Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Expresso

Armando Baptista-Bastos (1934 – 2017)

“Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”: carta de despedida para Baptista-Bastos

Baptista-Bastos, 83 anos, morreu esta terça-feira. Rui Cardoso, editor de internacional do Expresso,escreve-lhe uma carta de despedida, eles que se conheceram no espaço mais íntimo do jornalismo: a redacção

Quando comecei a colaborar no “Diário Popular”, em finais de 1977, já não fui a tempo de conhecer todos os grandes repórteres que tinham feito a grandeza do jornal. Dois destes eram famosos e iguais em valor profissional, ainda que opostos no plano das ideias: José de Freitas, já então falecido e simpatizante da esquerda, e Urbano Carrasco, que ainda conheci, incondicional do salazarismo.

Durante os anos quentes de 1974/75, o bom senso, inspirado por José Manuel Rodrigues da Silva, prevalecera e o jornal seguira o lema “trabalhadores não saneiam trabalhadores” e ninguém foi afastado por razões políticas, em nome de um bem maior que era continuar a fazer um bom jornal.

Nesta redacção, a única da imprensa portuguesa com um director eleito – Jacinto Baptista –, aprendi a profissão, vendo trabalhar grandes profissionais, infelizmente desaparecidos com o correr dos anos: Abel Pereira, meu primeiro chefe de redacção, que me dizia sempre “olha a pressa rapaz, a pressa passa mas as asneiras ficam”; Acácio Barradas, que o substituiu, eleito pelos seus camaradas de trabalho; Adelino Cardoso, Humberto de Vasconcelos, Ângelo Granja, que era tão alto que na brincadeira lhe chamávamos “o maior jornalista português”.

E havia o Baptista-Bastos, claro. Sempre impecavelmente vestido, dava-se por ele quando entrava na redacção, até porque raramente era o primeiro a fazê-lo. Com voz de trovão, elevando-se acima do matraquear das máquinas de escrever e de dúzias de conversas em voz alta ao telefone, lançava um tonitruante “bom dia camaradas” que às vezes, ao sabor das indisposições e dos ódios de estimação, evoluía para fórmulas das quais a única publicável era “bom dia a todos menos a um”.

Era um dos últimos representantes do velho jornalismo da boémia e do Bairro Alto (onde ficavam, entre outros, o “Popular”, “A Capital”, o “Diário de Lisboa”, a “Bola”, o “Record” e o “Século”), o que fazia com que pertencer a esta profissão significava estar paredes meias com a literatura, as artes, a ciência a política e a filosofia. E, acima de tudo, com a correcção da escrita e a virtuosidade no uso da palavra.

Bastos, com obra publicada, escrevia primorosamente e não tolerava tiques de escrita, modismos ou prosas escritas à pressa. Muito menos cacofonias, erros de sintaxe ou de ortografia. Ainda não se sonhava com acordo ortográfico e já ele berrava a plenos pulmões: “Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”.

Seria impensável naquele tempo encontrar nas páginas do “Diário Popular” prosas cheias de “implementar”, “imperdível”, “emblemático”, “de acordo com” e demais barbaridades hoje tornadas corriqueiras, para não falar nos desmandos vindos de quem nem fala inglês nem português e nos mimoseia com “serviços de inteligência”, “oficiais do governo”, “adictos” ou “jovens mulheres”…

Eu e o João Garcia, que naquele tempo éramos os miúdos daquela redacção, habituámo-nos a ver partir muitos daqueles que nos ensinaram a ser o que somos. Foi agora a vez do Bastos. Até sempre, camarada!

 

Fonte: Expresso | “Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”: carta de despedida para Baptista-Bastos

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«Dois tempos desortografados» [Nuno Pacheco, “Público”]

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Dois tempos desortografados

Nuno Pacheco

“Público”, 30.03.17

Regredimos, em pleno século XXI português, aos tempos em que a instabilidade ortográfica era vulgar

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Já aqui se falou disto várias vezes, mas como a praga não passa nem sequer se atenua, convém falar outra vez. Peguemos numa revista, entre muitas. Numa página, em título destacado, lemos a palavra “atualidades”, num texto “atuais”, lendo-se noutras páginas e em diferentes textos, “actual” e “actuais”. Lê-se também, num apontamento literário, a palavra “correta”, isto apesar de noutras páginas da revista, e em textos distintos, surgirem as palavras “correcta” e “correctamente”. Que revista pensam que é? A Atual do Expresso? Podia ser. Essa ou qualquer outra dos nossos dias. Mas é a Revista Portugueza ABC de 6 de Junho de 1929, vendida por uns módicos 1$50 e, claro, visada pela Comissão de Censura. Nela havia ainda palavras como “auctores”, “azes de cinêma”, “hespanhol”, “anciosa”, “scêna”, “sciência” e uma secção dedicada a “todos os sports” (onde se falava, claro, de “football”). Tinham passado dezoito anos sobre a reforma ortográfica de 1911 e faltavam outros tantos para a de 1945. A instabilidade ortográfica era vulgar nessa altura, não só na ABC, mas noutras revistas da mesma época. Pois em pleno século XXI português regredimos a esses tempos. Uns dirão que isso se deve à não-aplicação integral do acordo ortográfico de 1990; outros, que é precisamente a tentativa de aplicá-lo, na irrazoabilidade das suas regras, que gera o caos. E estes últimos têm comprovada razão. Basta ver o que se passa com o Diário da República, que devia ser modelar nesse zelo aplicativo, para levar as mãos à cabeça em desalento absoluto. De resto, um passeio por lugares públicos é também instrutivo a este respeito. As legendas de obras expostas em museus são uma delícia de ortografias mistas. Na exposição de Amadeo de Souza-Cardoso que esteve no Museu do Chiado, em duas paredes vizinhas e logo nos títulos de textos ali estampados, falava-se, à esquerda, da “recepção” que Amadeo tivera em Lisboa e, à direita, na “receção” que teve, à época, no Porto. Um primor. No CCB, também em cartazes enormes, lê-se que ali pode ser vista a “colecção Berardo” e, mais adiante, a “coleção Berardo”. Outro primor.

Pior, muito pior, é a sanha implacável dos que não olham a meios para aplicar o dito “acordo” a tudo o que mexa. Exemplo: um livro como Cartas e Intervenções Políticas no Exílio, de Mário Soares (edição Temas & Debates, Círculo de Leitores) está inexplicavelmente “traduzido” para acordês, isto quando qualquer carta deveria manter ao ser editada a ortografia com que foi escrita. Outro exemplo: na mais recente crónica de Ana Cristina Leonardo na revista do Expresso (a da edição de 25 de Março) ela cita António Guerreiro a propósito de Rentes de Carvalho. A frase citada (de um artigo que ele escreveu no Ípsilon em 6 de Maio de 2016) refere, a dada altura, “a tendência conservadora, regressiva e inócua de grande parte da actual ficção narrativa”. Isto foi o que ele escreveu. Na transcrição aparece “atual” em vez de “actual”. Ora sabendo que a autora, tal como o citado, não são partidários do chamado AO90, a emenda é da responsabilidade do próprio Expresso. Desrespeito absoluto. Que é norma instituída. Há editoras que forçam os autores, até os vencerem pelo cansaço, a aceitarem uma ortografia que não usam e rejeitam. E há quem fique com livros por publicar por causa disso. Até ilustres membros da Academia das Ciências de Lisboa!

Contra este estado de coisas, já muito se tem feito. Mas não chega, como é bom repetir. Entre as acções anti-acordo, está em curso uma deveras curiosa: conseguir estampá-lo em papel higiénico. Em rigor não é escatologia. Há papel higiénico estampado com quase tudo, desde coisas simpáticas até coisas repugnantes: rosas, pinguins, flamingos, sapos, pais natais, noivos sorridentes, hello kittys, jacarés, arame farpado, palavras cruzadas, grelhas de sudoku, notas de dólar e de euro, caras de políticos (Che, Fidel, Estaline, Putin, etc) ou presidentes norte-americanos como George W. Bush, Barack Obama e até já Donald Trump. A que visa o AO90 chama-se Operação Folha Dupla e está em curso. Haverá para a ortografia uma “saída airosa, para bem de todos”, como em 2106 profetizou Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa? Pois se não for airosa, ao menos que seja higiénica. Útil para muitos, talvez alguns até a emoldurem.

Nuno Pacheco

[Artigo da autoria de Nuno Pacheco, “Público”, 30.03.17. Imagem de topo copiada do “blog” Malomil. “Links” meus.]

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«Foi por vontade de Deus?» [Ana Cristina Leonardo, “Expresso”]

Foi por vontade de Deus?

Ana Cristina Leonardo
“Expresso”, 18 Fevereiro 2017

«Não sei se serve de argumento, mas, assim de repente, parece-me aceitável: se, 27 anos após ter sido acordado, o AO90 continua a provocar desacordo, talvez não tenha sido afinal um bom acordo. Malaca Casteleiro, um dos seus principais obreiros, avançou numa entrevista ao “Observador” com uma explicação substancialmente diferente — e quase enternecedora, diria —, para a contestação teimosa: “Quando se suprimem as consoantes, as pessoas têm saudades das consoantes mudas…”. Saudade! Palavra tão portuguesa cantada por poetas e por Amália: “É o fado da pobreza/ Que nos leva à felicidade/ Se Deus o quis/ Não te invejo essa conquista/ Porque o meu é mais fadista/ É o fado da saudade”. Terá sido Deus a inspirar o Acordo? O linguista não vai tão longe, mostrando-se até bastante humilde no caso do para/arranca. Diz e o jornal transcreve (sic): “Os nossos alunos nas escolas, como ‘pára’ tinha acento, eles tinham a tendência de pôr assento em ‘paras’, ‘paro'”. Já agora, para quê complicar a vida das pessoas com a existência de palavras homófonas em vez de optar de uma vez por uma grafia una? Por exemplo: acento ou assento? Decidam-se! No pressuposto, defendido na entrevista, que o AO serve os infantes (“é mais fácil para as crianças”) e segue a pauta do “Diário da Guerra aos Porcos”, de Adolfo Bioy Casares (o AO “não é para os que estão no último quartel da vida, como eu, é para os que estão no primeiro quartel da vida, para os jovens”), não deixa todavia de parecer injusto que tanto se exija aos falantes adultos; confrontado com: “A maioria das pessoas parece não compreender porque é que [as consoantes mudas] foram suprimidas”, a resposta sai célere: “Não compreendem e não leram a nota explicativa. Se lessem a nota explicativa, refletissem e ponderassem, viam que havia razões”. Ora batatas! Ou há simplificação ou comem todos! Mas o acordista bate o pé. Indigna-se também nas páginas do “Expresso”: “Então, andaram os nossos grandes mestres da Filologia e da Linguística, portugueses e brasileiros, a labutar pela defesa da unidade essencial da língua e agora atraiçoamos esse património?” Traição! Outro fado. No caso, do Marceneiro, que só citamos os maiores. Mas o que mais me surpreendeu foi Malaca Casteleiro afirmar não existir confusão ortográfica: “É curioso, não tenho notado”. De onde concluo: o linguista lê pouco, nem sequer o “Diário da República“. Como o invejo!»

[“Expresso” (edição em papel), 18.02.17. Adicionei “links”]

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«AO90 é um disparate» [Maria Filomena Molder, “Expresso”]

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expresso-logoMaria Filomena Molder: “Só começamos depois de continuar”

06.06.2016 às 8h04

Chegou à Filosofia por não saber o que era. Foi professora até 2013, daquelas que não se esquecem. Escreveu uma dezena de livros e o que se segue está prestes a sair. Foi-nos revelado o final: a arte ganha

Chega-se e não há engano possível. Lá estão os sinais que a definem, a superpovoada biblioteca, as fotografias, os quadros, a janela sem cortinas para entrar a luz. E ela afável entre os seus tesouros, de que lançará mão durante a conversa. “Posso ler-lhe uma passagem?”, diz mais do que uma vez. Maria Filomena Molder, filósofa e professora (aposentada), não resiste ao poder de uma frase bem dita. Mesmo que o texto seja um descampado, um vinho de sabor estranho. Quem foi seu aluno na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, onde leccionou durante 30 anos a disciplina de Estética, fica a sê-lo para sempre. É uma condição da qual não se sai. Semelhante à da própria filosofia, essa pergunta sem resposta em que se integram todas as perguntas e respostas, num movimento instável e perpétuo sem o qual deixaria de existir. Numa manhã de Maio, falámos longamente sobre esta sua escolha. Sobre o seu novo livro (escreveu uma dezena). Sobre o papel do filósofo e sobre os que lhe são familiares. Sobre as causas que a espicaçam, que não estão fora do mundo. E sobre uma insatisfação inesperada — talvez o motor que a faz continuar.

[…]

Num seminário disse que, para compreendermos a nossa existência, temos de compreender as suas condições concretas. Isto é o oposto do que se pensa da filosofia: uma disciplina que paira acima do concreto.

É verdade. Por um lado, há na filosofia esse momento destrutivo e analítico, sem o qual não há filosofia. E é por isso que muitos textos filosóficos parecem ilegíveis — é como querer ler uma partitura e não saber música. Mas há também, por exemplo em Wittgenstein, a noção de que o significado das palavras não pode ser compreendido antes de termos olhado com muita atenção para os seus usos. O significado abandonado a si próprio é opaco.

Mas qual o papel do filósofo? Há causas que a mobilizam, como a morte assistida ou o acordo ortográfico (AO).

Sou a favor da morte assistida e contra a tentativa de impedir a liberdade de cada um em relação à sua própria morte. Estamos numa situação do ponto de vista tecnológico que faz com que aquilo que já não é vida humana seja prolongado de maneira indecente. E quem está prestes a ficar numa situação dessas deve poder dizer que não o quer. Não há nenhuma crença religiosa que se possa erigir em juiz da decisão de uma pessoa que não tem essa crença.

E porque é se opõe com tanta veemência ao AO?

A ortografia não é a língua. Quando era pequenina havia muitos analfabetos que falavam um português maravilhoso. Porém, a língua não está separada da escrita. Nas “Investigações Filosóficas”, Wittgenstein diz: “Pensa que a imagem virtual da palavra nos é num grau semelhante tão familiar como a auditiva.” No AO, esta familiaridade foi quebrada por razões enganadoras. Convém não esquecer que se trata de um acordo, um compromisso de unificação do que não é unificável. E é um disparate, porque apregoa uma unificação que ele próprio não consegue: o próprio AO admite grafias diferentes para as mesmas palavras. Além disso, pela primeira vez, uma reforma ortográfica tem consequências no modo de dizer as palavras. O ‘p’ em ‘recepção’ tem uma função elucidativa da vogal aberta. Podia ter-se substituído por um acento grave no ‘e’, mas não se fez. A tendência do falante de português — não do brasileiro — será fechar essa vogal. A ortografia modificará a leitura e a linguagem falada. E já gera confusões, como vir no “Diário da República” escrito ‘fato’ em vez de ‘facto’.

Isso é ignorar o próprio AO…

Estou em crer que 99% das pessoas que o aplicam nunca o leram. O Frederico Lourenço, alguém que admiro, escreveu que sempre houve mudanças na ortografia e que já se perderam vestígios etimológicos. Tem razão. Mas há uma coisa que se chama memória. E porque muitos vestígios se perderam temos de anular os que restaram?

Isto leva-nos ao seu novo livro, onde escreve: “Primeira regra: continuar. Segunda regra: começar.” A ideia, muito presente em si, de que nada vem do nada.

Essas regras vêm de um autor francês que estimo imenso e caiu no esquecimento, chamado Alain. E são mesmo regras para mim. Há uma história de infância que conto num dos meus livros. Eu brincava numa rua íngreme por trás da minha casa. Um dia subi-a, desci e fiz uma coisa que nunca tinha feito, que é olhar para o horizonte. E vi que estava lá o rio Tejo. Foi uma experiência muito forte, a de sentir que aquilo estava lá antes de o ter visto. Onde eu estava a começar, estava a continuar. Nós só começamos depois de continuar.

[…]

[Excerto de entrevista Expresso | Maria Filomena Molder: “Só começamos depois de continuar”. Conteúdo desbloqueado hoje, 06.06.16, no “site” do semanário. «Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 Maio 2016».]

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«Nove argumentos contra o Acordo Ortográfico de 1990» [“Expresso”, 11.05.16]

ruadoegitoOeiras11
Em 24 de Junho de 2015 publiquei aqui um texto, que recebi da autora, com o título “9 argumentos contra o AO90″. O semanário “Expresso” publica hoje um artigo da mesma autora com título e conteúdo idênticos, o qual me parece não conter alterações significativas em relação à versão já aqui publicada, à excepção da parte final (“Para terminar”). É, portanto, apenas esta parte final o que seguidamente transcrevo.

Com uma nota de discordância, porém. Ao contrário do que sucedeu na versão original, cujo conteúdo subscrevo na íntegra, este acrescento traz um desfecho que não apenas não subscrevo de forma alguma como rejeito terminantemente: «Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é passível de emendas fundamentais».

“Emendas”? Não, de todo. O AO90 não é passível de coisa alguma além de ser atirado para o caixote do lixo da História. O “acordo ortográfico” não é um acordo e não é ortográfico. Não tem emenda.

expresso-logo

Nove argumentos contra o Acordo Ortográfico de 1990

11.05.2016 às 8h00
Manuela Torres *

[]

Para terminar:

Outra coisa ainda deveria ser tida em conta: ao renunciar de modo cego às marcas históricas, este “acordo” insere-se num movimento global de apagamento da memória e de negação da História. Terrível movimento, que cada dia se torna mais evidente e que deixará sem raízes, sem passado, uma série de povos, se não a maioria. E que já está deixando o mundo à deriva, presa dócil de todas as tiranias. Admiramo-nos do modo como estão sendo destruídos monumentos, museus, cidades, inúmeras etnias e línguas. Este desrespeito, este crime que hoje nos parece abrupto, começou devagar, por pequenas coisas, aparentemente insignificantes.

É inelutável? Será irreversível? Há quem diga que é demasiado tarde para recuar. Mas talvez ainda se possa fazer qualquer coisa. Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é passível de emendas fundamentais.

* docente da Faculdade de Letras de Lisboa

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Asco

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Isto é jornalismo? Esta “aula” de acordismo, este asqueroso panfleto acordista, esta nojenta lavadura mental, este delirante espectáculo de pirotecnia “linguística”, este lixo em letra de forma é jornalismo? Que espécie de jornalista se presta a tão vergonhoso papel? Quem será ao certo o pobre diabo que de forma tão miserável serve a seu sinistro patrão — Francisco Pinto Balsemão, O Padrinho do AO90 — semelhante abjecção? Com que direito um semanário dito “de referência” arrasta no (e para o) lodo mais repugnante os nomes e as reputações de pessoas de bem? “Erros”???

Mas quem é que esta gentalha julga que nós somos? Atrasados mentais? Imbecis?

Mas o que diabo vem a ser isto, raios?!

expresso-logoOs ministros que não são fãs do acordo ortográfico

09.05.2016 às 16h14

As apresentações oficiais dos ministros da Ciência, da Tecnologia e Ensino Superior e do secretário de Estado da Cultura são as que têm mais erros relacionados com as novas regras do acordo ortográfico. O Expresso analisou as biografias disponíveis no site oficial do Governo. Este foi o resultado

José Pedro Mozos

Três ministros apresentam-se aos cidadãos com erros de português relacionados com as novas regras do acordo ortográfico (AO), a que o Estado português aderiu. Marcelo Rebelo de Sousa confessou que o cidadão-Marcelo escreve segundo as antigas regras e que o Presidente Rebelo de Sousa cumpre –porque tem de ser – o novo AO. O Expresso foi procurar saber mais e inspecionou (só com um ‘c’) as biografias do primeiro-ministro, dos 17 ministros e dos 41 secretários de Estado que estão disponíveis no site oficial do Governo. É certo que a maioria cumpre as regras do AO. Mas nem todos o fazem. Ora veja:

O ministro da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior, Manuel Heitor, foi o que mais erros cometeu: foram encontrados quatro erros na biografia oficial. O professor catedrático do Instituto Superior Técnico de Lisboa coordena um programa de doutoramento nesta instituição em “Engenharia de Concepção (deveria ser sem ‘p’,) e Sistemas Avançados de Manufactura (o ‘c’ está a mais)”. Na primeira palavra existe facultatividade. Ou seja, o redator pode escrever com ou sem ‘p’, conforme considere adequado. Porém, a forma aconselhada pelo Instituto de Linguista Teórica e Computacional (ILTEC) é que seja sem ‘p’.

Mas estes dois erros não são os únicos do ministro. Se continuarmos a leitura da pequena biografia ficamos a saber que Manuel Heitor foi professor visitante em Harvard “durante o ano lectivo 2011/12”. Curiosamente, nesse ano letivo (assim, sim) o acordo ortográfico já estava em vigor há dois anos. O currículo do ministro segue e os erros também. Manuel Heitor foi cofundador de uma rede de aprendiazagem internacional e coeditor de vários livros – e não “co-fundador” e “co-editor”, como se lê no site oficial do Governo. Não se pode dizer que o ministro optou por escrever a biografia seguindo as antigas regras, já que encontramos palavras escritas de acordo com as regras do AO90, como é o caso da palavra “ativamente”.

Mas Manuel Heitor não foi o único ministro a enganar-se. Na biografia de João Pedro Matos Fernades, também ele um antigo professor, foi possível encontrar um erro. O ministro do Ambiente “leccionou – há aqui uma letra a mais – como convidado em mestrados nas Universidades do Porto, Técnica de Lisboa e de Nápoles”. Mas também não deve ter sido uma opção não respeitar o AO: em primeiro lugar porque oficialmente está obrigado a cumprir com as normas do acordo e, em segundo lugar, porque foram detetadas palavras escritas de acordo com as novas regras – como é o caso dos meses do ano, que estão escritos com a primeira letra em minúscula.

Já o ministro da Economia ainda não escreve outubro com minúscula, como manda a Base XIX do AO90. Na biografia de Caldeira Cabral, o décimo mês do ano ainda está escrito com a letra inicial em maiúscula.

Para além destes três ministros, há ainda secretários de Estado que não parecem totalmente esclarecidos quanto às regras do novo acordo ortográfico. Por exemplo, na biografia do secretário de Estado da Cultura Miguel Honrado foram detetados três erros: “actividade” em vez de atividade; “projectos” com um ‘c’ a mais; “director” no lugar de diretor. O recém-chegado secretário de estado da Cultura é um dos que mais erros comete. Este conjunto de erros viola a Base IV, n.º 1, al. b), do AO90.

Depois de contactado pelo Expresso, o Ministério da Cultura informou já ter “pedido a correção dos termos para a grafia corrente”.

Outros cinco secretários de Estado falharam ao escrever os meses do ano com a inicial em maiúscula e não em minúscula, como estipula o polémico acordo ortográfico. Trata-se do erro mais comum.

Para além destes erros, dois ministros e quatro secretários de Estado parecem preferir a antiga grafia à nova quando escrevem palavras em que a dupla grafia é admitida.

O acordo ortográfico voltou a ser um tema de debate nas últimas semanas. Tudo por causa de Marcelo Rebelo de Sousa, que reabriu a discussão em torno das novas regras. Na visita de Estado que fez a Moçambique na semana passada, o Presidente da República admitiu a possibilidade de Portugal poder repensar a matéria caso Angola e Moçambique decidam não ratificar o documento. É que estes dois países são os únicos membros da CPLP que ainda não decidiram se aprovam ou não o acordo ortográfico. Marcelo defendeu que se os Parlamentos destes dois países disserem não ao acordo seria “uma oportunidade para repensar essa matéria”. E foi mais longe, admitindo que enquanto cidadão escreve de acordo com a antiga grafia, embora tenha de respeitar o acordo ortográfico como Presidente da República.

O Governo, porém, pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, já respondeu que se trata de um tratado internacional em vigor e que será respeitado pelo Estado. A deputada socialista Edite Estrela criticou abertamente Marcelo, lembrando que as crianças do 2.º ciclo de escolaridade não conhecem outra grafia que não seja a do AO e que, por isso, não faz sentido andar para trás.

Atualizado com informação do Ministério da Cultura

Source: Expresso | Os ministros que não são fãs do acordo ortográfico

Image By Gustave Doré – [From the Title Page:] Dante’s Inferno translated by The Rev. Henry Francis Cary, MA from the original of Dante Alighieri and illustrated with the designs of M. Gustave Doré New Edition With Critical and Explanatory notes, Life of Dante, and Chronology Cassell, Petter, Galpin & Co. New York, London and Paris The book was printed c. 1890 in America., Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5710975

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