Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Moçambique

As seis variantes da “maravilhosa língua unificada”

Já não é novidade alguma que o AO90 pretensamente serviria para “unificar” as duas variantes da língua portuguesa mas afinal deu origem a outras quatro variantes novinhas em folha. São agora seis as variantes da “maravilhosa língua unificada”. É uma espécie de brutal milagre, por assim dizer, o da multiplicação das variantes do Português: além das duas que já existiam (a brasileira e a de Portugal e PALOP), Malaca y sus muchachos conseguiram inventar a variante de Moçambique (sem AO90, claro, que os Moçambicanos desprezam aquela porcaria) e a de Angola (idem, aspas, à força toda); e vão quatro, às quais se juntam as outras duas invenções do artista milagreiro, a saber, uma variante brasileira com “acordo” e a mesma salgalhada acordista para a variante do grupo empresarial português Cavaco, Santana & Sócrates, SARL. 

Portanto, duas que havia mais duas novas mais duas inventadas, são dois mais dois mais dois, pronto, como dizia o outro, “é fazer as contas”.

O LanguageTool é um programa (gratuito) de “verificação gramatical” que permite a opção por qualquer das seis variantes. Por exemplo, as pessoas decentes que em Portugal continuam a escrever em Português decente podem escolher uma das duas variantes decentes do menu: ou o Português de Angola ou o Português de Moçambique.

 

Portuguese

Variants for: Angola preAO, Brazil, Moçambique preAO, Portugal

LanguageTool tem nova versão

O developer Tiago Santos anunciou a disponibilidade da versão 3.6 do LanguageTool, uma ferramenta de verificação gramatical gratuita e de código-aberto.

Este programa é multiplataforma, pode ser integrado com o Firefox e o Chrome, e compatível com o LibreOffice e Microsoft Word para Português de Portugal.

As principais novidades da versão portuguesa incluem regras para centenas de pares de parónimos acentuados, novas regras de concordância nominal geral, incluindo concordância de número e género e entre verbo e sujeito, verificação de erros de tipografia comuns, verificação de problemas de semântica e validação de datas, reconhecimento de expressões com múltiplas palavras, e melhorias na detecção e correcção de palavras compostas e hifenizadas.

A versão 3.6 do LanguageTool inclui também suporte ao Acordo Ortográfico de 90 e às variantes do português utilizadas em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, Macau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Source: LanguageTool tem nova versão | PCGUIA

 

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«Cidadãos ou cobaias?» [Octávio dos Santos, “Público”]

Cidadãos ou cobaias?

Octávio dos Santos

18 de Dezembro de 2016, 2:03

Se antes poucos motivos existiam para não agir, agora ainda menos – ou nenhum – há. É mais do que tempo de acabar com esta atroz aberração, esta aviltante abominação do acordo ortográfico. Definitivamente.

Não mereceram muitas referências na comunicação social nacional – o PÚBLICO, através de Nuno Pacheco, foi uma (expectável e louvável) excepção – as declarações no passado mês de Outubro, e em pelo menos duas ocasiões, por Murade Murargy, anterior secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa  (entretanto substituído no cargo por Maria do Carmo Silveira),  referentes aos objectivos e às actividades daquela organização em geral, e, ao dito «acordo ortográfico [AO] de 1990» em particular…

E de que se podem destacar: «a língua é muito importante, não há dúvida nenhuma, e é nossa obrigação difundi-la, promovê-la, internacionalizá-la. Mas não podemos ficar apenas agarrados à nostalgia da língua. A língua é um meio de transmissão de conhecimento, de negócios, do comércio, do investimento. Eu, por exemplo, não me preocupo se estou a aplicar (o acordo ortográfico) ou não. Se as pessoas me entendem, vamos em frente. (…) Muita gente não está de acordo (com o AO90), há muitos intelectuais, jornalistas, que não aplicam, pois acham que não traz vantagens. Não há uma unanimidade sobre se valeu a pena, ou não, o tanto de dinheiro que se gastou. As implicações financeiras da aplicação do acordo são grandes. (…) Acredito que devemos concentrar-nos no que é fundamental para permitir que os outros (países-membros) possam se desenvolver.» Posteriormente, disse: «os países africanos talvez não estivessem preparados para um investimento dessa envergadura. (…) É preciso perceber que estes países (como a Guiné-Bissau e Moçambique) têm outras prioridades. Há questões que dizem respeito ao combate à fome e à pobreza que são mais importantes que alterar esta ou aquela forma de escrever.»

Ou seja, e por outras palavras, o prévio líder da CPLP declarou que utilizar o «acordo ortográfico de 1990» não é a mais importante entre as metas daquela organização e dos povos que aquela agrega, e que é até algo dispensável. Trata-se de uma atitude surpreendente, não tanto pela avaliação do AO90 – qualquer pessoa honesta e inteligente reconhece que o dito cujo é, para além de ridículo e de ilegal, também inútil e mesmo prejudicial – mas mais por representar uma alteração da perspectiva de Murade Murargy sobre este assunto. Em Maio último – então, sim, com alguma repercussão mediática – ele afirmara que «o acordo ortográfico está a seguir o seu caminho. Os países que ainda não ratificaram estão no processo de ratificação. Penso que é um debate desnecessário neste momento. As pessoas são livres de falar sobre isso, mas não há nenhuma controvérsia em relação ao acordo ortográfico. (…) Moçambique e Angola estão a preparar-se para ratificar. Não vejo qual é o problema. Não há retorno. (…) Se for preciso fazer uma revisão vai-se fazer, mas não porque o acordo esteja mal elaborado. Se for necessário, se há certos ajustamentos que têm que ser feitos, serão feitos no momento próprio e dentro do contexto em que se verificar essa necessidade.»

O que terá acontecido ao diplomata moçambicano nos cinco meses decorridos entre estas duas, e contraditórias, posições públicas? Vou especular: ele entendeu por si próprio, ou alguém lhe explicou, que não faz muito sentido, que não é lógico nem digno, um africano defender um plano concebido e concretizado por uns quantos neofascistas e neocolonialistas portugueses e brasileiros também com a finalidade explícita de condicionar a comunicação e a cultura, a língua e a literatura dos países que conquistaram a independência depois de 25 de Abril de 1974. Ele entendeu por si próprio, ou alguém lhe explicou, que não é admissível, e que seria inclusivamente vergonhoso, submeter-se, sujeitar-se a um novo «Estatuto do Indigenato», apesar de (aparentemente) apenas «ortográfico», e colaborar na imposição daquele aos seus compatriotas e aos estrangeiros do mesmo continente, quantos deles irmanados ideologicamente e que com ele partilham o mesmo idioma oficial…

Embora em Portugal, e ao contrário de Angola e de Moçambique, que se recusam – felizmente, e esperemos que definitivamente – a recuar no tempo, a regredirem enquanto nações, esse novo «Estatuto do Indigenato» tenha entrado efectivamente (?) em vigor, por via da famigerada Resolução da Assembleia da República Nº 35/2008, de 29 de Julho. Para a revogar, para a repelir, para – literalmente – a rasgar, e, assim, as pessoas deste país deixarem de ser peões de interesses que lhes são estranhos e/ou externos, de serem cobaias em duvidosas «experiências filo(i)lógicas» dirigidas por pervertidos protegidos pelo poder político, e porque não basta que Murade Murargy dê a sua «autorização», há que assinar e concluir a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico – que, não, não só não «morreu» como está bem viva e se recomenda.

Rui Valente, o meu colega da ILCAO e desta agora líder, em artigo publicado neste jornal a 1 de Outubro, em várias mensagens que tem enviado, e no novo sítio da Iniciativa, tem esclarecido o porquê e o como da (renovada) missão: «a Assembleia da República aprovou, no passado dia 20 de Julho, alterações importantes à Lei 17/2003, que regula as Iniciativas Legislativas de Cidadãos: deixa de ser necessário o número de eleitor, passando a ser necessária a data de nascimento; o número de assinaturas necessário para uma ILC baixa de 35.000 para 20.000; além da subscrição tradicional em papel, as assinaturas passam a poder ser recolhidas também por via electrónica. Neste contexto, ficam a faltar-nos “apenas” 5.000 assinaturas para que consigamos o nosso objectivo de entregar a ILC no Parlamento. Em face desta nova realidade, a ILCAO mobilizou-se, criando um formulário que permite subscrever a Iniciativa sem necessidade de papel, envelopes ou selos do correio. Basta ir a http://ilcao.com/?page_id=19213 e submeter os seus dados, utilizando para tal um endereço de e-mail válido.»

Se antes poucos motivos existiam para não agir, agora ainda menos – ou nenhum – há. É mais do que tempo de acabar com esta atroz aberração, esta aviltante abominação. Definitivamente.

[“Público” 18.12.16. Inseri “links”. Imagem de topo de: Pakistan News]

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Si bô ‘screvê’ me ‘m ta ‘screvê be

“SODADE”

Quem mostra’ bo
Ess caminho longe?
Quem mostra’ bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa Sao Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Si bo ‘screve’ me
‘M ta ‘screve be
Si bo ‘squece me
‘M ta ‘squece be
Até dia
Qui bo voltà

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

O Português na hora di bai?

Em Cabo Verde, o Português vai ser ensinado como língua estrangeira. Vamos muito bem unificados, como se vê.

15 de Dezembro de 2016, 7:00

Nuno Pacheco

———————

Perdida no turbilhão do noticiário geral, passou despercebida uma notícia relevantíssima para o futuro do Português: a de que este vai passar a ser ensinado como língua estrangeira em Cabo Verde, já no próximo ano lectivo.

Antes que comecem já a atirar pedras aos cabo-verdianos, convém atender às razões de tal opção. Já em 2010, o conhecido escritor Germano Almeida defendia, em entrevista à Lusa, o ensino do português como língua estrangeira. Argumentos: “Não podemos pensar que o cabo-verdiano fala o português desde criança, porque não fala. Vemos alunos que terminam o décimo segundo ano e falam mal o português. Há professores que também não sabem falar português, portanto, só podemos concluir que o ensino está a falhar”. Mais: “Portugal, Brasil, Angola não precisam de contactar connosco, nós é que precisamos de contactar com eles, então o português para os cabo-verdianos é essencial. Os cabo-verdianos não são bilingues e por isso precisamos começar a ensinar o português como língua estrangeira”.

Seis anos depois, é a Ministra da Educação de Cabo Verde, Maritza Rosabal, que vem anunciar a iniciativa: “A língua portuguesa é abordada como língua primeira de Cabo Verde, quando não é. Temos uma eficácia do sistema muito baixa, onde apenas 44% das crianças que começam o primeiro ano finalizam o 12.º em tempo. Temos muitas perdas”. Mais: “O Brasil exige provas de língua portuguesa aos nossos estudantes, o Instituto Camões exige provas de língua portuguesa o que quer dizer que apesar de estarmos no espaço lusófono, começamos a não ser reconhecidos como um espaço com proficiência linguística em português”. Ou: “Toda esta duplicidade linguística afecta o processo. Reconhecemos que a nossa língua materna é o crioulo, mas como língua instrumental de trabalho e de comunicação temos de fortalecer a língua portuguesa”.

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Sim, senhor Ministro

Em Portugal fala-se um português com “típico fechamento de vogais”, o que “pode levar à incompreensão entre falantes de duas variantes da mesma língua”

[Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros português]

Ora aí está uma lógica impecável, senhor Ministro: como em Portugal existe esse “típico fechamento de vogais”, então impinge-se aos portugueses um “acordo ortográfico” para forçar ainda mais esse mesmo fechamento de vogais.

Muito bem visto, senhor Ministro: já que temos de facto essa tendência para o “emudecimento”, vá de amputar todas as consoantes “mudas” com valor diacrítico para emudecer ainda mais, até ao absurdo, a fala “típica” na “variante portuguesa” da Língua.

Ah, já agora, senhor Ministro, por falar em “variantes da mesma língua”: afinal o “maravilhoso” AO90 não era para esgalhar uma suposta “ortografia única”? E esta, por seu turno, não tinha por objectivo “eliminar as diferenças” entre as duas variantes do Português conduzindo-nos assim, a todos os 240 milhões da “lusofonia”, ao supremo Nirvana parido por Malaca e Bechara que os próprios parturientes baptizaram como “Maravilhosa Língua Unificada”? Afinal de contas mantêm-se as duas variantes, senhor Ministro, certo?

Como diz, senhor Ministro? Ah, não é bem assim nem deixa de ser, muito pelo contrário.

Sim, senhor Ministro. 

Língua portuguesa enfrenta “problemas sérios”, avisa Santos Silva

 

“Jornal de Negócios”/Lusa 15 de Novembro de 2016 às 23:09

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, advertiu que o português, apesar de ser uma língua global e uma das mais faladas no mundo, enfrenta problemas sérios, como a incompreensão entre falantes de variantes diferentes.

“A língua portuguesa é uma das mais faladas do mundo e uma das mais globais no mundo de hoje”, afirmou esta terça-feira o ministro, durante a apresentação, no Palácio das Necessidades, do Novo Atlas da Língua Portuguesa, da autoria do reitor do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Luís Antero Reto, e dos professores, da mesma faculdade, Fernando Luís Machado e José Paulo Esperança. No entanto, a política da língua enfrenta hoje “desafios e dificuldades”, avisou Santos Silva.

O ministro exemplificou com o caso de Timor-Leste, onde, apesar de o português ser língua oficial, apenas as gerações mais velhas o falam, devido à ocupação indonésia, pelo que “é preciso difundir o ensino” da língua portuguesa naquele país.

Por outro lado, em Portugal fala-se um português com “típico fechamento de vogais”, o que “pode levar à incompreensão entre falantes de duas variantes da mesma língua”, algo que, segundo o governante, só se combate “pela comunicação tão constante quanto possível entre os falantes dessas variantes”.

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Angola e Moçambique não ratificaram o AO90…

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Elogo_sharem 2100, a maioria dos falantes de português será africana

Por Luís Miguel Queirós

“Público”, 15/11/2016 – 07:40
O Novo Atlas da Língua Portuguesa, lançado esta terça-feira pelo ISCTE em edição bilingue, quer ser “um cartão-de-visita” da língua e da comunidade dos países lusófonos.

Se as projecções demográficas das Nações Unidas vierem a confirmar-se, o número de falantes de português no mundo não só aumentará substancialmente – serão 387 milhões em 2050 e 487 milhões no final do século -, como a geografia da língua se alterará de forma radical com o brutal crescimento demográfico previsto para Angola e Moçambique, que no seu conjunto somarão 266 milhões de habitantes em 2100, muito acima dos 200 milhões estimados para o Brasil.

Este é um dos dados mais surpreendentes do Novo Atlas da Língua Portuguesa organizado pelo ISCTE, que é lançado esta terça-feira à tarde (às 16h30) no Palácio das Necessidades e que conta com um extenso prefácio do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.

Publicado em edição bilingue português-inglês, o livro pretende funcionar como um cartão-de-visita do português e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) à atenção de um mundo onde o português está a expandir-se, sendo já hoje a quarta língua mais falada (atrás do mandarim, do espanhol e do inglês), e a quinta mais utilizada na Internet, depois do inglês, do chinês, do espanhol e do árabe. E se nos cingirmos às redes sociais, o português é a terceira língua do Facebook (só perde para o inglês e o espanhol) e a quinta do Twitter. Números de 2012 indicam que S. Paulo era então a cidade onde mais se “tweetava”, logo a seguir a Jacarta, Tóquio e Londres, e acima de Nova Iorque ou Los Angeles.

“Mais do que uma obra académica, quisemos fazer um livro de divulgação e afirmação da língua portuguesa em termos globais, e daí termos optado por uma edição bilingue português-inglês”, diz Luís Antero Reto, reitor do ISCTE e co-autor deste atlas com outros dois professores e investigadores do Instituto, o sociólogo Fernando Luís Machado e o economista José Paulo Esperança. “Faltava um livro que funcionasse como um cartão-de-visita da língua portuguesa e da CPLP no mundo”, acrescenta Luís Reto, que já lançara em 2012 o volume Potencial Económico da Língua Portuguesa e prepara agora, com a sua equipa do ISCTE, uma nova obra, cujo título provisório é Português, Língua Global: Economia e Política de Língua.

Editado em colaboração com o Instituto Camões, o Novo Atlas da Língua Portuguesa está dividido em grandes temas, da história da língua à sua geografia e demografia, do ensino do português no mundo à expressão económica dos países de língua portuguesa, do português como língua de cultura, ciência ou negócios à sua presença na Internet. Outro tópico investigado é o das migrações humanas nos países lusófonos. Para cada um deles, o atlas enumera os dez principais países de origem dos imigrantes e os dez principais destinos dos emigrantes. No caso de Portugal, a comunidade imigrante mais numerosa é a brasileira (um pouco mais de 120 mil pessoas), e o top ten inclui mais quatro países lusófonos: Cabo Verde (2.º), Guiné-Bissau (4.º), Angola (5.º) e S. Tomé e Príncipe (9.º). Os restantes são três países do leste europeu (Ucrânia, Roménia e Moldávia), a China e o Reino Unido.

A França continua a ser o principal país de destino da emigração portuguesa (mais de 713.000), seguida dos Estados Unidos, Suíça, Brasil, Canadá, Angola, Espanha, Reino Unido, Alemanha e Luxemburgo.

Menos vulgar numa obra deste tipo é o capítulo Língua como Património Comum, que consiste numa antologia de autores de oito países de expressão portuguesa, com excertos das respectivas obras, que em alguns casos tiveram mesmo de ser traduzidos para inglês porque não existiam traduções disponíveis.

Numa obra de divulgação que também se destina ao exterior do espaço lusófono, justifica-se o capítulo dedicado a personalidades que se distinguiram em diversas áreas, como os prémios Nobel de língua portuguesa – Egas Moniz, Ramos-Horta, Ximenes Belo e José Saramago -, os prémios Pritzker (Oscar Niemeyer, Álvaro Siza, Paulo Mendes da Rocha e Eduardo Souto de Moura), os cineastas premiados nos grandes festivais de cinema, como Manoel de Oliveira ou os brasileiros Anselmo Duarte, Walter Salles e José Padilha, os vencedores de prémios Grammy, como António Carlos Jobim ou a cantora brasileira Maria Rita, e ainda os desportistas lusófonos que foram campeões olímpicos.

Nem sequer foram esquecidos os falantes de português com mais fãs no Facebook, liderados por Cristiano Ronaldo com mais de 112 milhões de seguidores. Oito são brasileiros, e só quatro não são futebolistas: o escritor Paulo Coelho, o apresentador de televisão Luciano Huck e os cantores Luan Santana e Aline Barros.

O desejo de Luís Reto era agora conseguir que este atlas se tornasse no futuro um portal na Internet, que “coligisse sistematicamente dados sobre a língua e a comunidade lusófona”, desejavelmente apoiado numa equipa transnacional.

[Transcrição de: Em 2100, a maioria dos falantes de português será africana – PÚBLICO. Destaques e “links” meus. Imagem de topo: By User:WaldirImage:BlankMap-Africa.svg, CC BY 3.0, Link]

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A agenda de Brasília

Dissolvida a espuma dos (dois) dias e já esquecidos os “planos da pólvora“, aqui está o resultado prático e único da mais recente Cimeira da CPLP: o AO90 será imediatamente imposto aos dois maiores países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP). Para o efeito, e assim como quem dá graxa ao cágado, isto é, à laia de pretexto para mais umas patuscadas, reunir-se-á no Brasil um grupinho de excursionistas que fingirão “melhorar” a coisa.

Tudo para tentar enganar o pagode, é claro, que bem sabemos nós outros não passar o chamado “acordo ortográfico” de uma gigantesca fraude palavrosa destinada a encobrir ainda maiores e mais inconfessáveis ambições neo-imperialistas.

Nesta incrível “notícia” — nem de propósito, debitada por um pasquim com nome de satélite artificial — está exposta, em tom declaradamente oficioso e descaradamente mentiroso, toda a real  “agenda de Brasília”: os negócios do Brasil, os interesses económicos brasileiros, as apostas especulativas, em suma, que entretêm meia dúzia de nababos em plena Avenida Paulista. Tudo isto, mui convenientemente, sob o olhar aquiescente, o beneplácito, a conivência, quando não a bênção de altos dignitários portugueses.

sputnik_brasil_logoPaíses lusófonos começam a afiar a língua

Aberta na segunda-feira, 31, e encerrada nesta terça-feira, 1º, em Brasília, a 11ª Conferência de Chefes de Estado e de Governo de Países de Língua Portuguesa (CPLP) assinou diversos acordos e memorandos para aproximar os nove países membros do bloco, que chega aos 20 anos.
———————-

O Brasil, eleito para comandar a entidade nos próximos dois anos, apresentou uma série de estudos de cooperação com vários países, como Angola (na área energética), Cabo Verde (transporte aéreo), entre outros. Um dos temas principais do encontro foi aperfeiçoar e expandir o Acordo Ortográfico entre países lusófonos. Hoje esse acordo já está vigente no Brasil, em Portugal e em Cabo Verde, e em fase de ratificação em Angola e Moçambique.

De acordo com o subsecretário para África e Orriente Médio do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Fernando Abreu, o acordo vai facilitar a divulgação da língua portuguesa e determinadas tarefas como a publicação de livros, na medida em que haverá uma ortografia única, respeitando-se, porém, as expressões regionais de cada país.

Para Evanildo Bechara, professor, gramático, filólogo, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra, a unificação ortográfica é muito importante não só para a parte didática do ensino da língua aos seus falantes e escritores, mas também para a difusão da língua portuguesa no mundo.

“A prova disso é que estamos há mais de 100 anos trabalhando nessa unificação. Os primeiros pasos científicos da ortografia começaram em 1911 e daí aos nossos dias. Antigamente só Portugal e Brasil eram os países de língua portuguesa oficial. Com as antigas colônias hoje emancipadas em países independentes, estamos tentando a unificação ortográfica.”

Bechara diz que, após estabelecidas as regras de ortografia, o trabalho se volta agora aos vocabulários ortográficos, que se dividem em dois grandes grupos: os vocabulários ortográficos nacionais e o vocabulário ortográfico comum (VOC), que reúne as particularidades e as pequenas divergências existentes no plano da ortografia.

Estamos esperando a chegando de um grupo de especialistas do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP) que se reunirá com nossos especialistas na ABL, principalmente nossos dicionaristas e lexicógrafos que trabalham na confecção do acordo ortográfico, para discutir alguns pontos para a saída desses vocabulários nacionais e comum para todos os países da lusofonia.”

Source: Países lusófonos começam a afiar a língua

Destaques meus. Inseri “links”.

Fotografia de topo: Marcos Corrêa / PR

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