Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

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«Admirável Língua Nova (Parte III)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte III)

Não há duas pessoas que sigam o Acordo Ortográfico e que concordem quanto àquilo que é o Acordo. A “norma” (com setenta aspas de cada lado) é lábil, difusa, imprecisa – só não vê quem não quer ver.

Manuel Matos Monteiro

6 de Julho de 2017, 15:22

(Este artigo dá continuidade aos anteriores Admirável Língua Nova (Partes I e II), aqui publicados, respectivamente, em 20 de Dezembro de 2016 e em 17 de Fevereiro de 2017)

[Textos esses que foram também aqui reproduzidos, no Apartado 53: o 1.º, o 2.º e ainda um outro, anterior.]

———————

Caro leitor, pedia-lhe que prestasse atenção às seguintes frases.

“Os telespetadores estavam expetantes.”

“O país vive sob o espetro da corrução.”

“Chuva para Lisboa.”

Para o carro!”, disse perentoriamente.

“Desliga o interrutor.”

“O conetor serve, como o nome indica, para conectar.”

Não são frases escritas por semianalfabetos. São frases redigidas tendo por base o Acordo Ortográfico.

Consultando o (excelente) Novo Prontuário Ortográfico, de José M. de Castro Pinto, a grafia “telespetadores” é a única possível. “Expetantes” é uma palavra que, por exemplo, o Portal da Língua Portuguesa e a Infopédia (Porto Editora) abonam. O Dicionário do Português Atual Houaiss (edição de Agosto de 2011) acolhe apenas “espetral”, “espetro”, “espetrofobia” (entre dezasseis palavras em torno de “espetro”), todas sem o c. “Corrução” e “corrupção” são acolhidas pelo Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto de Editora, de 2010. A frase “Chuva para Lisboa”, que foi o título principal da primeira página de um conhecido jornal, tanto pode ser, à luz do Acordo, uma previsão meteorológica, como uma situação de paralisação causada pela chuva (o que era o caso da notícia). Em “Para o carro”, podemos ter a ordem de ir para o carro ou de parar o carro. Quanto a “perentoriamente” (ou a “perentoriedade”), como afiança o Portal da Língua Portuguesa, temos (Portugueses) de escrever assim e ponto final, enquanto o Brasil escreve “peremptoriamente”. Azar o nosso… É um de muitos casos em que o igual passou a ser diferente. Mas o Acordo era para uniformizar, pois claro. Lembremos Maria Regina Rocha: “[H]avia 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, facto – fato), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, abstracto e abstrato resultam em abstrato), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes. Está a ler bem: com o Acordo Ortográfico, aumenta o número de palavras que se escrevem de forma diferente!!!” No mesmo portal, temos “conetor” e “conector”, mas apenas “conectar”.

“Interrutor”, uma palavra inadjectivável, merece um parágrafo. Verifique o leitor com os seus olhos tal grafia na Infopédia ou numa edição do Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, com o Acordo, ou no próprio Portal da Língua Portuguesa. Enquanto adjectivo relativo àqueles ou àquelas que interrompem, tem os “interrutores”, as “interrutoras”. E se um aluno escrever, fazendo uso da dupla grafia decretada pela Porto Editora e pelo ILTEC, na mesma construção frásica, “o interruptor, a interrutora, os interrutores, as interruptoras”, o professor deverá assinalar algum erro? Se dicionários aceitam que “sector” e “subsector” têm dupla grafia, o aluno poderá portanto escolher e escrever “o subsetor do sector”? Copiamos da Infopédia:

interrutor
nome masculino
1. aquele ou aquilo que interrompe
2. aparelho ou pequeno manípulo que permite abrir ou fechar um circuitoelétrico
adjetivo
que interrompe

Escrevemos acima: “São frases redigidas tendo por base o Acordo Ortográfico.” Mais bem dito, tendo por base a forma como dicionários ou prontuários que adoptam o Acordo registam determinados vocábulos, porquanto o Acordo, ao não estabelecer uma norma cristalina, se traduziu na divergência da interpretação daquilo que ele é, bastando ao leitor consultar dois prontuários ou dois dicionários a seu bel-prazer para comprovar esta obviedade.

Consultando dicionários com o Acordo, prontuários, livros explicativos do mesmo para verificar se a consoante é muda ou não, encontramos: a) que a consoante se mantém; b) que a consoante desaparece; c) que poderá manter a consoante ou não (dupla grafia), porque dentro de Portugal há oscilação quanto à pronúncia; d) que em Portugal e no Brasil há divergências de pronúncia e que, portanto, apesar de haver dupla grafia, num desses dois países deve escrever-se a consoante, mas no outro não (os demais países de língua portuguesa são olimpicamente ignorados nesta história do Acordo).

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‘Olâ genti conhecido’

Miguel Fernandes
A Dóci Papiaçam di Macau’s version of the patuá song written in patua by the late José “Adé” dos Santos Ferreira. Based on the original score “Lisboa é Assim”, composed by João Nobre

Do Brasil para Cabo Verde, Guiné e Macau: um estímulo à conversa em português

Começou como um perfil na rede social Instagram que desafiou a comunidade lusófona a participar num concurso de fotografia. Da iniciativa resultou um livro com as melhores imagens captadas. Da fotografia ao cinema documental foi um salto, com os responsáveis pelo projecto “Nossa Língua” a rumarem a terras longínquas. A mais recente foi Macau, onde uma equipa de filmagens esteve a rodar as primeiras cenas do segundo de quatro documentários previstos.

Existe na realidade uma língua comum nos países do designado universo lusófono? Estão estes povos a conversar entre si? A procura de uma resposta para estas perguntas levou os responsáveis pelo projecto “Nossa Língua”, sediado no Brasil, a Cabo Verde, Guiné Bissau e Portugal para a rodagem do primeiro filme de um movimento que pugna “pela conversa mundial em português”. No início do mês passado, uma equipa de filmagens associada ao projecto esteve no território para filmar as primeiras cenas do segundo de quatro documentários que tenciona produzir. O trabalho deverá ser lançado antes ainda do final deste ano. De Macau a equipa levou a vontade de poder regressar para recolher imagens que ficaram por capturar e conversar com pessoas que ficaram por entrevistar.

“Aquelas perguntas iniciais, aquela dúvida [sobre se] efectivamente falamos a mesma língua, acho que isso foi diluído. Efectivamente há uma conversa em português no mundo, mas eu acho que essa conversa tem de ser mais intensificada porque ela pode ser mais produtiva”, considerou Julio Silveira, editor e um dos rostos da iniciativa. Ultrapassada a dúvida inicial, criou-se espaço em Macau para explorar outros temas e abordar novas vertentes da língua de Camões. O também chefe de redacção do projecto “Nossa Língua” explicou que durante a estadia no território se interessou pela “história única de Macau” e pela questão do idioma: “Nós tentámos explorar a situação do português original, do patuá, no contexto da história de Macau. Tentámos entender como é que está a situação do antes e depois da transferência de soberania, [quando se] perde o estatuto da língua portuguesa, qual é o estatuto actual, quais são os interesses envolvidos do Governo de Pequim e das outras comunidades”, adiantou Julio Silveira ao PONTO FINAL.

Do outro lado do mundo, os pés banhados pelo Atlântico, vão entrevistar emigrantes da RAEM que se estabeleceram no Rio de Janeiro, para “propor um contraponto entre a situação de Macau” e de quem foi para o Brasil. A fórmula a adoptar no segundo filme será a mesma utilizada no primeiro, como explica o também co-director da série documental: “A gente tem um foco por episódio mas também continua fazendo conexões em outros países. No primeiro episódio nós focalizámos Cabo Verde mas nós pusemos em diálogo Cabo Verde, Portugal, Brasil e Guiné Bissau. No segundo episódio nós vamos ter a mesma fórmula, a gente vai ter o foco sobre Macau mas nós vamos pontuar com imagens do Brasil, África e Portugal”.

A incursão à RAEM no mês passado foi a primeira de Julio Silveira ao território, dois anos depois de também ter visitado Cabo Verde pela primeira vez. Ao comparar os dois locais, o argumentista considera que em Macau “é muito mais dramática a situação, é muito mais densa, tem uma história muito mais complicada”. Ao visitar o arquipélago da Morabeza há dois anos, um dos principais assuntos em discussão era a construção de um resort, questão que foi retomada no mês passado: “Quando eu cheguei a Macau, a primeira vez que eu peguei num jornal estava lá dizendo que tinha sido lançada a primeira pedra do casino e que quem estava fazendo era o David Chow”, recorda. “Isso é uma conversa entre Macau, na Ásia, e Cabo Verde, no meio do Atlântico. É uma conversa no campo da lusofonia e de vez em quando eu acho que o Brasil fica alheio a essa conversa. Nós não aproveitamos esse diálogo criativo e económico entre os países”, critica Silveira.

CRIOULO, O IDIOMA DA SAUDADE E DO POVO DESESPERADO

“O crioulo é uma maneira interessante e criativa de enrolar o português. As palavras saem apertadas, é como se estivesse tudo aglutinado, como se tivesse perdido algumas vogais” diz Shirley Broxado, uma das entrevistadas no primeiro episódio do “Nossa Língua”. “Para você pensar e entender o que eles [cabo-verdianos] estão dizendo precisa alma porque eu acho que o crioulo nasceu da alma desesperada do povo convivendo com o português que foi imposto a eles”, acrescenta ainda a astróloga brasileira.

No centro do primeiro episódio esteve o idioma de Cabo Verde por quem o fala e entende. Osiris Fernandes, um dos cabo-verdianos entrevistados, diz que, para ele, “a força da palavra saudade em crioulo é muito maior do que em português”: “A saudade que eu sinto enquanto cabo-verdiano que vê o mar e uma pessoa amiga e a família partindo. Esse tipo de saudade só dá no cabo-verdiano por causa da situação em que vive, num país insular, sem recursos e que sabe que em algum momento da sua vida você vai ter que perder alguém” defende Fernandes.

“É UM POUCO INGÉNUO TENTAR ESTABELECER UMA COISA QUE É VIVA E QUE ESTÁ MUDANDO TODO O DIA”

Falar da língua portuguesa é também falar do acordo ortográfico que Julio Silveira considera ser “um pouco autoritário no sentido de que ele quer enquadrar uma coisa que é viva e que está mudando o tempo todo”: “Eu acho ele um pouco desnecessário, meio burocrático e ele não vai contribuir para a comunicação entre os países. Eu leio livros publicados em Portugal, no Brasil, em Angola e há um certo nível de ruído, digamos ortográfico, mas o que é importante mesmo, que é a mensagem, o sentimento, as histórias, isso não precisa de ser regulado por terceiros”, defende o argumentista.

“Eu sou editor e lancei livros de Gonçalo M Tavares e eu tinha dificuldades de perceber o que estava escrito e meus revisores queriam mudar frases inteiras”, conta Silveira. “Então eu tinha a impressão que a língua já tinha derivado do português mas quando entrei nesse projecto eu vi que não é assim e que as questões ortográficas e até o vocabulário não são tão graves ao ponto de complicar a inteligibilidade da língua”, admite.

Eu acredito que existe uma mesma cultura lusófona, que ela é extremamente variada, que ela parte de várias línguas e idiomas, mas no fundo existe um traço comum, um legado que a gente leva – talvez não se dê conta de que leve mas ele existe – que a gente tem de recuperar, entender e aceitar como um património nosso”, conclui Julio Silveira.

CVN

Jornal “Ponto Final” (Macau), 05.07.17

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RAP no Brasil, o AO90 e a tomada de três pinos

Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier conversam sobre a Língua Portuguesa. Assunto obviamente incontornável, o “acordo ortográfico”.

Alguns excertos da gravação.

RAP (13:40): “A gente estava nos bastidores a falar sobre a maneira como o acordo ortográfico não resolve rigorosamente nada. [comentário de GD: “E cria novos problemas.”] Exacto. Até porque o acordo ortográfico ataca precisamente o único sítio onde a gente não tem muita dificuldade em entender-se. Não há muito problema para o… a gente escreve “acção” com dois cês, vocês escrevem só com um. Não interessa para muito. Agora, a maneira com às vezes a gente se desentende tem a ver com o vocabulário. Se em Portugal eu disser que «estou no acostamento porque a minha perua não tem estepe», não há um português… um português entende que se está a falar Português mas ele não sabe nada do que se está a dizer. Porque em Português essa frase diz-se «eu estou na berma porque a minha carrinha não tem pneu sobresselente. É muito diferente de «acostamento porque a minha perua não tem estepe». E portanto as nossas diferenças são às vezes de pronúncia e de sotaque e outras vezes são de vocabulário, sendo que essas diferenças nos deviam enriquecer e não afastar. E como é óbvio o acordo ortográfico não resolve em nada essa questão.”

GD: “Além de criar problemas terríveis, terríveis, que eu acho que são realmente… na minha opinião foi um crime tão grande quanto a tomada de três pinos. Eu acho que ele é uma tomada de três pinos linguística porque ele cria uma solução para um problema que não havia. Ninguém olhava para uma tomada de dois pinos e falava «hmmm, falta alguma coisa aqui!» Não existia isso. Ninguém olha para a língua portuguesa e fala «hmmm, ’tá faltando aqui… ah, esse trema, eu não aguento esse trema, não posso com esse trema, dá uma preguiça escrever esse trema…”

Lucas André Teixeira

Published on Jun 21, 2017

Experimenta Portugal’ 17 – Arte e Cultura.
Um português e um brasileiro entram num bar – Humor de Ricardo de Araújo Pereira e Gregório Duvivier
Unibes Cultural – 21.06.2017

[Nota: a ortografia do “screenshot” no topo (do Consulado de Portugal em S. Paulo) foi corrigida automaticamente.]
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Revista “Granta em Português” também no Brasil

Nova ‘Granta’ terá edição simultânea em Portugal e no Brasil

Jornal O Globo
por Bolívar Torres
01/07/2017 4:30

Publicada no Brasil pela editora Alfaguara, entre 2012 a 2015, e em Portugal, desde 2013, a revista “Granta” passará a ser distribuída de forma simultânea, em uma versão unificada e sem nenhuma alteração, nos dois países. O primeiro número da “Granta” em português deverá sair em maio de 2018, editado pela Tinta-da-China, uma casa lusa que também publica livros no Brasil. O anúncio oficial deverá ocorrer na próxima Flip.

Uma das mais importantes revistas literárias do mundo, publicada em sete países, a “Granta” é conhecida por apresentar jovens autores no mercado internacional. Em 2012, entrou no mercado brasileiro com um número dedicado aos melhores escritores nacionais nascidos depois de 1972. A última edição no Brasil, porém, havia sido a “Granta 13”, em maio de 2015. A ortografia dos autores lusófonos não será unificada. Nenhum escritor será obrigado a respeitar o acordo ortográfico ou terá sua ortografia corrigida.

A “Granta Portugal” passa agora a ser “Granta em Português”, mas cada autor terá a sua autografia respeitada, pois acredito ser a única forma de desmontar a barreira entre a literatura dos países de língua portuguesa — diz Barbara Bulhosa, editora da Tinta-da-China.

Tradicionalmente, a “Granta” encomenda textos a diversos autores dedicados a um tema específico. Com a edição simultânea no Brasil e em Portugal, a revista poderá convidar, a cada número, escritores do mundo lusófono. Segundo Carlos Vaz Marques, jornalista e tradutor português que será responsável pela “Granta em Português”, o novo formato enriquecerá a diversidade e o interesse da revista. Ele garante que se trata de um projeto literário de língua portuguesa, e não “um projeto português”.

— Queremos contribuir deste modo para uma aproximação entre todos aqueles que se interessam pela literatura no nosso idioma, independentemente do espaço geográfico de que provêm. Estamos, aliás, interessados em autores de todo o mundo onde se fala e escreve em língua portuguesa. A vantagem evidente, e a mais imediata, é a de dar a conhecer autores brasileiros em Portugal e autores portugueses no Brasil.

Os autores brasileiros terão assim uma nova vitrine em Portugal, onde a revista tem cerca de mil assinantes e chegou a vender 8 mil exemplares no primeiro número.

— O fato de termos cerca de mil assinantes em Portugal também nos dá a certeza da viabilidade do projeto. Haverá uma campanha de assinaturas no Brasil, oferecendo vantagens consideráveis a quem assinar a revista — diz Vaz Marques.

Ele nota que o interesse literário mútuo entre Brasil e Portugal cresceu nos últimos anos, especialmente após a criação do Prêmio Portugal Telecom (agora Oceanos).

— Qualquer autor português terá o desejo secreto ou confessado de vir a ser publicado e reconhecido no Brasil, e suponho que o mesmo acontecerá com o interesse dos autores brasileiros em serem editados em Portugal.

Cada edição também terá sempre um portfolio fotográfico, traduzindo visualmente o tema de cada edição pela lente de um fotógrafo convidado.

— A curadoria de imagem estará a cargo do fotógrafo Daniel Blaufuks, que já viveu no Brasil e acaba de ser distinguido em Portugal com o mais importante prémio para as artes visuais que é atribuído em Portugal, o prémio AICA. Estas duas particularidades visuais, a ilustração dos textos e o portfolio fotográfico, dão à Granta um carácter único, tornando-a um objeto bonito e requintado, para colecionar — avalia Vaz Marques.

[Transcrição de Nova ‘Granta’ terá edição simultânea em Portugal e no Brasil – Jornal O Globo (Brasil). Evidentemente, a transcrição respeita a ortografia brasileira do original. Destaque e “link” meus.]

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Anatomia da fraude

Bem sei que a aparente aridez do Excel torna a leitura dos resultados um pouco difícil, porém a maçada acaba por compensar. Já todos sabíamos que o AO90 não passa de uma fraude, gato por lebre, roubo descarado, pois então agora ficamos a saber ao certo como foi feita a fraude, onde está o gato, a quanto monta o roubo.

O que tenho vindo a expor aqui é a demonstração estatística da mentira colossal a que se convencionou chamar “acordo ortográfico” de 1990, uma manobra exclusivamente política, uma palhaçada que não é acordo algum e que de ortográfico nada tem.

Devo confessar que nem eu mesmo esperava tal nível de exactidão nos resultados, atendendo a que os dados de origem, provindos do “dicionário de mudança”, foram preenchidos como simples texto e não com o rigor formal de qualquer recolha de dados.

Por isso corrigi erros de digitação e normalizei critérios de recolha, utilizando depois fórmulas de cálculo cruzadas, primeiro letra a letra, autonomamente, e por fim sequencialmente, todo o alfabeto.

O quadro seguinte apresenta os resultados gerais por letra do alfabeto. Não é especialmente interessante mas serve de verificação: os resultados conferem entre si (obviamente) e conferem com os de qualquer dos quadros parcelares.

  • OA: Ortografia Antiga
  • PE: Português Europeu
  • PB: Português do Brasil
  • ON: Ortografia Nova
  • M.I.: Maiúscula Inicial
  • NDG: novas duplas grafias

Como vimos antes, num quadro constituído por 617 registos, o Brasil cedeu zero no AO90. Nem uma única palavra grafada “à brasileira” sofreu qualquer espécie de amputação. Todas as palavras que foram radicalmente estropiadas pelo “acordo” pertencem à ortografia do Português-padrão.

Mas existem, além dessa, outras tranches interessantes a analisar, como, em especial, as das entradas com as indicações “X não é aconselhável em Portugal” e “Y não é aconselhável no Brasil”.

Segundo podemos entender pelas respectivas “Notas”, estas palavras (lemas) “não são aconselháveis” mas, presume-se, essas grafias não são liminarmente “proibidas”. Curioso conceito de Ortografia, este, em que a “norma” é apenas “aconselhar” ou “não aconselhar”.

Assim, temos que, segundo “manda” o “douto” Portal da Língua Portuguesa, 786 lemas (11,9% do total de 6620) não são “aconselháveis” em Portugal.

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No fim de contas

No fim de contas é muito simples.

Depurados os erros de digitação nos dados de origem, importados do ficheiro do Portal da Língua Portuguesa, afinados os algoritmos de pesquisa, análise e seriação, temos agora resultados com uma margem de erro de 0,01% (anteriormente era de 0,08%).

Vejamos então, usando uma linguagem o mais simples possível, como os números não só não  mentem — por definição — como desmentem qualquer mistificação.

Dos 6620 lemas que constituem o “dicionário de mudança”, apenas 617 correspondem a entradas cuja ortografia, segundo o AO90, passa a ser igual à ortografia “antiga” do Português-padrão, substituindo-se aos respectivos casos na ortografia brasileira. Terá sido nisto que “o Brasil cedeu mais do que Portugal“.

Analisemos então estes casos, um a um, contando-os por tipo de alteração, para assim vermos quantos dos 617 lemas são efectivamente “cedências” do Brasil e quantos não o são.

Logo à cabeça temos a abolição do trema: 307 casos. O trema foi abolido1 pelo AO45, coisa que o AO90 apenas repete. O trema foi abolido no Português-padrão mas o Brasil “desassinou” o acordo de 1945 dez anos depois de o ter assinado. Não pode portanto vir agora alegar que “cedeu no AO90” aquilo que não cumpriu unilateralmente no que tinha acordado 45 anos antes.

Portanto: nas 617 “cedências do Brasil” não podem contar (ou constar) estes 307 casos de acentuação com trema. Então restam 310 “cedências do Brasil”, certo?

Errado.

O mesmo princípio de invalidade cobre os restantes casos de acentuação (“éia”, “éico”, “ôo”, “iú”, “ói”, “oí”)2 e os de hifenização em “ii” 3.

O que vem a dar na seguinte adição simples: 173+92+10+17+11+2+5=310

TODOS os casos da lista de “cedências do Brasil” correspondem a alterações que Portugal acatou pelo AO de 1945 e que o Brasil ignorou desde então.

Descontando todas estas ocorrências (307+310=617) ao total (617) em que o Brasil teria “cedido” perante a norma portuguesa, então chegámos a este resultado: zero. O Brasil cedeu zero.

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