Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Medicina

Uma questão de ótica, ou seja, para surdos.


.

Vimax, Optivisão, Fábrica de Óculos

Eduardo Cintra Torres

Jornal de Negócios, 10.05.17

Os reclames da Fábrica de Óculos estão cheios de imagens e de frases. A desatenção à ortografia é notável pelo exagero de erros.

 

Os anúncios de óculos graduados têm uma vantagem e uma dificuldade sobre os outros: o recurso à imagem permite-lhe usar com bom proveito efeitos visuais; mas, ao mesmo tempo, se o observador os vê bem, é porque está bem servido com as lentes que usa no momento da observação.

Um anúncio das lentes progressivas Vimax procurou ultrapassar a dificuldade criando uma ficção no seu anúncio de publicidade fixa e recorrendo a uma celebridade, o actor Andy Garcia. Na imagem, Garcia, do lado direito, sorri olhando directamente o observador por detrás dos seus óculos. Vai na rua. Um homem e uma mulher que passam, um homem que conduz um descapotável e, numa barbearia do lado esquerdo, o barbeiro e o cliente, todos andam ou estão de olhos vendados. Só a criança que vai pela mão da mãe no passeio tem os olhos livres e, sem óculos, sorri ao identificar a celebridade.

O mundo é cego sem lentes progressivas. Os transeuntes e os da barbearia não vêem o que é importante, nomeadamente a celebridade que passa. A minha ignorância desconhece o que são “as ó[p]ticas mais importantes”, mas reproduzo a frase: “Nas ó[p]ticas mais importantes, Andy Garcia escolhe lentes progressivas Vimax.” O slogan “Se escolhe Vimax, escolhe ver” sugere a negativa: se não escolher Vimax, não escolherá ver, mantendo a cegueira como a que se vê na imagem.

As lojas Optivisão optaram por mostrar uma parte do anúncio desfocado, sugerindo ao observador que está a perder parte do que quer ver. Tal como Vimax, recorreram a pessoas conhecidas do público, os apresentadores Sílvia Alberto (RTP) e João Manzarra (SIC). Eles aparecem, cada um no seu anúncio, desfocados dentro duma espécie de enquadramento rectangular, que delimita a celebridade e o que está desfocado. O efeito resulta. A tendência do observador é para olhar para pessoas na publicidade; neste caso, esse poder de atracção inato prolonga-se pela estranheza inicial da desfocagem e porque, ao insistir no olhar, se percebe que se está a olhar para uma cara conhecida. Deste modo, os anúncios conseguem reter a atenção e, eventualmente, convidar à leitura do slogan em cima: “Cuide dos seus olhos e não perca o que quer ver.” A frase aplica-se a tudo o que se quer ver e aos apresentadores e aos programas em que participam e que são referidos nos próprios anúncios, através do logótipo. Nos anúncios de televisão, os reclames têm um desfecho feliz, o de os apresentadores desfocados passarem a focados. Já nos anúncios de imagem fixa, só aparecem desfocados – o que pode ser, paradoxalmente, uma vantagem para quem não aprecia os apresentadores e os seus programas.

Na região de Lisboa e na internet há um anúncio de óculos desfocados sem qualquer sofisticação e sem celebridades. Em si mesmo, o nome da empresa convida a uma publicidade básica: Fábrica de Óculos. O slogan é daqueles que eu aprecio na sua brutalidade: “Atenção. Não se deixe enganar. Esta Fábrica só Existe no Cacém. O resto são imitações.”

Os reclames da Fábrica de Óculos estão cheios de imagens e de frases. A desatenção à ortografia é notável pelo exagero de erros. Alguns deles resultam da confusão gerada em Portugal com a chamada “reforma ortográfica” imposta pelo poder político. Um desses erros é comum às três campanhas aqui referidas: “ótica”, em vez de óptica, que deve ser uma das inovações mais estúpidas do chamado “Acordo Ortográfico”. Tirar o “p” a óptica origina palavras homónimas referentes a dois sentidos diferentes, pois óptico refere-se aos olhos e ótico refere-se aos ouvidos. De forma que apetecia que o anúncio da Fábrica de Óculos, e porque não os outros dois, viesse com um “disclaimer”: “Atenção. Não se deixe enganar pelo ‘Acordo Ortográfico’. Este anúncio é sobre óptica e não sobre ótica. Para tratar dos ouvidos, consulte um otorrinolaringologista.”

[Transcrição integral de “Vimax, Optivisão, Fábrica de Óculos – Eduardo Cintra Torres – Jornal de Negócios“. Texto da autoria de Eduardo Cintra Torres, publicação em 10.05.17. Inseri “links”.]
[Imagem de topo: página principal do “diretório” [sic] de “óticas” [sic] (Portugal). Imagem de rodapé de: conta Twitter da “Fábrica de Óculos”.]

Share

Admirável Língua Nova (Parte II) [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte II)

Manuel Matos Monteiro

17 de Janeiro de 2017, 14:32

Nunca ocorreu a nenhuma das luminárias do Acordo Ortográfico que não se encontram dois falantes de português em 261 milhões que pronunciem exactamente do mesmo modo todos os vocábulos que conheçam?

——————-

Com o Acordo, se ler que “Cristiano Ronaldo tem pé de atleta”, poderá tratar-se de um elogio ao talento do futebolista ou de uma micose superficial na pele dos pés do herói nacional, provocada por fungos. Se não adoptar o Acordo, a micose é grafada com hífenes. É essa a lógica da língua portuguesa. (Lógica que o Acordo mutila) [ver texto anterior, Admirável Língua Nova, Parte I] Quando queremos ler meramente a soma dos seus constituintes, naturalmente não hifenizamos.

Repare o leitor nas seguintes construções frásicas: “O robô tem um braço de ferro e outro de metal” e “As confederações patronais entraram num braço-de-ferro com os sindicatos”. O hífen desfaz o valor literal e confere outro sentido. Pense-se no cavalo. Um rabo de cavalo não é um “rabo-de-cavalo”, tal como um cavalo de batalha não é um “cavalo-de-batalha” (várias acepções). Pense-se no camelo. O asco que seria engolir baba de camelo e o prazer suave e demorado (para alguns) que é a baba-de-camelo.

Share

E se enfiassem o AO90 no “esfínter”, hem?


Descreve-se o caso de um doente do sexo masculino, 58 anos, com diagnóstico de Colite Ulcerosa esquerda com 17 anos de evolução, sob terapêutica com messalazina com adequado controlo, que referia sensação de tumefação anal e dor ocasional à defecação. Ao exame proctológico detetou-se uma massa com cerca de 3 cm, ao toque retal, logo acima do canal anal, bem delimitada, de consistência elástica e aparentemente extrínseca. A colonoscopia revelou doença inflamatória intestinal quiescente não se identificando expressão endoscópica da referida massa. A ecoendoscopia demonstrou lesão predominantemente hipoecogénica, heterogénea, com áreas hipo/anecogénicas, vascularizada, desde a transição anorretal até ao canal anal médio, inclusivé, com cerca de 39,5mm, na dependência da 4ª camada e em contato íntimo com a vertente posterior do esfínter anal interno a nível do canal anal médio. A ressonância magnética pélvica complementar mostrou formação nodular expansiva, de contornos bem definidos, com sinal heterogéneo, predominantemente hiperintenso em T2 e reduzido em T1, localizada posteriormente à transição anorretal, sem plano de clivagem definido e em íntima relação com o músculo elevador do anús.

Optou-se por realizar punção guiada da lesão tendo-se obtido material constituído por fragmentos de tecido muscular liso, actina e desmina positivos, sem caraterísticas de malignidade. Decidiu-se efetuar excisão cirúrgica por via posterior que decorreu sem complicações. O exame anatomopatológico confirmou tratar-se de leiomioma (actina e desmina positivo e CD117 negativo).

Os leiomiomas da região perianal são tumores de origem mesenquimatosa, raros, que podem mimetizar outras lesões subepiteliais com diferente potencial de malignidade como, por exemplo, o tumor do estroma gastrintestinal GIST. A ecoendoscopia surge como um método de diagnóstico essencial na caraterização deste tipo de lesões. Apresenta-se este caso pela sua raridade e para discussão dos diagnósticos diferenciais deste tipo de lesões.

Serviço de Gastrenterologia, Centro Hospitalar do Algarve – Hospital de Faro

Fonte: LIVRO-RESUMOS.pdf

 

Share
João Pedro Graça © 2015 - 2017 Frontier Theme