Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: editoras

«O “corretor” aperfeiçoado» [Nuno Cardoso Dias, “Açoriano Oriental”]

O “corretor” aperfeiçoado

Nuno Cardoso Dias / 13 de Fev de 2017, 12:00

O Acordo Ortográfico é, desde o início, uma trapalhada. Veio resolver um problema que não tínhamos: vivíamos bem com as muitas matrizes identitárias do português. Pelo contrário hoje em dia não nos reconhecemos numa língua que só o “corretor” ortográfico chama sua. Se queria unificar a língua falhou estrondosamente, porque o problema nunca foi a ortografia. Mais: ainda bem que falhou estrondosamente. A riqueza do português está na sua diversidade, não só mas também ortográfica.

Mas se falhou nos objectivos, o AO foi profícuo a criar problemas, dificuldades, ambiguidades e incertezas. Há até um blog que indica os erros sucessivos do Diário da República, desnorteado entre uma e outra norma ortográfica.

A única oportunidade de negócio que o AO criou foi o dos guias que tentavam explicá-lo a uma mole de gente desconcertada e, sobretudo, a substituição de livros escolares ainda em vigor por outros com a nova grafia, impedindo a sua reutilização – à custa dos de sempre – as famílias, e em especial as famílias com filhos em idade escolar.

O AO afastou, mais uma vez, os filhos dos pais, tornando impossível corrigir a ortografia por uma norma que não se conhece, que não é clara, que não é razoável.

E, note-se, o problema não está na imutabilidade da língua, mas na artificialidade da sua alteração: na língua a prática deve preceder a regra e não o contrário. Desta forma, só artificialmente, por uma imposição estatal, administrativa e ilegal – esta ortografia encontrou aplicação.

A Academia das Ciências de Lisboa produziu agora um documento que faz diversas sugestões para aperfeiçoar o acordo ortográfico. O documento centra-se em três aspectos: acentuação, sequências consonânticas (consoantes mudas) e emprego do hífen e as sugestões que faz resolvem muitas das confusões e incoerências que frequentemente são apontadas.

Se, por um lado, este documento é um passo no sentido certo, que traz alguma razoabilidade a esta novigrafia, é também verdade que fica muito por resolver. Por outro lado, parece que ainda é óbvio para alguns que a língua não se pode andar sempre a mudar, mesmo que isso seja consequência das mudanças passarem a ser ordenada por decreto.

A maior vantagem deste documento da Academia de Ciências é demonstrar, quer pelo seu conteúdo, quer pelos argumentos que reúne a seu favor ou contra si, que o acordo ortográfico não serve, não resolve e não devia ser aplicado.

Fonte: O “corretor” aperfeiçoado – Açoriano Oriental

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“Lobbies”? Cartéis? Qual quê! Nada disso existe em Portugal!

Presumo que não seja necessário enumerar as inacreditáveis aldrabices contidas nesta “notícia” (altamente suspeita, de resto, tão evidentes são os seus intuitos de intoxicação da opinião pública), mas ainda assim devo salientar — deste incrível chorrilho de patranhas — o mais flagrante insulto à inteligência das pessoas normais: as editoras, que todos os anos mudam os manuais escolares (geralmente trocando apenas de capa e movendo um ou outro parágrafo de uma página para outra), vêm agora chorar baba e ranho porque, coitadinhas, que até não ganham milhões nem nada com esta mina, teriam de «esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência.»

Mas estes tipos julgarão mesmo que os portugueses não passam de perfeitos imbecis?

«O prazo para a estabilização dos livros também raramente é cumprido. Uma simples mudança de parágrafo ou de imagem numa capa nova e diferente tem dado origem a livros novos que a escola adopta e torna obrigatórios para todos os alunos.»
“Negócio dos manuais escolares torpedeia lei de reutilização” – RTP, 13 Janeiro 2017

Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023

 

Para além do problema diplomático que causaria uma iniciativa portuguesa para rever o acordo, a medida implicaria refazer um trabalho de adaptação à nova ortografia que já abrange 600 mil alunos.

 

As “Sugestões para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (AO), nesta semana levadas à Assembleia da República pela Academia de Ciências, dificilmente passarão do plano das ideias. E não apenas pelas falhas “procedimentais” invocadas nesta semana pelos deputados para chumbarem a proposta. Nesta fase, mesmo uma revisão parcial da nova ortografia implicaria mudanças difíceis de comportar. E com custos materiais. Desde logo na Educação.

Para além da necessidade de reeducar perto de 600 mil alunos, abrangidos desde 2011-12 pela obrigatoriedade do acordo e nada familiarizados com algumas consoantes mudas e acentuações que a Academia quer agora recuperar (ver caixa), a aplicação da proposta implicaria um processo de revisão de conteúdos pedagógicos, dos manuais escolares aos recursos online, que teria de ser negociado – ou pelo menos debatido – com os principais fornecedores desses serviços. Ou seja: as editoras.

A alternativa, no caso dos manuais, seria esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência. Mas em muitos casos essa opção implicaria uma espera de seis anos, até 2023, para que os livros adoptados no presente ano lectivo chegassem ao final do seu ciclo natural de vida.

Nessa situação estão actualmente as obras de todas as disciplinas do 1.º ano, com excepção da Educação Moral, de todas as disciplinas do 2.º ciclo exceptuando a mesma Educação Moral, Educação Tecnológica e Educação Visual – Inglês também, mas o impacto não se reflectiria nesta obra – e ainda as disciplinas de Física e Química A, Matemática A, Matemática B, Matemática Aplicada às Ciências Sociais e Português dos cursos científico-humanísticos.

Talvez por isso, as editoras preferem manter-se à margem do debate relançado nesta semana pela Academia de Ciências. “O Acordo Ortográfico é actualmente uma questão que, por ser um tratado internacional, diz respeito à diplomacia portuguesa, com o apoio técnico dos linguistas. Qualquer avaliação do impacto de eventuais alterações ao nível do ensino é da responsabilidade do Ministério da Educação, entidade que regula o sector”, defendeu ao DN fonte oficial da Porto Editora.

Quando o actual acordo foi aplicado, recorde-se, o Ministério da Educação optou por uma introdução faseada, com os livros a serem adaptados à medida que eram introduzidos novos manuais e, também nas escolas, a optar-se pela progressividade na utilização dos novos termos. As editoras até foram fortes opositoras do acordo no passado, mas acabaram por utilizá-lo a partir do momento em que foi adoptado pelo governo e pela Assembleia da República.

Um precedente perigoso

Uma iniciativa nacional para rever o acordo poderia também abalar o equilíbrio precário em que assenta o AO. Actualmente, o entendimento vigora em Portugal, Brasil, Timor-Leste, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A Guiné-Bissau ratificou-o, mas não o aplica na prática. Angola continua a adiar a ratificação.

Mexidas, nesta fase, poderiam pôr em causa todos os avanços dos últimos anos, o que, não desagradando aos opositores do acordo, em Portugal e nos outros países de língua portuguesa – dificilmente seria arriscado pelos partidos de governo – PS e PSD – comprometidos com a aplicação.

Na semana passada, a questão do Acordo Ortográfico foi motivo de controvérsia entre o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e Manuel Alegre, membro da Academia das Ciências. O primeiro mostrou-se pouco disponível para mudanças no AO, acto considerado “prepotente” pelo segundo. “Como diria Salgado Zenha, unicidade e autoritarismo andaram sempre de mãos dadas”, acusou o histórico socialista, dirigindo-se ao MNE.

Fonte: Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023, “DN”, 12.02.17

[Destaques e “links” meus. Evidentemente, corrigi os erros de ortografia do original.]

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«Acordo ortográfico moribundo» [Manuel Silveira da Cunha, “O Diabo”]

«O português deveria ser desinfectado dos dejectos académicos de 1990, a língua não é propriedade dos destroços decrépitos da academia, uma instituição anacrónica.»

 

Acordo ortográfico moribundo

Manuel Silveira da Cunha – “O Diabo”, 2 Fev. 2017

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Artur Anselmo de Oliveira Soares, presidente da Academia das Ciências, um dos responsáveis do Instituto de Lexicologia e Lexicografia, vem recomendar a revisão do chamado “acordo ortográfico de 1990”, um falso acordo que nunca entrou em vigor e que tem prejudicado gravemente a língua portuguesa e a cultura portuguesa. Um documento foi aprovado. Louvados sejam os autores.

Aquela que foi uma ideia voluntarista, precipitada, irreflectida e irresponsável, sobretudo da autoria de Malaca Casteleiro, um académico da mesma Academia, e que hoje nos poderia fazer escrever “arquiteta” em vez de “arquitecta” ou “espetador” em lugar de “espectador”, entre centenas de outras bárbaras incongruências, esquecendo a etimologia, a história, a tradição e o engenho que nos levou, por prática escrita, a escrever “pára” quando se conjuga o verbo parar em lugar de “para”, contrariando a quem interessa a língua, criando até confusões graves em tempos verbais como “jantamos” e “jantámos”, vai finalmente levar uma machada quase letal.

A Academia das Ciências assume que o falso acordo está profundamente errado, e nem sequer é na questão dos hífens, é mesmo nas consoantes mudas e acentuação. A língua é um corpo vivo e não são meia dúzia de académicos que depois querem fazer uns cobres a editar e a fazer prontuários e dicionários, que podem impor uma vontade putativamente erudita mas que aparentemente é mais própria do bestunto de analfabetos rústicos e primários do que de professores universitários cujo raciocínio deveria ser culto, etimológico, secundário e terciário, percebendo a raiz e a prática do Português escrito e falado pelos portugueses e pelos outros povos utilizadores da língua.

Os “Subsídios para o aperfeiçoamento do acordo ortográfico de 1990” são uma machadada no putativo acordo mas não são a sua sentença de morte. Sou de opinião que o fruto das mentes brilhantes dos académicos chefiados pelo Malaca devia pura e simplesmente ser expurgado do nosso quotidiano. O português deveria ser desinfectado dos dejectos académicos de 1990, a língua não é propriedade dos escassos destroços decrépitos da academia, uma instituição anquilosada e anacrónica, uma instituição que funciona ex cathedra, muitos deles já na altura sem discernimento para ajuizar devido a provectas idades e ao facto de já não produzirem investigação científica ou sequer estarem actualizados.

O novo contributo parece ser um sinal de renovação da academia, é um documento responsável, que quer estabelecer pontes entre dois campos em conflito, afirma-se equilibrado porque quer conciliar. Mesmo assim contou com os votos contra de seis académicos, o que é motivo para recordar o soneto do Bocage sobre os “Vadios” que sentavam os traseiros na Academia (segue na orthographia original):

Não tendo que fazer Apollo um dia
Às Musas disse: “Irmans, é beneficio
Vadios empregar, demos officio
Aos socios vãos da magra Academia!”
“O Caldas satisfaça à padaria;
O França d’enjoar tenha exercicio,
E o auctor do entremez do Rei Egypcio
O Pegaso veloz conduza à pia!”
“Va na Ulysséa tasquinhar o ex-frade:
Da sala o Quintanilha accenda as velas,
Em se junctando alguma sociedade!”
“Bernardo nenias faça, e cague nellas;
E Belmiro, por ter habilidade,
Como d’antes trabalhe em bagatellas!”

Fonte: Acordo ortográfico moribundo . Acrescentei “links” e destaques.

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«Manuais Escolares: Sensacionalismo e Inconsequência» [Paulo Guinote, “Público”]

Manuais Escolares: Sensacionalismo e Inconsequência

Paulo Guinote

23 de Janeiro de 2017, 10:22

Há que ir além da arraia-miúda, ter coragem de elevar o olhar e apontar o dedo a quem tem mesmo grandes responsabilidades nisto tudo. E parar de acusar os professores.

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Alguns dias passados sobre os programas e debates da RTP3 e TVI sobre o processo de produção e comercialização dos manuais escolares, tendo pousado rapidamente a poeira levantada de forma muito agitada por aqueles dias, já é possível fazer um balanço do que (não) passou.

Comecemos pelo fim: a única consequência que se pode identificar daquilo tudo é que o Ministério da Educação (ME) vai encomendar um estudo para, em 2017, saber como é constituído o preço de um manual escolar. Sim, é verdade, com tanto grupo de trabalho e estrutura de missão ao longo das décadas, incluindo encomendas estranhas para sistematização de legislação já sistematizada por parte de alguém que também por ali passou, em Portugal, em 2017, aparentemente (sublinho o “aparentemente” por razões óbvias), o nosso ME não faz ideia da forma como se chega a um determinado preço de um artigo que ele impõe, em regra, como obrigatório para muito mais de um milhão de alunos (e esperemos por manuais para o pré-escolar, que deve ser o must da próxima temporada). Eu acho que o que se passa é outra coisa… o ME já sabe, sempre soube, mas precisava de um pretexto para anunciar o estudo que já deve estar mais do que alinhavado. Mas isso são os truques habituais para iludir a opinião pública.

Continuando. Comum a ambas as reportagens, embora com maior gravidade e ligeireza na da RTP, a imputação aos professores da responsabilidade por obrigarem os pais a comprar manuais, optando por aqueles em que os grandes grupos editoriais lhes dariam maiores ofertas, falando-se mesmo em viagens. Nada surgiu em qualquer das reportagens como prova documental da “denúncia”, muito pouco sobre o verdadeiro processo que determina o calendário e procedimento das adopções (responsabilidade do ME), nem grande coisa sobre tudo o que anda em volta dos materiais auxiliares que também são promovidos em catadupa em cada momento que um ministro ou secretário de Estado, pela sua cabeça ou como simples testa de ferro, decide alterar calendários e natureza de provas de avaliação externa ou inventa mesmo novas alterações às provas existentes ou aos programas das disciplinas, com destaque para o Português e a Matemática. Nada ainda sobre a implicação que a adopção do Acordo Ortográfico nas escolas de forma obrigatória teve em tudo isto.

O que apareceu de mais relevante: o enorme desperdício de manuais e outros materiais não adoptados ou não utilizados (reparem que não me pareceram manuais já usados a ser destruídos), algumas pessoas a fingirem que nada era com elas (o senhor da Autoridade da Concorrência, a ex-ministra que sacudiu para o secretário de Estado a responsabilidade por não ter conseguido um acordo com as editoras, o mesmo que não teve qualquer problema em não querer, sequer, um acordo com os professores sobre a sua carreira), outras com a pose de quem sabe dominar o “mercado”, um pseudo-arrependido a dizer banalidades sem concretização (o lamentável “promotor escolar”) e alguns professores a tentar descrever algumas perversões do sistema (o Luís Braga e o Carlos Grosso, por exemplo), mas parecendo ficar na mesa da edição o mais importante e decisivo em todo este processo e que é o nível da macro-decisão, aquela em que se decide o que muda, quando e que permitiu a existência de um processo de concentração e cartelização do mercado dos livros escolares.

O que passou ainda por aquelas reportagens foi uma enorme hipocrisia de algumas figuras que apareceram e o não cumprimento da promessa de denunciar certas cumplicidades institucionais e pessoais. Foi suave o tratamento dado a uma confederação parental demasiado prisioneira das suas parcerias, foi inexistente a relação estabelecida entre o secretário de Estado incapaz de negociar um acordo bom para o interesse público e o ex-secretário de Estado capaz de ir administrar um dos grupos empresariais do sector, bem como a investigação sobre a coincidência de preços entre manuais de grupos teoricamente concorrentes ficou pela mera enunciação do facto e apresentação de documentos de outros tempos. A verdade é que terão existido denúncias bem mais recentes para a Autoridade da Concorrência que ficaram por investigar, enquanto o seu dirigente máximo constata evidências e faz nada. O auto-branqueamento dos poucos políticos que apareceram já era esperado, estranhando eu mais que ninguém ligado aos pareceres do Conselho Nacional da Educação aparecesse a dar a cara pelo que escreveu, quando tão rápidos são a aparecer quando o assunto é outro. Tenho umas ideias sobre a razão, mas logo se verá qual o movimento editorial. O movimento editorial que também não foi investigado, fazendo uma verificação de nomes entre quem apoia a produção de legislação na esfera pública e quem publica na esfera privada a explicar aquilo que os normativos se esmeram por tornar opaco e carente de explicação anotada e comentada.

(mais…)

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‘Erro Extremo’ [Miguel Tamen, ed. “Tinta da China”]

«O acordo ortográfico»

«Acho o Acordo Ortográfico uma má ideia, e acho a ideia de acordo ortográfico ainda pior. Não sou dado a assinar abaixo-assinados, e devo ter assinado vários sobre o assunto. Sou parte de uma acção que pede a suspensão da sua aplicação. E no entanto, apesar de não concordar com o acordo, não concordo com muitos dos argumentos que são usados contra ele. Há várias coisas que nem este nem nenhum acordo alguma vez fará: em primeiro lugar, não vai transformar o que se escreve em qualquer das variedades  de português em coisas com sentido, e muito menos em coisas inteligentes; em segundo lugar, não vai tornar mais compreensível a um brasileiro os barulhos linguísticos que se fazem em Portugal; em terceiro lugar, não vai criar nenhum mercado único para coisa nenhuma e muito menos  para livros; em quarto lugar, não vai transformar o português naquilo que nunca foi, a saber, uma língua mundial.»

«Os opositores do acordo têm argumentos de vários tipos. Alguns defendem que o acordo foi feito de forma inepta (o que é verdade); outros, que está a ser aplicado de forma ilegal (o que também me parece persuasivo); outros acham que estão a defender a língua portuguesa (o que acho uma fantasia); e outros ainda acham que o estado não tem o direito de legislar sobre interesses  comuns (o que acho um exagero).»

«Destes argumentos, os dois últimos são péssimos e aliás o primeiro deles também é usado por devotos do acordo. A expressão «defender a língua», tão repetida por ambos os lados, sugere actividades heróicas; mas ninguém sabe exactamente em que consistem. Se quer dizer «pôr mais pessoas a escrever de uma única maneira», seria melhor começar por proibir os erros de ortografia nas normas usadas (e já agora ilegalizar a ignorância); se quer dizer «pôr mais pessoas a falar a língua», não se percebe como uma norma ortográfica pode encorajar o congresso entre humanos; se quer dizer «tornar mais provável a aceitação da língua como língua de trabalho em grandes organizações internacionais», não há grande vantagem: a língua de facto nesses meios, a que por analogia se chama inglês, tem apenas o defeito de não ser inteligível para falantes de inglês. Por pudor deixo de parte o argumento sobre a tirania do estado.»

«A razão por que nenhuma lei sobre a ortografia é adequada é apenas que a ortografia é um hábito inofensivo. Não prejudica ninguém, e é vivida por muitas pessoas como uma espécie de segunda natureza a respeito da qual ninguém pensa dois segundos.»

«É uma maneira de fazer as coisas com que as pessoas se sentem confortáveis e que não ofende crenças ou convicções. E, mais importante, é uma maneira de fazer as coisas para cuja alteração não existe um único argumento razoável. São estes hábitos que tornam possíveis os estados. Os estados não devem legislar sobre estas coisas.»

Primeiro livro de crónicas de Miguel Tamen

Da defesa acérrima da liberdade de expressão ao repúdio absoluto do acordo ortográfico, da crítica feroz ao sistema educativo português ao desinteresse dos noticiários televisivos, da importância do café aos mistérios do exercício físico, passando pelo pau de selfie, o feng shui (ou melhor, chop suey), a misantropia, os rituais funerários, a batalha naval, a famigerada fuga de cérebros, o pequeno-almoço nas novelas portuguesas e uns certos assuntos «amor-de-mãe», há pouco que escape à malha apertada da análise certeira, irónica, muitas vezes corrosiva de Miguel Tamen.

«”Rita”, lêem alguns de nós com interesse no dentista, “acusa Sofia de não deixar Bernardo em paz. Com lágrimas nos olhos, Sofia agarra-a pelo braço e leva-a ao quarto; mostra-lhe o berço; Rita vai-se embora a cavalo, agastada.” Trata-se de um conhecido episódio de todas as telenovelas portuguesas.
Coisas têm sido escritas sobre o tópico; pergunta-se com perplexidade de crocodilo como pode haver quem siga diariamente interacções complexas entre civis filmadas a uma luz que, em casas ou jardins, lembra sempre a de uma cervejaria. Não adianta no entanto exprimir incredulidade em relação a actos praticados alegremente por grandes quantidades de pessoas. Ninguém deixou nunca de ver uma única telenovela por causa de argumentos sociológicos ou políticos ou estéticos sobre os seus hábitos. Insultar os costumes da maioria é uma forma de loucura inútil.»

Edições Tinta da China, 09.01.17

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“O Primo Basílio”, de Eça de Queirós, em brasileiro (“revisado” conforme o AO90)

E depois podia atenuar, dizer que fora só uma correspondência platônica… A partida de Basílio, além disso, fazia daquele erro um fato passado, quase antigo… E Sebastião era tão amigo dela!

Source: O Primo Basílio – Eça de Queiroz – Google Books

 

O excerto original em Português:

E depois podia atenuar, dizer que fora só uma correspondência platónica… A partida de Basílio, além disso, fazia daquele erro um facto passado, quase antigo… E Sebastião era tão amigo dela!

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