Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Categoria: diversos

Disclaimer: não papo grupos.

Ainda a propósito das chamadas “redes sociais” e da lumparia que por lá circula, à mistura com e fazendo-se passar por pessoas normais, o que temos aqui é uma pequena amostra do imenso arsenal de aldrabices ao dispor de qualquer pulha que delas queira servir-se.

Não apenas é possível inventar (de raiz) “identidades” em série como é facílimo — com essas “identidades” falsas e arrebanhando uns quantos incautos — artilhar “grupos” muito catitas e com imeeeensos “membros”. Entre outras maroteiras, pois claro, que isto hoje em dia, nos meios virtuais, virtualmente já vale tudo.

O que está ali em cima não é o tiroliroliro e aqui em baixo não está o tiroliroló. Não são brincadeira nenhuma, qualquer deles.

Na imagem de cima está uma pequeníssima amostra dos 927.000 resultados devolvidos por uma pesquisa no YouTube segundo um critério aparentemente insuspeito: “facebook group add members“. Nas páginas do mesmo Fakebook também é possível fazer umas artistices do género mas de facto o que mais agrada a vigaristas é a “cena” dos “grupos”. Um nojo.

Mas há ainda pior, se tal é possível.

Aqui em baixo está uma imagem que, ao contrário de qualquer outra, não vale por mil palavras; vale por todas as palavras que existem: seja quem for pode pôr as palavras que entender “na boca” de quem quiser. E depois publicar ou até usar a “composição” de outras formas, que não vou para já explicar mas que facilmente se imaginam, para “provar” que determinada pessoa (ou pessoas)  disse (ou disseram) as maiores enormidades, imbecilidades, inanidades.

Tudo mais falso do que uma nota de 30 €, é claro, mas isso agora não interessa nada, como dizia a outra, os meios existem e servem na perfeição para os fins que interessam a patifes: achincalhar, caluniar, difamar pessoas de bem. Sempre sob a capa de anonimato (identidade falsa), bem entendido, que só nessa condição aqueles cobardes profissionais se dão ao trabalho de tentar demolir o carácter, destruir a reputação, infernizar a vida dos seus inimigos de estimação — ou daqueles cujo assassinato moral tenha sido encomendado a um qualquer escroque por outro.

(continua…)

Share

«Breve reflexão sobre a minha esquisitíssima profissão» [Pedro Barroso, músico]

Breve reflexão sobre a minha esquisitíssima profissão

Tenho um grave problema pessoal e profissional. Não sei o que faço.

Normalmente as pessoas sabem o que andam a fazer: – são canalizadores, médicos, professores, carpinteiros, coisas assim.

Ora eu não. Desde que fabricaram este “acordo ortográfico” desconheço a minha profissão, e peço misericórdia por isso.

Vejamos. Eu conto.

Em pequenino era prendado e dava sempre zero na redacção. Hoje “redação, fato, receção e direção” entre muitas outras palavras, perderam o “c” portanto a coisa ficou de “facto” complicada e sem …”direcção”. Perturba. Desorienta.

Hoje digo ao autocarro “pára” e ele diz que é “para”. Quero um autocarro “para” qqr lado e ele baralha-se e …”pára”! Caos absoluto.

Em jovem, fui “actor” no TEC. Mas essa profissão, estranhamente, desapareceu. Hoje existe uma coisa a que se chama “ator” que eu situo entre os atilhos de sapatos e sei lá o quê. E eu, sinceramente, custa-me cada vez mais a dobrar; uso sapatos de pala e calçadeira e acabei por dedicar-me mais à composição e à música. Tive de abandonar.

Mas continuo com o mesmo problema grave. Não saber no fundo, como se chama aquilo que faço.
Costumo chamar ao que produzo “concertos”; embora sinta que, de facto – embora toque piano e fale francês…- um concerto é uma coisa com maestros de labita, Beethoven, Rachmaninov, etc. Ora bem. Coisas sérias, a preto e branco etc. Não é propriamente o caso. Normalmente levo camisa e vou até com a fralda de fora. Não deve ser concerto, portanto. Já não sei.

Provável alternativa deveria ser “espectáculo”. Estou hora e meia, duas horas seguidas em palco com os músicos, enfim. “Espectáculo”. Talvez. Contudo, essa expressão parece-me mais adequada ao Circo, lembra-me mais uma trupe do Circo Chen ou talvez os trapezistas do circo de Moscovo. Isso sim. Espectáculo. Ou o “Preço certo” do Fernando Mendes. “Espectáculo”! Portanto, também fico aflito perante o desafio, como podeis supor, por razões de total incapacidade em assumir tal tipo de arriscadas “performances”.

“Performances”. Bem lembrado! Poderia também usar, de facto, este termo estrangeirado; mas, francamente, “performance” parece mais tirado do Atletismo, Ciclismo ou Natação, cujos também já não são de minha pratica corrente. E quando subo ao palco, raramente é na intenção de entrar no Guiness por qualquer “conseguimento”, como pretendia a nossa inefável “Presidenta” da AR.

(mais…)

Share

“Esta causa é muito importante”. Subscrevam a petição para que a Carla traga bolo

Analisemos “cientificamente”, por mera curiosidade antropológica, porque não se pode nem deve comparar o que não tem comparação possível, assim como caganitas com nêsperas ou o olho do Sol com o olho do cu, aquilo em que de facto consistem as “petições” electrónicas e o que na verdade são as respectivas “assinaturas” virtuais.

Esta, por exemplo, que já 269 cidadãos — presumivelmente em seu perfeito juízo e no completo gozo de seus direitos cívicos — “subscreveram” com insuspeito vigor e não menor cagança, ao que parece apela a que certa empresa de cromos (não daqueles, dos outros, dos da bola) deixe de impingir aldrabices nos respectivos pacotinhos.

Na imagem distinguem-se perfeitamente os “dados” (nome e email) que são “exigidos” aos “subscritores” tanto desta como de qualquer outra “petição”: “Dados” esses que, escusado será dizer, podem perfeitamente ser inventados na hora. E uma hora mais tarde, ou assim, quem quiser pode mudar de computador (ou apenas de local ou de tipo de acesso à rede) e “assinar” de novo com outro nomezinho e com mais um endereçozinho de email, pode ser ao calhas e tudo.

No meu caso, por acaso, que sou um gajo sério e não gramo aldrabices, modéstia à parte, optei por “permitir” que o Fakebook preenchesse os ditos “dados” por mim (a sério, nem é preciso escrever nada, nem uma única letrinha) e depois, para “assinar” a “petição”, só tive de me dar à canseira de carregar no botão verde que diz… “Assinar Petição”!

Tudo “comme il faut”, está bem de ver. Ah, que maravilha, estas “petições” electrónicas são uma delícia, ele é só comodidades, não há cá chatices nem papeis nem nada, e depois ninguém verifica coisa nenhuma, pois claro, aquilo é tudo perfeitamente legal (e legítimo e impec), todas as “assinaturas” são válidas, mesmo as inválidas, que são quase todas elas mas isso agora não interessa nada, o que interessa é que “em 15 dias”, como afirma este escroque, não sei quê, trau, já está, mamã, fui eu que fiz, chamem-me Tarzan.

E por falar em Tarzan, que também era um cromo ruim, pelava-se igualmente por dar punhadas no peito e meter-se em macacadas, descobri lá na fábrica das petições uma outra que (esta sim, sobre a primeira estava a brincar, foi uma reinação inocente) “assinei” de facto. Ei-la:

Causa extremamente meritória, sem dúvida! Ora, portantos, qué-se dezer, “assinei” esta “petição” e daqui “apelamos também à subscrição” da dita, avante, portugueses, vamos todos cumprir o nosso dever cívico, para que alcancemos o desiderato, etc. e tal, trata-se de um desígnio nacional, é preciso que se consiga — “por todos os meios ao nosso alcance” — que a Carla traga bolo. Como podem aliás ver no comentário que deixei lá, dirigido aos valorosos promotores de tão meritória “iniciativa”, é uma vergonha que a Carla não traga bolo!

E ainda há quem se atreva a gozar com estes patrióticos assuntos, ele até há uns gajos desconfiados de que isto das petições não passa de uma vigarice de todo o tamanho.


EU referendum petition: 77,000 signatures removed as fraud investigation launches
Parliamentary officials launch formal investigation into petition calling for second referendum
The Independent

É um escândalo! Esse pasquim abjecto, The Independent, pffff, como se atreve a pôr em causa a “causa” das petições, hem, ao que chega o atrevimento, mas que morcões.

 

Share

“OCTANAS: Ocorrência: Censurado pelo Público…”

Ocorrência: Censurado pelo Público…

Octávio dos Santos

… Ou, mais correctamente, por algumas pessoas no Público. Hoje, no meu (outro) blog Obamatório, publiquei o meu artigo «Histeria histórica»… integralmente, quando o objectivo inicial era apenas reproduzir do mesmo um excerto. E há mais de um mês: no passado dia 12 de Fevereiro enviei-o àquele jornal para ser editado, mas apenas electronicamente – a sua elevada dimensão (quase 14 mil caracteres) tornava a sua passagem a papel improvável, se não mesmo impraticável.

Porém, no dia 23, e depois de me ter garantido, em conversa por telefone no dia 20, que ele seria publicado a 22, Nuno Ribeiro enviou-me uma mensagem em que me informava de que, afinal, e após uma «avaliação», o meu texto não sairia. Em conversa por telefone posterior com o actual editor de opinião do Público perguntei-lhe repetidamente quem efectuara essa «avaliação» e o que se concluíra nela – isto é, quais os motivos concretos que haviam levado à reversão da decisão inicial. O meu interlocutor recusou-se a responder, reiterando que o meu artigo era «impublicável», e aconselhou-me a recorrer ao actual director, David Dinis. O que fiz…

… Por correio electrónico nesse próprio dia, 27 de Fevereiro, tendo recebido uma resposta a 8 de Março. Nela, finalmente, tive conhecimento da «justificação» para a reprovação de «Histeria histórica»: é «ofensivo»… não segundo DD, que alegou não o ter lido, mas sim segundo as tais pessoas – o editor de opinião, de certeza, e os directores-adjuntos, talvez – que fizeram a tal «avaliação». Na minha réplica desafiei o director a apontar-me específicas e indubitáveis calúnias, erros, falsidades, mentiras, contidas no meu artigo. Até ao momento não o fez (aliás, não voltou a responder-me) e também não mandou publicá-lo. Portanto, e como «quem cala consente», deve-se depreender que, lamentavelmente, optou por ratificar a decisão dos seus subordinados, atentatória da liberdade de expressão, minha e não só.

É a primeira vez, em mais de 20 anos de colaboração, que um artigo meu é recusado pelo Público. Já fui alvo de discriminação e de censura, tentadas e concretizadas, por vários indivíduos e instituições, mas nunca, até agora, tal acontecera a partir do jornal fundado por Vicente Jorge Silva. Fica desde já aqui a (primeira) denúncia… que, todavia, não esgotará a minha reacção a esta indigna, intolerável ocorrência.

Publicada por OCTÁVIO DOS SANTOS à(s) 8:30 da tarde

 

[Transcrição integral, incluindo “links”: OCTANAS: Ocorrência: Censurado pelo Público…]

Share

«Língua e segurança nacional» [José Luís Mendonça, “Jornal de Angola”]

Língua e segurança nacional

José Luís Mendonça
6 de Fevereiro, 2017

Durante o Primeiro Congresso das Humanidades, organizado pela Universidade Agostinho Neto, em Abril de 2014, um dos palestrantes apresentou uma comunicação sobre políticas do Ensino Superior.

Em contraponto, um dos participantes tomou a palavra para esclarecer que, mais urgente que qualquer reforma do ensino superior, o que está a pedir uma reforma, agora e já, é a didáctica do nosso ensino primário. Sem um bom ensino primário não se pode ter um ensino superior produtivo.

Se o aluno entra para o primeiro ano da Universidade sem competência para criar um simples discurso escrito e oral autónomo e preciso, conciso e claro, então, da Universidade não sairá nenhum ensaísta de mérito. A chave do sucesso académico no domínio da pesquisa não está preferencialmente no volume de informação científica que o currículo académico determina, mas, icónica ou referencialmente, na dimensão do vocabulário e da codificação da língua (gramática) que ele adquire para poder entender (descodificar) o discurso científico-literário.

O Ensino é o elemento natural de preservação da língua como veículo e padrão axiológico de uma cultura e recurso da comunicação internacional. No caso particular de Angola, é urgente reformarmos a didáctica da língua portuguesa no Ensino, conferindo-lhe o objectivo prioritário de atribuir aos alunos competência linguística no domínio da hermenêutica do discurso técnico-científico e literário ou meramente enunciativo, e do seu inverso, que comporta a redacção de um texto original, com recurso aos métodos indutivo, lógico-dedutivo e a abdução hipotética. E criar competência linguística passa pelo ensino da forma correcta de ler, que implica o uso do dicionário e da gramática da língua.

Saída para o desenvolvimento

A aprendizagem da língua veicular – o português – tem uma enorme repercussão na vida social e cultural da nação. O fraco domínio da língua veicular levanta um problema geral, primário, de segurança nacional, pois não podemos substituir os técnicos angolanos nos diferentes sectores da indústria e dos serviços, por técnicos mais abalizados em termos linguísticos imigrantes de Portugal, do Brasil ou de outros países. Isso significa abrir os segredos do Estado angolano à cupidez estrangeira.
Esta questão primária que liga língua e segurança nacional ficou bem ilustrada no encerramento do Congresso das Humanidades a que nos referimos no início, quando o secretário de Estado da Cultura, Cornélio Caley, teceu algumas considerações em torno do tema “Angola: História, cultura e desenvolvimentos – Desafios”. Quando abordou o nono desafio, Cornélio Caley considerou que “os angolanos têm um nível baixo de enfrentamento das capacidades externas.”

A exigência do domínio da linguagem escrita e falada na sociedade contemporânea é cada vez maior. O jovem angolano à procura de emprego deve possuir o domínio da língua portuguesa, ter boa comunicação verbal e escrita, boa redacção e facilidade de comunicação. Esta exigência do domínio da língua é extensível à participação social e ao exercício da cidadania. Um político que fale mal o português convence menos a audiência. Tal conhecimento inclui tanto saber interpretar um texto escrito, quanto ler, escrever e falar com proficiência.

Um segundo problema que relaciona a língua veicular e a segurança nacional tem a ver com o desenvolvimento sustentável. Considerando que o principal papel da Universidade é a (re)produção do conhecimento, através da pesquisa, é bom recordar que os fundamentos dessa pesquisa residem na didáctica da língua portuguesa. Ora, sem (re)produção do conhecimento científico não pode haver desenvolvimento endógeno da Indústria, da Agricultura, da Medicina, das Pescas e do próprio Ensino, para não falar de todos os sectores da vida nacional, incluindo a própria Democracia.

Sem o domínio da língua padrão não teremos desenvolvimento sustentável, mas sim dependência do exterior. E a segurança de um país não depende apenas da tropa e dos canhões. A segurança interna ancora na capacidade para criar bens e serviços, produtos exportáveis e autonomia industrial. Tudo regressa, portanto, à Educação e ao Ensino que, por sua vez, tem como suporte essencial a didáctica da língua portuguesa.

Língua e cânone

A falácia de que o português é a língua do colono e que nós temos uma outra língua local com regras ditadas pelas línguas nacionais é isso mesmo: uma falácia. O insucesso escolar não tem nada a ver com essa pretensa discrepância entre a “língua do colono” e o “português de Angola”. Nós temos, em Luanda, mais influência do português do Brasil do que do quimbundo ou de outras línguas banto. A exemplificação muito em voga é a pronominalização. O povo coloca o pronome antes do verbo. No entanto, quando a gramática da língua portuguesa dita a regra da próclise, na sequência de uma interrogação, negação ou de um pronome, aí, todo o mundo coloca o pronome pessoal depois do verbo! Isto não provém do nosso quimbundo.

O ensino de base vive agravado pela debilidade estrututural do sistema de Educação, que se pode classificar como “doença infantil do ensino”: trata-se da pobreza linguística dos nossos professores primários e secundários, para não falar mesmo dos universitários, que não conhecem a gramática da língua e, por essa razão, ignoram o seu valor pedagógico e semântico para a formação do cidadão. Aqui está a raiz do problema.

O chamado português de Angola, uma versão da língua padrão, não pode ignorar o ensino da gramática. Se se adoptar essa versão – que eu não acredito que esteja histórica e geograficamente consolidada em Angola – mesmo assim, se, depois de adoptada oficialmente, o ensino primário continuar como está, não resolveremos o problema da proficiência linguística desse pretenso português de Angola. Como em qualquer país, existem em Angola diversos níveis de uso da língua portuguesa. Ora, na Administração Pública, na Imprensa oficial e no sector do Ensino e Educação, como em qualquer país do mundo, é o nível de língua padrão ou normal que tem de ser utilizado. É com correcção linguística que o Ministério da Educação deve publicitar os seus eventos. E a própria Universidade Agostinho Neto. É preciso respeitar e honrar o nome da instituição que o herda de um dos maiores poetas da língua portuguesa. Mas é o próprio Ministério da Educação e a Universidade que publicam cartazes onde a datação dos eventos leva crase na preposição!

A versão popular, que eu chamo de portungolano, pode ser usada na rua, nos corredores da escola, no seio da família e no discurso literário, mas, na sala de aula, na burocracia do Estado e das empresas privadas e no noticiário da TPA é o português oficial que deve servir de veículo da comunicação. Sem concessões de espécie alguma. O resto são balelas para adormecer incautos e para alguns licenciados se vangloriarem com teses mal concebidas.

(mais…)

Share

«Manuais Escolares: Sensacionalismo e Inconsequência» [Paulo Guinote, “Público”]

Manuais Escolares: Sensacionalismo e Inconsequência

Paulo Guinote

23 de Janeiro de 2017, 10:22

Há que ir além da arraia-miúda, ter coragem de elevar o olhar e apontar o dedo a quem tem mesmo grandes responsabilidades nisto tudo. E parar de acusar os professores.

—————–

Alguns dias passados sobre os programas e debates da RTP3 e TVI sobre o processo de produção e comercialização dos manuais escolares, tendo pousado rapidamente a poeira levantada de forma muito agitada por aqueles dias, já é possível fazer um balanço do que (não) passou.

Comecemos pelo fim: a única consequência que se pode identificar daquilo tudo é que o Ministério da Educação (ME) vai encomendar um estudo para, em 2017, saber como é constituído o preço de um manual escolar. Sim, é verdade, com tanto grupo de trabalho e estrutura de missão ao longo das décadas, incluindo encomendas estranhas para sistematização de legislação já sistematizada por parte de alguém que também por ali passou, em Portugal, em 2017, aparentemente (sublinho o “aparentemente” por razões óbvias), o nosso ME não faz ideia da forma como se chega a um determinado preço de um artigo que ele impõe, em regra, como obrigatório para muito mais de um milhão de alunos (e esperemos por manuais para o pré-escolar, que deve ser o must da próxima temporada). Eu acho que o que se passa é outra coisa… o ME já sabe, sempre soube, mas precisava de um pretexto para anunciar o estudo que já deve estar mais do que alinhavado. Mas isso são os truques habituais para iludir a opinião pública.

Continuando. Comum a ambas as reportagens, embora com maior gravidade e ligeireza na da RTP, a imputação aos professores da responsabilidade por obrigarem os pais a comprar manuais, optando por aqueles em que os grandes grupos editoriais lhes dariam maiores ofertas, falando-se mesmo em viagens. Nada surgiu em qualquer das reportagens como prova documental da “denúncia”, muito pouco sobre o verdadeiro processo que determina o calendário e procedimento das adopções (responsabilidade do ME), nem grande coisa sobre tudo o que anda em volta dos materiais auxiliares que também são promovidos em catadupa em cada momento que um ministro ou secretário de Estado, pela sua cabeça ou como simples testa de ferro, decide alterar calendários e natureza de provas de avaliação externa ou inventa mesmo novas alterações às provas existentes ou aos programas das disciplinas, com destaque para o Português e a Matemática. Nada ainda sobre a implicação que a adopção do Acordo Ortográfico nas escolas de forma obrigatória teve em tudo isto.

O que apareceu de mais relevante: o enorme desperdício de manuais e outros materiais não adoptados ou não utilizados (reparem que não me pareceram manuais já usados a ser destruídos), algumas pessoas a fingirem que nada era com elas (o senhor da Autoridade da Concorrência, a ex-ministra que sacudiu para o secretário de Estado a responsabilidade por não ter conseguido um acordo com as editoras, o mesmo que não teve qualquer problema em não querer, sequer, um acordo com os professores sobre a sua carreira), outras com a pose de quem sabe dominar o “mercado”, um pseudo-arrependido a dizer banalidades sem concretização (o lamentável “promotor escolar”) e alguns professores a tentar descrever algumas perversões do sistema (o Luís Braga e o Carlos Grosso, por exemplo), mas parecendo ficar na mesa da edição o mais importante e decisivo em todo este processo e que é o nível da macro-decisão, aquela em que se decide o que muda, quando e que permitiu a existência de um processo de concentração e cartelização do mercado dos livros escolares.

O que passou ainda por aquelas reportagens foi uma enorme hipocrisia de algumas figuras que apareceram e o não cumprimento da promessa de denunciar certas cumplicidades institucionais e pessoais. Foi suave o tratamento dado a uma confederação parental demasiado prisioneira das suas parcerias, foi inexistente a relação estabelecida entre o secretário de Estado incapaz de negociar um acordo bom para o interesse público e o ex-secretário de Estado capaz de ir administrar um dos grupos empresariais do sector, bem como a investigação sobre a coincidência de preços entre manuais de grupos teoricamente concorrentes ficou pela mera enunciação do facto e apresentação de documentos de outros tempos. A verdade é que terão existido denúncias bem mais recentes para a Autoridade da Concorrência que ficaram por investigar, enquanto o seu dirigente máximo constata evidências e faz nada. O auto-branqueamento dos poucos políticos que apareceram já era esperado, estranhando eu mais que ninguém ligado aos pareceres do Conselho Nacional da Educação aparecesse a dar a cara pelo que escreveu, quando tão rápidos são a aparecer quando o assunto é outro. Tenho umas ideias sobre a razão, mas logo se verá qual o movimento editorial. O movimento editorial que também não foi investigado, fazendo uma verificação de nomes entre quem apoia a produção de legislação na esfera pública e quem publica na esfera privada a explicar aquilo que os normativos se esmeram por tornar opaco e carente de explicação anotada e comentada.

(mais…)

Share
João Pedro Graça © 2015 - 2017 Frontier Theme