Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: História

«Foi por vontade de Deus?» [Ana Cristina Leonardo, “Expresso”]

Foi por vontade de Deus?

Ana Cristina Leonardo
“Expresso”, 18 Fevereiro 2017

«Não sei se serve de argumento, mas, assim de repente, parece-me aceitável: se, 27 anos após ter sido acordado, o AO90 continua a provocar desacordo, talvez não tenha sido afinal um bom acordo. Malaca Casteleiro, um dos seus principais obreiros, avançou numa entrevista ao “Observador” com uma explicação substancialmente diferente — e quase enternecedora, diria —, para a contestação teimosa: “Quando se suprimem as consoantes, as pessoas têm saudades das consoantes mudas…”. Saudade! Palavra tão portuguesa cantada por poetas e por Amália: “É o fado da pobreza/ Que nos leva à felicidade/ Se Deus o quis/ Não te invejo essa conquista/ Porque o meu é mais fadista/ É o fado da saudade”. Terá sido Deus a inspirar o Acordo? O linguista não vai tão longe, mostrando-se até bastante humilde no caso do para/arranca. Diz e o jornal transcreve (sic): “Os nossos alunos nas escolas, como ‘pára’ tinha acento, eles tinham a tendência de pôr assento em ‘paras’, ‘paro'”. Já agora, para quê complicar a vida das pessoas com a existência de palavras homófonas em vez de optar de uma vez por uma grafia una? Por exemplo: acento ou assento? Decidam-se! No pressuposto, defendido na entrevista, que o AO serve os infantes (“é mais fácil para as crianças”) e segue a pauta do “Diário da Guerra aos Porcos”, de Adolfo Bioy Casares (o AO “não é para os que estão no último quartel da vida, como eu, é para os que estão no primeiro quartel da vida, para os jovens”), não deixa todavia de parecer injusto que tanto se exija aos falantes adultos; confrontado com: “A maioria das pessoas parece não compreender porque é que [as consoantes mudas] foram suprimidas”, a resposta sai célere: “Não compreendem e não leram a nota explicativa. Se lessem a nota explicativa, refletissem e ponderassem, viam que havia razões”. Ora batatas! Ou há simplificação ou comem todos! Mas o acordista bate o pé. Indigna-se também nas páginas do “Expresso”: “Então, andaram os nossos grandes mestres da Filologia e da Linguística, portugueses e brasileiros, a labutar pela defesa da unidade essencial da língua e agora atraiçoamos esse património?” Traição! Outro fado. No caso, do Marceneiro, que só citamos os maiores. Mas o que mais me surpreendeu foi Malaca Casteleiro afirmar não existir confusão ortográfica: “É curioso, não tenho notado”. De onde concluo: o linguista lê pouco, nem sequer o “Diário da República“. Como o invejo!»

[“Expresso” (edição em papel), 18.02.17. Adicionei “links”]

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‘A noiva cadáver’

O acordismo militante ou o doce dom de iludir

“Público”, 16 de Fevereiro de 2017, 7:50

Nuno Pacheco

O acordo ortográfico foi feito “porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa”. É curioso: continua a haver.

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Isto talvez pareça demasiado bizarro para o comum dos mortais, mas as guerras da ortografia em Portugal continuam acesas e, pelo menos aos interessados (que deviam ser todos), recomendam-se. Depois das propostas de revisão apresentadas pela Academia e da polémica que opôs o ministro Santos Silva a Manuel Alegre, veio a terreiro o “pai” da coisa, em defesa da sua “dama” (salvo seja). Primeiro num artigo de opinião no Expresso (intitulado, bombasticamente, de “Atentado na Academia das Ciências”) e depois numa longuíssima entrevista ao Observador, João Malaca Casteleiro veio dizer que mudanças no acordo ortográfico “não têm pés nem cabeça”.

O que argumenta, então, o insistente Malaca? Que o acordo foi feito “porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa”. E que isso trazia problemas ao ensino. É curioso: continua a haver duas ortografias e pioraram (bastante) os problemas no ensino. Depois, diz que outra das razões a ter em conta é “os alunos nas escolas fugirem dos acentos como o diabo da cruz” [e, segundo a transcrição, riu-se]. E o que fazer a alunos que fogem das aulas como o diabo da cruz? Libertá-los em definitivo do ensino? Terceiro argumento: fez-se esta “unificação” (a “98%”) porque a “unificação absoluta é inviável”. Deve ter sido por isso que Portugal criou divergências na escrita de numerosas palavras (receção agora em Portugal, contra recepção no Brasil) que antes se escreviam da mesma maneira?

Querem mais argumentos fantásticos? Vejam este: ele diz que, em 1990, “tínhamos admitido algum aperfeiçoamento”. Porém, até hoje não mexeu uma palha para mudar fosse o que fosse; e agora diz que mudar seja o que for “é contraproducente” e “não tem pés nem cabeça”. Ora bem: sendo assim, porque é que noutra passagem da entrevista ele admite que podem ser feitas correcções no Vocabulário Ortográfico Comum? Então afinal pode-se mudar ou não se pode? Já agora, falando do almejado Vocabulário, recorde-se que Malaca, num parecer de 2005, garantia estar pronto (no Instituto de Lexicologia da Academia das Ciências, quando ele por lá imperava) “para efectuar, num prazo de seis meses, uma primeira versão do referido Vocabulário, com cerca de 400 mil entradas lexicais.” Passaram uns bons doze anos e o VOC? Nem vê-lo. Prometem-no agora para Maio. Seis meses, hã? 400 mil entradas lexicais, hã? O que é que parece errado aqui, digam? Deve ser, com certeza, o calendário. Outro argumento para não mexer em nada é que o acordo é internacional. Pois é. Mas por um passe de pantomina jurídica até entrou em ordens jurídicas nacionais sem ter entrado primeiro, como devia, se isto não fosse uma farsa (Moçambique e Angola ainda não o ratificaram), na ordem jurídica internacional.

A leitura da entrevista é muito instrutiva, para quem queira dar-se a esse trabalho. A um trabalho devia dar-se o Observador, já agora: substituir na entrevista “retificado” e “retificação” por “ratificado” e “ratificação”, já que é uma ratificação pelo parlamento que o texto refere. Mas se disso Malaca não tem culpa (e sim o jornal), tem culpa de tudo o resto. Diz, por exemplo: “Não estou a participar nem estou a acompanhar a questão do Vocabulário Comum”; mas logo umas linhas abaixo, esclarece: “Acho que eles têm feito um bom trabalho”. Acha? Mas acha como, se não acompanha? Deve ser da mesma forma que acha que “as vozes contra não tiveram grande expressão” no momento em que se discutiu e votou o acordo, quando é público que foram pedidos vários pareceres e que todos eles, incluindo o da Comissão Nacional da Língua Portuguesa, foram desfavoráveis ou bastante críticos excepto um. Adivinham qual? O assinado pelo próprio Malaca, orgulhoso defensor da sua “dama”.

O problema, mais para todos nós do que para Malaca (que continua arauto do inqualificável texto que patrocinou sem que lhe peçam, seriamente, contas pelas muitas promessas não cumpridas), é que a “dama” dele é mais aparentada à “noiva cadáver” inventada por Tim Burton do que a uma senhora a quem devamos respeito. “Não podemos andar a mudar a ortografia assim de forma ligeira. Qualquer alteração tem de ser muito ponderada porque afeta [sic] muita gente”. É Malaca Casteleiro quem o diz, a fechar a entrevista. Devia tê-lo dito em 1990. Poupava trabalho e muito dinheiro.

[“Público”, 16.02.17. Adicionei “links”. A imagem de topo é cópia de uma das centenas ou milhares disponíveis na Internet.]

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O senhor Dezporcento

«(…) na altura da sua aprovação, a contestação foi pouca. Os governos de Portugal, Brasil e dos outros países de língua portuguesa mostraram-se de acordo, e os linguistas de cá e de lá também.»

33 palavras, 3 mentiras

 

Malaca Casteleiro: novas mudanças no Acordo Ortográfico “não têm pés nem cabeça”

Rita Cipriano

“Observador”, 13 Fevereiro 2017

João Malaca Casteleiro é um dos responsáveis pelo Acordo que aproximou a ortografia de Portugal e Brasil. Em entrevista, diz que “voltar atrás seria um atentado ao bom senso”.

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Os filhos estão sempre a dizer-lhe para se deixar disso, mas João Malaca Casteleiro acredita que tem de defender a sua “dama”. A sua “dama”, como lhe chama, é o Acordo Ortográfico de 1990, que ajudou a construir (foi ele, aliás, o principal responsável da Academia de Ciências de Lisboa pela elaboração do documento e autor do anexo de seis páginas que o encerra) e que tanta polémica tem causado.

No final do passado mês de Janeiro, a Academia de Ciências de Lisboa divulgou um documento intitulado Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico, onde são sugeridas alterações a algumas das regras do Acordo Ortográfico. Entre elas incluem-se o regresso de algumas consoantes mudas, do acento agudo em palavras acentuadas na penúltima sílaba (e com pronúncia e grafia iguais), do acento circunflexo em vocábulos homógrafos, isto é, que se escrevem da mesma forma. O documento foi discutido na semana passada na Comissão Parlamentar da Cultura, onde foi ouvido o actual presidente da Academia, Artur Anselmo, a pedido do Bloco de Esquerda.

Apesar de muitos acreditarem que as Sugestões da Academia de Ciências de Lisboa poderão vir a desencadear um processo de alteração do chamado Novo Acordo Ortográfico, o ministro dos Negócios Estrangeiros já fez questão de dizer que isso está fora de questão. “A nossa posição é que devemos aguardar serenamente para que o processo de ratificação seja concluído para que o Acordo Ortográfico possa entrar em vigor em todos os países que o assinaram e o aprovaram”, disse Augusto Santos Silva, explicando que este é um “acordo internacional” a que o Estado português está obrigado.

As declarações de Santos Silva levaram Manuel Alegre, que também esteve presente na audição da Comissão Parlamentar da Cultura, a acusá-lo de ser “arrogante”, numa das muitas polémicas que o Acordo Ortográfico de 1990 já provocou e que João Malaca Casteleiro admite não conseguir compreender. É que, na altura da sua aprovação, a contestação foi pouca. Os governos de Portugal, Brasil e dos outros países de língua portuguesa mostraram-se de acordo, e os linguistas de cá e de lá também.

Passados quase 30 anos, o linguista afirma que nunca pensou que ainda estaria a falar do mesmo assunto. Apesar disso, sente que tem de o fazer para que todos percebam o que estava e está em causa, que nada foi feito ao acaso e que o Novo Acordo Ortográfico, tal como é, foi a melhor solução final possível. Apesar de defender com unhas e dentes o acordo que ajudou a criar, o linguista não põe de lado eventuais aperfeiçoamentos.

Não põe de lado eventuais aperfeiçoamentos, mas acredita que nada deve ser alterado até que entre em vigor em todos os países de língua portuguesa (falta Angola). Tece fortes críticas à Academia de Ciências, que acredita que está a desrespeitar a memória da própria instituição, uma das principais responsáveis pelo acordo hoje vigente, e ao seu actual presidente, que quer levar a cabo “um desmantelamento” do Acordo.

Fonte: Malaca Casteleiro: novas mudanças no Acordo Ortográfico “não têm pés nem cabeça” – Observador

[Destaques e “links” meus. Evidentemente, corrigi os erros de ortografia do original.]

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‘Just for the record’

 

7 de Fevereiro de 2017: uma delegação da Academia das Ciências de Lisboa (ACL) é recebida pela Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto. Objectivo: apresentar um documento intitulado como “Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa“.

Desta tão simpaticamente amável quanto ligeiramente tensa reunião, cuja gravação vídeo foi disponibilizada pelos serviços parlamentares e que agora se dá aqui por integral e fielmente reproduzida [ver nota], resultou — na prática — uma mão cheia de nada e um monte de coisa nenhuma.

Porém, não sejamos esquisitos, se virmos a coisa de forma não prática (nem teórica) temos de facto algum sumo para espremer, salvo seja.

Vamos dar de barato a (pelo menos, aparente) crispação que, totalmente ao invés do que diz o Presidente da ACL, se sente a pairar, qual ave de mau agoiro, por cima das ilustres cabeças que naquela sala estiveram durante quase duas horas defendendo os interesses da Pátria.

Ignoremos do mesmo passo a notória agressividade, por vezes resvalando para a grosseria, de que deram sobejas mostras as acordistas ali de serviço (Gabriela Canavilhas e Edite Estrela), contrastando ambas, grosseria e agressividade, Estrela e Canavilhas, com a extrema — e quase comovente — urbanidade dos membros da ACL e, em especial, do próprio Artur Anselmo.

Muita coisa se poderia dizer e outra tanto palpitar, por conseguinte, sobre este evento de S. Bento. Não sobre o que foi dito mas sobre o que não foi dito e, em especial, sobre a forma como o não dito ficou clara e paradoxalmente subentendido: pequenas mas eloquentes expressões subliminares e elípticas, insinuações manipuladas com pinças mentais, ideias implícitas em embrulhos extremamente palavrosos e farfalhudos.

A ideia central, nunca referida, sequer vagamente, por qualquer dos presentes (só mais essa faltava) ou por algum dos “opinion makers” da nossa virtual praça, parece-me ter sido esta: culpar o actual Presidente da ACL, Artur Anselmo, por aquilo que fizeram e, sobretudo, por aquilo que não fizeram os seus antecessores, Adriano Moreira e… Malaca Casteleiro. Ou seja, diz Canavilhas, possessa, as veias de seu (lindo, por acaso) pescoço salientes, tumefactas, ameaçando rebentar, ah, e tal, “a ACL tem-se colocado como uma entidade à parte neste processo”. Ou seja ainda, diz a Edite, dirigindo-se a Anselmo com sua nada ríspida voz semelhante a unhas raspando num quadro de lousa, ah, e tal, “o padre prega e não há acento” ou lá o que foi que ela disse, de momento varreu-se-me.

E o bom do Artur, enfiado, como diria nosso Eça, lá tentou bravamente demonstrar lealdade para com a Instituição a que (agora) mui dignamente preside, limitou-se a alçar ligeiramente e com parcimónia o lábio fremente, aliviando-se com um sonoro “tenho dito” de quando em vez, coitado, aquilo foi um massacre, alguém devia dar umas lições de polidez às duas senhoras, raios, chamem a Bobone.

 

[Nota: “post” editado em 27.02.17 às 03:00 h. Por uma questão de economia de recursos (espaço em disco e tráfego) retirei o vídeo aqui anteriormente disponibilizado em alojamento local. O original dessa gravação vídeo pode ser visto directamente no “site” do Parlamento.]

 

P.S.: grosserias à parte, não deixa de ser “curioso” que as duas irritadíssimas socialistas acusem Artur Anselmo por aquilo que fez Malaca, ou seja, enfiar-nos o AO90 goela abaixo, e acusem também o mesmo Artur por aquilo que não fez Adriano Moreira, isto é, mexer-se de alguma forma para acabar com o dito AO90. E a “curiosidade” resulta da constatação factual de que, se ambas as nervosinhas senhoras o acusam das duas coisas, então é porque reconhecem que foram dois erros, fazer o AO90 e não o desfazer. Pois, xôdonas Edite e Gabriela, nisso estamos plenamente de acordo. Todos os três, perdoe-se-me a tremenda lata.

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Êróiss du márr nóbri povu náçaum valêntchi i imorrtáu

TED-Ed_logo“A crença dos políticos de que podemos, de algum modo, tornar uma Língua mais simples e mais fácil de ensinar se mexermos no sistema de escrita é uma crença tonta.”
“Uma ortografia evolui para representar sentidos e significados para as pessoas que conhecem e falam a Língua, não para ser mais fácil para miúdos de sete anos. A expectativa ou a crença de que um sistema de escrita pode ser dominado se escrevermos as palavras tal como elas soam denuncia um falso entendimento tanto de ortografia como de educação. Dou aulas a crianças de todas as idades sobre a profundidade da ortografia em Inglês — e elas ficam realmente interessadas pelo tema. Ensino-lhes que cada letra “muda” numa palavra é uma história à espera de ser contada e dou-lhes os meios para descobrirem essas histórias. Elas acabam por ficar profundamente envolvidas no estudo das palavras e dos seus significados, muito mais do que em decorar matéria para responder a testes.”

Gina Cooke, linguista, U.S.A.

Cerá ke istu tambãe ce iskreve acim?

Nuno Pacheco

“Público”, 09.02.17

Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados agora “a escrever como se fala.” Será?

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No título desta crónica não há uma única palavra correctamente escrita. No entanto, se ultrapassarmos a estranheza da grafia, ele soará correcto. A que propósito vem isto? De uma guerra que, sendo antiga, tem minado as actuais discussões ortográficas. Chamem-lhes “sónicos” ou “foneticistas”, há muito que alguns insistem na utilidade de “escrever como se fala” ou em submeter a escrita à fonética. Já em meados do século XVIII, no seu Verdadeiro Método de Estudar, Luís António Verney defendia: “Para que guardemos certeza, ou verdade, em nossa escritura, assim devemos escrever como pronunciamos & pronunciar como escrevemos.” Esta sugestão tinha um pressuposto: “A simplificação da ortografia contribui para a democratização cultural, na medida em que desvincula a escrita portuguesa das línguas clássicas.” Não vingou.

Mas a “teoria” tem voltado mil vezes à carga. Defensável? Alguns exemplos, curiosos. Gonçalves Viana, o mentor da feroz reforma ortográfica portuguesa de 1911, reparou um dia que o simples nome “Hipólito” poderia, “sem alteração de pronúncia”, escrever-se de 192 maneiras consoante as grafias usadas no século XIX: Hypólito, Ypólito, Ipólito, Epólito, Hipolihto, Yppóllitho, etc. Já José Pedro Machado escreveu, no seu opúsculo A Propósito da Ortografia Portuguesa (1986) que casa pode escrever-se de várias maneiras (também sem qualquer alteração de pronúncia), casa, cása, caza, kasa, káza, kása, etc, “embora para a grafia oficial só uma pode ser considerada correcta.” Portanto, com várias grafias, mantemos o som. Mas a ortografia impõe um só modo de escrita num determinado espaço geográfico. Os “sónicos” ou “foneticistas” viram esta lógica do avesso: se duas palavras diferentes soam da mesma maneira, escrevam-se da mesma maneira. Assim se justifica ótico/ótico por óptico/ótico ou ato/ato por acto/ato. Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados “a escrever como se fala.” Será?

Vamos por partes. No inglês, por exemplo, knight (cavaleiro) e night (noite) soam da mesma exacta maneira. Se na escrita tais palavras fossem igualizadas perdia-se o sentido de cada uma, como se perde no português igualizando ato e acto, ótico e óptico. Em francês, citando um texto de Raul Machado (1958), um mesmo som, semelhante ao é aberto português, escreve-se de mais de vinte maneiras: er, es, ès, et, êt, ets, est, aî, aie, aient, ais, ait, ay, etc. Se uma reforma ortográfica tentasse um dia igualizá-las na escrita, jamais os franceses se entenderiam.

Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para ficarmos iguais ao Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não ficamos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática. Ah, dizem alguns, mas a Língua Portuguesa é a única com duas ortografias! Sim? Pois saibam que o Espanhol tem 21, o Inglês tem 18, o Árabe tem 16, o Francês tem 15, o Sami tem 9, o Sérvio tem 8, o Alemão e o Chinês têm 5 cada e até o Mongol e Quechua andino têm cada qual 3 variantes. Ortográficas, sim.

E para quem acha que o inglês se escreve da mesma forma em todo o sítio, aqui vai uma pequena lista das largas centenas de diferenças ortográficas entre o inglês americano (o dos EUA) e o inglês padrão europeu (o de Inglaterra, já que na Irlanda ou na Escócia há ainda outras variantes). A lista foi coligida também pelo saudoso filólogo José Pedro Machado (1914-2005), na obra citada, e a primeira palavra de cada conjunto é, aqui, a americana: color, colour; center, centre; offense, offence; bark, barque; check, cheque; connection, connexion; cipher, cypher; draft, draught; fuse, fuze; gray, grey; curb, kerb; hostler, ostler; jail, gaol; kilogram, kilogramme; lackey, lacquey; mold, mould; pigmy, pygmy; plow, plough; program, programme; quartet, quartette; reflection, reflexion; story, storey. E muitos, mas mesmo muitos, eteceteras.

O mesmo sucedeu, sucede e sucederá entre o português europeu (o de Portugal) e o americano (o do Brasil). Aliás, veja-se bem o ridículo da “unificação” proposta pelo acordo ortográfico de 1990: de acordo com números “oficiais”, a grafia portuguesa e brasileira era igual em 96% das palavras e com o acordo será igual em… 98%! Ou seja: o actual caos ortográfico, as guerras e animosidades inúteis que por aí vão, valem uns míseros dois por cento. Haverá nome para isto? Há, e não é bonito. Mas vale a pena pensar no caso, seriamente. E agir em conformidade.

[“Público”, 09.02.17. “Links” e destaques meus.]

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‘A mim ninguém me cala’

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Manuel Alegre considera “autoritária e arrogante” posição de Santos Silva sobre o AO

Ministro rejeita rever o acordo ortográfico e Alegre rejeita “essa forma de rejeição”. Para ele, o Governo devia mostrar-se aberto ao diálogo.

Nuno Pacheco

8 de Fevereiro de 2017, 14:28

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As declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, sobre o acordo ortográfico, afastando a possibilidade da sua revisão, irritaram Manuel Alegre. O escritor e ex-deputado, que na tarde do mesmo dia esteve no Parlamento, na Comissão de Cultura, a falar de ortografia, integrado numa delegação da Academia das Ciências de Lisboa, diz ao PÚBLICO: “O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que rejeita a revisão do acordo ortográfico. E eu rejeito essa forma de rejeição, porque a considero autoritária, arrogante, dogmática e deselegante para com a Academia das Ciências.” Alegre insiste ainda num ponto que também já foi abordado e explicado no Parlamento: “A Academia, que é, de acordo com a lei, conselheira do governo em matéria da língua, não foi ouvida nem achada no que diz respeito ao acordo. E limitou-se a apresentar, agora, um conjunto de sugestões indicativas para que se começasse a debater este assunto e para tentar melhorar, se possível, um acordo que nasceu mal, um acordo falhado.”

Manuel Alegre, ao falar na comissão, na tarde de terça-feira, lembrou que como deputado do PS tinha votado contra o acordo (ele é também subscritor de um manifesto que apela à sua revogação), mas acrescentou que, como membro efectivo da Academia das Ciências, estava ali “com a melhor boa vontade”. Agora diz: “Esta posição do ministro, que fala em nome do Governo, revela também um grande desprezo por todos aqueles que se têm oposto desde o princípio a este acordo. Desprezo por escritores, por gente das letras, por académicos, por professores e por muitos cidadãos que manifestam a sua oposição a este acordo, que está a fragmentar a língua e a dividir os portugueses. Já nem falo de mim, falo do Vasco Graça Moura, que mostrou de mil e uma maneiras todos os erros deste acordo, que, aliás, considerava inconstitucional. Não conheço nenhum escritor de nomeada que seja favorável a este acordo.”

Mas como a posição da Academia é abrir um debate sobre o acordo, corrigindo nele pelo menos os pontos que considera mais gravosos, Manuel Alegre entende que a posição do Governo devia ser outra. “Devia aconselhar-se talvez com o Presidente da República, que já manifestou o seu desagrado em relação a este acordo. Eu compreendo que haja problemas, mas a posição do Governo devia ser de abertura ao diálogo, ouvir o que tem para lhe dizer a Academia das Ciências, que não tem competência política mas tem competência científica.”

Há outras coisas, diz Alegre, que neste campo o revoltam. “A mim dói-me, por exemplo, ver Angola ou Moçambique defenderem mais a língua portuguesa do que os membros do Governo português. Isto é absurdo!” A sua posição não mudou: “Pessoalmente votei contra o acordo e considero que a língua faz parte do património, da identidade e da soberania nacional. E a riqueza da nossa língua está na sua variedade, na sua diversidade.” Apesar disso, acha útil a discussão do tema. “O Governo devia rever a sua posição, devia pelo menos dialogar e não tomar uma atitude tão autoritária e tão dogmática quanto aquela que foi tomada pelo ministro.”

[“Público” (edição em papel), 09.02.17. Adicionei “links”.]

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