Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Angola

O que diz Pacheco

Do programa “Quadratura do Círculo”, emitido em 18.05.17 pela SIC Notícias, parece-me aproveitável a parte em que José Pacheco Pereira dá pancada (que não lhe doam as mãos!) no chamado “acordo ortográfico”.

Foi aliás esse mesmo o primeiro tema da tertúlia, se bem que os demais convivas, moderador incluído, se tenham limitado a ou debitar as larachas do costume (Jorge Coelho, pois claro) ou perorar vigorosamente que nim, ah, e tal, eu até acho que coiso mas patati patatá (Lobo Xavier).

Por conseguinte, não se aproveitando mais nada dos 20 minutos iniciais da gravação, transcrevo em baixo — quase na íntegra — apenas o que diz Pacheco.

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«A língua é a nossa quê?» [jornal “Folha 8”, Angola]

A língua é a nossa quê?

Redacção F8

Angola terminou o seu diagnóstico sobre a aplicação do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa nas escolas, com a confirmação de alguns aspectos que já tem vindo a levantar como preocupação para a sua ratificação.

A informação foi avançada pela porta-voz do encontro da Comissão Multissectorial para a Ratificação do Acordo Ortográfico, que esteve, esta quinta-feira, reunida em Luanda, para analisar o relatório de balanço de trabalhos técnicos e formação de quadros dos ministérios integrantes da comissão.

Segundo Paula Henriques, o encontro teve como objectivo fazer o balanço das actividades desenvolvidas pela comissão e a apresentação do relatório de diagnóstico sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aplicado nas escolas, em 2016.

A responsável sublinhou que se concluiu com o estudo, realizado em várias escolas de todo o país, junto de professores e alunos do segundo ciclo do ensino secundário, “que se confirmam alguns aspectos que Angola já tem vindo a levantar como preocupação e cujo resultado do diagnóstico a comissão multissectorial encaminhará ao Conselho de Ministros”.

Paula Henriques observou que Angola levantou já desde o primeiro momento, a questão da necessidade de se regular a forma de utilização das letras k, w e y, o que o Acordo Ortográfico não faz.

De acordo com a porta-voz, este não é o primeiro estudo, daí a confirmação de questões já levantadas por Angola, como a “facultatividade” – implícita e explícita – e não sistematização do acordo.

“É uma preocupação que será submetida ao Conselho de Ministros”, disse Paula Henriques, acrescentando que enquanto aguardam por novas instruções daquele órgão, continuarão a desenvolver outros estudos relacionados com a elaboração do vocabulário ortográfico angolano.

Com esses estudos, Angola pretende analisar a viabilidade da aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa nas escolas.

Há um ano, o ministro da Educação de Angola, Pinda Simão, disse que estavam em cursos inquéritos à percepção da utilização do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, no seio da população, dos estudantes e dos professores, que vão contribuir para a ratificação por Angola.

O Governo angolano ainda não decidiu sobre a ratificação do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, situação igual à de Moçambique.

Em Portugal, a moratória sobre a aplicação do novo acordo, de 1990, terminou a 13 de Maio de 2015, data a partir da qual a sua utilização passou a ser obrigatória.
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Viva o Português de Angola!


(…) uma nova realidade linguística em Angola, a que chamamos “português de Angola” ou “angolano”, à semelhança do que aconteceu ao brasileiro ou ao crioulo. Embora em estado embrionário, o “angolano” apresenta já especificidades próprias (…). Pensamos que, no nosso país, o “português de Angola” sobrepor-se-á ao “português padrão” como língua segunda dos Angolanos.
Amélia Mingas

Nota 1: como se vê pelas duas amostras antecedentes, os acordistas não se atrevem a estropiar as páginas de ou sobre Angola.
Nota 2: decidi não corrigir “rectificação”. É uma bela de uma gralha, não pentelhemos, até porque não significa seja o que for. O que tem significado nesta notícia, isso sim, é a expressão “ou não”. Treme, Malaca!

 

Acordo Ortográfico em discussão

Jornal de Angola – Online, 12.05.17

Os membros da Comissão Multissectorial para Rectificação do Acordo Ortográfico, com vista à sua ratificação, vão em breve apresentar ao Conselho de Ministros a posição sobre o processo, que vai ditar a adesão ou não ao acordo. 

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Integrada pelo ministro da Educação, Pinda Simão, da Comunicação Social, José Luís de Matos, e da Administração do Território, Bornito de Sousa, além de técnicos e investigadores, a comissão analisou o trabalho da primeira fase do diagnóstico sobre a aplicação em Angola do Acordo Ortográfico de 1990. “Não é só Angola e Moçambique que não concluíram o processo”, disse a porta-voz da comissão, Paula Henriques, acrescentando que existem outros países que também não o concluíram.

“O processo não é linear e em função de cada uma das nossas realidades, vamos fazer a devida análise e ver os prós e contras até à decisão final”, sublinhou Paula Henriques, que acrescentou que a questão não é se Angola avança ou não com a adopção do acordo ortográfico. O fundamental, explicou, é ver até que ponto pode ou não ser viável a sua aplicação nas escolas. Paula Henrique esclareceu que nenhuma escola angolana adoptou o Acordo Ortográfico até agora e explicou que apesar de o país não ter adoptado o acordo, tal não pressupõe que esteja à margem dos ditames normativos ou da Lei. “Não adoptámos o acordo ortográfico de 1990, mas continuamos a utilizar o de 1945, que é também uma Lei, ainda em vigor”, sublinhou Paula Henrique. Na reunião de ontem, a segunda, os membros fizeram o balanço das actividades realizadas e analisaram o relatório dos trabalhos técnicos e fizeram o diagnóstico da aplicação do acordo ortográfico nas escolas.

A reunião avaliou o Relatório das Actividades 2006-2017 e prestou informação sobre os documentos produzidos pelas instituições, protótipo das bases de dados, antroponímia, toponímia e vocabulário ortográfico nacional.

Fonte: Acordo Ortográfico em discussão | Política | Jornal de Angola – Online

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Angola em ‘Desacordo Ortográfico’

Não entendi lá muito bem algumas passagens deste texto (não terá sido revisto, talvez) mas isso pouco importa. O que interessa é que nele se demonstra mais uma vez que Angola rejeita o AO90 e que os angolanos mantêm-se firmes na defesa da sua Língua nacional.

 

Um ataque pessoal a Camões

Indira dos Santos | 1 de Maio, 2017

Não entendo esta ideia da obrigatoriedade linguística. Faz-nos regredir ao tempo, que não vivi, da política colonial do assimilacionismo em África e que de certa medida anulou o pluralismo das línguas nativas e dos discursos periféricos emergentes.

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A língua não devia aprisionar identidades. Eu não sou a língua que falo mas falo a língua que escrevo. O desacordo ideológico é bem-vindo ou pelo menos devia sê-lo quando o assunto é a cultura das línguas.

Devíamos debater, o debate é filosoficamente “obrigatório”, sensato, diverso, correto ou correcto o português vernáculo foi apartado pela própria língua portuguesa- acordo ortográfico, facto consumado em Portugal… fica a dúvida. Talvez devêssemos actualizar a oralidade no alfabeto angolês alfabeto de uma força discursiva que se Camões estivesse vivo reformularia Os Lusíadas, ou acrescentaria o xé, o cá, o ocó, acá… líricas, de “Os Lusíadas de Angola”. Foi a língua portuguesa que fez Camões poeta ou as viagens pelo mundo? Quem nos faz poetas, escritores, romancistas, mulheres e homens de letras? Os livros. As pessoas. A cultura dos lugares. As palavras do alfabeto, alfabeto de origem grega, (alphábetos mestiçado ou estrangeirado com o latim). Um dicionário. É necessário um dicionário.

O dicionário! O primeiro dicionário da “angolanidade” e as suas ramificações, é possível num só livro colocar os universos simbólicos e linguísticos de um país que se vê confrontado, excluído e absorvido pelos vários mundos culturais. Vamos abrir esta porta, este território que anda sobrevivido pelos códigos de rua, como no antigamente fora sonhado pelos intelectuais do musseque mas que precisa ser matéria nas escolas.

Com certeza que nascerão heterónimos e os jovens do meu bairro que jogam damas com tampas de cerveja serão os próximos poetas e dramaturgos. O modelo ortográfico para o ensino em Angola tem um peso de consciência intelectual enorme. Etnocentrismos postos de parte este modelo deve condensar todos os caminhos. Tem que ser o caminho.

O caminho da unidade angolar, da fonética, da oralidade, da escrita criativa, do multiculturalismo angolês. Um dicionário da metamorfose linguística: Ganguela, Kikongo, Chócue, Latim, Kimbundo, Inglês, Umbundo, Holandês, Português, brasileirês,…tanto. Imaginem como o mundo seria enfadonho se vivêssemos todos em acordo. Há  dois dias desapareceu-me o Desacordo Ortográfico, o livro. O título é sugestivo e confesso que foi um dos pressupostos para a compra. É deste livro que provêm as ideias para o alfabeto angolês e a dialectologia nacional.

O livro é uma (re)união de escritores de língua oficial portuguesa em desacordo com a noção conservadorista de um vocabulário único, mas mais que isso, é uma celebração viva da liberdade literária. Uma produção artística em diferença que rompe com a rigidez normativa do “lusismo” e apresenta soluções (ou contra-percepções) verbais a nível sintáctico e morfológico.

Luandino Vieira, Pepetela, Ondjaki fazem parte dos geniais que tiveram a audácia de escrever em “mau” português o Desacordo Ortográfico. O diálogo fora criado a partir da similaridade e da diversidade que nos remonta para um convívio linguístico onde a língua portuguesa é apenas um dos códigos das nacionalidades /internacionalidades dos escritores. Fica a saudade do livro e a vontade de comprar outro Desacordo Ortográfico. E no futuro quem sabe o “Lusíadas de Angola”.

[Transcrição de: Um ataque pessoal a Camões | Artigos | Opinião | Jornal de Angola – Online]

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A loba e a porca

Este artigo do “Jornal de Angola” não tem qualquer interesse, à primeira vista, dado afinar pelo diapasão “técnico” do costume (a treta da “revisão”), mas uma segunda leitura permite-nos perceber um fenómeno já nada estranho: afinal, este fulano, que ainda há menos de um ano dizia cobras e lagartos do AO90, agora posiciona-se claramente para que lhe arranjem um tachinho — também para ele, pelos vistos, a porca da ortografia tem mais tetas do que a Lupa Capitolina — na putativa CTR. A filial angolana, no caso, que as tetas da loba são muito flexíveis, bem esticadas chegam a quatro Continentes.

De facto, os dois textos do mesmo autor são de tal forma contraditórios, na forma e no conteúdo, na adjectivação e no posicionamento, na quase violência de um e na total passividade de outro, que a gente fica a magicar: o que diabo terá acontecido a este homem entretanto? Que perfume lhe aflora hoje as ventas quando há tão pouco tempo torcia com nojo o nariz a um tão fedorento assunto como é o AO90?

Revisitação ao dogmático Acordo Ortográfico

Filipe Zau |*

8 de Abril, 2017

Das vinte e uma Bases do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) há, segundo o Parecer Oficial de Angola, aspectos que são considerados positivos, outros que justificam reponderação e outros ainda que geram dificuldades educativas.

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A especificidade deste assunto leva-nos a transcrever por partes o documento editado, em 2010, pelo Ministério da Educação da República de Angola, com o título: “Síntese das sínteses do parecer sobre o Acordo Ortográfico de 1990”. O nosso propósito é de proporcionar uma maior difusão pública sobre a necessidade de se “rectificar para se ratificar” o AO90, face a uma posição crítica e não exclusiva do Estado Angolano.

De salientar que, ultimamente, a Academia de Ciências de Lisboa (ACL) divulgou um documento aprovado em plenário, intitulado “Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” que, de certo modo, se associa ao movimento de críticos ao texto do AO90, constituído por intelectuais com um número relevante de académicos de vários países de língua oficial portuguesa (veja-se em http://www.acadciencias.pt/documentloads/7764123_ao1990_acl.pdf ).

A ACL, enquanto “órgão consultivo do Governo português em matéria linguística” considera, entre outros aspectos, que o texto legal AO90 é, por vezes, “ambíguo, omisso e lacunar” e que o mesmo não estabelece “uma ortografia única e inequívoca, deixando várias possibilidades de interpretação em muitos casos”, alertando que tal facto “tem provocado alguma instabilidade ortográfica”.

Critica, por outro lado, o Vocabulário Ortográfico Comum (VOC), coordenado pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), do qual se desconhecem os critérios adoptados pelas equipas responsáveis. Considera que o mesmo “apresenta versões específicas para cada país, o que contraria o espírito e o propósito de unificação ortográfica do texto legal”. Acrescenta, ainda, que o preâmbulo do AO90 “previa a elaboração taxativa de um vocabulário, não de vários, que reunisse as grafias comuns”.

De acordo com o Parecer Oficial de Angola, na Base 1, “do alfabeto e dos nomes próprios e derivados”, consideram-se positivos: a concentração, numa só, das Bases I, II, IV; VIII, e LI do documento de 1945; a explicação do alfabeto, permitindo várias designações para certas letras; a integração do alfabeto das letras K, W e Y nos casos explicados; a aceitação de combinações gráficas ou sinais diacríticos não peculiares à língua (nos casos explicados).

Justificam reponderação: a não explicação de normas para o uso do K e do W, nos casos de influência das línguas bantu e malaio-polinésias; a diferença de critérios nos topónimos terminados em d; a oscilação k/qu, mesmo em línguas de origem europeia.

Algumas das dificuldades educativas: porque aceitar David e Davi, mas não Madrid/Madri ou Valhadolid/ Valhadoli (só sendo válidas as que contêm d); note-se o uso de kilo-watt, mas quilograma… (Houaiss já só considera a forma quilo, mas em grafias não canónicas: quilcampera (?), quilohertz (?), quilochom (?)… Como explicar isto aos alunos? Em que critérios deve o professor firmar-se?

Na Base II, “do h inicial e final”, consideram-se positivos: a suspensão de um segmento da Base III de 1945 (a suspensão nas formas hei, hás, há… após os pronomes intercalados no verbo haver: di-lo-ei, fá-lo-á, vê-lo-emos…; a manutenção quase inalterada do texto de 1945 (bastante claro no caso desta Base); a manutenção do hífen, à semelhança de 1945.

Justificam reponderação: a razão etimológica invocada nesta base entra em contradição com os fundamentos da Base IV (imprimindo incoerência ao texto); o título da Base deveria refletir o “h medial”, uma vez que ele é, nela, considerado; a supressão da referência a «húmido» e a «humor» (compreende-se, por causa da situação brasileira, mais isto gera incoerência mais uma vez), pois contradiz a essência da base (a razão etimológica).

Algumas das dificuldades educativas: anti-higiénico, sobre-humano, sub-humano… Note-se que, no caso de formas como «desumano», «inumano», «inumar», «inóspito»… se optou, em 1945, por uma outra solução, desaparecendo o “h”. Por que razão não reponderar esta questão? Haverá disparidade de soluções que poderiam ser minoradas. E se o aluno escrever «úmido». Deve ser-lhe assinalado erro?

Na Base III “da homofonia de certos grafemas consonânticos”, consideram-se positivos: a discriminação que é feita, tal como em 1945, das várias situações de homofonia entre grafemas: ch/x, s/ss/c/ç/x, x/z… Justificam reponderação: fala-se na necessidade de diferenciação dessas «homofonias», mas o único suporte explicativo é o da memória; fica isto agravado pelo facto de, na «introdução» a esta Base, se ter eliminado a referência etimologia; não se explica como resolver divergências entre grafias duplas.

Algumas das dificuldades educativas: parece-nos pouco, numa perspectiva didáctica; sendo importante, a memória deveria ser complementada com conhecimentos de «História da Língua» (cf. Etimologia); sem conhecimentos de etimologia, os professores não encontrarão explicações para certos usos.

Na Base IV “das sequências consonânticas”, consideram-se positivos: a tentativa de aproximação entre normas euro-afro-asiático-oceânica e a brasileira (apesar da complexidade desta Base).

Justificam reponderação: a não consideração da Base VII (de 1945), que esclarecia múltiplas dúvidas; o empobrecimento perante outras línguas (não apenas românicas), e a maior dificuldade na aprendizagem dessas línguas; a incoerência desta Base perante pressupostos da Base I (aqui anula-se a razão etimológica; naquele Base (a II), o h justifica-se por razões etimológicas; a explosão de facultatividades (já existiam em 1945, mas em muito menor grau); as frequências referidas na nota explicativa não são nem exactas, nem pertinentes (o que conta são as ocorrências).

Algumas dificuldades educativas: «súbdito», «subtil», «amígdala», «diafragma», «fragmento», «designar», «amnistia», «indemnizar», «omnipotente», «aritmética»…; «ação» (mas «action», «accion», «aksjon», «aktion», etc…); tais facultatividades só não consideram a divergência entre as normas europeia e brasileira, porquê? Fala-se em 0,54% (600 em 110.000); ora considerando os cognatos, só a palavra acção envolve mais de 4.000 modificações…

Ou se repondera a Base ou se rectificam os valores, que estão longe da realidade. Em outras edições continuaremos a divulgar o Parecer Oficial de Angola sobre as outras dezoito Bases do AO90, tal como constam do respectivo documento.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

[Destaques e “links” meus. Imagem copiada do “blog” Garfadas Online.]

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“Lobbies”? Cartéis? Qual quê! Nada disso existe em Portugal!

Presumo que não seja necessário enumerar as inacreditáveis aldrabices contidas nesta “notícia” (altamente suspeita, de resto, tão evidentes são os seus intuitos de intoxicação da opinião pública), mas ainda assim devo salientar — deste incrível chorrilho de patranhas — o mais flagrante insulto à inteligência das pessoas normais: as editoras, que todos os anos mudam os manuais escolares (geralmente trocando apenas de capa e movendo um ou outro parágrafo de uma página para outra), vêm agora chorar baba e ranho porque, coitadinhas, que até não ganham milhões nem nada com esta mina, teriam de «esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência.»

Mas estes tipos julgarão mesmo que os portugueses não passam de perfeitos imbecis?

«O prazo para a estabilização dos livros também raramente é cumprido. Uma simples mudança de parágrafo ou de imagem numa capa nova e diferente tem dado origem a livros novos que a escola adopta e torna obrigatórios para todos os alunos.»
“Negócio dos manuais escolares torpedeia lei de reutilização” – RTP, 13 Janeiro 2017

Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023

 

Para além do problema diplomático que causaria uma iniciativa portuguesa para rever o acordo, a medida implicaria refazer um trabalho de adaptação à nova ortografia que já abrange 600 mil alunos.

 

As “Sugestões para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (AO), nesta semana levadas à Assembleia da República pela Academia de Ciências, dificilmente passarão do plano das ideias. E não apenas pelas falhas “procedimentais” invocadas nesta semana pelos deputados para chumbarem a proposta. Nesta fase, mesmo uma revisão parcial da nova ortografia implicaria mudanças difíceis de comportar. E com custos materiais. Desde logo na Educação.

Para além da necessidade de reeducar perto de 600 mil alunos, abrangidos desde 2011-12 pela obrigatoriedade do acordo e nada familiarizados com algumas consoantes mudas e acentuações que a Academia quer agora recuperar (ver caixa), a aplicação da proposta implicaria um processo de revisão de conteúdos pedagógicos, dos manuais escolares aos recursos online, que teria de ser negociado – ou pelo menos debatido – com os principais fornecedores desses serviços. Ou seja: as editoras.

A alternativa, no caso dos manuais, seria esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência. Mas em muitos casos essa opção implicaria uma espera de seis anos, até 2023, para que os livros adoptados no presente ano lectivo chegassem ao final do seu ciclo natural de vida.

Nessa situação estão actualmente as obras de todas as disciplinas do 1.º ano, com excepção da Educação Moral, de todas as disciplinas do 2.º ciclo exceptuando a mesma Educação Moral, Educação Tecnológica e Educação Visual – Inglês também, mas o impacto não se reflectiria nesta obra – e ainda as disciplinas de Física e Química A, Matemática A, Matemática B, Matemática Aplicada às Ciências Sociais e Português dos cursos científico-humanísticos.

Talvez por isso, as editoras preferem manter-se à margem do debate relançado nesta semana pela Academia de Ciências. “O Acordo Ortográfico é actualmente uma questão que, por ser um tratado internacional, diz respeito à diplomacia portuguesa, com o apoio técnico dos linguistas. Qualquer avaliação do impacto de eventuais alterações ao nível do ensino é da responsabilidade do Ministério da Educação, entidade que regula o sector”, defendeu ao DN fonte oficial da Porto Editora.

Quando o actual acordo foi aplicado, recorde-se, o Ministério da Educação optou por uma introdução faseada, com os livros a serem adaptados à medida que eram introduzidos novos manuais e, também nas escolas, a optar-se pela progressividade na utilização dos novos termos. As editoras até foram fortes opositoras do acordo no passado, mas acabaram por utilizá-lo a partir do momento em que foi adoptado pelo governo e pela Assembleia da República.

Um precedente perigoso

Uma iniciativa nacional para rever o acordo poderia também abalar o equilíbrio precário em que assenta o AO. Actualmente, o entendimento vigora em Portugal, Brasil, Timor-Leste, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A Guiné-Bissau ratificou-o, mas não o aplica na prática. Angola continua a adiar a ratificação.

Mexidas, nesta fase, poderiam pôr em causa todos os avanços dos últimos anos, o que, não desagradando aos opositores do acordo, em Portugal e nos outros países de língua portuguesa – dificilmente seria arriscado pelos partidos de governo – PS e PSD – comprometidos com a aplicação.

Na semana passada, a questão do Acordo Ortográfico foi motivo de controvérsia entre o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e Manuel Alegre, membro da Academia das Ciências. O primeiro mostrou-se pouco disponível para mudanças no AO, acto considerado “prepotente” pelo segundo. “Como diria Salgado Zenha, unicidade e autoritarismo andaram sempre de mãos dadas”, acusou o histórico socialista, dirigindo-se ao MNE.

Fonte: Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023, “DN”, 12.02.17

[Destaques e “links” meus. Evidentemente, corrigi os erros de ortografia do original.]

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