Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: São Tomé e Príncipe

“Lobbies”? Cartéis? Qual quê! Nada disso existe em Portugal!

Presumo que não seja necessário enumerar as inacreditáveis aldrabices contidas nesta “notícia” (altamente suspeita, de resto, tão evidentes são os seus intuitos de intoxicação da opinião pública), mas ainda assim devo salientar — deste incrível chorrilho de patranhas — o mais flagrante insulto à inteligência das pessoas normais: as editoras, que todos os anos mudam os manuais escolares (geralmente trocando apenas de capa e movendo um ou outro parágrafo de uma página para outra), vêm agora chorar baba e ranho porque, coitadinhas, que até não ganham milhões nem nada com esta mina, teriam de «esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência.»

Mas estes tipos julgarão mesmo que os portugueses não passam de perfeitos imbecis?

«O prazo para a estabilização dos livros também raramente é cumprido. Uma simples mudança de parágrafo ou de imagem numa capa nova e diferente tem dado origem a livros novos que a escola adopta e torna obrigatórios para todos os alunos.»
“Negócio dos manuais escolares torpedeia lei de reutilização” – RTP, 13 Janeiro 2017

Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023

 

Para além do problema diplomático que causaria uma iniciativa portuguesa para rever o acordo, a medida implicaria refazer um trabalho de adaptação à nova ortografia que já abrange 600 mil alunos.

 

As “Sugestões para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (AO), nesta semana levadas à Assembleia da República pela Academia de Ciências, dificilmente passarão do plano das ideias. E não apenas pelas falhas “procedimentais” invocadas nesta semana pelos deputados para chumbarem a proposta. Nesta fase, mesmo uma revisão parcial da nova ortografia implicaria mudanças difíceis de comportar. E com custos materiais. Desde logo na Educação.

Para além da necessidade de reeducar perto de 600 mil alunos, abrangidos desde 2011-12 pela obrigatoriedade do acordo e nada familiarizados com algumas consoantes mudas e acentuações que a Academia quer agora recuperar (ver caixa), a aplicação da proposta implicaria um processo de revisão de conteúdos pedagógicos, dos manuais escolares aos recursos online, que teria de ser negociado – ou pelo menos debatido – com os principais fornecedores desses serviços. Ou seja: as editoras.

A alternativa, no caso dos manuais, seria esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência. Mas em muitos casos essa opção implicaria uma espera de seis anos, até 2023, para que os livros adoptados no presente ano lectivo chegassem ao final do seu ciclo natural de vida.

Nessa situação estão actualmente as obras de todas as disciplinas do 1.º ano, com excepção da Educação Moral, de todas as disciplinas do 2.º ciclo exceptuando a mesma Educação Moral, Educação Tecnológica e Educação Visual – Inglês também, mas o impacto não se reflectiria nesta obra – e ainda as disciplinas de Física e Química A, Matemática A, Matemática B, Matemática Aplicada às Ciências Sociais e Português dos cursos científico-humanísticos.

Talvez por isso, as editoras preferem manter-se à margem do debate relançado nesta semana pela Academia de Ciências. “O Acordo Ortográfico é actualmente uma questão que, por ser um tratado internacional, diz respeito à diplomacia portuguesa, com o apoio técnico dos linguistas. Qualquer avaliação do impacto de eventuais alterações ao nível do ensino é da responsabilidade do Ministério da Educação, entidade que regula o sector”, defendeu ao DN fonte oficial da Porto Editora.

Quando o actual acordo foi aplicado, recorde-se, o Ministério da Educação optou por uma introdução faseada, com os livros a serem adaptados à medida que eram introduzidos novos manuais e, também nas escolas, a optar-se pela progressividade na utilização dos novos termos. As editoras até foram fortes opositoras do acordo no passado, mas acabaram por utilizá-lo a partir do momento em que foi adoptado pelo governo e pela Assembleia da República.

Um precedente perigoso

Uma iniciativa nacional para rever o acordo poderia também abalar o equilíbrio precário em que assenta o AO. Actualmente, o entendimento vigora em Portugal, Brasil, Timor-Leste, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A Guiné-Bissau ratificou-o, mas não o aplica na prática. Angola continua a adiar a ratificação.

Mexidas, nesta fase, poderiam pôr em causa todos os avanços dos últimos anos, o que, não desagradando aos opositores do acordo, em Portugal e nos outros países de língua portuguesa – dificilmente seria arriscado pelos partidos de governo – PS e PSD – comprometidos com a aplicação.

Na semana passada, a questão do Acordo Ortográfico foi motivo de controvérsia entre o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e Manuel Alegre, membro da Academia das Ciências. O primeiro mostrou-se pouco disponível para mudanças no AO, acto considerado “prepotente” pelo segundo. “Como diria Salgado Zenha, unicidade e autoritarismo andaram sempre de mãos dadas”, acusou o histórico socialista, dirigindo-se ao MNE.

Fonte: Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023, “DN”, 12.02.17

[Destaques e “links” meus. Evidentemente, corrigi os erros de ortografia do original.]

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Si bô ‘screvê’ me ‘m ta ‘screvê be

“SODADE”

Quem mostra’ bo
Ess caminho longe?
Quem mostra’ bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa Sao Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Si bo ‘screve’ me
‘M ta ‘screve be
Si bo ‘squece me
‘M ta ‘squece be
Até dia
Qui bo voltà

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

O Português na hora di bai?

Em Cabo Verde, o Português vai ser ensinado como língua estrangeira. Vamos muito bem unificados, como se vê.

15 de Dezembro de 2016, 7:00

Nuno Pacheco

———————

Perdida no turbilhão do noticiário geral, passou despercebida uma notícia relevantíssima para o futuro do Português: a de que este vai passar a ser ensinado como língua estrangeira em Cabo Verde, já no próximo ano lectivo.

Antes que comecem já a atirar pedras aos cabo-verdianos, convém atender às razões de tal opção. Já em 2010, o conhecido escritor Germano Almeida defendia, em entrevista à Lusa, o ensino do português como língua estrangeira. Argumentos: “Não podemos pensar que o cabo-verdiano fala o português desde criança, porque não fala. Vemos alunos que terminam o décimo segundo ano e falam mal o português. Há professores que também não sabem falar português, portanto, só podemos concluir que o ensino está a falhar”. Mais: “Portugal, Brasil, Angola não precisam de contactar connosco, nós é que precisamos de contactar com eles, então o português para os cabo-verdianos é essencial. Os cabo-verdianos não são bilingues e por isso precisamos começar a ensinar o português como língua estrangeira”.

Seis anos depois, é a Ministra da Educação de Cabo Verde, Maritza Rosabal, que vem anunciar a iniciativa: “A língua portuguesa é abordada como língua primeira de Cabo Verde, quando não é. Temos uma eficácia do sistema muito baixa, onde apenas 44% das crianças que começam o primeiro ano finalizam o 12.º em tempo. Temos muitas perdas”. Mais: “O Brasil exige provas de língua portuguesa aos nossos estudantes, o Instituto Camões exige provas de língua portuguesa o que quer dizer que apesar de estarmos no espaço lusófono, começamos a não ser reconhecidos como um espaço com proficiência linguística em português”. Ou: “Toda esta duplicidade linguística afecta o processo. Reconhecemos que a nossa língua materna é o crioulo, mas como língua instrumental de trabalho e de comunicação temos de fortalecer a língua portuguesa”.

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«Uma fraude jurídica e moral» [“Expresso das Ilhas” (Cabo Verde)]

Guiné Equatorial na CPLP é uma fraude jurídica e moral

Corsino Tolentino

Expresso das Ilhas, 19.07.16

O analista e académico cabo-verdiano André Corsino Tolentino defende que a comunidade lusófona errou ao admitir a Guiné Equatorial como membro de pleno direito, considerando a entrada do país para o bloco lusófono uma “fraude jurídica e moral”.

———

“Não seria honesto se dissesse que não se errou admitindo a Guiné Equatorial e que a Guiné Equatorial poderá trazer vantagens que compensem as desvantagens. Foi um erro, um erro evitável porque teria bastado discutir a questão”, disse Corsino Tolentino.

O analista e académico falava à agência Lusa a propósito dos dois anos da entrada da Guiné Equatorial, o primeiro país de língua oficial não portuguesa a ser admitido como membro de pleno direito na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Corsino Tolentino lamenta que não se tenha discutido em nenhum dos países membros uma “alteração violenta, uma fraude jurídica e moral” da carta da CPLP.

“Fez-se passar o assunto como se de uma fraude se tratasse”, sublinhou, fazendo um balanço crítico dos dois anos que se passaram desde a adesão.

“Não vejo que venha a haver recuperação. A pena de morte continua na Constituição, a tendência para o reforço da ditadura mantém-se, a língua portuguesa não é língua oficial e não há condições para se transformar e se introduzir uma nova língua e torná-la oficial”, elencou.

O também embaixador jubilado, entende que não havia condições para a admissão da Guiné Equatorial na comunidade lusófona e que a sua entrada foi uma demonstração de que “falta o mínimo de honestidade” em determinadas decisões no âmbito da organização.

Como outro exemplo, apontou a recente decisão sobre quem deveria assumir o cargo de secretário – executivo – Portugal ou São Tomé e Príncipe – a partir da próxima cimeira da organização prevista para Novembro no Brasil.

Apesar de nos estatutos estar previsto que o cargo de secretário-executivo ser ocupado pelos países por ordem alfabética e, depois de Moçambique, ser a vez de Portugal, chegou-se a um entendimento para que o cargo seja atribuído a São Tomé e Príncipe.

“Arranjou-se ali uma coisa que não é peixe nem é carne, é metade peixe e metade carne porque não há vontade suficiente para dizer a verdade”, sustentou Corsino Tolentino.

Todos têm tido uma postura hipócrita. Parece que não dá resultado, que não compensa, mas não serei eu a estragar a festa e vamos pensando que um dia melhora”, acrescentou.

Com a adesão da Guiné-Equatorial, entende Corsino Tolentino, a CPLP abandonou também dois dos seus princípios básicos: ser uma comunidade de países de língua portuguesa e tendentes para a democracia e a liberdade.

“Admitiu-se um país como membro de pleno direito, abandonando o princípio da língua portuguesa e a Guiné Equatorial é um país que toda a gente sabe não tende para a liberdade e para a democracia. Houve uma violação frontal de dois princípios básicos”, sublinhou.

A Guiné Equatorial foi admitida a 23 de Julho de 2014 como membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), na X cimeira de chefes de Estado e de Governo da organização, em Díli, concluindo um processo de dez anos.

O país, antiga colónia espanhola, liderado há mais de 36 anos com mão de ferro por Teodoro Obiang Nguema, passou a integrar a organização, apesar da oposição de intelectuais e organizações da sociedade civil dos países lusófonos e do registo de violações dos direitos humanos, largamente documentadas por várias organizações internacionais.

Source: Guiné Equatorial na CPLP é uma fraude jurídica e moral – Corsino Tolentino – Expresso das Ilhas

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O 20.º aniversário do barrete CPLP no “Público” – 3

Na edição do “Público” de Domingo, 17 de Julho de 2016, uma série de artigos a propósito do 20.º aniversário da CPLP. Este é o terceiro desses artigos, versando — quando não tergiversando — todos eles sobre o monumental barrete em que consiste aquela bizarra organização “lusófona”, mas, neste caso, com uma agradável variante: nem tudo é treta e nem toda a gente é ou finge ser parva. Ao menos alguns destes jovens demonstram não apreciar lá muito que lhes tentem enfiar patranhas como o “acordo ortográfico” goela abaixo.

Mamadu Baldé - Academia Ubuntu - Bissau - Guiné-Bissau

Mamadu Baldé – Academia Ubuntu – Bissau – Guiné-Bissau

logo_shareA CPLP vista por oito jovens

Joana Gorjão Henriques

17/07/2016 – 05:03

São oito jovens: professores universitários, advogados, estudantes, gestores e uma assistente de comunicação. Apenas um deles tem mais de 30 anos. Uns expressam opiniões mais favoráveis do que outros à ideia da CPLP. Todos deixam propostas.

Há quem nunca tenha ouvido falar da CPLP, como a estudante brasileira Marina Serra, mas goste da ideia de uma comunidade à volta das variantes de português. Há quem entenda que o projecto de uma comunidade de língua portuguesa promove “a ideia de que somos ‘um só’, à semelhança do luso-tropicalismo”, como a moçambicana Eliana Nzualo.

Há quem lembre, como o angolano Sérgio Dundão, que a “finalidade de harmonizar e conciliar as relações dos Estados-membros”, inscrita na CPLP, nunca foi cumprida. Ou quem defenda, como o guineense Saibana Baldé, que “em nada beneficia países que foram colonizados”.

O timorense Lukeno Alkatiri deseja uma CPLP que tenha “como objectivo uma verdadeira luta contra as desigualdades sociais, económicas e políticas existentes nos seus países-membros”. A portuguesa Maria Morais projecta-a sobretudo como “uma arma de combate à exclusão e à xenofobia”. Vários, como a cabo-verdiana Evandra Moreira, sublinham que deveria haver mais facilidade de circulação dos cidadãos membros da CPLP. Mas a são-tomense Edlena Barros deixa a reflexão: “Para quê uma organização como esta que pretende ‘promoção do desenvolvimento e a cooperação mutuamente vantajosa’ se, na prática, isto está muito longe da realidade?”

Fomos perguntar a oito jovens, um de cada país que comemora os 20 anos da organização, se acham que a CPLP faz sentido, para quê — como seria a sua CPLP ideal?

Angola

“Deve evitar a associação ao ideário colonial”

Sérgio Dundão, professor de Ciência Política e Relações Internacionais, 29 anos

Do ponto vista político, faz todo o sentido a existência da CPLP. Surgiu numa altura em que o Estado e o Governo angolano liderado pelo MPLA precisavam de fortalecer o seu reconhecimento internacional e a sua imagem externa.

Integrar uma organização internacional enquadrava-se na estratégia política do executivo. Mas o papel do Estado acabou por ficar condicionado pela situação interna do país. Só no pós-guerra é que o Estado passou a afirmar o seu poderio e a preservar os interesses nas organizações onde era membro.

No caso da CPLP, observamos esse poderio angolano em duas situações distintas: o processo da adesão da Guiné Equatorial à CPLP; e a rejeição na implementação do Acordo Ortográfico em Angola. Nestas duas situações prevaleceu o interesse angolano em detrimento do interesse da organização.

A CPLP, aquando da sua criação, tinha como finalidade harmonizar e conciliar as relações dos Estados-membros. Passou a ser encarada como uma organização de conciliação ou reconciliação de povos que tiveram situações políticas conflituosas e de violência física. Isto nunca chegou a ser concretizado tal qual se previa, porque os Estados não conseguiram deixar o seu passado de lado. Por exemplo, os angolanos nunca obtiveram o estatuto de refugiados em Portugal e os vistos de viagem mantêm mesmo o rigor da concessão. Assim sendo, a CPLP tem sido uma organização de conciliação e de concertação dos interesses dos Estados-membros e de projecção dos seus interesses políticos.

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muralha_guimaraes«O monumento onde se lê “Aqui Nasceu Portugal”, em Guimarães, foi vendido a um empresário após a autarquia ter abdicado do direito de preferência para a sua aquisição por 190 mil euros.»
Diário de Notícias

 

logo_crupNão há acordo sobre o acordo

Mais Guimarães – O Jornal

19 Abril 2016

Catarina Castro Abreu 

——————-

A língua portuguesa é usada correntemente em oito países por mais de 260 milhões de pessoas. É a sexta mais falada no mundo e é a língua materna de 203 milhões de pessoas. Une numa mesma comunidade nove países que aprovaram e ratificaram o Acordo Ortográfico de 1990 mas apenas em três vigora a obrigatoriedade da sua utilização. É um tema que continua a acender discussões apaixonadas, inclusivamente no berço de Portugal.

Dos países pertencentes à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), apenas o Brasil, Cabo Verde e Portugal têm o novo Acordo Ortográfico – que não é tão novo assim porque é uma regra que existe desde 1990 – em vigor de forma obrigatória. Em Angola todo o processo está em stand-by e não há uma data definida para a entrada em vigor e muito menos para assumir um carácter obrigatório. Na Guiné-Bissau, o AO de 1990 está ratificado mas, tal como em Angola, também não há data de entrada em vigor nem de obrigatoriedade de aplicação. Na mesma fase estão Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Na semana passada, começaram as comemorações dos 20 anos da CPLP na cidade-berço sobre a “projecção internacional da língua portuguesa”. O Mais Guimarães esteve lá e durante um dia de debates, curiosamente, não se falou do Acordo Ortográfico de 1990 (novo AO).  Talvez porque, segundo Murade Murargy, secretário executivo da CPLP, “não haja motivo de fractura entre os países”. Mas o diplomata ressalva que “quando este acordo foi negociado, as pessoas não tinham consciência das implicações que isto ia ter, até mesmo no nosso material didáctico, há implicações financeiras muito elevadas e muitos países não avaliaram esse impacto”.

Murade Murargy acredita que o tempo vai resolver todos os diferendos: “Com o tempo e o desenvolvimento económico dos países, todos vão entrar em sintonia uns com os outros e o AO vai ser aplicado. Não se trata de uma questão política, apenas sim técnica”. Micaela Ramon, professora auxiliar do Departamento de Estudos Portugueses e Lusófonos do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, também sublinha que “a ortografia não é um ponto essencial, é um ponto acessório e que não deve, de maneira nenhuma, constituir uma fractura entre os países que têm a língua portuguesa como língua oficial”.

A professora realça que “a questão da ortografia é uma convenção que é muito visível num determinado momento sincrónico. Tem vindo a ser alterada ao longo dos tempos e não é essa convenção ortográfica que descaracteriza na sua essência a língua”. “A língua mantém-se a mesma, mantém-se una na sua multiplicidade e variedades”, vinca.

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CPLP a mielas

Aparentemente, esta extraordinária “sitcom” terá terminado ontem mesmo com uma não menos extraordinária decisão salomónica: como sucedeu nesse bíblico episódio, havendo apenas uma “criança” e dois pretendentes à respectiva paternidade, decidiu-se cortar o bebé a meio e entregar a cada um dos papás babados sua metade do petiz. Ao contrário do que se passou na tocante história original, porém, desta vez não se comoveu nenhum dos dois contemplados com 50% da coisa decepada e, por conseguinte, aceitaram ambos o massacre sem pestanejar.

O que significará, com certeza, pois com parábolas das Escrituras não se brinca, que teremos em breve de presenciar — com não menos horror — outras cenas igualmente sangrentas e canalhas. 

 

logo_sharePortugal divide com São Tomé mandato de quatro anos na CPLP

Nuno Ribeiro

17/03/2016 – 19:58

Angola, que acusou Portugal de querer impor um secretário-executivo, convidou Marcelo e Costa a visitar Luanda e considera que candidatura de Guterres à ONU “honra a comunidade lusófona”

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Não foi uma operação aritmética, mas uma solução diplomática para sair de um impasse. O próximo secretário-executivo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), a ser eleito na cimeira de Chefes de Estado de Brasília, em Julho próximo, terá o seu exercício encurtado de quatro para dois anos. Os primeiros dois serão confiados a São Tomé e Príncipe e o resto do mandato será cumprido por Portugal.

“As decisões na CPLP são tomadas por consenso, essa é uma regra de ouro”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, referindo-se à fórmula adoptada. “As cedências são de todos”, afirmou o chefe da diplomacia angolana, Georges Chikoti, no final dos trabalhos da XIV reunião extraordinária do conselho de ministros da CPLP.

Santos Silva e Chikoti apareceram lado a lado, na Sala Dourada do Palácio do Conde de Penafiel – a sede da organização – para simbolizar em palavras e gestos o fim da polémica sobre o método para a sucessão do moçambicano Murade Murargy como secretário-executivo. Assim, mantém-se o princípio da rotatividade, com a peculiaridade da divisão temporal.

Aliás, durante esse tempo a CPLP volta a trabalhar nos estatutos para clarificar o imbróglio: o alegado “acordo de cavalheiros” ou “princípio não escrito” de que o país que alberga a sede da comunidade não apresenta candidato à liderança do secretariado-executivo. O facto da solução encontrada esta quinta-feira, depois de uma intensa negociação na véspera, arrancar com São Tomé e Príncipe e não com Portugal, como dita a rotatividade por ordem alfabética, teve também uma explicação diplomática. A próxima presidência da organização é do Brasil e, se Portugal ostentasse por dois anos o cargo de secretário-executivo, o eixo da CPLP deslocava-se de África, apurou o PÚBLICO. Embora, a solução não fosse do agrado do ministro de São Tomé e da sua delegação.
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