Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Categoria: diversos

RAP no Brasil, o AO90 e a tomada de três pinos

Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier conversam sobre a Língua Portuguesa. Assunto obviamente incontornável, o “acordo ortográfico”.

Alguns excertos da gravação.

RAP (13:40): “A gente estava nos bastidores a falar sobre a maneira como o acordo ortográfico não resolve rigorosamente nada. [comentário de GD: “E cria novos problemas.”] Exacto. Até porque o acordo ortográfico ataca precisamente o único sítio onde a gente não tem muita dificuldade em entender-se. Não há muito problema para o… a gente escreve “acção” com dois cês, vocês escrevem só com um. Não interessa para muito. Agora, a maneira com às vezes a gente se desentende tem a ver com o vocabulário. Se em Portugal eu disser que «estou no acostamento porque a minha perua não tem estepe», não há um português… um português entende que se está a falar Português mas ele não sabe nada do que se está a dizer. Porque em Português essa frase diz-se «eu estou na berma porque a minha carrinha não tem pneu sobresselente. É muito diferente de «acostamento porque a minha perua não tem estepe». E portanto as nossas diferenças são às vezes de pronúncia e de sotaque e outras vezes são de vocabulário, sendo que essas diferenças nos deviam enriquecer e não afastar. E como é óbvio o acordo ortográfico não resolve em nada essa questão.”

GD: “Além de criar problemas terríveis, terríveis, que eu acho que são realmente… na minha opinião foi um crime tão grande quanto a tomada de três pinos. Eu acho que ele é uma tomada de três pinos linguística porque ele cria uma solução para um problema que não havia. Ninguém olhava para uma tomada de dois pinos e falava «hmmm, falta alguma coisa aqui!» Não existia isso. Ninguém olha para a língua portuguesa e fala «hmmm, ’tá faltando aqui… ah, esse trema, eu não aguento esse trema, não posso com esse trema, dá uma preguiça escrever esse trema…”

Lucas André Teixeira

Published on Jun 21, 2017

Experimenta Portugal’ 17 – Arte e Cultura.
Um português e um brasileiro entram num bar – Humor de Ricardo de Araújo Pereira e Gregório Duvivier
Unibes Cultural – 21.06.2017

[Nota: a ortografia do “screenshot” no topo (do Consulado de Portugal em S. Paulo) foi corrigida automaticamente.]
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Disclaimer: não papo grupos.

Ainda a propósito das chamadas “redes sociais” e da lumparia que por lá circula, à mistura com e fazendo-se passar por pessoas normais, o que temos aqui é uma pequena amostra do imenso arsenal de aldrabices ao dispor de qualquer pulha que delas queira servir-se.

Não apenas é possível inventar (de raiz) “identidades” em série como é facílimo — com essas “identidades” falsas e arrebanhando uns quantos incautos — artilhar “grupos” muito catitas e com imeeeensos “membros”. Entre outras maroteiras, pois claro, que isto hoje em dia, nos meios virtuais, virtualmente já vale tudo.

O que está ali em cima não é o tiroliroliro e aqui em baixo não está o tiroliroló. Não são brincadeira nenhuma, qualquer deles.

Na imagem de cima está uma pequeníssima amostra dos 927.000 resultados devolvidos por uma pesquisa no YouTube segundo um critério aparentemente insuspeito: “facebook group add members“. Nas páginas do mesmo Fakebook também é possível fazer umas artistices do género mas de facto o que mais agrada a vigaristas é a “cena” dos “grupos”. Um nojo.

Mas há ainda pior, se tal é possível.

Aqui em baixo está uma imagem que, ao contrário de qualquer outra, não vale por mil palavras; vale por todas as palavras que existem: seja quem for pode pôr as palavras que entender “na boca” de quem quiser. E depois publicar ou até usar a “composição” de outras formas, que não vou para já explicar mas que facilmente se imaginam, para “provar” que determinada pessoa (ou pessoas)  disse (ou disseram) as maiores enormidades, imbecilidades, inanidades.

Tudo mais falso do que uma nota de 30 €, é claro, mas isso agora não interessa nada, como dizia a outra, os meios existem e servem na perfeição para os fins que interessam a patifes: achincalhar, caluniar, difamar pessoas de bem. Sempre sob a capa de anonimato (identidade falsa), bem entendido, que só nessa condição aqueles cobardes profissionais se dão ao trabalho de tentar demolir o carácter, destruir a reputação, infernizar a vida dos seus inimigos de estimação — ou daqueles cujo assassinato moral tenha sido encomendado a um qualquer escroque por outro.

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Armando Baptista-Bastos (1934 – 2017)

“Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”: carta de despedida para Baptista-Bastos

Baptista-Bastos, 83 anos, morreu esta terça-feira. Rui Cardoso, editor de internacional do Expresso,escreve-lhe uma carta de despedida, eles que se conheceram no espaço mais íntimo do jornalismo: a redacção

Quando comecei a colaborar no “Diário Popular”, em finais de 1977, já não fui a tempo de conhecer todos os grandes repórteres que tinham feito a grandeza do jornal. Dois destes eram famosos e iguais em valor profissional, ainda que opostos no plano das ideias: José de Freitas, já então falecido e simpatizante da esquerda, e Urbano Carrasco, que ainda conheci, incondicional do salazarismo.

Durante os anos quentes de 1974/75, o bom senso, inspirado por José Manuel Rodrigues da Silva, prevalecera e o jornal seguira o lema “trabalhadores não saneiam trabalhadores” e ninguém foi afastado por razões políticas, em nome de um bem maior que era continuar a fazer um bom jornal.

Nesta redacção, a única da imprensa portuguesa com um director eleito – Jacinto Baptista –, aprendi a profissão, vendo trabalhar grandes profissionais, infelizmente desaparecidos com o correr dos anos: Abel Pereira, meu primeiro chefe de redacção, que me dizia sempre “olha a pressa rapaz, a pressa passa mas as asneiras ficam”; Acácio Barradas, que o substituiu, eleito pelos seus camaradas de trabalho; Adelino Cardoso, Humberto de Vasconcelos, Ângelo Granja, que era tão alto que na brincadeira lhe chamávamos “o maior jornalista português”.

E havia o Baptista-Bastos, claro. Sempre impecavelmente vestido, dava-se por ele quando entrava na redacção, até porque raramente era o primeiro a fazê-lo. Com voz de trovão, elevando-se acima do matraquear das máquinas de escrever e de dúzias de conversas em voz alta ao telefone, lançava um tonitruante “bom dia camaradas” que às vezes, ao sabor das indisposições e dos ódios de estimação, evoluía para fórmulas das quais a única publicável era “bom dia a todos menos a um”.

Era um dos últimos representantes do velho jornalismo da boémia e do Bairro Alto (onde ficavam, entre outros, o “Popular”, “A Capital”, o “Diário de Lisboa”, a “Bola”, o “Record” e o “Século”), o que fazia com que pertencer a esta profissão significava estar paredes meias com a literatura, as artes, a ciência a política e a filosofia. E, acima de tudo, com a correcção da escrita e a virtuosidade no uso da palavra.

Bastos, com obra publicada, escrevia primorosamente e não tolerava tiques de escrita, modismos ou prosas escritas à pressa. Muito menos cacofonias, erros de sintaxe ou de ortografia. Ainda não se sonhava com acordo ortográfico e já ele berrava a plenos pulmões: “Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”.

Seria impensável naquele tempo encontrar nas páginas do “Diário Popular” prosas cheias de “implementar”, “imperdível”, “emblemático”, “de acordo com” e demais barbaridades hoje tornadas corriqueiras, para não falar nos desmandos vindos de quem nem fala inglês nem português e nos mimoseia com “serviços de inteligência”, “oficiais do governo”, “adictos” ou “jovens mulheres”…

Eu e o João Garcia, que naquele tempo éramos os miúdos daquela redacção, habituámo-nos a ver partir muitos daqueles que nos ensinaram a ser o que somos. Foi agora a vez do Bastos. Até sempre, camarada!

 

Fonte: Expresso | “Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”: carta de despedida para Baptista-Bastos

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«Breve reflexão sobre a minha esquisitíssima profissão» [Pedro Barroso, músico]

Breve reflexão sobre a minha esquisitíssima profissão

Tenho um grave problema pessoal e profissional. Não sei o que faço.

Normalmente as pessoas sabem o que andam a fazer: – são canalizadores, médicos, professores, carpinteiros, coisas assim.

Ora eu não. Desde que fabricaram este “acordo ortográfico” desconheço a minha profissão, e peço misericórdia por isso.

Vejamos. Eu conto.

Em pequenino era prendado e dava sempre zero na redacção. Hoje “redação, fato, receção e direção” entre muitas outras palavras, perderam o “c” portanto a coisa ficou de “facto” complicada e sem …”direcção”. Perturba. Desorienta.

Hoje digo ao autocarro “pára” e ele diz que é “para”. Quero um autocarro “para” qqr lado e ele baralha-se e …”pára”! Caos absoluto.

Em jovem, fui “actor” no TEC. Mas essa profissão, estranhamente, desapareceu. Hoje existe uma coisa a que se chama “ator” que eu situo entre os atilhos de sapatos e sei lá o quê. E eu, sinceramente, custa-me cada vez mais a dobrar; uso sapatos de pala e calçadeira e acabei por dedicar-me mais à composição e à música. Tive de abandonar.

Mas continuo com o mesmo problema grave. Não saber no fundo, como se chama aquilo que faço.
Costumo chamar ao que produzo “concertos”; embora sinta que, de facto – embora toque piano e fale francês…- um concerto é uma coisa com maestros de labita, Beethoven, Rachmaninov, etc. Ora bem. Coisas sérias, a preto e branco etc. Não é propriamente o caso. Normalmente levo camisa e vou até com a fralda de fora. Não deve ser concerto, portanto. Já não sei.

Provável alternativa deveria ser “espectáculo”. Estou hora e meia, duas horas seguidas em palco com os músicos, enfim. “Espectáculo”. Talvez. Contudo, essa expressão parece-me mais adequada ao Circo, lembra-me mais uma trupe do Circo Chen ou talvez os trapezistas do circo de Moscovo. Isso sim. Espectáculo. Ou o “Preço certo” do Fernando Mendes. “Espectáculo”! Portanto, também fico aflito perante o desafio, como podeis supor, por razões de total incapacidade em assumir tal tipo de arriscadas “performances”.

“Performances”. Bem lembrado! Poderia também usar, de facto, este termo estrangeirado; mas, francamente, “performance” parece mais tirado do Atletismo, Ciclismo ou Natação, cujos também já não são de minha pratica corrente. E quando subo ao palco, raramente é na intenção de entrar no Guiness por qualquer “conseguimento”, como pretendia a nossa inefável “Presidenta” da AR.

(mais…)

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“Esta causa é muito importante”. Subscrevam a petição para que a Carla traga bolo

Analisemos “cientificamente”, por mera curiosidade antropológica, porque não se pode nem deve comparar o que não tem comparação possível, assim como caganitas com nêsperas ou o olho do Sol com o olho do cu, aquilo em que de facto consistem as “petições” electrónicas e o que na verdade são as respectivas “assinaturas” virtuais.

Esta, por exemplo, que já 269 cidadãos — presumivelmente em seu perfeito juízo e no completo gozo de seus direitos cívicos — “subscreveram” com insuspeito vigor e não menor cagança, ao que parece apela a que certa empresa de cromos (não daqueles, dos outros, dos da bola) deixe de impingir aldrabices nos respectivos pacotinhos.

Na imagem distinguem-se perfeitamente os “dados” (nome e email) que são “exigidos” aos “subscritores” tanto desta como de qualquer outra “petição”: “Dados” esses que, escusado será dizer, podem perfeitamente ser inventados na hora. E uma hora mais tarde, ou assim, quem quiser pode mudar de computador (ou apenas de local ou de tipo de acesso à rede) e “assinar” de novo com outro nomezinho e com mais um endereçozinho de email, pode ser ao calhas e tudo.

No meu caso, por acaso, que sou um gajo sério e não gramo aldrabices, modéstia à parte, optei por “permitir” que o Fakebook preenchesse os ditos “dados” por mim (a sério, nem é preciso escrever nada, nem uma única letrinha) e depois, para “assinar” a “petição”, só tive de me dar à canseira de carregar no botão verde que diz… “Assinar Petição”!

Tudo “comme il faut”, está bem de ver. Ah, que maravilha, estas “petições” electrónicas são uma delícia, ele é só comodidades, não há cá chatices nem papeis nem nada, e depois ninguém verifica coisa nenhuma, pois claro, aquilo é tudo perfeitamente legal (e legítimo e impec), todas as “assinaturas” são válidas, mesmo as inválidas, que são quase todas elas mas isso agora não interessa nada, o que interessa é que “em 15 dias”, como afirma este escroque, não sei quê, trau, já está, mamã, fui eu que fiz, chamem-me Tarzan.

E por falar em Tarzan, que também era um cromo ruim, pelava-se igualmente por dar punhadas no peito e meter-se em macacadas, descobri lá na fábrica das petições uma outra que (esta sim, sobre a primeira estava a brincar, foi uma reinação inocente) “assinei” de facto. Ei-la:

Causa extremamente meritória, sem dúvida! Ora, portantos, qué-se dezer, “assinei” esta “petição” e daqui “apelamos também à subscrição” da dita, avante, portugueses, vamos todos cumprir o nosso dever cívico, para que alcancemos o desiderato, etc. e tal, trata-se de um desígnio nacional, é preciso que se consiga — “por todos os meios ao nosso alcance” — que a Carla traga bolo. Como podem aliás ver no comentário que deixei lá, dirigido aos valorosos promotores de tão meritória “iniciativa”, é uma vergonha que a Carla não traga bolo!

E ainda há quem se atreva a gozar com estes patrióticos assuntos, ele até há uns gajos desconfiados de que isto das petições não passa de uma vigarice de todo o tamanho.


EU referendum petition: 77,000 signatures removed as fraud investigation launches
Parliamentary officials launch formal investigation into petition calling for second referendum
The Independent

É um escândalo! Esse pasquim abjecto, The Independent, pffff, como se atreve a pôr em causa a “causa” das petições, hem, ao que chega o atrevimento, mas que morcões.

 

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“OCTANAS: Ocorrência: Censurado pelo Público…”

Ocorrência: Censurado pelo Público…

Octávio dos Santos

… Ou, mais correctamente, por algumas pessoas no Público. Hoje, no meu (outro) blog Obamatório, publiquei o meu artigo «Histeria histórica»… integralmente, quando o objectivo inicial era apenas reproduzir do mesmo um excerto. E há mais de um mês: no passado dia 12 de Fevereiro enviei-o àquele jornal para ser editado, mas apenas electronicamente – a sua elevada dimensão (quase 14 mil caracteres) tornava a sua passagem a papel improvável, se não mesmo impraticável.

Porém, no dia 23, e depois de me ter garantido, em conversa por telefone no dia 20, que ele seria publicado a 22, Nuno Ribeiro enviou-me uma mensagem em que me informava de que, afinal, e após uma «avaliação», o meu texto não sairia. Em conversa por telefone posterior com o actual editor de opinião do Público perguntei-lhe repetidamente quem efectuara essa «avaliação» e o que se concluíra nela – isto é, quais os motivos concretos que haviam levado à reversão da decisão inicial. O meu interlocutor recusou-se a responder, reiterando que o meu artigo era «impublicável», e aconselhou-me a recorrer ao actual director, David Dinis. O que fiz…

… Por correio electrónico nesse próprio dia, 27 de Fevereiro, tendo recebido uma resposta a 8 de Março. Nela, finalmente, tive conhecimento da «justificação» para a reprovação de «Histeria histórica»: é «ofensivo»… não segundo DD, que alegou não o ter lido, mas sim segundo as tais pessoas – o editor de opinião, de certeza, e os directores-adjuntos, talvez – que fizeram a tal «avaliação». Na minha réplica desafiei o director a apontar-me específicas e indubitáveis calúnias, erros, falsidades, mentiras, contidas no meu artigo. Até ao momento não o fez (aliás, não voltou a responder-me) e também não mandou publicá-lo. Portanto, e como «quem cala consente», deve-se depreender que, lamentavelmente, optou por ratificar a decisão dos seus subordinados, atentatória da liberdade de expressão, minha e não só.

É a primeira vez, em mais de 20 anos de colaboração, que um artigo meu é recusado pelo Público. Já fui alvo de discriminação e de censura, tentadas e concretizadas, por vários indivíduos e instituições, mas nunca, até agora, tal acontecera a partir do jornal fundado por Vicente Jorge Silva. Fica desde já aqui a (primeira) denúncia… que, todavia, não esgotará a minha reacção a esta indigna, intolerável ocorrência.

Publicada por OCTÁVIO DOS SANTOS à(s) 8:30 da tarde

 

[Transcrição integral, incluindo “links”: OCTANAS: Ocorrência: Censurado pelo Público…]

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