Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Categoria: documentos

“A unificação é uma miragem” [Helena Buescu, linguista]

 

Fantástico depoimento, extraordinária argumentação, espantoso manifesto! Não encontro os adjectivos mais adequados — nem os suficientes — para qualificar a verdadeira lição de Português que a Professora Helena Buescu deu aos deputados. Foi uma brilhante, inspiradíssima  lição de Português, sim, e foi também uma verdadeira aula de História e até mesmo de Decência, algo que não sendo disciplina curricular parece ser uma grande lacuna na formação básica de boa parte dos nossos deputados.

Tive imensa dificuldade em escolher um título para este “post”. Decidi-me por uma citação de entre muitas outras que serviriam para o efeito, de igual peso, significado e brilho.

Durante toda a aula ouve-se perfeitamente o absoluto silêncio dos deputados acordistas, o que denota com eloquência gritante a total falência dos argumentos que não têm para contrapor aos que lhes foram claramente… explicados.

Não vale a pena transcrever a lição da linguista, porque nesse caso teria de passar a escrito mais de meia hora de discurso. Este é um daqueles raros casos em que se diz “só ouvindo”. Tudo.

 

Share

Os números não mentem – 5 (de 5)

«– É lindo destruir palavras. Naturalmente, a maior parte é nos verbos e adjectivos mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinónimos; os antónimos também. Afinal de contas, que justificação há para a existência de uma palavra que é apenas o contrário de outra? Cada palavra contém em si o contrário. “Bom”, por exemplo. Se temos a palavra “bom” para que precisamos de “mau”? “Inbom” faz o mesmo efeito – e melhor, porque é exactamente oposta, enquanto que mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais incisiva para dizer “bom”, para quê dispor de toda uma série de vagas e inúteis palavras como “excelente”, “esplêndido”, etc. e tal? “Plusbom” corresponde à necessidade, ou “dupliplusbom”, se queres alguma coisa ainda mais forte. Naturalmente já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras – ou melhor, uma única. Não vês que beleza, Winston? Naturalmente, foi ideia do Grande Irmão – acrescentou, à guisa de conclusão.»

George Orwell, “1984”


Termina aqui esta pequena série de “posts” sob o título (e tema) genérico “os números não mentem”. Não vou maçar mais as pessoas com aborrecidíssimos tecnicismos, dados, quadros, cálculos, algoritmos, critérios, métodos e processos. O trabalho está feito, a função cumprida, os resultados publicados e demonstrados. Avançar com ainda mais pormenores técnicos seria, além de fastidioso, algo redundante: é claro que — a partir de agora — já toda a gente sabia de tudo isto “há que tempos”. Mudei de ideias, por conseguinte, quanto à intenção que expressei no “post” anterior (o 4.º da série): não vou afinal “esmiuçar” coisa nenhuma, à uma porque me parece já o ter feito exaustivamente, às duas porque sempre quero ver como se desenrascarão os “autores de obras feitas” do costume. Deverão agora, tão somente, segundo a técnica habitual, bolçar umas “indignações” avulsas pescando uns quantos números do estudo, depois copiá-los daí para outro lado qualquer e por fim citar esse lado qualquer — com destaque — como “fonte” e o figurão que bolçou a diatribe como “autor” do trabalho. Enfim, repito, que se desenrasquem os parasitas da ordem. O que é preciso é que a mensagem passe, que se lixe o mensageiro.

Adiante.

Por algum subtil, estranho ou suspeito motivo, as perguntas basilares jamais tinham sido formuladas e, por inerência, visto não ser possível responder a algo que ninguém perguntou, ninguém sabia o que dizer quanto a  incógnitas vazias ou a questões omissas.

Mas que poderiam ter sido atempadamente formuladas, ambas, as perguntas e as respostas.

P – O Brasil cedeu de facto mais do que Portugal?

R – Não.

P – Se o Brasil não cedeu mais, então cedeu menos?

R – Sim.

P – É possível calcular quanto (ou em quanto) menos?

R – Não.

P – Como “não”?

R – Não é possível calcular quanto representa zero em relação a um número, zero comparado com um valor ou um montante é uma função impossível.

P – “Zero”?

R – Zero. É este o número de palavras que o AO90 alterou na variante brasileira do Português. Zero. Não se trata de apurar, ao certo, quanto “cedeu” a variante brasileira em relação às reais “cedências” (eufemismo para vendas de vendilhões) do Português-padrão. A questão resumiu-se aqui a apurar se a dita variante cedeu de facto em alguma coisa. E deste trabalho resulta isto: nada. O Brasil não cedeu absolutamente (em) nada.

P – “Absolutamente nada”? De certeza?

R – Absolutamente nada, de certeza absoluta. Nada de nada. As “cedências” da variante brasileira provieram do acordo ortográfico de 1945, não do “acordo” de 1990; e, mesmo, assim, todas essas “cedências” dizem respeito, por um lado, a questões de acentuação (só a abolição do trema representa mais de metade do total dessas inexistentes “cedências”), e, por outro lado, a questões de hifenização. Não existe, em suma, UMA ÚNICA PALAVRA brasileira REALMENTE alterada pelo AO90.

P – Mas isso então é uma vigarice tremenda… Não há nem uma excepção, uma só, para amostra?

R – Não. TODAS as palavras REALMENTE adulteradas (consoantes “mudas” abatidas segundo os ditames brasileiros) afectam apenas o Português-padrão, evidentemente. Há uma porção subsidiária que diz respeito a palavras que sofrem alterações iguais no Português-padrão e na variante brasileira… mas apenas a nível de acentuação e de hifenização.

P – Isso é “um bocadinho” difícil de imaginar, quanto mais de digerir…

R – Pois é. Mas não é nada de imaginado, é a mais pura das realidades — como os números atestam, os factos comprovam e a realidade demonstra.

 

Imagem de: http://www.orwelltoday.com/

Share

«Mais vale arrepiar caminho…» [Teresa Caeiro, deputada]

Desta recente audição parlamentar sobre o AO90 destaco, pela sua relevância política, a intervenção da deputada Teresa Caeiro, do CDS-PP.

Parece-me, aliás, tratar-se de uma intervenção não apenas politicamente relevante — até porque é secundada na mesma ocasião por uma deputada do extremo oposto do espectro partidário — como se trata também de um discurso algo surpreendente, quando não desconcertante: então só agora percebeu que o AO90 é uma catástrofe, senhora deputada? Não tinha ainda entendido a dimensão da fraude aprovada por larga maioria dos deputados, alguns dos quais da sua própria bancada parlamentar? Jamais lhe ocorreu que aquilo não passa afinal de uma gigantesca vigarice assinada “de cruz” e imposta selvaticamente aos povos de seis dos sete países da CPLP?

Bem, bem, bem. Mas que não seja por isso, senhora deputada. Poderá de facto não ter tido conhecimento das sucessivas golpadas que a tão catastróficos resultados conduziram. Nos “Passos Perdidos” perde-se de facto muita coisa, além de passos: se calhar, foi ali que alguém perdeu relatórios, pareceres, documentos que profunda e profusamente demonstravam a aldrabice “ortográfica”. E bem sabemos que, se não a maioria, pelo menos boa parte dos deputados que aprovaram a catástrofe anunciada não faziam a menor ideia daquilo em que estavam a votar.

Como muito bem diz, senhora deputada, as palavras são suas, “mais vale arrepiar caminho num erro do que persistir no mesmo”. E como lá diz por seu lado o povo, “mais vale tarde do que nunca”.

Seja Vossa Excelência muito bem vinda ao lado sério (e honesto) da “questão ortográfica”, senhora deputada Teresa Caeiro!


[transcrição] (na gravação, em baixo, a partir de 34:05)
Eu vou ser muito breve, até porque as questões principais já foram colocadas, mas eu não queria deixar de agradecer de um forma muito, muito empenhada às senhoras professoras o facto de terem disponibilizado o vosso tempo para virem aqui dar-nos exactamente estes argumentos técnicos, de forma a que se possam tomar atitudes políticas.

(mais…)

Share

Os números não mentem – 4

«Qualquer acordo pressupõe cedências e compromissos de ambas ou de todas as partes envolvidas, o que não é de todo o caso deste.»

A nossa ILC

A pergunta que nunca alguém sequer se atreveu a fazer: quantas palavras da variante brasileira foram realmente alteradas pelo “acordo ortográfico” de 1990?

Nunca, jamais, em tempo algum foi dada a resposta: está num dos três resultados finais, a vermelho. Pista: não é nenhum dos dois repetidos.

A seguir esmiuçaremos esta verdade a partir de agora insofismável.

Share

Os números não mentem – 3

 

Chama-se a isto, cientificamente falando, pôr a carne toda no assador.

O que está ali em cima é o quadro de resultados globais obtidos a partir dos cálculos que estão ali em baixo, os quais incidem sobre os dados do “Vocabulário de Mudança” disponibilizados pelo “Portal da Língua Portuguesa”.

Carecem porventura de algum tipo de explicação, tanto os cálculos como os resultados, caso alguém não entenda claramente o que significam, mas seria fastidioso, monótono e quiçá, para o efeito, irrelevante, esmiuçar cada um deles e demonstrar o respectivo algoritmo. Atenhamo-nos, por conseguinte, ao essencial: a folha-de-cálculo em baixo contém as perguntas e o quadro em cima as respostas.

Seguindo esta exacta lógica, traduzamos a frieza dos números para o calor do Português (legítimo) utilizando a mesma técnica, ou seja, transformemos os algoritmos que perguntam e os cálculos que respondem numa sequência simples de perguntas e respostas entre duas pessoas vulgares.

Imaginemos, portanto, que abancam dois bacanos (eu e outro) numa mesa de café e desatam a falar sobre “os números do AO90”. Escusado será dizer que um dos bacanos (o outro) não vê um boi sobre o assunto mas o outro bacano (eu) tem a obrigação, até por dever de ofício, salvo seja, de ver não apenas um boi como uma manada inteira.

E aventa o outro bacano, para início de conversa:

P – Mas o que raio é aquilo?! É para a gente entender ou será preciso tirar um curso?

R – Aquilo é uma análise estatística sobre o “Vocabulário de Mudança”. Os resultados comprovam que o AO90 não passa de uma vigarice colossal. Não é preciso tirar curso algum para entender o conceito de vigarice e, quanto aos números, basta olhar para eles com olhos de ver.

P – Bem, então eu cá devo ser muito cegueta. Já olhei para os números e, confesso, não entendi patavina. Por que ponta se lhes pega?

R – Pela filtragem dos dados de origem: o “Vocabulário de Mudança” contém 6620 entradas mas 2717 delas (41%) têm esta indicação: “na prática, a situação anterior não muda”. Se não mudam, então o que fazem na lista da “mudança”? Primeira aldrabice. Não são “mudança” coisíssima nenhuma, não contam, restam por conseguinte 3903 entradas.

P – Mas se esses 41% de palavras não contam porque afinal não mudam, então para que diabo é que os acordistas as incluíram na lista?

R – Para esconder que omitiram outras que realmente mudam e que são de uso muito mais comum ou frequente. Assim, aldrabando alarvemente a lista de base, podem difundir a patranha de que o AO90 altera “poucachinhas” palavras e que, destas, em quase metade “na prática, a situação anterior não muda”.

P – Ah, está bem. Estão explicadas as 3903 entradas. E daí?

R – A finalidade deste trabalho é apurar se é verdade, ou em que medida seria verdade, que “o Brasil cedeu mais do que Portugal no AO90”. Portanto, sobre as 3903 entradas, de reais “mudanças” listadas, há que determinar quantas palavras (quantos lemas) mudaram efectivamente na variante brasileira e quantas do “português brasileiro” foram integradas à força na “variante portuguesa” (como lhe chamam acordistas).

P – E então?

R – E então, respectivamente, 636 (ou 9,6%) e 1450 (ou 21,9%).

P – Ah, pronto, já entendi: afinal de contas nós tivemos de “importar” mais do dobro de  palavras escritas em “brasileiro” do que os brasileiros palavras com a nossa ortografia. Afinal é o contrário do que dizem os acordistas! É isto, não é?

R – Nim. Sim, porque o que eles dizem é uma mentira descabelada (olha a grande novidade), não porque o embuste não é “só” em dobro. É muito mais do que “só” o dobro: às 636 palavras que, em teoria, os brasileiros tiveram de “importar” do Português “europeu”, há que descontar todas aquelas que já tinham sido objecto do AO de 1945, que nós cumprimos e que o Brasil ignorou olimpicamente: o trema e a acentuação em “éia” e em “éico”.

P – E isso a quanto monta?

R – Isso monta a 587. É só ver no quadro: 321 “ü” mais 174 acentos em “éia” mais 92 acentos em “éico”. Ora, 636 menos 587 dá o quase redondo resto de 49 palavrinhas. O que significa que o “sacrifício” brasileiro desce de 9,6% para… 0,7%.

P – Ah, pois, confere, são esses os resultados do quadro, de facto. Ou seja…

R – Ou seja, não havendo “descontos” nenhuns no Português-padrão (são mesmo palavras impingidas taxativamente da variante brasileira), os nossos 1450 lemas estropiados representam não apenas 21,9% do total (6620) do “Vocabulário de Mudança” mas… quase 3000% de diferença, isto é, de taxa de “cedência”, em termos comparativos.

P – Errrrr… 3000%? Não duas vezes mas trinta vezes mais? Trinta vezes?! Pode lá ser!

R – A variante brasileira “cedeu” em 49 palavras. O Português-padrão cedeu em 1450. Arredonda, pá, se isso te faz confusão: multiplica 50 por 30. Quanto dá?

P – 1500… errrrr… chiça… Então e agora?

R – Agora, bem, por agora é tudo mas isto ainda não acabou.

P – Não acabou? Há mais?

R – Há. Lá iremos.

  • OA: Ortografia Antiga
  • PE: Português Europeu
  • PB: Português do Brasil
  • ON: Ortografia Nova

Acordo Ortográfico de 1945
XVI – Omissão do acento agudo na terminação eia (ideia, assembleia, epopeia), na terminação eico (epopeico, onomatopeico) e no ditongo oi de algumas palavras cuja pronúncia não é uniforme nos dois países (comboio, dezoito).
XXVII – Supressão total do emprego do trema em palavras portuguesas e aportuguesadas.

Share

Os números não mentem – 2

Devo confessar que tudo isto é “um bocadinho” assustador. A enormidade da mentira, quero dizer.

Recordo-me perfeitamente de que já em 2008, aquando do primeiro trabalho sobre o assunto, sentia de vez em quando um verdadeiro arrepio na espinha, uma sensação estranha, misto de estupefacção e incredulidade: pode lá ser!, aqueles tipos não se atreveriam a mentir assim tanto, caramba, não é possível…

Mas pode ser, sim, como naquela altura me pareceu, a contragosto, e como agora plenamente se confirma, para meu e certamente vosso (grande, enorme, gigantesco) desgosto.

O “acordo ortográfico” de 1990 não passa de uma colossal mentira.

Sem ponta por onde se lhe pegue, ou seja, vendo a coisa por qualquer perspectiva, ângulo, prisma, vector, vertente, tópico ou tema.

No primeiro “post” desta pequena série comparámos alguns números, no que diz respeito ao “Vocabulário de Mudança” e respectivas análises estatísticas, em 2008 e na actualidade. A primeira mentira desmontada, se bem que (para já) apenas referindo os dados essenciais, foi a de que “o Brasil cedeu mais do que Portugal no Acordo Ortográfico”. É falso, evidentemente: o Português-padrão “cedeu” cinco vezes mais do que a variante brasileira… e a seu tempo veremos se terão sido “só” cinco vezes mais.

Que venha a próxima patranha dos acordistas.


«Contrariamente ao muito que se diz por aí, as alterações que vão ser introduzidas são muito poucas e julgo que basta uma meia hora para os professores aprenderem as novas regras. E depois é aplicá-las.»
Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português (APP), 2 de Setembro de 2009, “Diário Digital” [“post” ILCAO, 29.11.14]

Olha que engraçado. Então, se eram assim tão “poucachinhas” as alterações, para quê… alterá-las?! Se fosse possível “aprender” em “meia hora” todo aquele absurdo, então para que diabo continuam ainda hoje a servir os incontáveis “cursos de formação” sobre aquela porcaria?

Isto no pressuposto (paradoxal, convenhamos) de que é de facto possível aprender alguma coisa sobre coisa nenhuma ou apreender o absurdo ou sequer decorar contradições no meio do cAOs total.

E serão afinal assim tão “poucachinhas” como isso, as alterações?

Ora vejamos.

(mais…)

Share
João Pedro Graça © 2015 - 2017 Frontier Theme