Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Universidade

“A unificação é uma miragem” [Helena Buescu, linguista]

 

Fantástico depoimento, extraordinária argumentação, espantoso manifesto! Não encontro os adjectivos mais adequados — nem os suficientes — para qualificar a verdadeira lição de Português que a Professora Helena Buescu deu aos deputados. Foi uma brilhante, inspiradíssima  lição de Português, sim, e foi também uma verdadeira aula de História e até mesmo de Decência, algo que não sendo disciplina curricular parece ser uma grande lacuna na formação básica de boa parte dos nossos deputados.

Tive imensa dificuldade em escolher um título para este “post”. Decidi-me por uma citação de entre muitas outras que serviriam para o efeito, de igual peso, significado e brilho.

Durante toda a aula ouve-se perfeitamente o absoluto silêncio dos deputados acordistas, o que denota com eloquência gritante a total falência dos argumentos que não têm para contrapor aos que lhes foram claramente… explicados.

Não vale a pena transcrever a lição da linguista, porque nesse caso teria de passar a escrito mais de meia hora de discurso. Este é um daqueles raros casos em que se diz “só ouvindo”. Tudo.

 

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“Voltar a aprender Português” [Ana Mesquita, deputada]

Confesso que foi difícil ouvir esta… “audição”. De facto, levar com a longa arenga inicial de Malaca Casteleiro é estucha que não se deseja a ninguém. No seu característico tom enfastiado e gemebundo de quem faz um tremendo favor à humanidade por aturá-la, o homem desfia as patranhas do costume, todas e, desta vez, mais algumas; chega até a fingir, este poeta do fingimento, verdadeiro artista incontinente, que é dor a dor que deveras não sente. Enfim, resumamos a estopada: são 15 excruciantes minutos de “exposição”, logo de entrada, e mais à frente o homem serve outras doses de maçada (Patranhas à Malaca, um pitéu).

Mas nem tudo se perde nesta “audição”. Quem porventura conseguir chegar ao minuto 31 da gravação sem adormecer, saltando por cima das tergiversações de uma deputada do PSD e de um colega dela do PS, então poderá escutar algumas observações acertadas da autoria da deputada Vânia Dias da Silva (CDS-PP). E de seguida, a partir do minuto 37:30, destaque especial para a extraordinária desmontagem que Ana Mesquita (PCP) faz de todos os “argumentos” aduzidos por Malaca.

Eu disse “desmontagem”? Foi lapso, peço desculpa. É uma verdadeira demolição.

Transcrevo em baixo o grosso das pancadas do camartelo.

[38:25] Ana Mesquita

Relativamente a esta questão, e a algumas questões que aqui nos trouxe, nós temos de facto muitas dúvidas. Por um lado, quando se fala da questão da uniformização, e o senhor professor colocou de outra forma, de uma “unidade essencial”, temos alguns problemas quando há criação de novas palavras, que não existiam sequer no português do Brasil, tudo bem, nós sabemos que depois há aqui questões próprias de cada Língua mas parece-nos que vamos então em sentido diverso, vamos num sentido de divergência. Por outro lado, quando nós fazemos uma análise comparativa relativamente a esta matéria é impossível afirmar que esta uniformização da grafia possibilite de facto uma suposta “unidade essencial”. E eu aqui passaria a um exemplo mais concreto. É porque, se nós tivermos a oportunidade de fazer uma análise comparativa do que são versões portuguesas e versões, por exemplo, de português do Brasil, de obras comuns, substituindo apenas e só a questão da grafia, no sentido da sua uniformização, o texto continua a não fazer sentido nenhum! Ou seja, há diferenças que suplantam imensamente a questão da tal “unidade gráfica essencial”. E, portanto, até que ponto é que, então, conseguimos algum tipo de uniformização? Porque não nos parece que esteja a ser conseguida! Porque se nós fizermos esta leitura vamos continuar a ter, de facto, imensas, um mundo, um mar de diferenças, que não é fácil ultrapassar. Gostaríamos também de perceber, e isto aliás até se liga com outra questão: é que no próprio “Guia Rápido para a Aplicação da Nova Ortografia”, já de há algum tempo, se dizia que o acordo uniformizava não a forma de todas as palavras mas as regras da escrita. Ora, se nós fizermos esta comparação, nem uma coisa nem outra. De facto! E, portanto, o que é que nós temos aqui em cima da mesa, verdadeiramente?

Outra questão que nós colocamos é que consideramos que a política da Língua não pode ser um resultado, um mero resultado da dimensão das comunidades falantes, dos interesses editoriais subjacentes a cada uma destas comunidades, e que deve partir de um pressuposto que é a igualdade entre os vários países. Ora, assim sendo não podemos nunca falar de dois lados neste acordo. Temos de falar de uma vasta comunidade com muitos países e, portanto, até que ponto nós estamos a falar efectivamente disto, porque o que nos parece é que há uma subjacência, o que está subjacente aqui é fundamentalmente Portugal e o Brasil. Ora, há mais países aqui envolvidos. 

Por outro lado, temos outra dúvida relativamente a uma questão que foi aqui levantada, e muitas vezes é levantada, é que este processo foi também um processo de simplificação, no sentido de ser mais fácil para as crianças aprenderem a Língua e poderem de facto entendê-la melhor e que, portanto, voltar para trás era um desastre porque já houve muitos milhares de crianças que foram formadas com esta nova grafia. Não estaremos nós a menorizar quer as crianças, quer os professores, que nomeadamente aprendem línguas estrangeiras com uma complexidade em termos daquilo que é a escrita e a não correspondência da fórmula escrita àquilo que é expresso, imensa, não é?, pensemos, se calhar, no Inglês, no Francês, no Alemão, em que se nós formos a ler aquilo, tal e qual, para nós é dificílimo, e no entanto as crianças todos os dias aprendem uma Língua nova, se for necessário. Portanto, porque é que é tão mais difícil voltarem a aprender o Português?! Numa formulação antiga. Seria assim tão complicado? Num contexto que eu aqui também deixava, que é o seguinte: é verdade ou não é verdade que a esmagadora maioria dos livros que existem, nos acervos públicos, estão ou não estão escritos na grafia anterior? E, portanto, se a maior parte dos suportes, hoje em dia, da Língua, ainda hoje, não estão eles ainda produzidos no acordo anterior ao acordo ortográfico de 1990? E se essa não é de facto a maior base de suporte que, ainda assim, temos disponível.

São questões que nós temos e evidentemente interessa-nos detalhá-las e perceber um pouco o seu alcance e eu deixava de facto uma última questão. Que é: qual é o actual ponto da situação? Porque nos parece, efectivamente, que a aplicação e o uso corrente, que está neste momento, quer nas escolas — onde também há muitos problemas — mas ao nível  da sociedade em geral, na comunicação social, nos documentos oficiais, é de facto de uma grande irregularidade, que eu não sei se alguma vez, nos tempos mais recentes, tivemos a oportunidade de assistir a um fenómeno desta dimensão.  É porque em certas alturas, e nomeadamente na comunicação social, ninguém se entende a escrever! Todos os dias temos exemplos que nos devem merecer preocupação e reflexão.

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AO90: «a maior aberração política» [Alfredo Barroso, jornal “i”]

Aberrações políticas à la carte

Alfredo Barroso

24 Março 2017

Já com os pés na pátria, constato que a maior aberração política é o acordo ortográfico de 1990, com que o então PM Cavaco Silva quis sentar-se à mesa com os países de língua oficial portuguesa.

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O estado do mundo não é de fiar. Está a precisar do colo de Nossa Senhora de Fátima, como aconselha a ex-militante estalinista Zita Seabra, convertida à religião de São Paulo depois de ter percorrido afanosamente a sua “estrada de Damasco”.

Uma visita virtual ao número 1600 da Avenida Pensilvânia, em Washington D.C., confirma as minhas apreensões. A Casa Branca foi ocupada por um trio de loucos furiosos e freaks racistas – Donald Trump, Steve Bannon e Kellyanne Conway –, sem dúvida as mais perigosas aberrações políticas da actualidade. De acordo com vários psicólogos, Donald Trump sofre de “narcisismo infantil”, e um estudo efectuado pela Universidade Carnegie Mellon conclui que ele “fala como uma criança” e só fica à frente de Bush filho por uma unha negra, “ao nível de uma criança entre o quinto e o sexto ano” de escolaridade. Ou seja: o mundo está mesmo perigoso!

No Palácio da Alvorada, em Brasília, a coisa também está preta. A residência oficial dos presidentes brasileiros foi abandonada por Michel Temer, o ridículo chefe de Estado não eleito de uma república das bananas, levando consigo mulher e filho: Marcela e Michelzinho. Disse Temer: “A energia não era boa. A Marcela sentiu a mesma coisa. Só o Michelzinho, que ficava correndo de um lado para outro, gostou. Chegamos a pensar: será que aqui tem fantasma?” Não era fantasma, não. Era só fantasminha, paizão! Era o seu Michelzinho a correr dum lado para o outro!

Passemos a Bruxelas, sede da União Europeia. Como se já não bastasse o hilariante luxemburguês Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia furiosamente beijoqueiro e dado a alegrias pós-prandiais esfusiantes, irrompeu agora o até há dias todo-poderoso presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, serventuário do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, a proferir invectivas contra os meridionais, deste jaez: “Não posso gastar todo o meu dinheiro em álcool e mulheres e continuar a pedir ajuda.” Suspeita-se que a metáfora deste holandês encaracolado – de um partido da Internacional Socialista que foi sovado nas recentes eleições – lhe ocorreu depois de uma visita às montras do famoso Bairro Vermelho de Amesterdão. Ou seja, a UE continua nas mãos de políticos aberrantes, supostamente abstémios e misóginos, que desprezam os países do sul e estão acorrentados à serventia dos diktats alemães. É grave.

Já com os pés na pátria, constato que a maior aberração política é o acordo ortográfico de 1990, com que o então PM Cavaco Silva quis sentar-se à mesa com os países de língua oficial portuguesa (“palopes”) para partilhar com eles um “pato de estabilidade” (ortográfica). Só que, 27 anos depois, nada se passou como ele desejava e o “pato” (sem laranja) é um fiasco político, linguístico, social, cultural, jurídico e económico. O AO90, em que abundam aberrações de todo o tipo, é, aliás, mais um dos “monstro” gerados pela governação de Cavaco Silva (o mais famoso dos quais é o da dívida pública). E aqui vão, tão- -só, dois exemplos.

O primeiro é o da eliminação arbitrária do uso do hífen. Que me pôs a suspeitar da razão pela qual a expressão “cor-de-rosa” tem hífen e a expressão “cor de laranja” não tem! Terá sido uma profecia política que só agora se consumou, com o traço de união entre o partido cor-de-rosa (PS) e a maioria parlamentar de esquerda que aguenta o governo?! E o partido cor de laranja (PPD-PSD) terá ficado sem hífen porque ameaça desmoronar-se?!

O segundo é o da supressão arbitrária do acento agudo, a provocar situações hilariantes. Veja-se o caso da expressão popular “Alto e pára o baile” (isto é, “stop”). Escrita com acento agudo antes do AO90, passou a escrever-se sem acento agudo – “Alto e para o baile” (isto é, “go”) – na grafia do AO90. Como escreveu Nuno Pacheco, no “Público”: “O disparate é livre, mas para quê abusar?” Perante a indiferença dos cidadãos, os paninhos quentes dos académicos e a cumplicidade dos partidos, será que vamos ser meros “espetadores” (sem espeto) da perpetuação deste atentado contra a língua e a cultura portuguesas, pela via do facto consumado?!

[Transcrição integral de artigo de opinião, da autoria de Alfredo Barroso, publicado em 24.03.17 pelo jornal “i”. Imagem de topo: SIC Notícias. Autoria (?) Jose Manuel Ribeiro / Reuters. “Links” e destaques adicionados por mim.]

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‘A mim ninguém me cala’

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Manuel Alegre considera “autoritária e arrogante” posição de Santos Silva sobre o AO

Ministro rejeita rever o acordo ortográfico e Alegre rejeita “essa forma de rejeição”. Para ele, o Governo devia mostrar-se aberto ao diálogo.

Nuno Pacheco

8 de Fevereiro de 2017, 14:28

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As declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, sobre o acordo ortográfico, afastando a possibilidade da sua revisão, irritaram Manuel Alegre. O escritor e ex-deputado, que na tarde do mesmo dia esteve no Parlamento, na Comissão de Cultura, a falar de ortografia, integrado numa delegação da Academia das Ciências de Lisboa, diz ao PÚBLICO: “O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que rejeita a revisão do acordo ortográfico. E eu rejeito essa forma de rejeição, porque a considero autoritária, arrogante, dogmática e deselegante para com a Academia das Ciências.” Alegre insiste ainda num ponto que também já foi abordado e explicado no Parlamento: “A Academia, que é, de acordo com a lei, conselheira do governo em matéria da língua, não foi ouvida nem achada no que diz respeito ao acordo. E limitou-se a apresentar, agora, um conjunto de sugestões indicativas para que se começasse a debater este assunto e para tentar melhorar, se possível, um acordo que nasceu mal, um acordo falhado.”

Manuel Alegre, ao falar na comissão, na tarde de terça-feira, lembrou que como deputado do PS tinha votado contra o acordo (ele é também subscritor de um manifesto que apela à sua revogação), mas acrescentou que, como membro efectivo da Academia das Ciências, estava ali “com a melhor boa vontade”. Agora diz: “Esta posição do ministro, que fala em nome do Governo, revela também um grande desprezo por todos aqueles que se têm oposto desde o princípio a este acordo. Desprezo por escritores, por gente das letras, por académicos, por professores e por muitos cidadãos que manifestam a sua oposição a este acordo, que está a fragmentar a língua e a dividir os portugueses. Já nem falo de mim, falo do Vasco Graça Moura, que mostrou de mil e uma maneiras todos os erros deste acordo, que, aliás, considerava inconstitucional. Não conheço nenhum escritor de nomeada que seja favorável a este acordo.”

Mas como a posição da Academia é abrir um debate sobre o acordo, corrigindo nele pelo menos os pontos que considera mais gravosos, Manuel Alegre entende que a posição do Governo devia ser outra. “Devia aconselhar-se talvez com o Presidente da República, que já manifestou o seu desagrado em relação a este acordo. Eu compreendo que haja problemas, mas a posição do Governo devia ser de abertura ao diálogo, ouvir o que tem para lhe dizer a Academia das Ciências, que não tem competência política mas tem competência científica.”

Há outras coisas, diz Alegre, que neste campo o revoltam. “A mim dói-me, por exemplo, ver Angola ou Moçambique defenderem mais a língua portuguesa do que os membros do Governo português. Isto é absurdo!” A sua posição não mudou: “Pessoalmente votei contra o acordo e considero que a língua faz parte do património, da identidade e da soberania nacional. E a riqueza da nossa língua está na sua variedade, na sua diversidade.” Apesar disso, acha útil a discussão do tema. “O Governo devia rever a sua posição, devia pelo menos dialogar e não tomar uma atitude tão autoritária e tão dogmática quanto aquela que foi tomada pelo ministro.”

[“Público” (edição em papel), 09.02.17. Adicionei “links”.]

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‘O que torto nasce’…

Ontem, 7 de Fevereiro de 2017, a parlamentar Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto recebeu em audição formal uma delegação da Academia de Ciências de Lisboa, a propósito da proposta de “aperfeiçoamento” do AO90 que a dita ACL pretende promover; algo que o actual  Presidente da académica instituição, Artur Anselmo, designa como “despiorar” aquela… hum… digamos… coisa.

Nuno Pacheco, que já em 2013 tinha estado em S. Bento por causa do AO90, esteve também ontem presente, mas desta vez apenas na qualidade de jornalista.

O que se segue é a reprodução do seu relato daquela extraordinária reunião, cuja gravação pode ser vista (e ouvida, claro, que só vendo ninguém acredita) AQUI.

 

“Seria assim tão necessário um acordo ortográfico?”

A audição do presidente da Academia das Ciências de Lisboa na Comissão Parlamentar de Cultura deixou no ar muitas dúvidas e uma única certeza: o acordo ortográfico nasceu torto. E “andamos nisto há 27 anos”.

Nuno Pacheco

7 de Fevereiro de 2017, 20:23

Não foi uma reunião para aprovar nada, nem para apresentar propostas de carácter científico, apesar de estar em causa o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO). Aliás, a presidente da comissão, Edite Estrela, quando se começou a falar de algo mais técnico, advertiu: “Estamos na AR, não estamos na Academia de Ciências”. Por isso, a audição do presidente da Academia das Ciências de Lisboa (ACL), Artur Anselmo, na Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, a pedido do Bloco de Esquerda, foi mais um confronto entre a iniciativa da ACL de propor “melhoramentos” ao AO e as dúvidas dos vários deputados presentes. Artur Anselmo tinha consigo uma pequena delegação: Manuel Alegre (escritor e ex-deputado do PS), Martim de Albuquerque (jurista, ex-director da Torre do Tombo) e Ana Salgado (lexicógrafa que preparou os documentos para uma eventual revisão do AO).

Edite Estrela começou por dizer que estava ali em discussão “um assunto muito importante” e Jorge Campos, do BE, quis saber por que motivo estas propostas surgiam agora; e se tinham sido avalizadas por linguistas; e se tem havido contactos com a Academia Brasileira. E outros deputados quiseram saber ainda mais: porque é que a Academia se colocava agora “como uma entidade paralela, quando sempre foi entidade integrante” do processo, perguntou Gabriela Canavilhas; e como será possível fazer “pequenos acertos quando se trata de um tratado internacional, quis saber José Carlos Barros, do PSD, autor da proposta que levou à criação de um grupo de trabalho para avaliar o impacto do AO na sociedade portuguesa.

Artur Anselmo falou de um “ambiente de descompressão”, favorável à discussão do tema, disse que a Academia Brasileira já tinha avançado ela própria com “melhorias” ao AO e deixou claro que a ACL não foi ouvida enquanto instituição neste processo porque o seu presidente à data (Malaca Casteleiro, nome que não foi invocado) se envolveu sem convocar sequer plenários. E quando lhe perguntaram por que motivo a ACL não participava nas reuniões do IILP (Instituto Internacional da Língua Portuguesa, com sede em Cabo Verde), respondeu que sempre que a Academia solicitou ao Instituto Camões uma comparticipação nesse sentido, lhe foi dito que não havia verba. Ana Salgado disse também que a Academia enviou vários contributos para o Vocabulário que está a ser feito pelo IILP, mas que até hoje nunca teve resposta. Mesmo assim, a Academia, disse, tem 56 colaboradores a trabalhar num novo Dicionário, que deve estar pronto em fins de 2018.

Problema maior: com que ortografia? Com a antiga? A nova? A nova emendada? A ACL quer levar a discussão mais adiante. Manuel Alegre e Martim de Albuquerque, ambos contra o AO, falaram em abertura e “boa vontade”. Mas Alegre alertou: “Nenhum acordo pode uniformizar uma língua que vale pela sua diversidade.” E Martim de Albuquerque acrescentou: “Se a ideia era a unificação, Angola e Moçambique não ratificaram. Portanto isso é um mito”. Teresa Caeiro, do CDS-PP, foi contundente, afirmando que o AO foi um “total fracasso linguístico, político, cultural, social e jurídico”; Jorge Campos, do BE, disse: “Não me parece bom caminho um processo de sucessivas correcções e ajustamentos”; e Ana Mesquita, do PCP, reafirmando que o seu partido foi o único que votou contra o AO, sublinhou: “Andamos há 27 anos nisto! Devíamos ter começado há mais tempo.” E começou, lembraram outros, mas sem sucesso. “Será que era assim tão importante um acordo ortográfico?”, perguntou ainda Ana Mesquita.

A pergunta ficou sem resposta. Mas com uma certeza: a discussão continuará. Gabriela Canavilhas, que defendeu o AO, disse, quase no final, que foi dar um concerto ao Brasil e lhe “traduziram” o texto para “brasileiro”. Ana Salgado, respondendo a tal indignação, disse apenas: “Tenho uma má notícia para lhe dar: os textos vão continuar a ser adaptados”. Com ou sem AO. E isso reforça a pergunta do PCP: era assim tão importante um acordo ortográfico?

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[da edição “online”] RECTIFICAÇÃO: Apesar das declarações contidas neste texto, na verdade o PCP absteve-se quando o acordo ortográfico foi votado no Parlamento. Na reunião plenária da Assembleia da República de 4 de Junho de 1991, a proposta de resolução n.º 48/V (que aprovou, para ratificação, o acordo ortográfico) foi aprovada com votos a favor do PSD, do CDS, do PRD e de 12 deputados do PS. Votaram contra 16 deputados do PS e os deputados independentes Helena Roseta, Jorge lemos e José Magalhães. O PCP absteve-se. Está feita a rectificação.

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«A nova ortografia vai nua? Vistam-na, depressa!» [Editorial do “Público”]

A nova ortografia vai nua? Vistam-na, depressa!

Nuno Pacheco

Editorial do jornal “Público” de 8 de Fevereiro de 2017

Depois de a Academia vir a terreiro dizer “o rei vai nu” já não é possível fingir que nada se passa.

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Provavelmente nenhum outro país, como Portugal, é tão cioso de querelas ortográficas. As línguas com maior difusão no planeta lidam com o tema de forma simples: aceitam as suas diversidades e seguem adiante. Isso sucede com o Inglês, o Francês ou o Espanhol, sendo que, no caso dos dois últimos, as respectivas academias não se coíbem de propor alterações, mas meramente indicativas.

Os acordos ortográficos são, também, uma originalidade nossa. Depois da revolucionária reforma de 1911, feita a pretexto de “simplificar” a escrita e o ensino, veio o AO de 1945 e, por fim, o AO de 1990 (ressuscitado em 2006 para ser depois imposto em 2011). Pelo meio, houve várias alterações e mexidas de pormenor e tentativas abortadas de fazer outros acordos, alguns até bastante radicais (o de 1986, por exemplo, abolia quase todos os acentos e criava palavras absolutamente ininteligíveis).

Chegámos a 2017 com um quadro muito pouco animador: um comprovado caos na escrita (há cada vez mais exemplos, estão online, e todos os dias são coligidos mais) e as mesmas críticas de sempre, dia a dia ampliadas pela absoluta inércia dos poderes decisórios. A diferença é que, além de vários grupos de cidadãos não terem desmobilizado, a Academia das Ciências de Lisboa veio enfim apontar uma série de erros evidentes e propor a sua correcção. Porquê? Porque a Academia está a refazer o seu Dicionário (até finais de 2018) e quer usar nele uma ortografia digna desse nome. Por isso veio propor um conjunto de “aperfeiçoamentos” que põem em causa muitas opções consagradas no AO.

Claro que, a isto, o ministro Augusto Santos Silva já veio dizer “não”, embora acrescente que “nada está isento nem de crítica nem de possibilidade de melhoria”. Ou seja: está mal, mal continuará. Que as crianças aprendam erros, problema delas. Que pais e professores sejam obrigados a ensiná-los, pouco importa. Isto é uma posição insustentável e mostra como o PS, que revê e reverte tudo e mais alguma coisa, só não revoga aquilo que manifestamente não entende: e isso chama-se ortografia.

O problema é que, depois de a Academia vir a terreiro dizer “o rei vai nu” já não é possível fingir que nada se passa. Políticos e partidos não podem furtar-se à responsabilidade. É preciso agir, de forma consciente (e, como diz a Academia, com bases científicas), abandonando de vez a inércia. A nova ortografia vai nua? Vistam-na, depressa! Ou dispam-na de vez. Mas façam algo digno, por favor.

“Links” e destaques meus.

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