Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: brasileiro

O Estado de cAOs: ótica por óptica

A ferramenta de pesquisa do índice cAOs, a funcionar desde Janeiro de 2015, serve em especial para encontrar bacoradas acordistas nas páginas do “Diário da República” e da agência LUSA e também nos sites do Governo e da Presidência.

O critério de busca, desta vez, foi por uma única palavra: “ótica”.

789 resultados ao longo de 10 páginas…

Documentos oficiais, concursos, despachos, éditos, comunicados.

 

Vejamos um desses documentos, para amostra.
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O que diz Pacheco

Do programa “Quadratura do Círculo”, emitido em 18.05.17 pela SIC Notícias, parece-me aproveitável a parte em que José Pacheco Pereira dá pancada (que não lhe doam as mãos!) no chamado “acordo ortográfico”.

Foi aliás esse mesmo o primeiro tema da tertúlia, se bem que os demais convivas, moderador incluído, se tenham limitado a ou debitar as larachas do costume (Jorge Coelho, pois claro) ou perorar vigorosamente que nim, ah, e tal, eu até acho que coiso mas patati patatá (Lobo Xavier).

Por conseguinte, não se aproveitando mais nada dos 20 minutos iniciais da gravação, transcrevo em baixo — quase na íntegra — apenas o que diz Pacheco.

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Uma questão de ótica, ou seja, para surdos.


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Vimax, Optivisão, Fábrica de Óculos

Eduardo Cintra Torres

Jornal de Negócios, 10.05.17

Os reclames da Fábrica de Óculos estão cheios de imagens e de frases. A desatenção à ortografia é notável pelo exagero de erros.

 

Os anúncios de óculos graduados têm uma vantagem e uma dificuldade sobre os outros: o recurso à imagem permite-lhe usar com bom proveito efeitos visuais; mas, ao mesmo tempo, se o observador os vê bem, é porque está bem servido com as lentes que usa no momento da observação.

Um anúncio das lentes progressivas Vimax procurou ultrapassar a dificuldade criando uma ficção no seu anúncio de publicidade fixa e recorrendo a uma celebridade, o actor Andy Garcia. Na imagem, Garcia, do lado direito, sorri olhando directamente o observador por detrás dos seus óculos. Vai na rua. Um homem e uma mulher que passam, um homem que conduz um descapotável e, numa barbearia do lado esquerdo, o barbeiro e o cliente, todos andam ou estão de olhos vendados. Só a criança que vai pela mão da mãe no passeio tem os olhos livres e, sem óculos, sorri ao identificar a celebridade.

O mundo é cego sem lentes progressivas. Os transeuntes e os da barbearia não vêem o que é importante, nomeadamente a celebridade que passa. A minha ignorância desconhece o que são “as ó[p]ticas mais importantes”, mas reproduzo a frase: “Nas ó[p]ticas mais importantes, Andy Garcia escolhe lentes progressivas Vimax.” O slogan “Se escolhe Vimax, escolhe ver” sugere a negativa: se não escolher Vimax, não escolherá ver, mantendo a cegueira como a que se vê na imagem.

As lojas Optivisão optaram por mostrar uma parte do anúncio desfocado, sugerindo ao observador que está a perder parte do que quer ver. Tal como Vimax, recorreram a pessoas conhecidas do público, os apresentadores Sílvia Alberto (RTP) e João Manzarra (SIC). Eles aparecem, cada um no seu anúncio, desfocados dentro duma espécie de enquadramento rectangular, que delimita a celebridade e o que está desfocado. O efeito resulta. A tendência do observador é para olhar para pessoas na publicidade; neste caso, esse poder de atracção inato prolonga-se pela estranheza inicial da desfocagem e porque, ao insistir no olhar, se percebe que se está a olhar para uma cara conhecida. Deste modo, os anúncios conseguem reter a atenção e, eventualmente, convidar à leitura do slogan em cima: “Cuide dos seus olhos e não perca o que quer ver.” A frase aplica-se a tudo o que se quer ver e aos apresentadores e aos programas em que participam e que são referidos nos próprios anúncios, através do logótipo. Nos anúncios de televisão, os reclames têm um desfecho feliz, o de os apresentadores desfocados passarem a focados. Já nos anúncios de imagem fixa, só aparecem desfocados – o que pode ser, paradoxalmente, uma vantagem para quem não aprecia os apresentadores e os seus programas.

Na região de Lisboa e na internet há um anúncio de óculos desfocados sem qualquer sofisticação e sem celebridades. Em si mesmo, o nome da empresa convida a uma publicidade básica: Fábrica de Óculos. O slogan é daqueles que eu aprecio na sua brutalidade: “Atenção. Não se deixe enganar. Esta Fábrica só Existe no Cacém. O resto são imitações.”

Os reclames da Fábrica de Óculos estão cheios de imagens e de frases. A desatenção à ortografia é notável pelo exagero de erros. Alguns deles resultam da confusão gerada em Portugal com a chamada “reforma ortográfica” imposta pelo poder político. Um desses erros é comum às três campanhas aqui referidas: “ótica”, em vez de óptica, que deve ser uma das inovações mais estúpidas do chamado “Acordo Ortográfico”. Tirar o “p” a óptica origina palavras homónimas referentes a dois sentidos diferentes, pois óptico refere-se aos olhos e ótico refere-se aos ouvidos. De forma que apetecia que o anúncio da Fábrica de Óculos, e porque não os outros dois, viesse com um “disclaimer”: “Atenção. Não se deixe enganar pelo ‘Acordo Ortográfico’. Este anúncio é sobre óptica e não sobre ótica. Para tratar dos ouvidos, consulte um otorrinolaringologista.”

[Transcrição integral de “Vimax, Optivisão, Fábrica de Óculos – Eduardo Cintra Torres – Jornal de Negócios“. Texto da autoria de Eduardo Cintra Torres, publicação em 10.05.17. Inseri “links”.]
[Imagem de topo: página principal do “diretório” [sic] de “óticas” [sic] (Portugal). Imagem de rodapé de: conta Twitter da “Fábrica de Óculos”.]

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“A unificação é uma miragem” [Helena Buescu, linguista]

 

Fantástico depoimento, extraordinária argumentação, espantoso manifesto! Não encontro os adjectivos mais adequados — nem os suficientes — para qualificar a verdadeira lição de Português que a Professora Helena Buescu deu aos deputados. Foi uma brilhante, inspiradíssima  lição de Português, sim, e foi também uma verdadeira aula de História e até mesmo de Decência, algo que não sendo disciplina curricular parece ser uma grande lacuna na formação básica de boa parte dos nossos deputados.

Tive imensa dificuldade em escolher um título para este “post”. Decidi-me por uma citação de entre muitas outras que serviriam para o efeito, de igual peso, significado e brilho.

Durante toda a aula ouve-se perfeitamente o absoluto silêncio dos deputados acordistas, o que denota com eloquência gritante a total falência dos argumentos que não têm para contrapor aos que lhes foram claramente… explicados.

Não vale a pena transcrever a lição da linguista, porque nesse caso teria de passar a escrito mais de meia hora de discurso. Este é um daqueles raros casos em que se diz “só ouvindo”. Tudo.

 

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«Falta apenas bom senso» [João Roque Dias, tradutor]

Atrás da declaração «Portugal tem sempre cumprido com as suas obrigações internacionais», o MNE é, finalmente, obrigado a vir a jogo e falar das hipóteses de o aborto ortográfico vir a ser objecto de um “coup de grâce”.

É um passo de gigante, depois do triste comportamento de avestruz durante todo este processo, por este e por todos os governos anteriores.

É também bom que o governo português entenda, de uma vez por todas, que o fim do aborto ortográfico não é o fim da Pátria nem da honra do Estado. Face ao miserável estado da ortografia em Portugal depois da tentativa falhada da sua aplicação em Portugal (basta o MNE dar uma vista de olhos pelo Diário da República), é antes uma atitude inteligente e patriótica. O cumprimento dos tratados não deve servir para “mostrar serviço”, quando tal lesa os interesses de Portugal. Dizer apenas, como diz o MNE, que o AO90 «está em plena aplicação» (o “plena” não passa de “palha” nesta frase), sem olhar para os resultados da sua falhada e doentia aplicação é uma declaração desonesta que deveria envergonhar o seu autor e o governo a que pertence.

O Brasil já nos ensinou duas vezes como se protegem os interesses próprios: com a Reforma portuguesa de 1911, adoptada pela ABL em 1915 e revogada pela mesma ABL em 1919 e com a Convenção de 1945, adoptada pelo Brasil (Decreto-lei 8.286, de 05.12.1945) e posteriormente revogada pelo Decreto-lei 2.623, de 21.10.1955.

“Jurisprudência”, existe. Falta apenas bom senso.

João Roque Dias

[imagem de: ILC-AO]

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“Voltar a aprender Português” [Ana Mesquita, deputada]

Confesso que foi difícil ouvir esta… “audição”. De facto, levar com a longa arenga inicial de Malaca Casteleiro é estucha que não se deseja a ninguém. No seu característico tom enfastiado e gemebundo de quem faz um tremendo favor à humanidade por aturá-la, o homem desfia as patranhas do costume, todas e, desta vez, mais algumas; chega até a fingir, este poeta do fingimento, verdadeiro artista incontinente, que é dor a dor que deveras não sente. Enfim, resumamos a estopada: são 15 excruciantes minutos de “exposição”, logo de entrada, e mais à frente o homem serve outras doses de maçada (Patranhas à Malaca, um pitéu).

Mas nem tudo se perde nesta “audição”. Quem porventura conseguir chegar ao minuto 31 da gravação sem adormecer, saltando por cima das tergiversações de uma deputada do PSD e de um colega dela do PS, então poderá escutar algumas observações acertadas da autoria da deputada Vânia Dias da Silva (CDS-PP). E de seguida, a partir do minuto 37:30, destaque especial para a extraordinária desmontagem que Ana Mesquita (PCP) faz de todos os “argumentos” aduzidos por Malaca.

Eu disse “desmontagem”? Foi lapso, peço desculpa. É uma verdadeira demolição.

Transcrevo em baixo o grosso das pancadas do camartelo.

[38:25] Ana Mesquita

Relativamente a esta questão, e a algumas questões que aqui nos trouxe, nós temos de facto muitas dúvidas. Por um lado, quando se fala da questão da uniformização, e o senhor professor colocou de outra forma, de uma “unidade essencial”, temos alguns problemas quando há criação de novas palavras, que não existiam sequer no português do Brasil, tudo bem, nós sabemos que depois há aqui questões próprias de cada Língua mas parece-nos que vamos então em sentido diverso, vamos num sentido de divergência. Por outro lado, quando nós fazemos uma análise comparativa relativamente a esta matéria é impossível afirmar que esta uniformização da grafia possibilite de facto uma suposta “unidade essencial”. E eu aqui passaria a um exemplo mais concreto. É porque, se nós tivermos a oportunidade de fazer uma análise comparativa do que são versões portuguesas e versões, por exemplo, de português do Brasil, de obras comuns, substituindo apenas e só a questão da grafia, no sentido da sua uniformização, o texto continua a não fazer sentido nenhum! Ou seja, há diferenças que suplantam imensamente a questão da tal “unidade gráfica essencial”. E, portanto, até que ponto é que, então, conseguimos algum tipo de uniformização? Porque não nos parece que esteja a ser conseguida! Porque se nós fizermos esta leitura vamos continuar a ter, de facto, imensas, um mundo, um mar de diferenças, que não é fácil ultrapassar. Gostaríamos também de perceber, e isto aliás até se liga com outra questão: é que no próprio “Guia Rápido para a Aplicação da Nova Ortografia”, já de há algum tempo, se dizia que o acordo uniformizava não a forma de todas as palavras mas as regras da escrita. Ora, se nós fizermos esta comparação, nem uma coisa nem outra. De facto! E, portanto, o que é que nós temos aqui em cima da mesa, verdadeiramente?

Outra questão que nós colocamos é que consideramos que a política da Língua não pode ser um resultado, um mero resultado da dimensão das comunidades falantes, dos interesses editoriais subjacentes a cada uma destas comunidades, e que deve partir de um pressuposto que é a igualdade entre os vários países. Ora, assim sendo não podemos nunca falar de dois lados neste acordo. Temos de falar de uma vasta comunidade com muitos países e, portanto, até que ponto nós estamos a falar efectivamente disto, porque o que nos parece é que há uma subjacência, o que está subjacente aqui é fundamentalmente Portugal e o Brasil. Ora, há mais países aqui envolvidos. 

Por outro lado, temos outra dúvida relativamente a uma questão que foi aqui levantada, e muitas vezes é levantada, é que este processo foi também um processo de simplificação, no sentido de ser mais fácil para as crianças aprenderem a Língua e poderem de facto entendê-la melhor e que, portanto, voltar para trás era um desastre porque já houve muitos milhares de crianças que foram formadas com esta nova grafia. Não estaremos nós a menorizar quer as crianças, quer os professores, que nomeadamente aprendem línguas estrangeiras com uma complexidade em termos daquilo que é a escrita e a não correspondência da fórmula escrita àquilo que é expresso, imensa, não é?, pensemos, se calhar, no Inglês, no Francês, no Alemão, em que se nós formos a ler aquilo, tal e qual, para nós é dificílimo, e no entanto as crianças todos os dias aprendem uma Língua nova, se for necessário. Portanto, porque é que é tão mais difícil voltarem a aprender o Português?! Numa formulação antiga. Seria assim tão complicado? Num contexto que eu aqui também deixava, que é o seguinte: é verdade ou não é verdade que a esmagadora maioria dos livros que existem, nos acervos públicos, estão ou não estão escritos na grafia anterior? E, portanto, se a maior parte dos suportes, hoje em dia, da Língua, ainda hoje, não estão eles ainda produzidos no acordo anterior ao acordo ortográfico de 1990? E se essa não é de facto a maior base de suporte que, ainda assim, temos disponível.

São questões que nós temos e evidentemente interessa-nos detalhá-las e perceber um pouco o seu alcance e eu deixava de facto uma última questão. Que é: qual é o actual ponto da situação? Porque nos parece, efectivamente, que a aplicação e o uso corrente, que está neste momento, quer nas escolas — onde também há muitos problemas — mas ao nível  da sociedade em geral, na comunicação social, nos documentos oficiais, é de facto de uma grande irregularidade, que eu não sei se alguma vez, nos tempos mais recentes, tivemos a oportunidade de assistir a um fenómeno desta dimensão.  É porque em certas alturas, e nomeadamente na comunicação social, ninguém se entende a escrever! Todos os dias temos exemplos que nos devem merecer preocupação e reflexão.

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