Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: CPLP

AO90: «a maior aberração política» [Alfredo Barroso, jornal “i”]

Aberrações políticas à la carte

Alfredo Barroso

24 Março 2017

Já com os pés na pátria, constato que a maior aberração política é o acordo ortográfico de 1990, com que o então PM Cavaco Silva quis sentar-se à mesa com os países de língua oficial portuguesa.

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O estado do mundo não é de fiar. Está a precisar do colo de Nossa Senhora de Fátima, como aconselha a ex-militante estalinista Zita Seabra, convertida à religião de São Paulo depois de ter percorrido afanosamente a sua “estrada de Damasco”.

Uma visita virtual ao número 1600 da Avenida Pensilvânia, em Washington D.C., confirma as minhas apreensões. A Casa Branca foi ocupada por um trio de loucos furiosos e freaks racistas – Donald Trump, Steve Bannon e Kellyanne Conway –, sem dúvida as mais perigosas aberrações políticas da actualidade. De acordo com vários psicólogos, Donald Trump sofre de “narcisismo infantil”, e um estudo efectuado pela Universidade Carnegie Mellon conclui que ele “fala como uma criança” e só fica à frente de Bush filho por uma unha negra, “ao nível de uma criança entre o quinto e o sexto ano” de escolaridade. Ou seja: o mundo está mesmo perigoso!

No Palácio da Alvorada, em Brasília, a coisa também está preta. A residência oficial dos presidentes brasileiros foi abandonada por Michel Temer, o ridículo chefe de Estado não eleito de uma república das bananas, levando consigo mulher e filho: Marcela e Michelzinho. Disse Temer: “A energia não era boa. A Marcela sentiu a mesma coisa. Só o Michelzinho, que ficava correndo de um lado para outro, gostou. Chegamos a pensar: será que aqui tem fantasma?” Não era fantasma, não. Era só fantasminha, paizão! Era o seu Michelzinho a correr dum lado para o outro!

Passemos a Bruxelas, sede da União Europeia. Como se já não bastasse o hilariante luxemburguês Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia furiosamente beijoqueiro e dado a alegrias pós-prandiais esfusiantes, irrompeu agora o até há dias todo-poderoso presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, serventuário do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, a proferir invectivas contra os meridionais, deste jaez: “Não posso gastar todo o meu dinheiro em álcool e mulheres e continuar a pedir ajuda.” Suspeita-se que a metáfora deste holandês encaracolado – de um partido da Internacional Socialista que foi sovado nas recentes eleições – lhe ocorreu depois de uma visita às montras do famoso Bairro Vermelho de Amesterdão. Ou seja, a UE continua nas mãos de políticos aberrantes, supostamente abstémios e misóginos, que desprezam os países do sul e estão acorrentados à serventia dos diktats alemães. É grave.

Já com os pés na pátria, constato que a maior aberração política é o acordo ortográfico de 1990, com que o então PM Cavaco Silva quis sentar-se à mesa com os países de língua oficial portuguesa (“palopes”) para partilhar com eles um “pato de estabilidade” (ortográfica). Só que, 27 anos depois, nada se passou como ele desejava e o “pato” (sem laranja) é um fiasco político, linguístico, social, cultural, jurídico e económico. O AO90, em que abundam aberrações de todo o tipo, é, aliás, mais um dos “monstro” gerados pela governação de Cavaco Silva (o mais famoso dos quais é o da dívida pública). E aqui vão, tão- -só, dois exemplos.

O primeiro é o da eliminação arbitrária do uso do hífen. Que me pôs a suspeitar da razão pela qual a expressão “cor-de-rosa” tem hífen e a expressão “cor de laranja” não tem! Terá sido uma profecia política que só agora se consumou, com o traço de união entre o partido cor-de-rosa (PS) e a maioria parlamentar de esquerda que aguenta o governo?! E o partido cor de laranja (PPD-PSD) terá ficado sem hífen porque ameaça desmoronar-se?!

O segundo é o da supressão arbitrária do acento agudo, a provocar situações hilariantes. Veja-se o caso da expressão popular “Alto e pára o baile” (isto é, “stop”). Escrita com acento agudo antes do AO90, passou a escrever-se sem acento agudo – “Alto e para o baile” (isto é, “go”) – na grafia do AO90. Como escreveu Nuno Pacheco, no “Público”: “O disparate é livre, mas para quê abusar?” Perante a indiferença dos cidadãos, os paninhos quentes dos académicos e a cumplicidade dos partidos, será que vamos ser meros “espetadores” (sem espeto) da perpetuação deste atentado contra a língua e a cultura portuguesas, pela via do facto consumado?!

[Transcrição integral de artigo de opinião, da autoria de Alfredo Barroso, publicado em 24.03.17 pelo jornal “i”. Imagem de topo: SIC Notícias. Autoria (?) Jose Manuel Ribeiro / Reuters. “Links” e destaques adicionados por mim.]

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“Lobbies”? Cartéis? Qual quê! Nada disso existe em Portugal!

Presumo que não seja necessário enumerar as inacreditáveis aldrabices contidas nesta “notícia” (altamente suspeita, de resto, tão evidentes são os seus intuitos de intoxicação da opinião pública), mas ainda assim devo salientar — deste incrível chorrilho de patranhas — o mais flagrante insulto à inteligência das pessoas normais: as editoras, que todos os anos mudam os manuais escolares (geralmente trocando apenas de capa e movendo um ou outro parágrafo de uma página para outra), vêm agora chorar baba e ranho porque, coitadinhas, que até não ganham milhões nem nada com esta mina, teriam de «esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência.»

Mas estes tipos julgarão mesmo que os portugueses não passam de perfeitos imbecis?

«O prazo para a estabilização dos livros também raramente é cumprido. Uma simples mudança de parágrafo ou de imagem numa capa nova e diferente tem dado origem a livros novos que a escola adopta e torna obrigatórios para todos os alunos.»
“Negócio dos manuais escolares torpedeia lei de reutilização” – RTP, 13 Janeiro 2017

Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023

 

Para além do problema diplomático que causaria uma iniciativa portuguesa para rever o acordo, a medida implicaria refazer um trabalho de adaptação à nova ortografia que já abrange 600 mil alunos.

 

As “Sugestões para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (AO), nesta semana levadas à Assembleia da República pela Academia de Ciências, dificilmente passarão do plano das ideias. E não apenas pelas falhas “procedimentais” invocadas nesta semana pelos deputados para chumbarem a proposta. Nesta fase, mesmo uma revisão parcial da nova ortografia implicaria mudanças difíceis de comportar. E com custos materiais. Desde logo na Educação.

Para além da necessidade de reeducar perto de 600 mil alunos, abrangidos desde 2011-12 pela obrigatoriedade do acordo e nada familiarizados com algumas consoantes mudas e acentuações que a Academia quer agora recuperar (ver caixa), a aplicação da proposta implicaria um processo de revisão de conteúdos pedagógicos, dos manuais escolares aos recursos online, que teria de ser negociado – ou pelo menos debatido – com os principais fornecedores desses serviços. Ou seja: as editoras.

A alternativa, no caso dos manuais, seria esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência. Mas em muitos casos essa opção implicaria uma espera de seis anos, até 2023, para que os livros adoptados no presente ano lectivo chegassem ao final do seu ciclo natural de vida.

Nessa situação estão actualmente as obras de todas as disciplinas do 1.º ano, com excepção da Educação Moral, de todas as disciplinas do 2.º ciclo exceptuando a mesma Educação Moral, Educação Tecnológica e Educação Visual – Inglês também, mas o impacto não se reflectiria nesta obra – e ainda as disciplinas de Física e Química A, Matemática A, Matemática B, Matemática Aplicada às Ciências Sociais e Português dos cursos científico-humanísticos.

Talvez por isso, as editoras preferem manter-se à margem do debate relançado nesta semana pela Academia de Ciências. “O Acordo Ortográfico é actualmente uma questão que, por ser um tratado internacional, diz respeito à diplomacia portuguesa, com o apoio técnico dos linguistas. Qualquer avaliação do impacto de eventuais alterações ao nível do ensino é da responsabilidade do Ministério da Educação, entidade que regula o sector”, defendeu ao DN fonte oficial da Porto Editora.

Quando o actual acordo foi aplicado, recorde-se, o Ministério da Educação optou por uma introdução faseada, com os livros a serem adaptados à medida que eram introduzidos novos manuais e, também nas escolas, a optar-se pela progressividade na utilização dos novos termos. As editoras até foram fortes opositoras do acordo no passado, mas acabaram por utilizá-lo a partir do momento em que foi adoptado pelo governo e pela Assembleia da República.

Um precedente perigoso

Uma iniciativa nacional para rever o acordo poderia também abalar o equilíbrio precário em que assenta o AO. Actualmente, o entendimento vigora em Portugal, Brasil, Timor-Leste, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A Guiné-Bissau ratificou-o, mas não o aplica na prática. Angola continua a adiar a ratificação.

Mexidas, nesta fase, poderiam pôr em causa todos os avanços dos últimos anos, o que, não desagradando aos opositores do acordo, em Portugal e nos outros países de língua portuguesa – dificilmente seria arriscado pelos partidos de governo – PS e PSD – comprometidos com a aplicação.

Na semana passada, a questão do Acordo Ortográfico foi motivo de controvérsia entre o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e Manuel Alegre, membro da Academia das Ciências. O primeiro mostrou-se pouco disponível para mudanças no AO, acto considerado “prepotente” pelo segundo. “Como diria Salgado Zenha, unicidade e autoritarismo andaram sempre de mãos dadas”, acusou o histórico socialista, dirigindo-se ao MNE.

Fonte: Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023, “DN”, 12.02.17

[Destaques e “links” meus. Evidentemente, corrigi os erros de ortografia do original.]

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«Acordo ortográfico: uma morte assistida» [Artur Coimbra, “Correio do Minho”]

Acordo ortográfico: uma morte assistida

Artur Coimbra

 

É um dos temas do momento, se bem que com impacto menos popular que o futebol ou a morte assistida, o da eventual revisão e melhoria do famigerado Acordo Ortográfico de 1990 (por alguns apelidado de “aborto ortográfico”), proposto, pasme-se, pela própria Academia das Ciências que desajeitadamente o deitou ao mundo. Que 26 anos depois, ainda não foi ratificado por todos os países lusófonos, o que é de per si uma enormidade e um motivo para o mandar às malvas, como devia ser, se houvesse um pingo de vergonha na cara de governantes e outros desgovernados.

Mas Sua Excelência o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que até é professor universitário e deveria ter um pouco mais de abertura de espírito para estas questões, voltou a sublinhar que o AO90 está em vigor em Portugal e que é preciso esperar que todos os países o ratifiquem. Augusto Santos Silva admite discutir eventuais melhoramentos, mas esse momento ainda não chegou. E talvez nunca chegue, com a pressa com que esta gente se atira para canto e assobia para o lado, como se a língua fosse propriedade dos governos ou das academias, e não usufruto do povo, que se está marimbando para as consoantes mudas ou para os factos que hoje comezinhamente são dados como fatos, numa promiscuidade absurda que deita por terra qualquer objectivo de seriedade que não existe.

Por isso, Manuel Alegre, que da língua, da poesia e da literatura percebe mais que todo o governo junto, acusou Augusto Santos Silva de autoritarismo. Alegre defende que o Acordo Ortográfico deve ser melhorado, porque há situações que estão a gerar grande confusão. O Ministro dos Negócios Estrangeiros repetiu que este não é o momento para pensar em alterações. Obviamente, nunca será. Ou será quando o governo já lá não estiver, e quando aparecer gente esclarecida, competente e não enfeudada às pressões dos interesses económicos e dos lóbis livreiros e afins.

É por isso que gente ilustre advoga que não há que aperfeiçoar o “aborto ortográfico”, porque não tem emenda, o importante é rejeitá-lo, liminarmente, porque a esmagadora maioria dos portugueses não se revê nem respeita um documento que suscita as maiores dúvidas legais, porque entrou em vigor em Portugal sem estar aprovado por todos os países lusófonos. Não é acordo nenhum, não é reforma nenhuma, é capitulação económica perante o Brasil, e que, no fim de contas, nem é respeitado em Portugal, nem em terras de Vera Cruz, porque não serve para nada.
E, convenhamos, não é a ortografia que vende sapatos ou deixa de vender electrodomésticos, como não é o pretenso AO90 que retira da língua a dupla grafia em Portugal e no Brasil.

Para que serve então? Rigorosamente para nada!… Pura inutilidade!

Correio do Minho, 12.02.17

[“Links” e destaques meus.]

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“Lusofonices”

Editorial ortográfico

Colocar ou não o acento diferencial para distinguir o que é pôde do que é pode, dois tempos distintos do verbo poder, duas palavras com significado e pronúncia diferentes, mas escritos da mesma forma, segundo o acordo ortográfico em vigor da língua portuguesa, seguido pelo Brasil. Por que tiraram o trema de conseqüência? Uma conseqüência sem trema não tem conseqüência alguma.

O Opinião&Política deixou claro, desde os seus primeiros passos, lá se vai quase um ano, que não pratica o acordo ortográfico. Aqui, escrevemos idéia com o seu acento agudo, pára do verbo parar com acento agudo, pôde do verbo poder com circunflexo, e não abrimos mão do velho trema.

Mas, qual é mesmo a conversa? Qual é mesmo a do Brasil em relação a esse acordo? O Brasil, na verdade, sempre nadou na maré contrária nessa história. Não adotou o primeiro modelo de acordo ortográfico proposto por Portugal no início do século XX. A partir daí, tentou-se buscar um acordo. O primeiro foi assinado em 1931, mas foi interpretado de maneira diferente por Brasil e Portugal. Para dirimir as dúvidas, foi assinado um novo acordo ortográfico em 1945, mas só Portugal aplicou.

Em 1990, depois de intermináveis tratativas, foi assinado o novo acordo ortográfico, o qual, no entanto, só veio a entrar em vigor em 2009. Também dessa vez não colou de todo. Foi firmada uma nova data para entrada em vigor do acordo: 1o de janeiro de 2013. O novo acordo foi feito para unificar as duas ortografias oficiais do português, uma adotada pelo Brasil e outra pelos demais países lusófonos. Há mais de cem anos Portugal e Brasil tentam unificar a maneira de escrever. Não é fácil, nunca foi. Principalmente porque é preciso respeitar caminhos linguísticos adotados por cada cultura nacional.

O Brasil, como sabemos, nunca foi de ser grande partícipe das comunidades de nações das quais efetivamente participa. Como é o caso o conjunto das nações latinas sul-americanas, de fala espanhola. Sob o argumento da diferença linguística, o Brasil sempre manteve uma distância olímpica dos hermanos latinos, considerando-se como que um continente próprio.

Com os irmãos de língua portuguesa a situação é parecida. Os brasileiros constituem a maioria absoluta das pessoas que falam português no mundo e consideram-se donos do idioma. Os portugueses não engolem o acordo, um dos seus jornais mais importantes, O Público, recusa-se a respeitar a língua portuguesa que querem lhe enfiar garganta abaixo. O editor do jornal, Nuno Pacheco, é uma das vozes mais fortes contra o acordo ortográfico, defendendo que ele não seja respeitado pelos portugueses.

O pau continua a comer. A lexicógrafa portuguesa Ana Salgado, coordenadora do novo dicionário da Academia de Ciências de Lisboa, defende a reposição dos acentos diferenciais entre palavras homógrafas que gerem ambigüidade, e cita como pedra de toque a diferenciação entre o verbo pára e a preposição para. A Academia de Ciências de Portugal pretende apresentar ainda mês um estudo propondo modificações no pára e para, no pêlo e pelo, bem como a reposição das consoantes mudas. De modo que os brasileiros vão ter que escrever director, actor e óptima, entre outras lusofonices. E aí, vocês acham que vai colar?

Daqui, do fundo da planície, o Opinião&Política, sob esse ponto de vista, informa que está com os portugueses e pretende continuar desrespeitando amplamente o atual acordo ortográfico e todas as suas reformas. Mas, não vai botar consoante muda em coisa nenhuma.

[Transcrição de “Editorial ortográfico”, publicado por “Opinião&Política” (Brasil) em 23.01.17. Obviamente, mantive a ortografia brasileira do original. Destaques e “links” meus. Imagem copiada de “hardstand“.]

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«Crónica de um desacordo anunciado» [Pedro Vieira, “Observador”]

Crónica de um desacordo anunciado

Pedro Vieira, Observador, 30 de Janeiro de 2017

O hífen, os acentos e as consoantes mudas poderão voltar a ser o que eram. Pedro Vieira aplaude os regressos ortográficos e lembra que há outros acordos mais importantes na língua portuguesa.

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Está a ver a utilidade daqueles conjuntos de fondue que a dada altura todos os agregados familiares portugueses foram obrigados a ter, por via matrimonial ou outra? Ou daquela app da bússola que vem sempre com os smartphones? Ou ainda a utilidade extrema do cargo de ministro da República nos Açores, entretanto substituído por um Representante? Pois. Em relação ao Acordo Ortográfico (AO) sinto o mesmo. Ultrapassam-me as questões académicas, políticas, económicas ou tão somente voluntariosas que levaram à sua concepção. Encolho os ombros ao nacionalismo e ao sentimento de posse da língua e não sei bem se sinto falta do “p” em Egito. O que sei é que quando escrevo “leitor, para para pensar um pouco neste assunto” quero dizer “pára”. Com acento.

A verdade é que nunca precisei de escrever respeitando o dito do Acordo que está mais ou menos em vigor. E quando o resultado final o exigia, contei sempre com a bondade de estranhos, como no eléctrico (com “c”) chamado desejo, e com a atenção e denodo dos revisores, essa profissão tão desprezada nos dias que correm. Por princípio nada me opõe à mudança, se houver uma lógica discernível por trás da mesma, mas esse não é o caso do AO. Aliás, a palavra Acordo está a ser usada de forma desadequada nesta questão, até porque estamos na presença, sim, da TO. A Trapalhada Ortográfica. Também conhecida como Trapalhada de Santa Engrácia (TSE).

De boas intenções está o Inferno cheio

A chamada TSE tem uma história longa, que vai pelo menos até 1990. Nessa altura Portugal abraçava toda uma nova modernidade proporcionada pela adesão recente à CEE. Numa vertigem de entusiasmo, estávamos dispostos a trocar tudo pelos euros da altura – marcos, francos, florins – inclusive a frota pesqueira ou as oliveiras que haveriam de fazer tanta falta.

Agarrámo-nos à normalização (o tamanho dos pepinos, o comprimento dos preservativos) e nesse afã procurámos, aparentemente, uma espécie de padrão comum à escrita em português, regulamentando o património mais importante da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A seguir ao petróleo angolano e brasileiro. E ao cacau de São Tomé. E àquelas espetadas de cabrito muito pequeninas oriundas de Timor-Leste. Ou será Timor Leste, sem hífen? Adiante.

Referia-me à língua. Esse elo comum que mais tarde haveria de ligar-nos de forma fraterna ao português falado na Guiné Equatorial. Na altura o objectivo era unificar a ortografia entre todos, acabando com as diferenças entre o que se escrevia no Brasil e o que era posto no papel nos outros territórios, aumentando assim o “prestígio do português”, palavra dos promotores da TSE. A verdade é que o conteúdo desta Trapalhada nunca suscitou unanimidade entre académicos, escritores, filólogos, treinadores de bancada, cronistas, jornalistas, professores e políticos, empresários e publicistas.

Que a TSE é fundamental para a pujança económica da língua, um activo com mais de 200 milhões de utilizadores, dizem uns. Que a Trapalhada tem normas incompreensíveis como a supressão das consoantes mudas, agitam outros. Nos dias de hoje é impossível conhecer as reacções provocadas por acordos anteriores, mas pelo menos sabemos que não houve necessidade de fingir consensos ou de fazer petições online, que são quase sempre uma maçada vestida de inconsequência. Excepto no caso vertente.

Golpes de theatro

Até ao século XX, a escrita de português servia-se das suas bases latinas e gregas, sem qualquer Acordo ou TSE ao barulho. Acontece que em 1911, Portugal resolveu dotar a revolução republicana de uma revolução na escrita, aprovando um Formulário Ortográfico que o Brasil esnobou. Ou seja, ficámos a escrever de forma diferente, também na ortografia. É que a escrita dos dois lados do Atlântico teima em ser distinta, e bem, uma vez que a semântica é muito diferente, e essa não se normaliza por decreto.

Inconformados com as divergências, portugueses e brasileiros tentaram novo acordo em 1931, que viria a ser materializado em vocabulários ortográficos da língua portuguesa… diferentes. Portugal publicara o seu em vocabulário oficial em 1940 e o Brasil fizera o mesmo em 1943, registando-se diferenças que obrigaram a uma nova tentativa de acordo em 1945. Aqui no rectângulo adoptámos as novas regras acordadas no ano em que acabou a II Grande Guerra. Mas no Brasil foi tudo por água abaixo e mantiveram-se em vigor as normas adoptadas em 1943. O que significa que é mais fácil terminar um conflito intercontinental que pôs Churchill, Hitler e Estaline à chapada do que chegar a um consenso ortográfico.

(mais…)

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“Ou” o quê?!

Para variar, não concordo. Parece-me, aliás, de certa forma surpreendente este artigo de Nuno Pacheco.

Pelo tom conciliador e pela concomitante admissão tácita de que afinal é possível “aperfeiçoar” (ou “despiorar”, como diz Anselmo) aquilo a que o próprio, com imenso rigor terminológico, chama “o monstro”: «Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa, para que, “remendando” o AO ou deitando-o fora, não haja mais escolhas impensadas, baseadas em panaceias há muito desmentidas.»

Uma inovação absoluta, vindo isto de uma pessoa que sempre se bateu contra, contra e nada mais do que contra o aleijão ortográfico, sem tergiversações (“conciliábulos mornos”, diz bem), sem hesitações ou tibiezas e, sobretudo, sem concessões de qualquer espécie.

“Ou”? “Ou” o quê?!

“Aperfeiçoar” o  monstro para ele ficar ligeiramente menos monstruoso? “Rever” o cAOs para o tornar um bocadinho menos caótico? “Remendar” o maltrapilho a ver se ele deixa de ser miserável?

Discussão? Ah, está bem, isso pode ser: discuta-se então qual a melhor forma de acabar com o miserável, maltrapilho, caótico, monstruoso AO90.

Acordemos, para desacordar de vez

Nuno Pacheco

19 de Janeiro de 2017, 7:30

Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa

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Neste Janeiro pleno de sol, eis que regressam as acaloradas discussões sobre a Língua Portuguesa. Voltou à RTP, na passada terça-feira, o magazine Cuidado com a Língua!; foi lançado um novo livro do tradutor, revisor e professor Marco Neves intitulado A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra & Paz); e o PEN Clube promoveu no Goethe Institut, em Lisboa, no dia 9 de Janeiro, mais um debate sobre o acordo ortográfico (AO90). Aliás, é este último que mais promete dar que falar, com o anunciado “aperfeiçoamento” que a Academia de Ciências de Lisboa prepara e de que já foram surgindo alguns tópicos: regresso à diferenciação de “óptico-ótico” e de “pára-para”, clarificação do uso dos hífens, reposição de consoantes ditas mudas (pelo menos as que permanecem no Brasil, caso de recepção-receção); ou revisão do uso dos sufixos pan- e com-. Haverá conciliação? Arriscando uma metáfora marítima, esta tentativa de “aperfeiçoamento” arrisca-se a ser vista por uns como um inadmissível rombo no navio, e por outros como o lançamento de bóias de ferro aos náufragos.

Recordando os alertas dos saudosos José Pedro Machado e Vasco Graça Moura, entre tantos outros que se cansaram de argumentar contra os perigos do “monstro” que aí vinha, é possível olhar para a tentativa da ACL como a confirmação clara de um falhanço: se o AO precisa de emendas, e não serão poucas, nunca devia ter entrado em vigor no estado em que está. Os que lamentam a sorte das “pobres criancinhas” caso haja agora mudanças, deviam ter pensado na quantidade de disparates que as obrigaram a aprender para agora, aos poucos, terem de os desaprender. É por isso que os fautores do acordo não querem mudar uma só vírgula: para não ajudarem a sublinhar a sua incompetência.

É, pois, tempo de deixar a habitual lassidão portuguesa e enfrentar o problema. Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa, para que, “remendando” o AO ou deitando-o fora, não haja mais escolhas impensadas, baseadas em panaceias há muito desmentidas. É curioso que um defensor do AO (considerando-o, ainda hoje, “obra meritória”, que “já não pode ser denunciado por Portugal, como país digno”), D’Silvas Filho, tenha publicado há dias no seu blogue e no Pórtico da Língua Portuguesa um texto onde condena, nos vocabulários ortográficos, “a sanha contra as consoantes não articuladas” por uma “obsessão no simplificacionismo. A língua é um complexo que traz consigo a herança de muitas gerações de falantes que a foram aperfeiçoando na comunicação. A língua é mais do que ortografia, mas esta tem interferência na linguagem, por exemplo, nos retornos sobre a fonia. Só se deve alterar a ortografia com pinças, com ciência, senão a fluidez da comunicação intergerações e o encanto das virtualidades da língua podem perder-se.” Foi isto que foi feito com o AO90? Só um lunático responderá pela afirmativa.

Apesar da vã retórica, nenhum benefício foi ainda mostrado como resultante da imposição das regras do AO90. O silêncio dá jeito, porque encobre todo o tipo de más opções e desvarios. Mas na língua não há silêncios. Ela rodeia-nos a toda a hora, falada, escrita, viva, múltipla. Um exemplo: numa extensa entrevista que o escritor brasileiro Pedro Maciel fez a Mário Soares e que permaneceu inédita até a Folha de S. Paulo a publicar postumamente, no dia 9, a última questão foi sobre a língua. Perguntou Pedro Maciel: “Não é uma bobagem a reforma ortográfica da língua portuguesa, já que a língua é um organismo vivo, dinâmico e muda-se conforme as novas gerações?” Respondeu Mário Soares: “O que é admirável na nossa comunidade é a variedade, a riqueza e as diferentes contradições. Os brasileiros têm locuções, maneiras de escrever e de falar diferente dos portugueses que enriquecem extraordinariamente a nossa língua, da mesma forma que os africanos e os portugueses. Cada um dá o seu tributo. Eu não sou um grande purista da língua e acho que as línguas são organismos vivos e são os povos que fazem as línguas. Não sou pela uniformização, mas pela variedade e pela diversidade dentro de uma unidade.”

Que siga a discussão.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Nuno Pacheco, jornal “Público”, 19.01.17. Destaques meus.]

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