Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: linguística

Assim com’assim

 

«Mas o que mais me custa perceber (…) é a estranha relação dos linguistas com o seu objecto de estudo. Por um lado, de tanto estudarem a Língua dir-se-ia que passam a considerá-la propriedade sua, esquecendo que outros, sejam escritores, poetas ou comuns mortais como eu, também a usam e têm uma palavra a dizer sobre o assunto. Por outro lado, o facto de a Língua ser “deles”, dos linguistas, não implica que sintam por ela uma proximidade por aí além — pelo menos no que à Ortografia diz respeito, consideram-na uma mera ferramenta, uma simples convenção que tanto faz ser assim como assado.»
Rui Valente

Esta citação assenta que nem uma luva no discurso que o presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE) ofereceu a 6 deputados há alguns dias. Confesso que não entendi lá muito bem a essência da coisa.

Vejamos.

A APE lançou recentemente um inquérito interno sobre o AO90. Os resultados foram publicados no “portal” da Associação.

Segundo o próprio presidente da Associação, manifestaram-se 30% dos sócios, ou seja, cerca de 500 de um total que rondará os 1.500. Dos que se expressaram, 86% são contra e 13% são a favor.

Ora, o que me “custa” a entender no que o senhor diz, e por isso se calhar ouvi mesmo mal, é que ele acha 86% pelos vistos pouco e portanto vai lançar outro inquérito na APE; e, para o caso de alguém achar que 86% não é pouco, então atira para cima dos 86% um terrível labéu: “não são especialistas, não são linguistas”. Que são “só” Professores! Que são escritores e professores, em simultâneo, mas, ó martírio, ó inclemência, não são “especialistas”!

Só posso ter ouvido mal, de facto. De todas as quatro vezes.

Espera. Pode lá ser. Assim com’assim, vou ouvir a quinta.

[Imagem de topo copiada de: http://ichloe.ig.com.br/humor/2017-04-18/erros-de-portugues.html]

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“A unificação é uma miragem” [Helena Buescu, linguista]

 

Fantástico depoimento, extraordinária argumentação, espantoso manifesto! Não encontro os adjectivos mais adequados — nem os suficientes — para qualificar a verdadeira lição de Português que a Professora Helena Buescu deu aos deputados. Foi uma brilhante, inspiradíssima  lição de Português, sim, e foi também uma verdadeira aula de História e até mesmo de Decência, algo que não sendo disciplina curricular parece ser uma grande lacuna na formação básica de boa parte dos nossos deputados.

Tive imensa dificuldade em escolher um título para este “post”. Decidi-me por uma citação de entre muitas outras que serviriam para o efeito, de igual peso, significado e brilho.

Durante toda a aula ouve-se perfeitamente o absoluto silêncio dos deputados acordistas, o que denota com eloquência gritante a total falência dos argumentos que não têm para contrapor aos que lhes foram claramente… explicados.

Não vale a pena transcrever a lição da linguista, porque nesse caso teria de passar a escrito mais de meia hora de discurso. Este é um daqueles raros casos em que se diz “só ouvindo”. Tudo.

 

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Angola em ‘Desacordo Ortográfico’

Não entendi lá muito bem algumas passagens deste texto (não terá sido revisto, talvez) mas isso pouco importa. O que interessa é que nele se demonstra mais uma vez que Angola rejeita o AO90 e que os angolanos mantêm-se firmes na defesa da sua Língua nacional.

 

Um ataque pessoal a Camões

Indira dos Santos | 1 de Maio, 2017

Não entendo esta ideia da obrigatoriedade linguística. Faz-nos regredir ao tempo, que não vivi, da política colonial do assimilacionismo em África e que de certa medida anulou o pluralismo das línguas nativas e dos discursos periféricos emergentes.

————–

A língua não devia aprisionar identidades. Eu não sou a língua que falo mas falo a língua que escrevo. O desacordo ideológico é bem-vindo ou pelo menos devia sê-lo quando o assunto é a cultura das línguas.

Devíamos debater, o debate é filosoficamente “obrigatório”, sensato, diverso, correto ou correcto o português vernáculo foi apartado pela própria língua portuguesa- acordo ortográfico, facto consumado em Portugal… fica a dúvida. Talvez devêssemos actualizar a oralidade no alfabeto angolês alfabeto de uma força discursiva que se Camões estivesse vivo reformularia Os Lusíadas, ou acrescentaria o xé, o cá, o ocó, acá… líricas, de “Os Lusíadas de Angola”. Foi a língua portuguesa que fez Camões poeta ou as viagens pelo mundo? Quem nos faz poetas, escritores, romancistas, mulheres e homens de letras? Os livros. As pessoas. A cultura dos lugares. As palavras do alfabeto, alfabeto de origem grega, (alphábetos mestiçado ou estrangeirado com o latim). Um dicionário. É necessário um dicionário.

O dicionário! O primeiro dicionário da “angolanidade” e as suas ramificações, é possível num só livro colocar os universos simbólicos e linguísticos de um país que se vê confrontado, excluído e absorvido pelos vários mundos culturais. Vamos abrir esta porta, este território que anda sobrevivido pelos códigos de rua, como no antigamente fora sonhado pelos intelectuais do musseque mas que precisa ser matéria nas escolas.

Com certeza que nascerão heterónimos e os jovens do meu bairro que jogam damas com tampas de cerveja serão os próximos poetas e dramaturgos. O modelo ortográfico para o ensino em Angola tem um peso de consciência intelectual enorme. Etnocentrismos postos de parte este modelo deve condensar todos os caminhos. Tem que ser o caminho.

O caminho da unidade angolar, da fonética, da oralidade, da escrita criativa, do multiculturalismo angolês. Um dicionário da metamorfose linguística: Ganguela, Kikongo, Chócue, Latim, Kimbundo, Inglês, Umbundo, Holandês, Português, brasileirês,…tanto. Imaginem como o mundo seria enfadonho se vivêssemos todos em acordo. Há  dois dias desapareceu-me o Desacordo Ortográfico, o livro. O título é sugestivo e confesso que foi um dos pressupostos para a compra. É deste livro que provêm as ideias para o alfabeto angolês e a dialectologia nacional.

O livro é uma (re)união de escritores de língua oficial portuguesa em desacordo com a noção conservadorista de um vocabulário único, mas mais que isso, é uma celebração viva da liberdade literária. Uma produção artística em diferença que rompe com a rigidez normativa do “lusismo” e apresenta soluções (ou contra-percepções) verbais a nível sintáctico e morfológico.

Luandino Vieira, Pepetela, Ondjaki fazem parte dos geniais que tiveram a audácia de escrever em “mau” português o Desacordo Ortográfico. O diálogo fora criado a partir da similaridade e da diversidade que nos remonta para um convívio linguístico onde a língua portuguesa é apenas um dos códigos das nacionalidades /internacionalidades dos escritores. Fica a saudade do livro e a vontade de comprar outro Desacordo Ortográfico. E no futuro quem sabe o “Lusíadas de Angola”.

[Transcrição de: Um ataque pessoal a Camões | Artigos | Opinião | Jornal de Angola – Online]

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‘O espírito de rebanho’

«Os portugueses são exemplares. Têm sido exemplares desde o começo; eu tenho muitos amigos portugueses, tenho contacto com vários deles, contacto constante, pela Internet, e há um movimento geral entre os intelectuais portugueses, das mais várias procedências, contra este acordo que é uma fraude. Isto não unifica nada! Isto piora o que existe e não unifica nada. Então para quê mexer? Isto é uma fraude! Uma fraude promovida no Brasil pela Academia Brasileira de Letras. A verdade é essa. Pura e simplesmente. Por um professor de língua portuguesa que também usa fardão; é membro do clube. Ele de repente se transformou no campeão desse novo acordo. E é até hoje. E ganhou dinheiro com isso. Então não há nada a fazer. Salvo dizer a verdade, quando necessário, como eu estou fazendo agora. Até porque eu já não tenho mais nada a perder.»
Sérgio de Carvalho Pachá

 


A propósito do texto (público) seguinte, divulgado hoje no Facebook, reproduzo mais em baixo um “post” da ILC-AO (de 2014) contendo a gravação vídeo de uma entrevista a este mesmo filólogo brasileiro. Texto e vídeo contêm, com alguns anos de intervalo e em registos obviamente diferentes, o relato — circunstanciado e na primeira pessoa — daquilo que significa na verdade o “acordo ortográfico” de 1990: numa palavra, fraude.
 


 

Como o “Acordo Ortográfico” regressou dos mortos

Fernando Venâncio

Friday, April 21, 2017

Em 2008, o Acordo Ortográfico 1990 estava morto e esquecido. Os seus defensores portugueses tinham chegado a um benéfico apaziguamento mental, depois de anos com as mãos à cabeça. Eis senão quando, do outro lado do Atlântico…
A história do regresso dos mortos do AO90 é-nos contada por Sérgio de Carvalho Pachá (na foto), ex-Lexicógrafo-Chefe da Academia Brasileira de Letras, que assistiu de perto ao fantasmático episódio, e dele iria tornar-se a primeira vítima.
Agradeço ao Sérgio o permitir a divulgação.
*
Caros Amigos,
Um amigo longínquo (há anos vive e trabalha numa instituição internacional sediada em Washington), que foi meu contemporâneo no Colégio Anchieta, de Nova Friburgo, perguntou-me ontem como ocorrera a minha demissão da A.B.L: “Que história é esta? Você, mais do que muitos acadêmicos, era para mim o símbolo da Casa de Machado de Assis”. Aqui está minha resposta, enviada ontem mesmo, que, já agora, estendo a vocês: amanhã ou depois não estarei mais aqui para novamente responder a esta indagação, e eu quero que ao menos meus amigos mais próximos saibam o que aconteceu.
S.P.
(mais…)

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«Mais vale arrepiar caminho…» [Teresa Caeiro, deputada]

Desta recente audição parlamentar sobre o AO90 destaco, pela sua relevância política, a intervenção da deputada Teresa Caeiro, do CDS-PP.

Parece-me, aliás, tratar-se de uma intervenção não apenas politicamente relevante — até porque é secundada na mesma ocasião por uma deputada do extremo oposto do espectro partidário — como se trata também de um discurso algo surpreendente, quando não desconcertante: então só agora percebeu que o AO90 é uma catástrofe, senhora deputada? Não tinha ainda entendido a dimensão da fraude aprovada por larga maioria dos deputados, alguns dos quais da sua própria bancada parlamentar? Jamais lhe ocorreu que aquilo não passa afinal de uma gigantesca vigarice assinada “de cruz” e imposta selvaticamente aos povos de seis dos sete países da CPLP?

Bem, bem, bem. Mas que não seja por isso, senhora deputada. Poderá de facto não ter tido conhecimento das sucessivas golpadas que a tão catastróficos resultados conduziram. Nos “Passos Perdidos” perde-se de facto muita coisa, além de passos: se calhar, foi ali que alguém perdeu relatórios, pareceres, documentos que profunda e profusamente demonstravam a aldrabice “ortográfica”. E bem sabemos que, se não a maioria, pelo menos boa parte dos deputados que aprovaram a catástrofe anunciada não faziam a menor ideia daquilo em que estavam a votar.

Como muito bem diz, senhora deputada, as palavras são suas, “mais vale arrepiar caminho num erro do que persistir no mesmo”. E como lá diz por seu lado o povo, “mais vale tarde do que nunca”.

Seja Vossa Excelência muito bem vinda ao lado sério (e honesto) da “questão ortográfica”, senhora deputada Teresa Caeiro!


[transcrição] (na gravação, em baixo, a partir de 34:05)
Eu vou ser muito breve, até porque as questões principais já foram colocadas, mas eu não queria deixar de agradecer de um forma muito, muito empenhada às senhoras professoras o facto de terem disponibilizado o vosso tempo para virem aqui dar-nos exactamente estes argumentos técnicos, de forma a que se possam tomar atitudes políticas.

(mais…)

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Os números não mentem – 4

«Qualquer acordo pressupõe cedências e compromissos de ambas ou de todas as partes envolvidas, o que não é de todo o caso deste.»

A nossa ILC

A pergunta que nunca alguém sequer se atreveu a fazer: quantas palavras da variante brasileira foram realmente alteradas pelo “acordo ortográfico” de 1990?

Nunca, jamais, em tempo algum foi dada a resposta: está num dos três resultados finais, a vermelho. Pista: não é nenhum dos dois repetidos.

A seguir esmiuçaremos esta verdade a partir de agora insofismável.

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