Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Categoria: documentos

“O AO90 facilita a aprendizagem”, dizem eles (2)

«Porque chumbam os alunos logo no 2.º ano de escolaridade? A principal razão apontada é esta: “por não lerem bem e não terem atingido os objectivos estabelecidos no programa no que respeita à leitura e escrita”. » [“Público”, 22 de Maio de 2017]
Na mesma linha de uma notícia da Rádio Renascença sobre o assunto, surge agora esta peça da jornalista Clara Viana, do “Público”.

Fica assim duplamente demonstrada a flagrante contradição entre a triste realidade e as mentiras descaradas dos acordistas: o AO90 não facilita a aprendizagem coisíssima nenhuma. Muito pelo contrário, como é evidente e como todos os estudos (do próprio Estado) comprovam: desde que o aleijão ortográfico foi imposto nas escolas (2011), as reprovações aumentaram em todos os escalões de Ensino… e em especial no Básico.

Deve ser possível chumbar alunos aos seis anos, dizem professores de escolas com mais insucesso

Legislação impede que se retenha um aluno no 1.º ano de escolaridade, mas nas escolas com mais insucesso muitos docentes discordam desta proibição por considerarem que a retenção tem “vantagens”.

CLARA VIANA, “Público”
22 de Maio de 2017

A maioria dos professores das escolas do 1.º ciclo que têm taxas de insucesso escolar acima da média nacional considera que os chumbos são elevados no 2.º ano de escolaridade porque é proibido chumbar logo no 1.º. “A maioria afirmou discordar desta proibição”, revelam os autores de um estudo sobre a retenção no 1.º ciclo, divulgado nesta segunda-feira, promovido pela associação EPIS – Empresários pela Inclusão Social e coordenado pela ex-ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. A nível nacional a taxa de retenção no 2.º ciclo é de 10%.

Com base nos dados estatísticos do Ministério da Educação foram analisadas 3866 escolas, das quais 541 apresentaram níveis de retenção superiores à média nacional. A partir deste universo foi constituída uma amostra de 127 escolas, tendo sido entrevistados 127 directores ou coordenadores de escola e 245 professores.

Para 87% destes docentes, a retenção tem vantagens, mesmo em idades tão precoces como os sete anos. Esta opinião prevalece apesar de muitos dos inquiridos reconhecerem que a retenção implica riscos como a desmotivação e o desinteresse dos alunos. Feitas as contas acabam por considerar que a repetência é “única alternativa”, porque “dando mais tempo as crianças acabam por aprender e recuperar”, afirmam os autores do estudo da EPIS, intitulado Aprender a Ler e a Escrever em Portugal, entre os quais figura a também ex-ministra da Educação e actual conselheira do Presidente da República, Isabel Alçada.

Segundo os autores do estudo, o problema do insucesso e das dificuldades de aprendizagem está assim “naturalizado” nestas escolas – “nada há a fazer a não ser aceitar isso mesmo e conformar as práticas pedagógicas a essa realidade”.

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O Estado de cAOs: ótica por óptica

A ferramenta de pesquisa do índice cAOs, a funcionar desde Janeiro de 2015, serve em especial para encontrar bacoradas acordistas nas páginas do “Diário da República” e da agência LUSA e também nos sites do Governo e da Presidência.

O critério de busca, desta vez, foi por uma única palavra: “ótica”.

789 resultados ao longo de 10 páginas…

Documentos oficiais, concursos, despachos, éditos, comunicados.

 

Vejamos um desses documentos, para amostra.
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“A unificação é uma miragem” [Helena Buescu, linguista]

 

Fantástico depoimento, extraordinária argumentação, espantoso manifesto! Não encontro os adjectivos mais adequados — nem os suficientes — para qualificar a verdadeira lição de Português que a Professora Helena Buescu deu aos deputados. Foi uma brilhante, inspiradíssima  lição de Português, sim, e foi também uma verdadeira aula de História e até mesmo de Decência, algo que não sendo disciplina curricular parece ser uma grande lacuna na formação básica de boa parte dos nossos deputados.

Tive imensa dificuldade em escolher um título para este “post”. Decidi-me por uma citação de entre muitas outras que serviriam para o efeito, de igual peso, significado e brilho.

Durante toda a aula ouve-se perfeitamente o absoluto silêncio dos deputados acordistas, o que denota com eloquência gritante a total falência dos argumentos que não têm para contrapor aos que lhes foram claramente… explicados.

Não vale a pena transcrever a lição da linguista, porque nesse caso teria de passar a escrito mais de meia hora de discurso. Este é um daqueles raros casos em que se diz “só ouvindo”. Tudo.

 

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Os números não mentem – 5 (de 5)

«– É lindo destruir palavras. Naturalmente, a maior parte é nos verbos e adjectivos mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinónimos; os antónimos também. Afinal de contas, que justificação há para a existência de uma palavra que é apenas o contrário de outra? Cada palavra contém em si o contrário. “Bom”, por exemplo. Se temos a palavra “bom” para que precisamos de “mau”? “Inbom” faz o mesmo efeito – e melhor, porque é exactamente oposta, enquanto que mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais incisiva para dizer “bom”, para quê dispor de toda uma série de vagas e inúteis palavras como “excelente”, “esplêndido”, etc. e tal? “Plusbom” corresponde à necessidade, ou “dupliplusbom”, se queres alguma coisa ainda mais forte. Naturalmente já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras – ou melhor, uma única. Não vês que beleza, Winston? Naturalmente, foi ideia do Grande Irmão – acrescentou, à guisa de conclusão.»

George Orwell, “1984”


Termina aqui esta pequena série de “posts” sob o título (e tema) genérico “os números não mentem”. Não vou maçar mais as pessoas com aborrecidíssimos tecnicismos, dados, quadros, cálculos, algoritmos, critérios, métodos e processos. O trabalho está feito, a função cumprida, os resultados publicados e demonstrados. Avançar com ainda mais pormenores técnicos seria, além de fastidioso, algo redundante: é claro que — a partir de agora — já toda a gente sabia de tudo isto “há que tempos”. Mudei de ideias, por conseguinte, quanto à intenção que expressei no “post” anterior (o 4.º da série): não vou afinal “esmiuçar” coisa nenhuma, à uma porque me parece já o ter feito exaustivamente, às duas porque sempre quero ver como se desenrascarão os “autores de obras feitas” do costume. Deverão agora, tão somente, segundo a técnica habitual, bolçar umas “indignações” avulsas pescando uns quantos números do estudo, depois copiá-los daí para outro lado qualquer e por fim citar esse lado qualquer — com destaque — como “fonte” e o figurão que bolçou a diatribe como “autor” do trabalho. Enfim, repito, que se desenrasquem os parasitas da ordem. O que é preciso é que a mensagem passe, que se lixe o mensageiro.

Adiante.

Por algum subtil, estranho ou suspeito motivo, as perguntas basilares jamais tinham sido formuladas e, por inerência, visto não ser possível responder a algo que ninguém perguntou, ninguém sabia o que dizer quanto a  incógnitas vazias ou a questões omissas.

Mas que poderiam ter sido atempadamente formuladas, ambas, as perguntas e as respostas.

P – O Brasil cedeu de facto mais do que Portugal?

R – Não.

P – Se o Brasil não cedeu mais, então cedeu menos?

R – Sim.

P – É possível calcular quanto (ou em quanto) menos?

R – Não.

P – Como “não”?

R – Não é possível calcular quanto representa zero em relação a um número, zero comparado com um valor ou um montante é uma função impossível.

P – “Zero”?

R – Zero. É este o número de palavras que o AO90 alterou na variante brasileira do Português. Zero. Não se trata de apurar, ao certo, quanto “cedeu” a variante brasileira em relação às reais “cedências” (eufemismo para vendas de vendilhões) do Português-padrão. A questão resumiu-se aqui a apurar se a dita variante cedeu de facto em alguma coisa. E deste trabalho resulta isto: nada. O Brasil não cedeu absolutamente (em) nada.

P – “Absolutamente nada”? De certeza?

R – Absolutamente nada, de certeza absoluta. Nada de nada. As “cedências” da variante brasileira provieram do acordo ortográfico de 1945, não do “acordo” de 1990; e, mesmo, assim, todas essas “cedências” dizem respeito, por um lado, a questões de acentuação (só a abolição do trema representa mais de metade do total dessas inexistentes “cedências”), e, por outro lado, a questões de hifenização. Não existe, em suma, UMA ÚNICA PALAVRA brasileira REALMENTE alterada pelo AO90.

P – Mas isso então é uma vigarice tremenda… Não há nem uma excepção, uma só, para amostra?

R – Não. TODAS as palavras REALMENTE adulteradas (consoantes “mudas” abatidas segundo os ditames brasileiros) afectam apenas o Português-padrão, evidentemente. Há uma porção subsidiária que diz respeito a palavras que sofrem alterações iguais no Português-padrão e na variante brasileira… mas apenas a nível de acentuação e de hifenização.

P – Isso é “um bocadinho” difícil de imaginar, quanto mais de digerir…

R – Pois é. Mas não é nada de imaginado, é a mais pura das realidades — como os números atestam, os factos comprovam e a realidade demonstra.

 

Imagem de: http://www.orwelltoday.com/

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«Mais vale arrepiar caminho…» [Teresa Caeiro, deputada]

Desta recente audição parlamentar sobre o AO90 destaco, pela sua relevância política, a intervenção da deputada Teresa Caeiro, do CDS-PP.

Parece-me, aliás, tratar-se de uma intervenção não apenas politicamente relevante — até porque é secundada na mesma ocasião por uma deputada do extremo oposto do espectro partidário — como se trata também de um discurso algo surpreendente, quando não desconcertante: então só agora percebeu que o AO90 é uma catástrofe, senhora deputada? Não tinha ainda entendido a dimensão da fraude aprovada por larga maioria dos deputados, alguns dos quais da sua própria bancada parlamentar? Jamais lhe ocorreu que aquilo não passa afinal de uma gigantesca vigarice assinada “de cruz” e imposta selvaticamente aos povos de seis dos sete países da CPLP?

Bem, bem, bem. Mas que não seja por isso, senhora deputada. Poderá de facto não ter tido conhecimento das sucessivas golpadas que a tão catastróficos resultados conduziram. Nos “Passos Perdidos” perde-se de facto muita coisa, além de passos: se calhar, foi ali que alguém perdeu relatórios, pareceres, documentos que profunda e profusamente demonstravam a aldrabice “ortográfica”. E bem sabemos que, se não a maioria, pelo menos boa parte dos deputados que aprovaram a catástrofe anunciada não faziam a menor ideia daquilo em que estavam a votar.

Como muito bem diz, senhora deputada, as palavras são suas, “mais vale arrepiar caminho num erro do que persistir no mesmo”. E como lá diz por seu lado o povo, “mais vale tarde do que nunca”.

Seja Vossa Excelência muito bem vinda ao lado sério (e honesto) da “questão ortográfica”, senhora deputada Teresa Caeiro!


[transcrição] (na gravação, em baixo, a partir de 34:05)
Eu vou ser muito breve, até porque as questões principais já foram colocadas, mas eu não queria deixar de agradecer de um forma muito, muito empenhada às senhoras professoras o facto de terem disponibilizado o vosso tempo para virem aqui dar-nos exactamente estes argumentos técnicos, de forma a que se possam tomar atitudes políticas.

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Os números não mentem – 4

«Qualquer acordo pressupõe cedências e compromissos de ambas ou de todas as partes envolvidas, o que não é de todo o caso deste.»

A nossa ILC

A pergunta que nunca alguém sequer se atreveu a fazer: quantas palavras da variante brasileira foram realmente alteradas pelo “acordo ortográfico” de 1990?

Nunca, jamais, em tempo algum foi dada a resposta: está num dos três resultados finais, a vermelho. Pista: não é nenhum dos dois repetidos.

A seguir esmiuçaremos esta verdade a partir de agora insofismável.

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