Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Categoria: documentos

Lisboa: veredicto ou veredito? Porto: beredito ou beredicto?

http://www.cmjornal.pt/maissobre/veredito

c) Conservam-se ou eliminam-se facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção».

A palavra veredicto/veredito insere-se, portanto, nos casos mencionados na alínea c), aqueles que, por haver oscilação na pronúncia, aceitam dupla grafia.

1 No Brasil, a forma veredicto, com c pronunciado, era a recomendada até há pouco tempo, mas a{#c|}tualmente é mais comum ouvir a forma sem essa consoante, daí a legitimidade de veredito (informação dispensada pelo consultor Luciano Eduardo de Oliveira).

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/sobre-a-palavra-veredictoveredito/29722

«No Brasil, a forma veredicto, com c pronunciado, era a recomendada até há pouco tempo, mas a{#c|}tualmente é mais comum ouvir a forma sem essa consoante, daí a legitimidade de veredito»

Portanto, segundo o AO90, do qual o “Ciberdúvidas” é o órgão central, a grafia de qualquer palavra depende da forma como “é mais comum ouvir”[-se] essa palavra.

Logo, a “legitimidade” da grafia de uma palavra está garantida desde que seja “mais comum ouvir” essa mesma palavra sendo pronunciada de determinada forma. Por conseguinte, certa forma de escrever certa palavra apenas será “ilegítima” caso não seja assim tão comum, ou seja incomum de todo, ou seja muito pouco “comum ouvir a forma” assim ou assado da dita palavra.

Genial. Brilhante. Supimpa. Chiquérrimo, sei lá.

Isto significa, por exemplo, que  valem num jornal lisboeta ambas as grafias “veredicto” ou “veredito”, assim como valem num jornal do Porto, Braga ou Fafe, também por exemplo, ambas as grafias “beredito” ou beredicto”. Desafio qualquer um a demonstrar que no Norte de Portugal em geral não “é mais comum ouvir” proferir beredictos, nos tribunais ou fora deles, e que, pelo contrário, de Coimbra para baixo não é muitíssimo mais “comum ouvir a forma” veredictos. E isto sempre e só em meios onde se professa a chamada “pronúncia culta”, bem entendido, que nós somos todos gente do melhorio, de Norte a Sul (e Ilhas), não queremos cá misturas nem nada, longe vá o agoiro, “pronúncia culta”, como gente fina, é outra loiça.

Mas olha qu’isto não está mesmo nada mal visto, não senhor: o AO90 diz que a escrita de cada qual depende da zona de cada um. Maravilha.

E não apenas a grafia das palavras é determinada geograficamente, segundo o AO90, consoante a região onde o escrevente costuma estar, como a coisa pode variar dentro dessa região, de cidade para cidade ou até, não sejamos picuinhas, dentro do próprio aglomerado populacional, de uma Freguesia para outra, de bairro para bairro, de rua para rua, de um prédio para o prédio ao lado.

Excelente. E, já agora, porque não há-de a escrita mudar também dentro de cada prédio,  consoante o andar, escrevendo-se em cada um deles como “é mais comum ouvir” dizer isto ou aquilo ao pessoal do mesmo piso?

Assim com’assim, visto que no 1.º andar da Redacção do “Correio da Manhã” “é mais comum ouvir a forma” veredicto mas no segundo andar “é mais comum ouvir a forma” veredito, bom, então está tudo explicado, é normalíssimo que um jornalista do 1.º escreva “veredicto” (a forma que para ele é mais comum ouvir) e três jornalistas do 2.º andar escrevam “veredito” (a forma que o trio mais comummente escuta, note-se).

Caramba! As coisas que a gente aprende, à conta da “maravilhosa língua universal”, no ILTEC, no “Correio da Manhã”, no “Ciberdúvidas”, em todos esses vespeiros onde zumbem com extraordinária pronúncia mentes cultas de elevadíssima craveira inteletual.

Fantástico.

 

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E se enfiassem o AO90 no “esfínter”, hem?


Descreve-se o caso de um doente do sexo masculino, 58 anos, com diagnóstico de Colite Ulcerosa esquerda com 17 anos de evolução, sob terapêutica com messalazina com adequado controlo, que referia sensação de tumefação anal e dor ocasional à defecação. Ao exame proctológico detetou-se uma massa com cerca de 3 cm, ao toque retal, logo acima do canal anal, bem delimitada, de consistência elástica e aparentemente extrínseca. A colonoscopia revelou doença inflamatória intestinal quiescente não se identificando expressão endoscópica da referida massa. A ecoendoscopia demonstrou lesão predominantemente hipoecogénica, heterogénea, com áreas hipo/anecogénicas, vascularizada, desde a transição anorretal até ao canal anal médio, inclusivé, com cerca de 39,5mm, na dependência da 4ª camada e em contato íntimo com a vertente posterior do esfínter anal interno a nível do canal anal médio. A ressonância magnética pélvica complementar mostrou formação nodular expansiva, de contornos bem definidos, com sinal heterogéneo, predominantemente hiperintenso em T2 e reduzido em T1, localizada posteriormente à transição anorretal, sem plano de clivagem definido e em íntima relação com o músculo elevador do anús.

Optou-se por realizar punção guiada da lesão tendo-se obtido material constituído por fragmentos de tecido muscular liso, actina e desmina positivos, sem caraterísticas de malignidade. Decidiu-se efetuar excisão cirúrgica por via posterior que decorreu sem complicações. O exame anatomopatológico confirmou tratar-se de leiomioma (actina e desmina positivo e CD117 negativo).

Os leiomiomas da região perianal são tumores de origem mesenquimatosa, raros, que podem mimetizar outras lesões subepiteliais com diferente potencial de malignidade como, por exemplo, o tumor do estroma gastrintestinal GIST. A ecoendoscopia surge como um método de diagnóstico essencial na caraterização deste tipo de lesões. Apresenta-se este caso pela sua raridade e para discussão dos diagnósticos diferenciais deste tipo de lesões.

Serviço de Gastrenterologia, Centro Hospitalar do Algarve – Hospital de Faro

Fonte: LIVRO-RESUMOS.pdf

 

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“Helicótero” à venda

Já sabíamos que um helicótero (dos grandes) caiu na Alemanha, agora ficamos a saber que há um helicótero (em miniatura) à venda no OLX.

Quando aparecer algum elicótero ou mesmo um elicótru, vá, oviamente pubico-o aqui tamém.

 

Helicótero

 

Helicótero RC com 30 cm e leds coloridos embutidos, sem comando remoto, a funcionar na perfeição

Fonte: Helicótero RC com 30 cm e leds coloridos embutidos São Vicente • OLX Portugal

Ver índice cAOs

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Ah, a interrução, a interrução, assim ininterrutamente…

Em 2014, “ao abrigo do AO90”, deixou de haver corrupção em Portugal (passou a corrução), o que é fatual, e já cá havia interrução… mas pouca.

Da “corrução” ao “dado fatual”, passando pela “interrução”

No Brasil, pelos vistos, se alguém quiser saber Como Escrever interrução vai aqui e fica ciente de que “interrussão” é erro: a grafia “correta” é interrução mesmo.


Interrução f. Acto ou efeito de interromper. Aquilo que interrompe. Reticência.

Source: Como escrever interrução, interrussão – Como-escrever.com

 

Agora que o cAOs está instalado em Portugal, digo, que o AO90 está em vigor no Brasil e em Portugal, a interrução vai de um lado ao outro do Atlântico. Ininterrutamente, portanto.


«Algumas atividades devem funcionar ininterrutamente,»
Schneider Electric (Portugal)

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“O Primo Basílio”, de Eça de Queirós, em brasileiro (“revisado” conforme o AO90)

E depois podia atenuar, dizer que fora só uma correspondência platônica… A partida de Basílio, além disso, fazia daquele erro um fato passado, quase antigo… E Sebastião era tão amigo dela!

Source: O Primo Basílio – Eça de Queiroz – Google Books

 

O excerto original em Português:

E depois podia atenuar, dizer que fora só uma correspondência platónica… A partida de Basílio, além disso, fazia daquele erro um facto passado, quase antigo… E Sebastião era tão amigo dela!

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‘Os Maias’, de Eça de Queirós, em brasileiro (“revisado” conforme o AO90)

Teve de se calar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira, abafado até aos olhos na gola de uma ulster donde saíam as pontas de um cachenê de seda clara. O escudeiro desembaraçou-o dos agasalhos; e ele, de casaca e colete branco, limpando o bonito bigode úmido da geada, veio apertar a mão ao caro Vilaça, ao amigo Eusébio, arrepiado, mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu chique…

—Nada, nada — dizia Vilaça todo amável — cá o nosso solzinho português sempre é melhor…
E foram entrando no fumoir, onde se ouviam as vozes do marquês, de Carlos, numa das suas sábias e prolixas cavaqueiras sobre cavalos e esporte.

Source: Os Maias [Biografia, Ilustrado, Índice Ativo, Análises, Resumo e Estudos … – Eça de Queirós – Google Books

 

O excerto original em Português:

Teve de se calar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira, abafado até aos olhos na gola de uma ulster donde saíam as pontas de um cache-nez de seda clara. O escudeiro desembaraçou-o dos agasalhos; e ele, de casaca e colete branco, limpando o bonito bigode húmido da geada, veio apertar a mão ao caro Vilaça, ao amigo Eusébio, arrepiado, mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu chique…
—Nada, nada — dizia Vilaça todo amável — cá o nosso solzinho português sempre é melhor…
E foram entrando no fumoir, onde se ouviam as vozes do marquês, de Carlos, numa das suas sábias e prolixas cavaqueiras sobre cavalos e sport.
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