Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Facebook

A minha é maior q’a tua

Sinal dos tempos. No “maravilhoso mundo novo” tudo é possível, de facto. Neste alucinado e por vezes infecto ambiente virtual tornou-se facílimo mudar de identidade: totalmente, radicalmente, infinitamente.

A “Carla”, por exemplo, que pode muito bem ter sido a criadora (e primeira “signatária”) da sua própria petição para que ela mesma traga bolo, poderia também, já, instantaneamente, mudar de nome, mudar de casa e até… mudar de sexo. Trata-se, nestes avançadíssimos ambientes cibernéticos, de uma operação indolor e rapidíssima (cerca de cinco segundos, incluindo os períodos pré-operatório e de recobro) que garante uma persona novinha em folha, um alter ego com “existência” real, novo endereço postal, casa nova, a estrear, novo emprego, outra idade (à escolha) e, é claro, um endereço de email perfeitamente funcional e “legítimo”.

Este é um dos processos electrónicos de produção de “gente” em série e é desta “gente”, grandes legiões de seres virtuais, que se “recrutam” inúmeros “militantes” cujas “identidades” múltiplas servirão para engrossar, inflacionar, agigantar as “fileiras” de certos (e incertos) “grupos” no Fakebook e para “legalmente” subscrever, por exemplo, petições — também estas integralmente virtuais — a granel.

Aliás, como anteriormente aqui demonstrei, este tipo de “processo” serve em simultâneo para ambos os efeitos: torna-se assim facílimo criar perfis de utilizador no Fakebook e usar estes para “subscrever” petições online. Com a vantagem acessória de que nestes preparos não fica o mais ínfimo rasto nem da aldrabice nem do aldrabão: criado o perfil ad-hoc e “subscrevendo” com esses “dados” uma qualquer petição, bastará então apagar o dito perfil na rede “social”, criar outro, “subscrever” com este outro, apagar, criar de novo, subscrever, apagar… e assim sucessivamente, ad infinitum, à vontade do freguês.

Não pretendo, de forma alguma, com isto dizer que todas as petições virtuais foram já infectadas por esta nova estirpe de vírus cívico. Vigarices e vigaristas sempre existiram, pois está claro. Mas nunca antes em tão esmagadora dimensão, jamais nesta escala verdadeiramente industrial.

Neste preciso momento estão registadas 142 petições no Parlamento português, dizendo aquele total respeito apenas às petições entradas entre 30 de Setembro de 2016 e 9 de Maio de 2017. De entre todas elas, pois com certeza, a maioria será porventura legítima e as respectivas assinaturas — até porque ainda há subscrições em papel e por meios minimamente fiáveis — serão reais e não fictícias.

Porém: os meios fraudulentos existem, a falsificação de subscrições está hoje em dia, como agora se vê e comprova, incrivelmente facilitada.

(mais…)

Share

O que diz Pacheco

Do programa “Quadratura do Círculo”, emitido em 18.05.17 pela SIC Notícias, parece-me aproveitável a parte em que José Pacheco Pereira dá pancada (que não lhe doam as mãos!) no chamado “acordo ortográfico”.

Foi aliás esse mesmo o primeiro tema da tertúlia, se bem que os demais convivas, moderador incluído, se tenham limitado a ou debitar as larachas do costume (Jorge Coelho, pois claro) ou perorar vigorosamente que nim, ah, e tal, eu até acho que coiso mas patati patatá (Lobo Xavier).

Por conseguinte, não se aproveitando mais nada dos 20 minutos iniciais da gravação, transcrevo em baixo — quase na íntegra — apenas o que diz Pacheco.

(mais…)

Share

«Breve reflexão sobre a minha esquisitíssima profissão» [Pedro Barroso, músico]

Breve reflexão sobre a minha esquisitíssima profissão

Tenho um grave problema pessoal e profissional. Não sei o que faço.

Normalmente as pessoas sabem o que andam a fazer: – são canalizadores, médicos, professores, carpinteiros, coisas assim.

Ora eu não. Desde que fabricaram este “acordo ortográfico” desconheço a minha profissão, e peço misericórdia por isso.

Vejamos. Eu conto.

Em pequenino era prendado e dava sempre zero na redacção. Hoje “redação, fato, receção e direção” entre muitas outras palavras, perderam o “c” portanto a coisa ficou de “facto” complicada e sem …”direcção”. Perturba. Desorienta.

Hoje digo ao autocarro “pára” e ele diz que é “para”. Quero um autocarro “para” qqr lado e ele baralha-se e …”pára”! Caos absoluto.

Em jovem, fui “actor” no TEC. Mas essa profissão, estranhamente, desapareceu. Hoje existe uma coisa a que se chama “ator” que eu situo entre os atilhos de sapatos e sei lá o quê. E eu, sinceramente, custa-me cada vez mais a dobrar; uso sapatos de pala e calçadeira e acabei por dedicar-me mais à composição e à música. Tive de abandonar.

Mas continuo com o mesmo problema grave. Não saber no fundo, como se chama aquilo que faço.
Costumo chamar ao que produzo “concertos”; embora sinta que, de facto – embora toque piano e fale francês…- um concerto é uma coisa com maestros de labita, Beethoven, Rachmaninov, etc. Ora bem. Coisas sérias, a preto e branco etc. Não é propriamente o caso. Normalmente levo camisa e vou até com a fralda de fora. Não deve ser concerto, portanto. Já não sei.

Provável alternativa deveria ser “espectáculo”. Estou hora e meia, duas horas seguidas em palco com os músicos, enfim. “Espectáculo”. Talvez. Contudo, essa expressão parece-me mais adequada ao Circo, lembra-me mais uma trupe do Circo Chen ou talvez os trapezistas do circo de Moscovo. Isso sim. Espectáculo. Ou o “Preço certo” do Fernando Mendes. “Espectáculo”! Portanto, também fico aflito perante o desafio, como podeis supor, por razões de total incapacidade em assumir tal tipo de arriscadas “performances”.

“Performances”. Bem lembrado! Poderia também usar, de facto, este termo estrangeirado; mas, francamente, “performance” parece mais tirado do Atletismo, Ciclismo ou Natação, cujos também já não são de minha pratica corrente. E quando subo ao palco, raramente é na intenção de entrar no Guiness por qualquer “conseguimento”, como pretendia a nossa inefável “Presidenta” da AR.

(mais…)

Share

«Falta apenas bom senso» [João Roque Dias, tradutor]

Atrás da declaração «Portugal tem sempre cumprido com as suas obrigações internacionais», o MNE é, finalmente, obrigado a vir a jogo e falar das hipóteses de o aborto ortográfico vir a ser objecto de um “coup de grâce”.

É um passo de gigante, depois do triste comportamento de avestruz durante todo este processo, por este e por todos os governos anteriores.

É também bom que o governo português entenda, de uma vez por todas, que o fim do aborto ortográfico não é o fim da Pátria nem da honra do Estado. Face ao miserável estado da ortografia em Portugal depois da tentativa falhada da sua aplicação em Portugal (basta o MNE dar uma vista de olhos pelo Diário da República), é antes uma atitude inteligente e patriótica. O cumprimento dos tratados não deve servir para “mostrar serviço”, quando tal lesa os interesses de Portugal. Dizer apenas, como diz o MNE, que o AO90 «está em plena aplicação» (o “plena” não passa de “palha” nesta frase), sem olhar para os resultados da sua falhada e doentia aplicação é uma declaração desonesta que deveria envergonhar o seu autor e o governo a que pertence.

O Brasil já nos ensinou duas vezes como se protegem os interesses próprios: com a Reforma portuguesa de 1911, adoptada pela ABL em 1915 e revogada pela mesma ABL em 1919 e com a Convenção de 1945, adoptada pelo Brasil (Decreto-lei 8.286, de 05.12.1945) e posteriormente revogada pelo Decreto-lei 2.623, de 21.10.1955.

“Jurisprudência”, existe. Falta apenas bom senso.

João Roque Dias

[imagem de: ILC-AO]

Share

‘O espírito de rebanho’

«Os portugueses são exemplares. Têm sido exemplares desde o começo; eu tenho muitos amigos portugueses, tenho contacto com vários deles, contacto constante, pela Internet, e há um movimento geral entre os intelectuais portugueses, das mais várias procedências, contra este acordo que é uma fraude. Isto não unifica nada! Isto piora o que existe e não unifica nada. Então para quê mexer? Isto é uma fraude! Uma fraude promovida no Brasil pela Academia Brasileira de Letras. A verdade é essa. Pura e simplesmente. Por um professor de língua portuguesa que também usa fardão; é membro do clube. Ele de repente se transformou no campeão desse novo acordo. E é até hoje. E ganhou dinheiro com isso. Então não há nada a fazer. Salvo dizer a verdade, quando necessário, como eu estou fazendo agora. Até porque eu já não tenho mais nada a perder.»
Sérgio de Carvalho Pachá

 


A propósito do texto (público) seguinte, divulgado hoje no Facebook, reproduzo mais em baixo um “post” da ILC-AO (de 2014) contendo a gravação vídeo de uma entrevista a este mesmo filólogo brasileiro. Texto e vídeo contêm, com alguns anos de intervalo e em registos obviamente diferentes, o relato — circunstanciado e na primeira pessoa — daquilo que significa na verdade o “acordo ortográfico” de 1990: numa palavra, fraude.
 


 

Como o “Acordo Ortográfico” regressou dos mortos

Fernando Venâncio

Friday, April 21, 2017

Em 2008, o Acordo Ortográfico 1990 estava morto e esquecido. Os seus defensores portugueses tinham chegado a um benéfico apaziguamento mental, depois de anos com as mãos à cabeça. Eis senão quando, do outro lado do Atlântico…
A história do regresso dos mortos do AO90 é-nos contada por Sérgio de Carvalho Pachá (na foto), ex-Lexicógrafo-Chefe da Academia Brasileira de Letras, que assistiu de perto ao fantasmático episódio, e dele iria tornar-se a primeira vítima.
Agradeço ao Sérgio o permitir a divulgação.
*
Caros Amigos,
Um amigo longínquo (há anos vive e trabalha numa instituição internacional sediada em Washington), que foi meu contemporâneo no Colégio Anchieta, de Nova Friburgo, perguntou-me ontem como ocorrera a minha demissão da A.B.L: “Que história é esta? Você, mais do que muitos acadêmicos, era para mim o símbolo da Casa de Machado de Assis”. Aqui está minha resposta, enviada ontem mesmo, que, já agora, estendo a vocês: amanhã ou depois não estarei mais aqui para novamente responder a esta indagação, e eu quero que ao menos meus amigos mais próximos saibam o que aconteceu.
S.P.
(mais…)

Share

‘Atingiu o seu limite de artigos gratuitos’

«As asneiras (…) citadas não foram detectadas em meros, modestos, blogs ou páginas de Facebook de jovens ortograficamente inexperientes, iliteratos e ignorantes. Estavam e estão em sítios oficiais de importantes instituições e empresas, públicas e privadas, incluindo estabelecimentos de ensino superior e órgãos de comunicação social.

Para saber quem “escreveu” o quê deve-se ir ao sítio da ILCAO e consultar o inacreditável “inventário” em constante actualização. Que constitui uma prova irrefutável e definitiva deste “apocalise abruto”, deste “cAOs” ortográfico – e, consequentemente, também comunicacional, cultural e educativo – que está a alastrar em Portugal. Será definitivo? Ou, pelo contrário, será contido e até revertido? De Belém e de S. Bento espera-se uma resposta. Urgentemente.»

Octávio dos Santos, “Público”, 13 de Março de 2015

Voltemos ao início: “a questão ortográfica precisa de ser controlada por determinação política”. Ora vejam algumas pérolas que tal “determinação” incentivou: “pato de estabilidade”, “fato“, “fatual“, “fatualmente“, “frição“, “fricional”, “fricionar“, “inteleto“, “inteletual“, “latose“, “otogenária”, “setuagenários“, “espetável“, “espetadores“, “contatos“, “conceção [do visto]”, “conceção [da autorização]”, etc. Há mais. Muito mais. A colheita, abundante e diária, é dos T…

Nuno Pacheco, “Público”, 09.03.17

 



Nessun dorma! Nessun dorma! Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza
guardi le stelle
che tremano d’amore e di speranza…
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia.

Il nome suo nessun saprà…
E noi dovrem, ahimè, morir, morir!

Dilegua, o notte! Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle! All’alba vincerò!

Written by Giacomo Puccini, Giuseppe Adami, Renato Simoni • Copyright © Universal Music Publishing Group
Share
João Pedro Graça © 2015 - 2017 Frontier Theme