Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: História

AO90: «a maior aberração política» [Alfredo Barroso, jornal “i”]

Aberrações políticas à la carte

Alfredo Barroso

24 Março 2017

Já com os pés na pátria, constato que a maior aberração política é o acordo ortográfico de 1990, com que o então PM Cavaco Silva quis sentar-se à mesa com os países de língua oficial portuguesa.

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O estado do mundo não é de fiar. Está a precisar do colo de Nossa Senhora de Fátima, como aconselha a ex-militante estalinista Zita Seabra, convertida à religião de São Paulo depois de ter percorrido afanosamente a sua “estrada de Damasco”.

Uma visita virtual ao número 1600 da Avenida Pensilvânia, em Washington D.C., confirma as minhas apreensões. A Casa Branca foi ocupada por um trio de loucos furiosos e freaks racistas – Donald Trump, Steve Bannon e Kellyanne Conway –, sem dúvida as mais perigosas aberrações políticas da actualidade. De acordo com vários psicólogos, Donald Trump sofre de “narcisismo infantil”, e um estudo efectuado pela Universidade Carnegie Mellon conclui que ele “fala como uma criança” e só fica à frente de Bush filho por uma unha negra, “ao nível de uma criança entre o quinto e o sexto ano” de escolaridade. Ou seja: o mundo está mesmo perigoso!

No Palácio da Alvorada, em Brasília, a coisa também está preta. A residência oficial dos presidentes brasileiros foi abandonada por Michel Temer, o ridículo chefe de Estado não eleito de uma república das bananas, levando consigo mulher e filho: Marcela e Michelzinho. Disse Temer: “A energia não era boa. A Marcela sentiu a mesma coisa. Só o Michelzinho, que ficava correndo de um lado para outro, gostou. Chegamos a pensar: será que aqui tem fantasma?” Não era fantasma, não. Era só fantasminha, paizão! Era o seu Michelzinho a correr dum lado para o outro!

Passemos a Bruxelas, sede da União Europeia. Como se já não bastasse o hilariante luxemburguês Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia furiosamente beijoqueiro e dado a alegrias pós-prandiais esfusiantes, irrompeu agora o até há dias todo-poderoso presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, serventuário do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, a proferir invectivas contra os meridionais, deste jaez: “Não posso gastar todo o meu dinheiro em álcool e mulheres e continuar a pedir ajuda.” Suspeita-se que a metáfora deste holandês encaracolado – de um partido da Internacional Socialista que foi sovado nas recentes eleições – lhe ocorreu depois de uma visita às montras do famoso Bairro Vermelho de Amesterdão. Ou seja, a UE continua nas mãos de políticos aberrantes, supostamente abstémios e misóginos, que desprezam os países do sul e estão acorrentados à serventia dos diktats alemães. É grave.

Já com os pés na pátria, constato que a maior aberração política é o acordo ortográfico de 1990, com que o então PM Cavaco Silva quis sentar-se à mesa com os países de língua oficial portuguesa (“palopes”) para partilhar com eles um “pato de estabilidade” (ortográfica). Só que, 27 anos depois, nada se passou como ele desejava e o “pato” (sem laranja) é um fiasco político, linguístico, social, cultural, jurídico e económico. O AO90, em que abundam aberrações de todo o tipo, é, aliás, mais um dos “monstro” gerados pela governação de Cavaco Silva (o mais famoso dos quais é o da dívida pública). E aqui vão, tão- -só, dois exemplos.

O primeiro é o da eliminação arbitrária do uso do hífen. Que me pôs a suspeitar da razão pela qual a expressão “cor-de-rosa” tem hífen e a expressão “cor de laranja” não tem! Terá sido uma profecia política que só agora se consumou, com o traço de união entre o partido cor-de-rosa (PS) e a maioria parlamentar de esquerda que aguenta o governo?! E o partido cor de laranja (PPD-PSD) terá ficado sem hífen porque ameaça desmoronar-se?!

O segundo é o da supressão arbitrária do acento agudo, a provocar situações hilariantes. Veja-se o caso da expressão popular “Alto e pára o baile” (isto é, “stop”). Escrita com acento agudo antes do AO90, passou a escrever-se sem acento agudo – “Alto e para o baile” (isto é, “go”) – na grafia do AO90. Como escreveu Nuno Pacheco, no “Público”: “O disparate é livre, mas para quê abusar?” Perante a indiferença dos cidadãos, os paninhos quentes dos académicos e a cumplicidade dos partidos, será que vamos ser meros “espetadores” (sem espeto) da perpetuação deste atentado contra a língua e a cultura portuguesas, pela via do facto consumado?!

[Transcrição integral de artigo de opinião, da autoria de Alfredo Barroso, publicado em 24.03.17 pelo jornal “i”. Imagem de topo: SIC Notícias. Autoria (?) Jose Manuel Ribeiro / Reuters. “Links” e destaques adicionados por mim.]

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‘Atingiu o seu limite de artigos gratuitos’

«As asneiras (…) citadas não foram detectadas em meros, modestos, blogs ou páginas de Facebook de jovens ortograficamente inexperientes, iliteratos e ignorantes. Estavam e estão em sítios oficiais de importantes instituições e empresas, públicas e privadas, incluindo estabelecimentos de ensino superior e órgãos de comunicação social.

Para saber quem “escreveu” o quê deve-se ir ao sítio da ILCAO e consultar o inacreditável “inventário” em constante actualização. Que constitui uma prova irrefutável e definitiva deste “apocalise abruto”, deste “cAOs” ortográfico – e, consequentemente, também comunicacional, cultural e educativo – que está a alastrar em Portugal. Será definitivo? Ou, pelo contrário, será contido e até revertido? De Belém e de S. Bento espera-se uma resposta. Urgentemente.»

Octávio dos Santos, “Público”, 13 de Março de 2015

Voltemos ao início: “a questão ortográfica precisa de ser controlada por determinação política”. Ora vejam algumas pérolas que tal “determinação” incentivou: “pato de estabilidade”, “fato“, “fatual“, “fatualmente“, “frição“, “fricional”, “fricionar“, “inteleto“, “inteletual“, “latose“, “otogenária”, “setuagenários“, “espetável“, “espetadores“, “contatos“, “conceção [do visto]”, “conceção [da autorização]”, etc. Há mais. Muito mais. A colheita, abundante e diária, é dos T…

Nuno Pacheco, “Público”, 09.03.17

 



Nessun dorma! Nessun dorma! Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza
guardi le stelle
che tremano d’amore e di speranza…
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia.

Il nome suo nessun saprà…
E noi dovrem, ahimè, morir, morir!

Dilegua, o notte! Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle! All’alba vincerò!

Written by Giacomo Puccini, Giuseppe Adami, Renato Simoni • Copyright © Universal Music Publishing Group
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«Foi por vontade de Deus?» [Ana Cristina Leonardo, “Expresso”]

Foi por vontade de Deus?

Ana Cristina Leonardo
“Expresso”, 18 Fevereiro 2017

«Não sei se serve de argumento, mas, assim de repente, parece-me aceitável: se, 27 anos após ter sido acordado, o AO90 continua a provocar desacordo, talvez não tenha sido afinal um bom acordo. Malaca Casteleiro, um dos seus principais obreiros, avançou numa entrevista ao “Observador” com uma explicação substancialmente diferente — e quase enternecedora, diria —, para a contestação teimosa: “Quando se suprimem as consoantes, as pessoas têm saudades das consoantes mudas…”. Saudade! Palavra tão portuguesa cantada por poetas e por Amália: “É o fado da pobreza/ Que nos leva à felicidade/ Se Deus o quis/ Não te invejo essa conquista/ Porque o meu é mais fadista/ É o fado da saudade”. Terá sido Deus a inspirar o Acordo? O linguista não vai tão longe, mostrando-se até bastante humilde no caso do para/arranca. Diz e o jornal transcreve (sic): “Os nossos alunos nas escolas, como ‘pára’ tinha acento, eles tinham a tendência de pôr assento em ‘paras’, ‘paro'”. Já agora, para quê complicar a vida das pessoas com a existência de palavras homófonas em vez de optar de uma vez por uma grafia una? Por exemplo: acento ou assento? Decidam-se! No pressuposto, defendido na entrevista, que o AO serve os infantes (“é mais fácil para as crianças”) e segue a pauta do “Diário da Guerra aos Porcos”, de Adolfo Bioy Casares (o AO “não é para os que estão no último quartel da vida, como eu, é para os que estão no primeiro quartel da vida, para os jovens”), não deixa todavia de parecer injusto que tanto se exija aos falantes adultos; confrontado com: “A maioria das pessoas parece não compreender porque é que [as consoantes mudas] foram suprimidas”, a resposta sai célere: “Não compreendem e não leram a nota explicativa. Se lessem a nota explicativa, refletissem e ponderassem, viam que havia razões”. Ora batatas! Ou há simplificação ou comem todos! Mas o acordista bate o pé. Indigna-se também nas páginas do “Expresso”: “Então, andaram os nossos grandes mestres da Filologia e da Linguística, portugueses e brasileiros, a labutar pela defesa da unidade essencial da língua e agora atraiçoamos esse património?” Traição! Outro fado. No caso, do Marceneiro, que só citamos os maiores. Mas o que mais me surpreendeu foi Malaca Casteleiro afirmar não existir confusão ortográfica: “É curioso, não tenho notado”. De onde concluo: o linguista lê pouco, nem sequer o “Diário da República“. Como o invejo!»

[“Expresso” (edição em papel), 18.02.17. Adicionei “links”]

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‘A noiva cadáver’

O acordismo militante ou o doce dom de iludir

“Público”, 16 de Fevereiro de 2017, 7:50

Nuno Pacheco

O acordo ortográfico foi feito “porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa”. É curioso: continua a haver.

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Isto talvez pareça demasiado bizarro para o comum dos mortais, mas as guerras da ortografia em Portugal continuam acesas e, pelo menos aos interessados (que deviam ser todos), recomendam-se. Depois das propostas de revisão apresentadas pela Academia e da polémica que opôs o ministro Santos Silva a Manuel Alegre, veio a terreiro o “pai” da coisa, em defesa da sua “dama” (salvo seja). Primeiro num artigo de opinião no Expresso (intitulado, bombasticamente, de “Atentado na Academia das Ciências”) e depois numa longuíssima entrevista ao Observador, João Malaca Casteleiro veio dizer que mudanças no acordo ortográfico “não têm pés nem cabeça”.

O que argumenta, então, o insistente Malaca? Que o acordo foi feito “porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa”. E que isso trazia problemas ao ensino. É curioso: continua a haver duas ortografias e pioraram (bastante) os problemas no ensino. Depois, diz que outra das razões a ter em conta é “os alunos nas escolas fugirem dos acentos como o diabo da cruz” [e, segundo a transcrição, riu-se]. E o que fazer a alunos que fogem das aulas como o diabo da cruz? Libertá-los em definitivo do ensino? Terceiro argumento: fez-se esta “unificação” (a “98%”) porque a “unificação absoluta é inviável”. Deve ter sido por isso que Portugal criou divergências na escrita de numerosas palavras (receção agora em Portugal, contra recepção no Brasil) que antes se escreviam da mesma maneira?

Querem mais argumentos fantásticos? Vejam este: ele diz que, em 1990, “tínhamos admitido algum aperfeiçoamento”. Porém, até hoje não mexeu uma palha para mudar fosse o que fosse; e agora diz que mudar seja o que for “é contraproducente” e “não tem pés nem cabeça”. Ora bem: sendo assim, porque é que noutra passagem da entrevista ele admite que podem ser feitas correcções no Vocabulário Ortográfico Comum? Então afinal pode-se mudar ou não se pode? Já agora, falando do almejado Vocabulário, recorde-se que Malaca, num parecer de 2005, garantia estar pronto (no Instituto de Lexicologia da Academia das Ciências, quando ele por lá imperava) “para efectuar, num prazo de seis meses, uma primeira versão do referido Vocabulário, com cerca de 400 mil entradas lexicais.” Passaram uns bons doze anos e o VOC? Nem vê-lo. Prometem-no agora para Maio. Seis meses, hã? 400 mil entradas lexicais, hã? O que é que parece errado aqui, digam? Deve ser, com certeza, o calendário. Outro argumento para não mexer em nada é que o acordo é internacional. Pois é. Mas por um passe de pantomina jurídica até entrou em ordens jurídicas nacionais sem ter entrado primeiro, como devia, se isto não fosse uma farsa (Moçambique e Angola ainda não o ratificaram), na ordem jurídica internacional.

A leitura da entrevista é muito instrutiva, para quem queira dar-se a esse trabalho. A um trabalho devia dar-se o Observador, já agora: substituir na entrevista “retificado” e “retificação” por “ratificado” e “ratificação”, já que é uma ratificação pelo parlamento que o texto refere. Mas se disso Malaca não tem culpa (e sim o jornal), tem culpa de tudo o resto. Diz, por exemplo: “Não estou a participar nem estou a acompanhar a questão do Vocabulário Comum”; mas logo umas linhas abaixo, esclarece: “Acho que eles têm feito um bom trabalho”. Acha? Mas acha como, se não acompanha? Deve ser da mesma forma que acha que “as vozes contra não tiveram grande expressão” no momento em que se discutiu e votou o acordo, quando é público que foram pedidos vários pareceres e que todos eles, incluindo o da Comissão Nacional da Língua Portuguesa, foram desfavoráveis ou bastante críticos excepto um. Adivinham qual? O assinado pelo próprio Malaca, orgulhoso defensor da sua “dama”.

O problema, mais para todos nós do que para Malaca (que continua arauto do inqualificável texto que patrocinou sem que lhe peçam, seriamente, contas pelas muitas promessas não cumpridas), é que a “dama” dele é mais aparentada à “noiva cadáver” inventada por Tim Burton do que a uma senhora a quem devamos respeito. “Não podemos andar a mudar a ortografia assim de forma ligeira. Qualquer alteração tem de ser muito ponderada porque afeta [sic] muita gente”. É Malaca Casteleiro quem o diz, a fechar a entrevista. Devia tê-lo dito em 1990. Poupava trabalho e muito dinheiro.

[“Público”, 16.02.17. Adicionei “links”. A imagem de topo é cópia de uma das centenas ou milhares disponíveis na Internet.]

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O senhor Dezporcento

«(…) na altura da sua aprovação, a contestação foi pouca. Os governos de Portugal, Brasil e dos outros países de língua portuguesa mostraram-se de acordo, e os linguistas de cá e de lá também.»

33 palavras, 3 mentiras

 

Malaca Casteleiro: novas mudanças no Acordo Ortográfico “não têm pés nem cabeça”

Rita Cipriano

“Observador”, 13 Fevereiro 2017

João Malaca Casteleiro é um dos responsáveis pelo Acordo que aproximou a ortografia de Portugal e Brasil. Em entrevista, diz que “voltar atrás seria um atentado ao bom senso”.

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Os filhos estão sempre a dizer-lhe para se deixar disso, mas João Malaca Casteleiro acredita que tem de defender a sua “dama”. A sua “dama”, como lhe chama, é o Acordo Ortográfico de 1990, que ajudou a construir (foi ele, aliás, o principal responsável da Academia de Ciências de Lisboa pela elaboração do documento e autor do anexo de seis páginas que o encerra) e que tanta polémica tem causado.

No final do passado mês de Janeiro, a Academia de Ciências de Lisboa divulgou um documento intitulado Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico, onde são sugeridas alterações a algumas das regras do Acordo Ortográfico. Entre elas incluem-se o regresso de algumas consoantes mudas, do acento agudo em palavras acentuadas na penúltima sílaba (e com pronúncia e grafia iguais), do acento circunflexo em vocábulos homógrafos, isto é, que se escrevem da mesma forma. O documento foi discutido na semana passada na Comissão Parlamentar da Cultura, onde foi ouvido o actual presidente da Academia, Artur Anselmo, a pedido do Bloco de Esquerda.

Apesar de muitos acreditarem que as Sugestões da Academia de Ciências de Lisboa poderão vir a desencadear um processo de alteração do chamado Novo Acordo Ortográfico, o ministro dos Negócios Estrangeiros já fez questão de dizer que isso está fora de questão. “A nossa posição é que devemos aguardar serenamente para que o processo de ratificação seja concluído para que o Acordo Ortográfico possa entrar em vigor em todos os países que o assinaram e o aprovaram”, disse Augusto Santos Silva, explicando que este é um “acordo internacional” a que o Estado português está obrigado.

As declarações de Santos Silva levaram Manuel Alegre, que também esteve presente na audição da Comissão Parlamentar da Cultura, a acusá-lo de ser “arrogante”, numa das muitas polémicas que o Acordo Ortográfico de 1990 já provocou e que João Malaca Casteleiro admite não conseguir compreender. É que, na altura da sua aprovação, a contestação foi pouca. Os governos de Portugal, Brasil e dos outros países de língua portuguesa mostraram-se de acordo, e os linguistas de cá e de lá também.

Passados quase 30 anos, o linguista afirma que nunca pensou que ainda estaria a falar do mesmo assunto. Apesar disso, sente que tem de o fazer para que todos percebam o que estava e está em causa, que nada foi feito ao acaso e que o Novo Acordo Ortográfico, tal como é, foi a melhor solução final possível. Apesar de defender com unhas e dentes o acordo que ajudou a criar, o linguista não põe de lado eventuais aperfeiçoamentos.

Não põe de lado eventuais aperfeiçoamentos, mas acredita que nada deve ser alterado até que entre em vigor em todos os países de língua portuguesa (falta Angola). Tece fortes críticas à Academia de Ciências, que acredita que está a desrespeitar a memória da própria instituição, uma das principais responsáveis pelo acordo hoje vigente, e ao seu actual presidente, que quer levar a cabo “um desmantelamento” do Acordo.

Fonte: Malaca Casteleiro: novas mudanças no Acordo Ortográfico “não têm pés nem cabeça” – Observador

[Destaques e “links” meus. Evidentemente, corrigi os erros de ortografia do original.]

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‘Just for the record’

 

7 de Fevereiro de 2017: uma delegação da Academia das Ciências de Lisboa (ACL) é recebida pela Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto. Objectivo: apresentar um documento intitulado como “Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa“.

Desta tão simpaticamente amável quanto ligeiramente tensa reunião, cuja gravação vídeo foi disponibilizada pelos serviços parlamentares e que agora se dá aqui por integral e fielmente reproduzida [ver nota], resultou — na prática — uma mão cheia de nada e um monte de coisa nenhuma.

Porém, não sejamos esquisitos, se virmos a coisa de forma não prática (nem teórica) temos de facto algum sumo para espremer, salvo seja.

Vamos dar de barato a (pelo menos, aparente) crispação que, totalmente ao invés do que diz o Presidente da ACL, se sente a pairar, qual ave de mau agoiro, por cima das ilustres cabeças que naquela sala estiveram durante quase duas horas defendendo os interesses da Pátria.

Ignoremos do mesmo passo a notória agressividade, por vezes resvalando para a grosseria, de que deram sobejas mostras as acordistas ali de serviço (Gabriela Canavilhas e Edite Estrela), contrastando ambas, grosseria e agressividade, Estrela e Canavilhas, com a extrema — e quase comovente — urbanidade dos membros da ACL e, em especial, do próprio Artur Anselmo.

Muita coisa se poderia dizer e outra tanto palpitar, por conseguinte, sobre este evento de S. Bento. Não sobre o que foi dito mas sobre o que não foi dito e, em especial, sobre a forma como o não dito ficou clara e paradoxalmente subentendido: pequenas mas eloquentes expressões subliminares e elípticas, insinuações manipuladas com pinças mentais, ideias implícitas em embrulhos extremamente palavrosos e farfalhudos.

A ideia central, nunca referida, sequer vagamente, por qualquer dos presentes (só mais essa faltava) ou por algum dos “opinion makers” da nossa virtual praça, parece-me ter sido esta: culpar o actual Presidente da ACL, Artur Anselmo, por aquilo que fizeram e, sobretudo, por aquilo que não fizeram os seus antecessores, Adriano Moreira e… Malaca Casteleiro. Ou seja, diz Canavilhas, possessa, as veias de seu (lindo, por acaso) pescoço salientes, tumefactas, ameaçando rebentar, ah, e tal, “a ACL tem-se colocado como uma entidade à parte neste processo”. Ou seja ainda, diz a Edite, dirigindo-se a Anselmo com sua nada ríspida voz semelhante a unhas raspando num quadro de lousa, ah, e tal, “o padre prega e não há acento” ou lá o que foi que ela disse, de momento varreu-se-me.

E o bom do Artur, enfiado, como diria nosso Eça, lá tentou bravamente demonstrar lealdade para com a Instituição a que (agora) mui dignamente preside, limitou-se a alçar ligeiramente e com parcimónia o lábio fremente, aliviando-se com um sonoro “tenho dito” de quando em vez, coitado, aquilo foi um massacre, alguém devia dar umas lições de polidez às duas senhoras, raios, chamem a Bobone.

 

[Nota: “post” editado em 27.02.17 às 03:00 h. Por uma questão de economia de recursos (espaço em disco e tráfego) retirei o vídeo aqui anteriormente disponibilizado em alojamento local. O original dessa gravação vídeo pode ser visto directamente no “site” do Parlamento.]

 

P.S.: grosserias à parte, não deixa de ser “curioso” que as duas irritadíssimas socialistas acusem Artur Anselmo por aquilo que fez Malaca, ou seja, enfiar-nos o AO90 goela abaixo, e acusem também o mesmo Artur por aquilo que não fez Adriano Moreira, isto é, mexer-se de alguma forma para acabar com o dito AO90. E a “curiosidade” resulta da constatação factual de que, se ambas as nervosinhas senhoras o acusam das duas coisas, então é porque reconhecem que foram dois erros, fazer o AO90 e não o desfazer. Pois, xôdonas Edite e Gabriela, nisso estamos plenamente de acordo. Todos os três, perdoe-se-me a tremenda lata.

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