir a mútuas “entropizações” que mais se aproximam de dissonâncias do que de sinestesias. No plano antropológico, tais situações trazem interessantes desafios que põem à prova a organicidade do ser humano, que se confronta com as exigências civilizacionais e sobretudo com a respectiva dialéctica dos meios e dos fins que domina a funcionalidade da técnica e subjaz ao duktus discursivo de inovação, modernização, competitividade, etc, omnipresentes nos média. Dito de outra maneira: tais discursos são automaticamente ultrapassados – deixando por aí entrever um carácter tautológico – quando coincidem com formas consensuais de evolução, em consequência de necessidades objectivas. Porém, eles podem servir para legitimar a imposição violenta de medidas que não são tidas como necessárias nem consensuais, em nome de uma abstracta “razão de Estado” (aqui usurpado da sua função universal) ou de uma conjuntural “decisão da República” ditada por correntes ideológico-partidárias e jogos de interesses subterrâneos.

Nesta perspectiva, e sem escamotear a correlação entre os conceitos, poderá entender-se “cultura” como um factor integrativo e contextualizante que abrange as raízes (ou origens) de um fenómeno, facto, situação, prática simbólica ou representação artística latu sensu, e “civilização” como um conjunto de aspectos técnicos (e tecnológicos), desde as primitivas práticas de sobrevivência, das quais restaram os respectivos artefactos, às tecnologias digitais contemporâneas que transmitem informação e permitem comunicar numa fracção de segundo. Trata-se aqui de pensar o modo como instrumentos ou ferramentas corporizam a dialéctica dos meios e dos fins, não podendo evitar – ou aplicando intencionalmente – estratégias de dominação. Oras estas tornam-se problemáticas quando interferem sem necessidade no domínio do vivo e ferem o seu tecido natural sem terem sido solicitadas. Aqui, uma abordagem orgânico-sistémica dos seres humanos como estando inseridos no respectivo ambiente e sendo prolongados pelo mesmo permite evitar as reduções de uma perspectiva antropocêntrica.

Tal articulação dos conceitos é de imprescindível compreensão, uma vez que “a nossa existência concreta e espacial não está separada da nossa existência mental e perceptiva” e porque “o conhecimento não é algo ‘respigado’ pela mente, de uma realidade separada e externa, mas algo absorvido no meio da nossa existência temporal” (Leslie Paul Thiele, Martin Heidegger e a política pós-moderna. Meditações sobre o tempo. Lisboa: Inst. Piaget 1998, p. 67). Mais: a compreensão das formas como ambos se articulam permite reconhecer o modo como ocorrem distorções dos mesmos.

Com este entendimento tanto diferenciador como integrador, torna-se possível entender situações – infelizmente demasiado frequentes – de instrumentalização discursiva em nome de muitos que gostariam de ver reconhecidas as particularidades de fenómenos complexos. Já não se fala aqui de generalizações pseudo-identitárias de um pretenso carácter português, entretanto desconstruído por um Eduardo Lourenço ou um Boaventura de Sousa Santos, para citar os exemplos mais conhecidos. Quando porém se escreve na primeira pessoa do plural para designar meras atitudes generalizadas ou até situações abrangentes, torna-se legítimo reclamar que ninguém tem o direito de o fazer (mesmo assinando o que escreve ou diz) em nome de um “nós” totalitarizante. E contudo seria simples evitar tal armadilha, através de uma descrição de tendências mais ou menos amplas ou de uma menção a instâncias que emitem decisões ou medidas vinculativas.

Esse “nós” abusivo, ratificador e promotor de atitudes conformistas frequentemente verificadas no âmbito da comunicação e do consumo ditos de massas, não deixa de ser paradoxal: embora numerosos conteúdos reconhecíveis como produtos massificados sejam recepcionados em situações singulares, podendo por isso incitar um pensamento crítico à sua desmontagem, é um facto que as novas tecnologias favorecem formas de reprodutividade acrítica, em grande parte devido à velocidade behaviorista dos mecanismos de estímulo-resposta.

As precedentes considerações talvez nos permitam entender melhor o que está em jogo com a particular situação de uma grafia imposta a uma população sobretudo administrativa e escolar, ou académica, sem que lhe seja permitido usar como alternativa aquela que se tornou numa prática estável ao longo de sete décadas, enquanto resultado da evolução gradual do português europeu. A pseudo-argumentação em defesa dessa imposição, há muito desmontada como falácia, apoia-se nos pilares de uma alegada “unificação” e “simplificação” da língua. Ora já a base parlamentar do despacho ministerial 8/2011 de 25 de Janeiro, que determinou aquela imposição a partir do ano lectivo de 2011-2 para as escolas e de 1 de Janeiro de 2012 para a administração pública, constitui já ela uma expressão de má consciência política revertida num autoritarismo constitucionalmente incomportável. O “Segundo Protocolo Modificativo”, aprovado em 2008 e determinando a aplicação do dito “Acordo Ortográfico de 1990” (doravante mencionado como AO 1990) no caso de apenas três dos oito países da CPLP terem ratificado o tratado assinado em 1990, está ele mesmo ferido de ilegalidade à partida devido ao facto de tal Protocolo carecer de ratificação pelos mesmos países na sua totalidade (cf. A este respeito o livro do Embaixador Carlos Fernandes, O Acordo Ortográfico de 1990 não está em vigor. Lisboa: Guerra e Paz 2016).

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Humilhações (sem data)

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«humilhações»

«O relato da Agência Lusa, transmitido para vários órgãos de comunicação social, entre os quais a TSF, sobre o que se passou com a elaboração da acta relativa à XIV Conferência de Ministros da Justiça da CPLP, designadamente sobre o desacordo final (quem diria!) quanto à sua redacção e a escolha da grafia “oficial”, representa, lamentavelmente, bem mais do que aquilo que à primeira vista possa parecer. À partida não está em causa, apenas, uma simples discordância sobre a forma de grafar um termo com um sentido comum a todos os países lusófonos. Uma acta é um documento em que se descreve e regista aquilo que de relevante se passa numa reunião. Em causa está, desde logo, por simples falta de vistas, teimosia, estupidez e ausência de sentido de Estado, digo eu, mais um acto (com “c”) de desprezo para com Portugal – leia-se o seu poder político legítimo – por parte dos seus pares na CPLP.

O simples facto de todos os funcionários públicos em geral, os militares, os magistrados e os diplomatas, como servidores públicos que são, serem obrigados a cumprir com todas as instruções que um poder político que não sabe conjugar o verbo haver lhes dita, conformando-se com o que de mais tolo e contra a natureza das coisas lhes é imposto, já de si seria triste. Que numa matéria como a da língua se chegue perante os demais Estados que compõem a CPLP a passar por um tão grande absurdo, sujeitando-se um ministro da Justiça de um Estado soberano desde a Conferência de Zamora, em 1143, a ter de ouvir o que, com toda a razão, lhe foi recordado pelo representante de Angola, assume contornos de humilhação política. Era perfeitamente evitável que Portugal tivesse de passar pela situação de lhe ser recordado que o Acordo Ortográfico não foi ratificado por Angola, também ele um estado soberano lusófono, não podendo por isso mesmo ser utilizado no documento em questão. Esse já não foi um acto de humilhação do País e de desprezo pelo seu poder político. Aí, e isso é que é mais grave, é já a própria língua portuguesa, aquela que recebemos dos que nos precederam e que os angolanos agora defendem, que está a ser objecto de humilhação e chicana com a conivência do Governo português.

A notícia da Lusa não nos diz qual terá sido o papel do representante de Portugal nesta contenda. Nem se ao representante da Guiné-Equatorial, um novo Estado “lusófono” ditado pela mais mercenária e subserviente “diplomacia económica”, por algum momento passou pela cabeça apontar a solução castelhana de se utilizar o substantivo feminino “acta” (do latim acta) para resolver a disputa que culminaria com a caricata, mas salvadora solução de compromisso proposta por Cabo Verde e que serviu para evitar maior vergonha, de se usar num texto internacional a grafia do novo Acordo Ortográfico “como base e, em cada caso, a grafia pré-Acordo Ortográfico, entre parêntesis“, numa verdadeira salganhada linguística da qual só Portugal sai mal.

Quando numa cimeira entre Estados lusófonos se chega à situação de que a Lusa dá conta, talvez seja este o momento de se voltar a perguntar aos que em Portugal, à viva força e contra todas as evidências, se afadigaram a impor o (des)Acordo Ortográfico de 1990, se a solução a que se chegou não recomenda um apelo à inteligência e ao bom senso, antes que este tipo de danos, que não são colaterais, se multiplique.  Para vergonha de todos os cidadãos que em todo o Mundo se expressam na língua que lhes é mais querida, naquela que lhes revela os afectos, as paixões e as lágrimas da saudade, e que os torna dignos da herança daqueles que, como Vasco Graça Moura ou Maria Lúcia Lepecki, dedicaram toda uma vida a lutar pela divulgação e pela dignidade do único e verdadeiro património que a História nos legou.

Património que ao longo dos séculos permitiu a convivência – e o amor – entre povos das mais diversas origens, ultrapassando as suas minúsculas fronteiras naturais para se enraizar mundo fora sem que para tal se trocassem os substantivos pelas formas verbais. Tudo bem longe da paupérrima visão e dos despachos da casta de amanuenses que há séculos ocupou o Terreiro do Paço, convencida de que a decência e a respeitabilidade de uma nação milenar se compram com euros, submarinos, computadores e bandeiras chinesas na lapela dos casacos.»

[Reprodução integral de artigo publicado em 25.06.15, há exactamente um ano, no “blog” Visto de Macau, da autoria de Sérgio de Almeida Correia. A imagem foi copiada também daquele mesmo “post”.]

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Incidente diplomático

ObiangDili

«O convite partiu do secretário-executivo da CPLP, o diplomata moçambicano Murade Murargy.»

O mandato deste diplomata moçambicano termina dentro de um mês. Na próxima Cimeira da CPLP, a realizar em Julho, no Brasil, será eleito eleito o novo secretário-executivo da “organização”. “Organização” esta que vetou a priori  qualquer candidato português ao cargo.

«O desrespeito dos Direitos Humanos naquele país africano é alvo de críticas reiteradas de diversas organizações internacionais.»

Portanto, em suma, estamos perante uma bizarra situação de facto consumado: a poucos dias de deixar o cargo, um diplomata estrangeiro convida o ditador Teodoro Obiang para uma visita oficial a Portugal.

Se isto não é uma ingerência nos assuntos internos da República Portuguesa, então ou não existem ingerências ou não há República ou ainda, última hipótese, há República mas não é portuguesa. Com certeza.

logo_shareCPLP convida Obiang a Lisboa

Nuno Ribeiro

23/06/2016 – 08:24

Iniciativa partiu do secretário-executivo da organização e não se sabe se o Presidente da Guiné Equatorial manterá contactos com as autoridades portuguesas.

—————

O Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang, foi convidado a visitar a sede da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Lisboa, confirmou o PÚBLICO junto daquela organização. O convite partiu do secretário-executivo da CPLP, o diplomata moçambicano Murade Murargy.

Embora não tenha ainda chegado uma resposta de Malabo, tudo indica que a visita do Presidente que há mais anos detém o poder num país africano, decorra no início do próximo mês de Julho. Porventura coincidindo com a realização, em Beja, entre 7 e 9 daquele mês, do III Fórum da União dos Exportadores da CPLP.

Assim sendo, esta visita não estaria relacionada com as comemorações do 20º aniversário da CPLP, a decorrerem em Lisboa a 18 de Julho, nem nela está envolvido o Governo português. Aliás, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em resposta enviada ao PÚBLICO no final da tarde de terça-feira demarcou-se da iniciativa. “O ministro dos Negócios Estrangeiros desmente formalmente que o Governo tenha convidado o Presidente Obiang a deslocar-se a Portugal”, foi a resposta do Palácio das Necessidades.

Tendo o convite sido formulado pelo secretário-executivo da CPLP, que termina o mandato este ano, está por esclarecer o perfil da visita do Chefe de Estado do país que aderiu mais recentemente à Comunidade. Do mesmo modo, ainda não está definida a duração da visita, a agenda e se o Presidente Teodoro Obiang manterá contactos com as autoridades nacionais.

Foi na cimeira de Díli, a 23 de Julho de 2014, que a Guiné Equatorial aderiu à CPLP, depois de em 20 de Fevereiro do mesmo ano, em Maputo, os ministros dos Negócios Estrangeiros da organização terem recomendado esse passo aos chefes de Estado de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Concluía, assim, um processo iniciado uma década antes quando Obiang apareceu como convidado-surpresa num encontro da CPLP pela mão do Presidente de São Tomé e Príncipe, Fradique de Menezes, no qual pediu para o seu país o estatuto de observador.

Em 2006, na cimeira de Bissau, este estatuto foi-lhe atribuído. O processo não foi linear e, em 2010, na cimeira de Luanda, Angola, Brasil, Cabo Verde e São Tomé, que se tinham comprometido publicamente com Obiang para a entrada da Guiné Equatorial, têm um choque com a diplomacia portuguesa. Teodoro Obiang, que estava na capital angolana, ficou à porta do encontro e manifestou o seu desagrado.

Em Março de 2011, são definidas as condições para a adesão, trabalhadas pela presidência angolana da CPLP e por Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Entre elas, o fim da pena de morte, a democratização do regime e o ensino do português – embora aderente da Comunidade de Países de Língua Portuguesa os idiomas praticados são o espanhol e o francês.

O desrespeito dos Direitos Humanos naquele país africano é alvo de críticas reiteradas de diversas organizações internacionais. Nas últimas eleições, em 24 de Abril passado, todos os partidos da oposição optaram pelo boicote. Teodoro Obiang foi reeleito por 98% dos votos e, se cumprir na íntegra o mandato de sete anos, estará 44 anos no poder.

Na Guiné Equatorial, o terceiro país produtor de petróleo da África subsariana e um dos estados mais ricos do continente africano com um rendimento nacional bruto por habitante de 9025 euros (em 2014), mais de metade dos habitantes vivem na pobreza. No Índice de Desenvolvimento Humano, que mede o progresso económico e social de 187 países, aparece em 144º posto. Aquele país tem, assim, o maior fosso entre rendimentos per capita e desenvolvimento humano do mundo.

[“Público”, 23.06.16. Destaques e “links” meus. Imagem de Notícias Sapo]

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Pedro Sacana Lopes

O bacoco e snob Pedro Santana Lopes debita disparates e insanidades (a granel) sobre o AO90, a sua mais patética “obra”. Esta entrevista de PSL é de tal forma asquerosa que nem sei o que dizer sem ter de descer ao nível dele.

Pedro Santana Lopes: ‘ver o Acordo Ortográfico como uma cedência ao Brasil é um disparate’

Na recente visita a Moçambique, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu reabrir a questão do Acordo Ortográfico. «Foi o pior momento dele desde que assumiu funções», considera Santana Lopes. O antigo secretário de Estado da Cultura responde aos críticos do Acordo e recorda os meandros de um processo que lhe roubou «muitas horas de sono».

José Cabrita Saraiva

Semanário “Sol”, 15.06.16

Há poucos dias, o provedor da Santa Casa da Misericórdia estava no emblemático Empire State Building, em Nova Iorque, quando viu algo que não lhe agradou. «Lá em baixo havia uma placa a dizer: ‘Vídeo disponível em alemão, inglês, italiano, espanhol, brasileiro’. Com a bandeira do Brasil. Confesso que fiquei transtornado».

Foi precisamente para evitar que a língua portuguesa fosse ‘engolida’ pelo português do Brasil que Pedro Santana Lopes se empenhou pela assinatura do Acordo Ortográfico de 1990. «Perdi muitas horas de sono a pensar se devíamos fazer o Acordo», confessa, mas a partir do momento em que ficou convencido trabalhou afincadamente para conseguir que outros países de língua portuguesa o aceitassem.

Em conversa com o SOL, o antigo secretário de Estado da Cultura, que foi incumbido por Cavaco Silva de conduzir politicamente o processo, recorda os bastidores da assinatura do polémico Acordo e a resistência, «muitas vezes misturada com desprezo», que encontrou no Brasil.

De quem partiu a ideia de fazer este Acordo?

Já tive ocasião de dizer isso publicamente. Quando o professor Cavaco Silva me convidou [para secretário de Estado da Cultura], esta foi uma das três tarefas principais de que me encarregou. E com base nessa ideia: ‘Ou conseguimos mobilizar os nossos parceiros para esta causa ou, lá para meio do século XXI, o português vai ser o latim do século XX’.

O que fazia prever isso?

Muita gente acha que o Prof. Cavaco só tem defeitos, mas tenho de dizer que é um estadista, um homem com visão – e até estou à vontade para falar das qualidades dele, porque, como é sabido, hoje não temos uma relação propriamente próxima. Na altura, ele disse-me: ‘Você vai aos leitorados das universidades em vários países do mundo e tem brasileiros, não tem portugueses. Vai a organizações internacionais e os tradutores são brasileiros, não são portugueses. O Brasil tem 200 milhões de pessoas, portanto cada vez mais o português usado vai ser o português do Brasil. Acho que é uma obrigação patriótica, nacional, lutarmos por um acordo sobre a língua’.

Mas há quem ache que é desnecessário haver um acordo. O Reino Unido, por exemplo, não tem um acordo com os Estados Unidos.

Pois não. Não precisam! Eles têm uma dimensão tal que querem lá saber se os EUA falam com sotaque americano ou escrevem não sei como… Mas Portugal não tem esse estatuto nem esse peso. Por isso é que existe uma necessidade acrescida de um acordo.

Como foi o processo de negociação dos termos do Acordo? Obrigou-o a viajar pelos países da CPLP?

Não. No caso dos parceiros africanos, eles vinham cá. Ao Brasil fui duas vezes, uma vez com o Prof. Cavaco Silva, e outra quando o Dr. Antônio Houaiss era ministro da Cultura. O mais difícil foi a ida ao Senado Brasileiro e à Academia Brasileira.

Porquê? Mandavam-lhe bocas?

Não, não! Por causa dos artigos nos jornais.

Eram violentos?

Alguns muito violentos. Havia uns intelectuais, sobretudo escritores, que escreviam palavras de desconsideração para com Portugal e para com o Acordo. Não foi um ambiente hostil, mas foi uma missão difícil. Na altura era presidente da Academia Brasileira um senhor que se chamava Austregésilo de Athayde, que tinha quase cem anos, uma figura venerada. Nunca se sabia se estava acordado ou a dormir. Enquanto eu discursava, ia olhando para ele, até que percebi que ele estava sempre a ouvir tudo. No final bateram-me umas palmas tímidas. Foram educados, mas foi um processo difícil.

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