Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: tugas

«Dois tempos desortografados» [Nuno Pacheco, “Público”]

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Dois tempos desortografados

Nuno Pacheco

“Público”, 30.03.17

Regredimos, em pleno século XXI português, aos tempos em que a instabilidade ortográfica era vulgar

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Já aqui se falou disto várias vezes, mas como a praga não passa nem sequer se atenua, convém falar outra vez. Peguemos numa revista, entre muitas. Numa página, em título destacado, lemos a palavra “atualidades”, num texto “atuais”, lendo-se noutras páginas e em diferentes textos, “actual” e “actuais”. Lê-se também, num apontamento literário, a palavra “correta”, isto apesar de noutras páginas da revista, e em textos distintos, surgirem as palavras “correcta” e “correctamente”. Que revista pensam que é? A Atual do Expresso? Podia ser. Essa ou qualquer outra dos nossos dias. Mas é a Revista Portugueza ABC de 6 de Junho de 1929, vendida por uns módicos 1$50 e, claro, visada pela Comissão de Censura. Nela havia ainda palavras como “auctores”, “azes de cinêma”, “hespanhol”, “anciosa”, “scêna”, “sciência” e uma secção dedicada a “todos os sports” (onde se falava, claro, de “football”). Tinham passado dezoito anos sobre a reforma ortográfica de 1911 e faltavam outros tantos para a de 1945. A instabilidade ortográfica era vulgar nessa altura, não só na ABC, mas noutras revistas da mesma época. Pois em pleno século XXI português regredimos a esses tempos. Uns dirão que isso se deve à não-aplicação integral do acordo ortográfico de 1990; outros, que é precisamente a tentativa de aplicá-lo, na irrazoabilidade das suas regras, que gera o caos. E estes últimos têm comprovada razão. Basta ver o que se passa com o Diário da República, que devia ser modelar nesse zelo aplicativo, para levar as mãos à cabeça em desalento absoluto. De resto, um passeio por lugares públicos é também instrutivo a este respeito. As legendas de obras expostas em museus são uma delícia de ortografias mistas. Na exposição de Amadeo de Souza-Cardoso que esteve no Museu do Chiado, em duas paredes vizinhas e logo nos títulos de textos ali estampados, falava-se, à esquerda, da “recepção” que Amadeo tivera em Lisboa e, à direita, na “receção” que teve, à época, no Porto. Um primor. No CCB, também em cartazes enormes, lê-se que ali pode ser vista a “colecção Berardo” e, mais adiante, a “coleção Berardo”. Outro primor.

Pior, muito pior, é a sanha implacável dos que não olham a meios para aplicar o dito “acordo” a tudo o que mexa. Exemplo: um livro como Cartas e Intervenções Políticas no Exílio, de Mário Soares (edição Temas & Debates, Círculo de Leitores) está inexplicavelmente “traduzido” para acordês, isto quando qualquer carta deveria manter ao ser editada a ortografia com que foi escrita. Outro exemplo: na mais recente crónica de Ana Cristina Leonardo na revista do Expresso (a da edição de 25 de Março) ela cita António Guerreiro a propósito de Rentes de Carvalho. A frase citada (de um artigo que ele escreveu no Ípsilon em 6 de Maio de 2016) refere, a dada altura, “a tendência conservadora, regressiva e inócua de grande parte da actual ficção narrativa”. Isto foi o que ele escreveu. Na transcrição aparece “atual” em vez de “actual”. Ora sabendo que a autora, tal como o citado, não são partidários do chamado AO90, a emenda é da responsabilidade do próprio Expresso. Desrespeito absoluto. Que é norma instituída. Há editoras que forçam os autores, até os vencerem pelo cansaço, a aceitarem uma ortografia que não usam e rejeitam. E há quem fique com livros por publicar por causa disso. Até ilustres membros da Academia das Ciências de Lisboa!

Contra este estado de coisas, já muito se tem feito. Mas não chega, como é bom repetir. Entre as acções anti-acordo, está em curso uma deveras curiosa: conseguir estampá-lo em papel higiénico. Em rigor não é escatologia. Há papel higiénico estampado com quase tudo, desde coisas simpáticas até coisas repugnantes: rosas, pinguins, flamingos, sapos, pais natais, noivos sorridentes, hello kittys, jacarés, arame farpado, palavras cruzadas, grelhas de sudoku, notas de dólar e de euro, caras de políticos (Che, Fidel, Estaline, Putin, etc) ou presidentes norte-americanos como George W. Bush, Barack Obama e até já Donald Trump. A que visa o AO90 chama-se Operação Folha Dupla e está em curso. Haverá para a ortografia uma “saída airosa, para bem de todos”, como em 2106 profetizou Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa? Pois se não for airosa, ao menos que seja higiénica. Útil para muitos, talvez alguns até a emoldurem.

Nuno Pacheco

[Artigo da autoria de Nuno Pacheco, “Público”, 30.03.17. Imagem de topo copiada do “blog” Malomil. “Links” meus.]

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AO90: «a maior aberração política» [Alfredo Barroso, jornal “i”]

Aberrações políticas à la carte

Alfredo Barroso

24 Março 2017

Já com os pés na pátria, constato que a maior aberração política é o acordo ortográfico de 1990, com que o então PM Cavaco Silva quis sentar-se à mesa com os países de língua oficial portuguesa.

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O estado do mundo não é de fiar. Está a precisar do colo de Nossa Senhora de Fátima, como aconselha a ex-militante estalinista Zita Seabra, convertida à religião de São Paulo depois de ter percorrido afanosamente a sua “estrada de Damasco”.

Uma visita virtual ao número 1600 da Avenida Pensilvânia, em Washington D.C., confirma as minhas apreensões. A Casa Branca foi ocupada por um trio de loucos furiosos e freaks racistas – Donald Trump, Steve Bannon e Kellyanne Conway –, sem dúvida as mais perigosas aberrações políticas da actualidade. De acordo com vários psicólogos, Donald Trump sofre de “narcisismo infantil”, e um estudo efectuado pela Universidade Carnegie Mellon conclui que ele “fala como uma criança” e só fica à frente de Bush filho por uma unha negra, “ao nível de uma criança entre o quinto e o sexto ano” de escolaridade. Ou seja: o mundo está mesmo perigoso!

No Palácio da Alvorada, em Brasília, a coisa também está preta. A residência oficial dos presidentes brasileiros foi abandonada por Michel Temer, o ridículo chefe de Estado não eleito de uma república das bananas, levando consigo mulher e filho: Marcela e Michelzinho. Disse Temer: “A energia não era boa. A Marcela sentiu a mesma coisa. Só o Michelzinho, que ficava correndo de um lado para outro, gostou. Chegamos a pensar: será que aqui tem fantasma?” Não era fantasma, não. Era só fantasminha, paizão! Era o seu Michelzinho a correr dum lado para o outro!

Passemos a Bruxelas, sede da União Europeia. Como se já não bastasse o hilariante luxemburguês Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia furiosamente beijoqueiro e dado a alegrias pós-prandiais esfusiantes, irrompeu agora o até há dias todo-poderoso presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, serventuário do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, a proferir invectivas contra os meridionais, deste jaez: “Não posso gastar todo o meu dinheiro em álcool e mulheres e continuar a pedir ajuda.” Suspeita-se que a metáfora deste holandês encaracolado – de um partido da Internacional Socialista que foi sovado nas recentes eleições – lhe ocorreu depois de uma visita às montras do famoso Bairro Vermelho de Amesterdão. Ou seja, a UE continua nas mãos de políticos aberrantes, supostamente abstémios e misóginos, que desprezam os países do sul e estão acorrentados à serventia dos diktats alemães. É grave.

Já com os pés na pátria, constato que a maior aberração política é o acordo ortográfico de 1990, com que o então PM Cavaco Silva quis sentar-se à mesa com os países de língua oficial portuguesa (“palopes”) para partilhar com eles um “pato de estabilidade” (ortográfica). Só que, 27 anos depois, nada se passou como ele desejava e o “pato” (sem laranja) é um fiasco político, linguístico, social, cultural, jurídico e económico. O AO90, em que abundam aberrações de todo o tipo, é, aliás, mais um dos “monstro” gerados pela governação de Cavaco Silva (o mais famoso dos quais é o da dívida pública). E aqui vão, tão- -só, dois exemplos.

O primeiro é o da eliminação arbitrária do uso do hífen. Que me pôs a suspeitar da razão pela qual a expressão “cor-de-rosa” tem hífen e a expressão “cor de laranja” não tem! Terá sido uma profecia política que só agora se consumou, com o traço de união entre o partido cor-de-rosa (PS) e a maioria parlamentar de esquerda que aguenta o governo?! E o partido cor de laranja (PPD-PSD) terá ficado sem hífen porque ameaça desmoronar-se?!

O segundo é o da supressão arbitrária do acento agudo, a provocar situações hilariantes. Veja-se o caso da expressão popular “Alto e pára o baile” (isto é, “stop”). Escrita com acento agudo antes do AO90, passou a escrever-se sem acento agudo – “Alto e para o baile” (isto é, “go”) – na grafia do AO90. Como escreveu Nuno Pacheco, no “Público”: “O disparate é livre, mas para quê abusar?” Perante a indiferença dos cidadãos, os paninhos quentes dos académicos e a cumplicidade dos partidos, será que vamos ser meros “espetadores” (sem espeto) da perpetuação deste atentado contra a língua e a cultura portuguesas, pela via do facto consumado?!

[Transcrição integral de artigo de opinião, da autoria de Alfredo Barroso, publicado em 24.03.17 pelo jornal “i”. Imagem de topo: SIC Notícias. Autoria (?) Jose Manuel Ribeiro / Reuters. “Links” e destaques adicionados por mim.]

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‘Atingiu o seu limite de artigos gratuitos’

«As asneiras (…) citadas não foram detectadas em meros, modestos, blogs ou páginas de Facebook de jovens ortograficamente inexperientes, iliteratos e ignorantes. Estavam e estão em sítios oficiais de importantes instituições e empresas, públicas e privadas, incluindo estabelecimentos de ensino superior e órgãos de comunicação social.

Para saber quem “escreveu” o quê deve-se ir ao sítio da ILCAO e consultar o inacreditável “inventário” em constante actualização. Que constitui uma prova irrefutável e definitiva deste “apocalise abruto”, deste “cAOs” ortográfico – e, consequentemente, também comunicacional, cultural e educativo – que está a alastrar em Portugal. Será definitivo? Ou, pelo contrário, será contido e até revertido? De Belém e de S. Bento espera-se uma resposta. Urgentemente.»

Octávio dos Santos, “Público”, 13 de Março de 2015

Voltemos ao início: “a questão ortográfica precisa de ser controlada por determinação política”. Ora vejam algumas pérolas que tal “determinação” incentivou: “pato de estabilidade”, “fato“, “fatual“, “fatualmente“, “frição“, “fricional”, “fricionar“, “inteleto“, “inteletual“, “latose“, “otogenária”, “setuagenários“, “espetável“, “espetadores“, “contatos“, “conceção [do visto]”, “conceção [da autorização]”, etc. Há mais. Muito mais. A colheita, abundante e diária, é dos T…

Nuno Pacheco, “Público”, 09.03.17

 



Nessun dorma! Nessun dorma! Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza
guardi le stelle
che tremano d’amore e di speranza…
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia.

Il nome suo nessun saprà…
E noi dovrem, ahimè, morir, morir!

Dilegua, o notte! Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle! All’alba vincerò!

Written by Giacomo Puccini, Giuseppe Adami, Renato Simoni • Copyright © Universal Music Publishing Group
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“OCTANAS: Ocorrência: Censurado pelo Público…”

Ocorrência: Censurado pelo Público…

Octávio dos Santos

… Ou, mais correctamente, por algumas pessoas no Público. Hoje, no meu (outro) blog Obamatório, publiquei o meu artigo «Histeria histórica»… integralmente, quando o objectivo inicial era apenas reproduzir do mesmo um excerto. E há mais de um mês: no passado dia 12 de Fevereiro enviei-o àquele jornal para ser editado, mas apenas electronicamente – a sua elevada dimensão (quase 14 mil caracteres) tornava a sua passagem a papel improvável, se não mesmo impraticável.

Porém, no dia 23, e depois de me ter garantido, em conversa por telefone no dia 20, que ele seria publicado a 22, Nuno Ribeiro enviou-me uma mensagem em que me informava de que, afinal, e após uma «avaliação», o meu texto não sairia. Em conversa por telefone posterior com o actual editor de opinião do Público perguntei-lhe repetidamente quem efectuara essa «avaliação» e o que se concluíra nela – isto é, quais os motivos concretos que haviam levado à reversão da decisão inicial. O meu interlocutor recusou-se a responder, reiterando que o meu artigo era «impublicável», e aconselhou-me a recorrer ao actual director, David Dinis. O que fiz…

… Por correio electrónico nesse próprio dia, 27 de Fevereiro, tendo recebido uma resposta a 8 de Março. Nela, finalmente, tive conhecimento da «justificação» para a reprovação de «Histeria histórica»: é «ofensivo»… não segundo DD, que alegou não o ter lido, mas sim segundo as tais pessoas – o editor de opinião, de certeza, e os directores-adjuntos, talvez – que fizeram a tal «avaliação». Na minha réplica desafiei o director a apontar-me específicas e indubitáveis calúnias, erros, falsidades, mentiras, contidas no meu artigo. Até ao momento não o fez (aliás, não voltou a responder-me) e também não mandou publicá-lo. Portanto, e como «quem cala consente», deve-se depreender que, lamentavelmente, optou por ratificar a decisão dos seus subordinados, atentatória da liberdade de expressão, minha e não só.

É a primeira vez, em mais de 20 anos de colaboração, que um artigo meu é recusado pelo Público. Já fui alvo de discriminação e de censura, tentadas e concretizadas, por vários indivíduos e instituições, mas nunca, até agora, tal acontecera a partir do jornal fundado por Vicente Jorge Silva. Fica desde já aqui a (primeira) denúncia… que, todavia, não esgotará a minha reacção a esta indigna, intolerável ocorrência.

Publicada por OCTÁVIO DOS SANTOS à(s) 8:30 da tarde

 

[Transcrição integral, incluindo “links”: OCTANAS: Ocorrência: Censurado pelo Público…]

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Erro 508

Coincidências, dizem.  Que acontece frequentemente a todos, dizem.

Entre os dias 18 e 28 de Fevereiro de 2017 quem tentou aceder aqui ao “Apartado” ou ao antigo “site” da ILC-AO via apenas uma página em branco com a seguinte mensagem:

Mas afinal o que vem a ser isso do “limite de recursos excedido”?

Não é mistério algum, mesmo para qualquer leigo na matéria, e até os mais convictos “info-excluídos” podem compreender o essencial da imensa informação disponível.

508 Resource Limit is reached – WordPress. This error occurs again and again, and I can’t post a single post without seeing this error: The website is temporarily unable to service your request as it exceeded resource limit. [stackoverflow]

508 Resource Limit Is Reached*. The*error* message “*508 Resource Limit Is Reached*” appears when your account is constantly exceeding the*resources* assigned to it – these can include CPU usage, RAM usage and/or the number of concurrent processes running under your hosting account. [Google]

“Ah, pronto, está bem, então não se pode fazer nada no blog quando isso acontece, certo, mas porque raio acontece isso, afinal?”

Website abuse is the most common reason for this error to be shown. Situations such as DoS attacks, massive comment spamming and brute-force hack attempts easily exhaust the “Entry Process limit” and show the site as inaccessible. So, it is important to find what is causing the resource limit error before this issue can be resolved.

A quick look at the website access logs proved that this was indeed an xmlrpc attack. We then blocked the attacker IPs, and made the file xmlrpc.php inaccessible.

A popular way to hack into a website is to guess the right admin login details. This process is called brute forcing. Attack bots try various combinations of username and passwords at a very high rate from different IPs in order to get admin access. During such attacks, the “Entry Process limit” is easily exhausted. [bobcares]

Ou seja, por exemplo, basta um tipo qualquer (ou vários em simultâneo) tentar fazer “login” repetida e consecutivamente tentando “adivinhar” as credenciais de acesso  (nome ou endereço de email e “password”) de administração do “blog”. E esta é, note-se, apenas a mais elementar das possibilidades de provocar uma resposta do “servidor”, a qual acciona vários “processos” (consulta, processamento, mensagem e registo de erro); acumulando-se vários destes “processos” num curto período de tempo rapidamente se leva o limite de processos… ao limite.

O quadro seguinte retrata a dimensão dos ficheiros de registo de erros (“log errors”) no meu “domínio” cedilha.net e respectivos sub-domínios.

Portanto,  as tentativas de acesso a ilcao.cedilha.net bateram todos os records e os ataques dirigidos a este mesmo blog Apartado 53, alojado no sub-directório cedilha.net/ap53, atingiram igualmente números… anormais.

Este quadro de erros ilustra um pequeno intervalo temporal durante aquele longo período de ataques; no dia 24 de Fevereiro já muito tinha sido feito no reforço das defesas, nomeadamente barrando os acessos de alguns endereços (aldrabados pelos “hackers”, evidentemente, eles usam “proxy servers“) e acrescentando aos que já lá estavam novos automatismos de protecção.

A tabela seguinte dá uma panorâmica geral desta (outra) luta insana. Nas colunas “a” e “l” (sob o título “EP”, Entry Processes), onde estiver 20 em 20 isso significa que o cedilha.net ficou totalmente fora de serviço. Nos casos em que os restantes indicadores são elevados, mesmo sem atingir o dito “limite de processos”, os acessos a “sites” e “blogs” eram lentos, parciais e intermitentes.

O mesmo sucede quanto a “CPU Usage”: na tabela acima, sob o título “CPU”, nas colunas “a” (de “average”, média) e “l” (limit), onde aparece 100 em 100 isso significa, obviamente, que foi atingido o limite de recursos.

Os dois gráficos seguintes ilustram perfeitamente o que sucedeu quanto aos indicadores fundamentais.



Trocando tudo isto em miúdos: tremenda coincidência, não?

E trocando os miúdos em trocos de centavo: qual é a frequência exacta de “frequentemente” e quem são os tais “todos” a quem, dizem, estas coisas sucedem?

Se tivesse esta sido a primeira vez…

Ou a segunda. Ou a terceira, vá. Ou a quarta. Ou a quinta. Ou a décima…

 

 

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AO90 “Foi a maior estupidez” [Teolinda Gersão, rádio “Renascença”]

Acordo Ortográfico. “Foi a maior estupidez”, diz a escritora Teolinda Gersão

23 fev, 2017 – 13:19 • Maria João Costa

O acordo ortográfico marcou o debate na segundo dia do festival que decorre até sábado, na Póvoa de Varzim.

A pergunta veio do publico. “E o Acordo ortográfico?” A mesa do segundo dia do Festival Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, que integrava escritores como Cristina Norton, a cubana Karla Suarez, o espanhol Ignácio del Valle, o guiniense Tony Tcheka e a portuguesa Teolinda Gersão, ficou sem saber como responder. Mas Teolinda Gersão, avançou, sem medos. Não hesitou. “Em 10 segundos: foi a maior estupidez que conheço.”

A autora que venceu o último Prémio Vergílio Ferreira e que falou sobre “os escritores como testemunhas do seu tempo” justificou a sua aversão ao Acordo Ortográfico: “Entendemo-nos perfeitamente com grafias diferentes.”

Teolinda Gersão foi mais longe ao dizer que “não faz sentido apagarmos a etimologia quando somos uma língua latina que só é representada por Portugal na Europa”. Na perspectiva da escritora de “A árvore das palavras”, “o Brasil não tem qualquer relação directa com o latim, é um país jovem que tem uma outra história”.

Numa mesa com escritores de língua espanhola, mas de países diferentes, como Espanha, Cuba e Argentina, outros autores deram o exemplo daquilo que acontece com a língua de Cervantes.

Karla Suarez indicou que os livros são editados em cada país usando as expressões originais de cada país, sem que haja um acordo ortográfico. Ignácio del Valle, que está a editar em Portugal o livro “Céus Negros”, pela Porto Editora, explicou que é nos outros países da América Latina onde se fala o castelhano que a língua está a evoluir.

A escritora Teolinda Gersão questiona sobre a aplicação do Acordo Ortográfico e pergunta: “Porque é que vamos apagar a nossa identidade? A troco de quê?” A autora conclui que “um acordo que está a ser negociado há 30 anos, é porque falhou!”

Mas da outra ponta da mesa, uma voz diferente levanta-se. O autor guiniense Tony Tcheka considera “ser moda dizer mal do Acordo Ortográfico”. Para este escritor, também jornalista, os tempos conturbados da Guiné Bissau não têm permitido ao parlamento ratificar o acordo da grafia portuguesa. Tcheka concluíu: “Não é prioritário.”

O Festival Correntes d’Escritas decorre até sábado à noite na Póvoa de Varzim.

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