Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Dia: 9 de Fevereiro, 2017

Êróiss du márr nóbri povu náçaum valêntchi i imorrtáu

TED-Ed_logo“A crença dos políticos de que podemos, de algum modo, tornar uma Língua mais simples e mais fácil de ensinar se mexermos no sistema de escrita é uma crença tonta.”
“Uma ortografia evolui para representar sentidos e significados para as pessoas que conhecem e falam a Língua, não para ser mais fácil para miúdos de sete anos. A expectativa ou a crença de que um sistema de escrita pode ser dominado se escrevermos as palavras tal como elas soam denuncia um falso entendimento tanto de ortografia como de educação. Dou aulas a crianças de todas as idades sobre a profundidade da ortografia em Inglês — e elas ficam realmente interessadas pelo tema. Ensino-lhes que cada letra “muda” numa palavra é uma história à espera de ser contada e dou-lhes os meios para descobrirem essas histórias. Elas acabam por ficar profundamente envolvidas no estudo das palavras e dos seus significados, muito mais do que em decorar matéria para responder a testes.”

Gina Cooke, linguista, U.S.A.

Cerá ke istu tambãe ce iskreve acim?

Nuno Pacheco

“Público”, 09.02.17

Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados agora “a escrever como se fala.” Será?

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No título desta crónica não há uma única palavra correctamente escrita. No entanto, se ultrapassarmos a estranheza da grafia, ele soará correcto. A que propósito vem isto? De uma guerra que, sendo antiga, tem minado as actuais discussões ortográficas. Chamem-lhes “sónicos” ou “foneticistas”, há muito que alguns insistem na utilidade de “escrever como se fala” ou em submeter a escrita à fonética. Já em meados do século XVIII, no seu Verdadeiro Método de Estudar, Luís António Verney defendia: “Para que guardemos certeza, ou verdade, em nossa escritura, assim devemos escrever como pronunciamos & pronunciar como escrevemos.” Esta sugestão tinha um pressuposto: “A simplificação da ortografia contribui para a democratização cultural, na medida em que desvincula a escrita portuguesa das línguas clássicas.” Não vingou.

Mas a “teoria” tem voltado mil vezes à carga. Defensável? Alguns exemplos, curiosos. Gonçalves Viana, o mentor da feroz reforma ortográfica portuguesa de 1911, reparou um dia que o simples nome “Hipólito” poderia, “sem alteração de pronúncia”, escrever-se de 192 maneiras consoante as grafias usadas no século XIX: Hypólito, Ypólito, Ipólito, Epólito, Hipolihto, Yppóllitho, etc. Já José Pedro Machado escreveu, no seu opúsculo A Propósito da Ortografia Portuguesa (1986) que casa pode escrever-se de várias maneiras (também sem qualquer alteração de pronúncia), casa, cása, caza, kasa, káza, kása, etc, “embora para a grafia oficial só uma pode ser considerada correcta.” Portanto, com várias grafias, mantemos o som. Mas a ortografia impõe um só modo de escrita num determinado espaço geográfico. Os “sónicos” ou “foneticistas” viram esta lógica do avesso: se duas palavras diferentes soam da mesma maneira, escrevam-se da mesma maneira. Assim se justifica ótico/ótico por óptico/ótico ou ato/ato por acto/ato. Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados “a escrever como se fala.” Será?

Vamos por partes. No inglês, por exemplo, knight (cavaleiro) e night (noite) soam da mesma exacta maneira. Se na escrita tais palavras fossem igualizadas perdia-se o sentido de cada uma, como se perde no português igualizando ato e acto, ótico e óptico. Em francês, citando um texto de Raul Machado (1958), um mesmo som, semelhante ao é aberto português, escreve-se de mais de vinte maneiras: er, es, ès, et, êt, ets, est, aî, aie, aient, ais, ait, ay, etc. Se uma reforma ortográfica tentasse um dia igualizá-las na escrita, jamais os franceses se entenderiam.

Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para ficarmos iguais ao Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não ficamos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática. Ah, dizem alguns, mas a Língua Portuguesa é a única com duas ortografias! Sim? Pois saibam que o Espanhol tem 21, o Inglês tem 18, o Árabe tem 16, o Francês tem 15, o Sami tem 9, o Sérvio tem 8, o Alemão e o Chinês têm 5 cada e até o Mongol e Quechua andino têm cada qual 3 variantes. Ortográficas, sim.

E para quem acha que o inglês se escreve da mesma forma em todo o sítio, aqui vai uma pequena lista das largas centenas de diferenças ortográficas entre o inglês americano (o dos EUA) e o inglês padrão europeu (o de Inglaterra, já que na Irlanda ou na Escócia há ainda outras variantes). A lista foi coligida também pelo saudoso filólogo José Pedro Machado (1914-2005), na obra citada, e a primeira palavra de cada conjunto é, aqui, a americana: color, colour; center, centre; offense, offence; bark, barque; check, cheque; connection, connexion; cipher, cypher; draft, draught; fuse, fuze; gray, grey; curb, kerb; hostler, ostler; jail, gaol; kilogram, kilogramme; lackey, lacquey; mold, mould; pigmy, pygmy; plow, plough; program, programme; quartet, quartette; reflection, reflexion; story, storey. E muitos, mas mesmo muitos, eteceteras.

O mesmo sucedeu, sucede e sucederá entre o português europeu (o de Portugal) e o americano (o do Brasil). Aliás, veja-se bem o ridículo da “unificação” proposta pelo acordo ortográfico de 1990: de acordo com números “oficiais”, a grafia portuguesa e brasileira era igual em 96% das palavras e com o acordo será igual em… 98%! Ou seja: o actual caos ortográfico, as guerras e animosidades inúteis que por aí vão, valem uns míseros dois por cento. Haverá nome para isto? Há, e não é bonito. Mas vale a pena pensar no caso, seriamente. E agir em conformidade.

[“Público”, 09.02.17. “Links” e destaques meus.]

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Manuel Alegre considera “autoritária e arrogante” posição de Santos Silva sobre o AO

Ministro rejeita rever o acordo ortográfico e Alegre rejeita “essa forma de rejeição”. Para ele, o Governo devia mostrar-se aberto ao diálogo.

Nuno Pacheco

8 de Fevereiro de 2017, 14:28

————–

As declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, sobre o acordo ortográfico, afastando a possibilidade da sua revisão, irritaram Manuel Alegre. O escritor e ex-deputado, que na tarde do mesmo dia esteve no Parlamento, na Comissão de Cultura, a falar de ortografia, integrado numa delegação da Academia das Ciências de Lisboa, diz ao PÚBLICO: “O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que rejeita a revisão do acordo ortográfico. E eu rejeito essa forma de rejeição, porque a considero autoritária, arrogante, dogmática e deselegante para com a Academia das Ciências.” Alegre insiste ainda num ponto que também já foi abordado e explicado no Parlamento: “A Academia, que é, de acordo com a lei, conselheira do governo em matéria da língua, não foi ouvida nem achada no que diz respeito ao acordo. E limitou-se a apresentar, agora, um conjunto de sugestões indicativas para que se começasse a debater este assunto e para tentar melhorar, se possível, um acordo que nasceu mal, um acordo falhado.”

Manuel Alegre, ao falar na comissão, na tarde de terça-feira, lembrou que como deputado do PS tinha votado contra o acordo (ele é também subscritor de um manifesto que apela à sua revogação), mas acrescentou que, como membro efectivo da Academia das Ciências, estava ali “com a melhor boa vontade”. Agora diz: “Esta posição do ministro, que fala em nome do Governo, revela também um grande desprezo por todos aqueles que se têm oposto desde o princípio a este acordo. Desprezo por escritores, por gente das letras, por académicos, por professores e por muitos cidadãos que manifestam a sua oposição a este acordo, que está a fragmentar a língua e a dividir os portugueses. Já nem falo de mim, falo do Vasco Graça Moura, que mostrou de mil e uma maneiras todos os erros deste acordo, que, aliás, considerava inconstitucional. Não conheço nenhum escritor de nomeada que seja favorável a este acordo.”

Mas como a posição da Academia é abrir um debate sobre o acordo, corrigindo nele pelo menos os pontos que considera mais gravosos, Manuel Alegre entende que a posição do Governo devia ser outra. “Devia aconselhar-se talvez com o Presidente da República, que já manifestou o seu desagrado em relação a este acordo. Eu compreendo que haja problemas, mas a posição do Governo devia ser de abertura ao diálogo, ouvir o que tem para lhe dizer a Academia das Ciências, que não tem competência política mas tem competência científica.”

Há outras coisas, diz Alegre, que neste campo o revoltam. “A mim dói-me, por exemplo, ver Angola ou Moçambique defenderem mais a língua portuguesa do que os membros do Governo português. Isto é absurdo!” A sua posição não mudou: “Pessoalmente votei contra o acordo e considero que a língua faz parte do património, da identidade e da soberania nacional. E a riqueza da nossa língua está na sua variedade, na sua diversidade.” Apesar disso, acha útil a discussão do tema. “O Governo devia rever a sua posição, devia pelo menos dialogar e não tomar uma atitude tão autoritária e tão dogmática quanto aquela que foi tomada pelo ministro.”

[“Público” (edição em papel), 09.02.17. Adicionei “links”.]

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 Alegre vs Santos Silva: Acordo Ortográfico gera ‘guerra’ entre socialistas

“O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que rejeita a revisão do acordo ortográfico. E eu rejeito essa forma de rejeição”, defendeu Manuel Alegre.

“O Jornal Económico”, 08.02.17

Manuel Alegre criticou, esta quarta-feira, a posição do ministro dos Negócios Estrangeiro, Augusto Santos Silva, em recusar a revisão sobre o Acordo Ortográfico, noticia o Público.

“O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que rejeita a revisão do acordo ortográfico. E eu rejeito essa forma de rejeição, porque a considero autoritária, arrogante, dogmática e deselegante para com a Academia das Ciências”, disse o histórico socialista ao Público.

O poeta e escritor acusou Santos Silva de “desprezo por todos aqueles que se têm oposto desde o princípio a este acordo” e considerou que o acordo “está a fragmentar a língua e a dividir os portugueses”.

“O Governo devia rever a sua posição, devia pelo menos dialogar e não tomar uma atitude tão autoritária e tão dogmática quanto aquela que foi tomada pelo ministro”, apelou Manuel Alegre, citado pelo Público.

A ausência de contatos [sic, esta calinada está assim mesmo no original] com a Academia de as Ciências foi também destacado por Alegre. “A Academia, que é, de acordo com a lei, conselheira do governo em matéria da língua, não foi ouvida nem achada no que diz respeito ao acordo. E limitou-se a apresentar, agora, um conjunto de sugestões indicativas para que se começasse a debater este assunto e para tentar melhorar, se possível, um acordo que nasceu mal, um acordo falhado”, argumentou.

Fonte: Alegre vs Santos Silva: Acordo Ortográfico gera ‘guerra’ entre socialistas

imagem de Infopédia

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