Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: vídeo

‘Just for the record’

 

7 de Fevereiro de 2017: uma delegação da Academia das Ciências de Lisboa (ACL) é recebida pela Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto. Objectivo: apresentar um documento intitulado como “Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa“.

Desta tão simpaticamente amável quanto ligeiramente tensa reunião, cuja gravação vídeo foi disponibilizada pelos serviços parlamentares e que agora se dá aqui por integral e fielmente reproduzida [ver nota], resultou — na prática — uma mão cheia de nada e um monte de coisa nenhuma.

Porém, não sejamos esquisitos, se virmos a coisa de forma não prática (nem teórica) temos de facto algum sumo para espremer, salvo seja.

Vamos dar de barato a (pelo menos, aparente) crispação que, totalmente ao invés do que diz o Presidente da ACL, se sente a pairar, qual ave de mau agoiro, por cima das ilustres cabeças que naquela sala estiveram durante quase duas horas defendendo os interesses da Pátria.

Ignoremos do mesmo passo a notória agressividade, por vezes resvalando para a grosseria, de que deram sobejas mostras as acordistas ali de serviço (Gabriela Canavilhas e Edite Estrela), contrastando ambas, grosseria e agressividade, Estrela e Canavilhas, com a extrema — e quase comovente — urbanidade dos membros da ACL e, em especial, do próprio Artur Anselmo.

Muita coisa se poderia dizer e outra tanto palpitar, por conseguinte, sobre este evento de S. Bento. Não sobre o que foi dito mas sobre o que não foi dito e, em especial, sobre a forma como o não dito ficou clara e paradoxalmente subentendido: pequenas mas eloquentes expressões subliminares e elípticas, insinuações manipuladas com pinças mentais, ideias implícitas em embrulhos extremamente palavrosos e farfalhudos.

A ideia central, nunca referida, sequer vagamente, por qualquer dos presentes (só mais essa faltava) ou por algum dos “opinion makers” da nossa virtual praça, parece-me ter sido esta: culpar o actual Presidente da ACL, Artur Anselmo, por aquilo que fizeram e, sobretudo, por aquilo que não fizeram os seus antecessores, Adriano Moreira e… Malaca Casteleiro. Ou seja, diz Canavilhas, possessa, as veias de seu (lindo, por acaso) pescoço salientes, tumefactas, ameaçando rebentar, ah, e tal, “a ACL tem-se colocado como uma entidade à parte neste processo”. Ou seja ainda, diz a Edite, dirigindo-se a Anselmo com sua nada ríspida voz semelhante a unhas raspando num quadro de lousa, ah, e tal, “o padre prega e não há acento” ou lá o que foi que ela disse, de momento varreu-se-me.

E o bom do Artur, enfiado, como diria nosso Eça, lá tentou bravamente demonstrar lealdade para com a Instituição a que (agora) mui dignamente preside, limitou-se a alçar ligeiramente e com parcimónia o lábio fremente, aliviando-se com um sonoro “tenho dito” de quando em vez, coitado, aquilo foi um massacre, alguém devia dar umas lições de polidez às duas senhoras, raios, chamem a Bobone.

 

[Nota: “post” editado em 27.02.17 às 03:00 h. Por uma questão de economia de recursos (espaço em disco e tráfego) retirei o vídeo aqui anteriormente disponibilizado em alojamento local. O original dessa gravação vídeo pode ser visto directamente no “site” do Parlamento.]

 

P.S.: grosserias à parte, não deixa de ser “curioso” que as duas irritadíssimas socialistas acusem Artur Anselmo por aquilo que fez Malaca, ou seja, enfiar-nos o AO90 goela abaixo, e acusem também o mesmo Artur por aquilo que não fez Adriano Moreira, isto é, mexer-se de alguma forma para acabar com o dito AO90. E a “curiosidade” resulta da constatação factual de que, se ambas as nervosinhas senhoras o acusam das duas coisas, então é porque reconhecem que foram dois erros, fazer o AO90 e não o desfazer. Pois, xôdonas Edite e Gabriela, nisso estamos plenamente de acordo. Todos os três, perdoe-se-me a tremenda lata.

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Lampadinhas

A “maravilhosa língua unificada” e a não menos “maravilhosa revisão do AO90″…

Oops, peço desculpa, não é “revisão” que se diz, agora parece ser obrigatório chamar “aperfeiçoamento” à fantochada.

Os acordistas portugueses conseguiram fazer esta coisa espantosa com o Português: transformá-lo numa espécie de “brasileiro” (como se vê, por exemplo, na bandeirinha que abrilhanta o site da Babbel) e assim, entrouxando essa tremenda vigarice em delírios para deslumbrar pategos, fazer passar a golpada por uma coisa a que chamam “língua unificada”.

Tentemos ignorar o ridículo da “ideia” e vamos fingir, por uma vez sem exemplo, que não alcançamos ao certo a dimensão da fraude. Talvez seja útil desaprender amiúde tudo aquilo que julgamos saber sobre o “acordo” e voltar por sistema à estaca zero. Reciclar o espanto, digamos, depurar a indignação.

É evidente, a julgar pelas últimas investidas, que o processo de brasileirização em curso (PBC) ficaria incompleto caso não existisse um continuum gradativo. Como se costuma dizer, isto vai de mal a pior: visto que o “acordo ortográfico” propriamente dito não unifica coisíssima nenhuma e até, pelo contrário, veio criar novas duplas grafias onde elas não existiam, então vá de “melhorar” a besta (ou “despiorar”, como há já quem designe essa trafulhice), consagrando exclusivamente não apenas a ortografia brasileira como também a própria fala dos brasileiros (“norma culta”, dizem eles). A premissa é muito simples: caso no Brasil  se pronuncie determinada consoante que é “muda” em Portugal (e PALOP), então essa consoante, que o AO90 eliminara em 7 países mas não no Brasil, volta a ser “válida”; portanto, as ditas consoantes “mudas” passam a “valer” de novo em todos os 8 países da CPLP, mas essa “validade” é só para aquelas que… os brasileiros articulam e que, portanto, utilizam na (sua) escrita.

Dito de outro modo, porque isto parece ser de muito difícil compreensão para quem não quer entender ou se recusa a aceitar aquilo que é por demais evidente:  a anunciada “revisão” do AO90, artisticamente baptizada pela ACL como  “aperfeiçoamento”, não é mais do que a segunda etapa do PBC e consiste basicamente em impor a norma ortográfica brasileira no espaço da chamada “lusofonia”. Sintetizando, meia dúzia de fulanos que nasceram em Portugal (assessorados por alguns estupefactos brasileiros) pretendem impingir ao país de origem da Língua e a seis ex-colónias portuguesas uma coisa a que chamam “língua portuguesa unificada” mas que na verdade e de facto é a “norma” da sétima ex-colónia.

O PBC, na prática, caso se verifique não haver em Portugal senão umas quantas manadas de ruminantes, significará esta coisa arrepiante, nojenta, escabrosa: para escrever uma palavra “corretamente” (em “brasileiro”) qualquer português terá de saber — de memória ou perguntando para os lados —  como se redige, ou seja, como se pronuncia essa palavra no Brasil.

Os “arquitetos” do PBC não brincam em serviço. Além das habituais campanhas de intoxicação da opinião pública, vão já experimentando até uma velhíssima técnica de “marketing”: inventar de raiz uma necessidade para resolver problemas gerados por outra necessidade que eles mesmos tinham também previamente inventado  prevendo a segunda campanha e destinando-se essa a resolver problemas que jamais existiram.

Mal comparado, seria o mesmo que um “expert” (“esperto”, no crioulo de Malaca) lembrar-se de lançar uma marca de sabonetes “para emagrecer” e viesse uns tempos depois colocar no mercado um antídoto para as pessoas que desataram a comer sabonetes…

A peça seguinte ilustra na perfeição estes conceitos de vendedores de banha-da-cobra com designação genérica em Inglês: o AO90 jamais serviu para coisa alguma, foi uma invenção não apenas totalmente inútil como estupidamente perniciosa, mas agora há estas “diferençazinhas” (que antes do mesmo AO90 não existiam), portanto vá de “melhorar” o AO90, eliminem-se as tais “diferençazinhas” (que antes não existiam mas isso agora não interessa nada, faz de conta que sempre foi assim).

Génios da corda. Lampadinhas.

 

babbel_ptbr-ptpt
Certains mots s’épellent différemment en portugais européen et portugais brésilien. Le mot «réception», par exemple, s’écrit au Portugal receção, tandis que la version brésilienne rajoute un -p : recepção. Cette différence s’étend à d’autres mots auxquels la prononciation brésilienne rajoute un -p là où il est absent dans la prononciation européenne.

Imagem de topo: By Source (WP:NFCC#4), Fair use, Link

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‘Always Look on the Bright Side of Life’

montypythonNesse vídeo aí em baixo, um deputado interpela o actual Ministro da Cultura  sobre o AO90. Diz ele que num documento qualquer daquele Ministério aparecem umas coisas na “grafia antiga” e acha ele que essas coisas são “erros ortográficos” por estarem bem escritas.

Não sei se estão a perceber. Sim? Conseguiram entender tudo até aqui? Ah, óptimo, então agradecia que me explicassem porque, escusado será dizer, eu cá não entendi patavina. Já vai sendo hábito, aliás: cada vez percebo menos “disto”.

Então o senhor deputado “indigna-se” porquê, ao certo? Por o AO90 afinal não ser um “assunto encerrado” ou porque devia ser mas não é? Indigna-se porque a língua portuguesa está mergulhada no cAOs total devido ao “acordo”, precisamente, ou porque palpita-lhe de que a “grafia antiga” é que era caótica? Acha que “dantes” havia “erros ortográficos”, coisa que jamais ocorreu fosse a quem fosse, e daí a indiferença (e a rebeldia) das pessoas “em geral”?  Chateia-o, em suma, que a língua portuguesa seja destratada (e enxovalhada) pelo AO90, pelo acordês, pelo cAOs vigente ou afinal, vendo bem as coisas, nem uma coisa nem outra, muito pelo contrário?

Bom, está visto, tenho mesmo de ouvir de novo a peça e de reler a transcrição. Pode ser que à quarta ou quinta vez comece a pescar alguma coisinha do que o homem pretende dizer.

[transcrição]
Uma nota necessariamente breve sobre o acordo ortográfico. O senhor ministro disse-nos há uns meses que isto era um assunto encerrado e eu lamento insistir que estamos diariamente a reabri-lo. E o senhor ministro acaba de o reabrir. Veja-se que na nota técnica do Orçamento, de que já falámos aqui hoje, que o seu ministério nos enviou, este assunto “encerrado” não resiste seis linhas ao acordo. O primeiro erro ortográfico, “acção” com a consoante muda, aparece logo na sexta linha da página um, logo no índice, embora mais para a frente também apareça com a nova grafia, isto é consoante. No que respeita aos casos de dupla grafia, a habitual confusão: a palavra “sector”, por exemplo, vai variando; na página três é grafada sem a consoante muda, duas linhas abaixo recupera; na página 14 deste documento a antiga grafia ganha 4-1 ao acordo ortográfico em vigor; a palavra “projecto” já se encontra expurgada da consoante muda mas “actividade” mantém-se na grafia antiga e o erro ortográfico aparece quatro vezes na mesma página. A cada cavadela sua minhoca, senhor ministro, e esta situação é hoje infelizmente generalizada, numa situação em que estamos a falar do nosso maior património, que é a língua portuguesa. E por isso pergunto se mantém, para o governo, o assunto do acordo ortográfico está encerrado, quando já se chegou à situação de a língua portuguesa ser destratada deste modo, em documentos oficiais, do ministério da cultura, enviados à assembleia da república. Muito obrigado, senhor ministro.
[/transcrição]

 

[Imagem de topo: “snapshot” de Monty Python – Always Look on the Bright Side of Life.]

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Acordo ortográfico para totós – 4

populaire_2012Como vamos vendo, lendo e ouvindo, o AO90 é um verdadeiro festival de aldrabices. Uma das mentiras mais desconchavadas — e a mais sistematicamente repetida, por sinal — é a da “ortografia unificada”, essa gigantesca patranha impingida a papalvos como insinuação de que já “só falta um bocadinho assim” para “termos” uma “língua única”, o fabuloso “português universal” que irá “promover a língua portuguesa no mundo”, em especial porque, entre outras maravilhas, aquela espécie de “patuá universal” vai passar a ser “língua oficial da ONU”, ena, ena, mas que luxo de peta.

O mais espantoso não é que os aldrabões acordistas aldrabem, pois claro, estão no seu elemento natural de vendedores de banha-da-cobra, aquilo que de facto surpreende no embuste   malaquenho-bechariano é que alguém (em seu perfeito juízo) consiga engolir tais enormidades, tão intragáveis aldrabices.

Aqui fica mais uma demonstração prática de como aqueles fulanos mentem com quantos dentes têm na boca: vejamos dois “trailers” do mesmo filme, neste caso, ‘A Dactilógrafa’ (“Populaire”, de Régis Roinsard, 2012); nem é preciso indicar qual deles é para promoção do filme em Portugal e qual o que serve para o mercado brasileiro.

Ambos os “trailers” são exactamente os mesmos e têm sensivelmente a mesma duração: a legendagem  da versão tuga está acordizada (o AO90 não é obrigatório coisa nenhuma mas o tuga adora vergar a mola) e a versão brasileira está em… brasileiro. Qualquer pessoa (normal) pode verificar com toda a facilidade: as legendas são completamente diferentes!

Pois claro. Nada de surpreendente. Mesmo estando já a versão portuguesa adulterada segundo os ditames brasileiros (e, ainda assim, divergente), o que aqui temos é sintaxe diferente e  léxico diferente; portanto, duas traduções que pouco ou nada têm em comum.

“Língua universal”? O tanas!

A propósito: como é que se diz “o tanas” em brasileiro?

 

 

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Teorias da conspiração?

fotoam«Surge inclusive a ideia de que se tentou eliminar o nome de Macedo da história do cinema português, ocultando o papel seminal da sua primeira longa-metragem, ‘Domingo à Tarde’. Se durante muito tempo esta era citada, a par de ‘Os Verdes Anos’, de Paulo Rocha, e ‘Belarmino’, de Fernando Lopes, como um dos filmes fundadores do Cinema Novo, aos poucos foi sendo desvalorizada ou simplesmente deixou-se de mencioná-la. “Penso nessa questão da conspiração”, diz João Monteiro, não obstante crer que estas coisas acontecem sem intenções maquiavélicas, provavelmente sem os “perpetradores” darem conta dos possíveis resultados das suas acções (ou omissões). “Não gostavam do Macedo, optaram por não falar dele. A verdade é que ninguém pensa: ‘Se continuarmos a fazer isto, qualquer dia ele é esquecido.’»

 

ipsilon_logoA conspiração contra António de Macedo

João Lameira

26/10/2016 – 14:20

A encerrar o Doclisboa, um documentário dominado pela derrota de um cineasta: o seu papel no Cinema Novo tem sido rasurado, ele próprio desistiu de tentar obter subsídios, ao ter percebido que jamais lhos voltariam a dar.

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Maria João Seixas, à altura directora da Cinemateca Portuguesa, está sentada ao lado de António de Macedo, em frente ao ecrã da Sala Félix Ribeiro. Sobre a mesa coberta com um pano escuro repousa um chapéu creme de aventureiro, cuja presença ali é quase tão estranha quanto a do seu dono. Vai dar-se início à retrospectiva integral da obra do realizador, com a exibição de O Princípio de Sabedoria, um filme que poderia ser considerado mal amado se alguém o tivesse visto. João Monteiro está lá para captar esse momento de reconhecimento da importância de Macedo para o cinema português. E é com essas imagens que fecha Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António de Macedo, um pequeno triunfo num documentário dominado pela grande derrota do cineasta de 85 anos: não filma há mais de duas décadas, tendo desistido há muito de tentar obter quaisquer subsídios, ao ter percebido que jamais lhos voltariam a dar.

Passaram entretanto mais de quatro anos desde essa noite de Junho e mais uns quantos ainda desde que João Monteiro, um dos directores do MOTELx, teve a ideia de fazer um filme sobre a obra de Macedo, por não se conformar com o desprezo a que foi votada. De entre as várias pessoas entrevistadas para o documentário – desde os cineastas contemporâneos Fernando Lopes, Alberto Seixas Santos, António-Pedro Vasconcelos, José Fonseca e Costa, António da Cunha Telles, Henrique Espírito Santo, ou seja, a geração do Cinema Novo, até a críticos e historiadores como Jorge Leitão Ramos, Lauro António, José de Matos-Cruz, Leonor Areal, passando pelos filhos Susana de Sousa Dias (também realizadora) e António de Sousa Dias (músico e compositor da banda sonora dos últimos filmes do pai) –, algumas apontam uma possível conspiração para impedir Macedo de voltar a filmar após a estreia de Chá Forte com Limão, a sua última obra de ficção, em 1993. Os actores Sinde Filipe e Eugénia Bettencourt, presenças recorrentes na filmografia do realizador, estão mesmo convencidos de que o anátema se estendeu às suas próprias carreiras.

Surge inclusive a ideia de que se tentou eliminar o nome de Macedo da história do cinema português, ocultando o papel seminal da sua primeira longa-metragem, Domingo à Tarde. Se durante muito tempo esta era citada, a par de Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, e Belarmino, de Fernando Lopes, como um dos filmes fundadores do Cinema Novo, aos poucos foi sendo desvalorizada ou simplesmente deixou-se de mencioná-la. “Penso nessa questão da conspiração”, diz João Monteiro, não obstante crer que estas coisas acontecem sem intenções maquiavélicas, provavelmente sem os “perpetradores” darem conta dos possíveis resultados das suas acções (ou omissões). “Não gostavam do Macedo, optaram por não falar dele. A verdade é que ninguém pensa: ‘Se continuarmos a fazer isto, qualquer dia ele é esquecido.’ E foram-se escrevendo histórias de cinema sobre histórias de cinema que o punham de lado, falavam apenas de passagem”, continua. “Depois passou a ser moda. Sempre que saía um filme dele, os novos críticos, que liam os velhos críticos, continuavam a tradição. Ninguém tinha coragem, dentro do meio, de dizer que gostava do António de Macedo. Isso foi uma das coisas que descobri ao início, quando perceberam que eu estava a fazer o filme. Muita gente vinha ter comigo e dizia ‘Anda bem que estás a fazer isto, eu gosto muito dele’, mas assim baixinho”.

(mais…)

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Acordo ortográfico para totós – 2

O “cagado de fato na praia”

O “acordo ortográfico” é…

…terrorismo linguístico baseado em contra-informação propagada por supostos (e alguns inocentes) anti-acordistas.

Em 1986 foi esgalhada uma primeira versão do AO em que se fingia prever a abolição dos acentos nas palavras esdrúxulas. Depois os acordistas fingiram ter deixado cair essa ameaça na versão final (AO90), conseguindo assim fazer passar absurdos de igual calibre mas aos quais as pessoas não deram grande importância, de tão assustadas que ficaram com a primeira ameaça. Trata-se, em suma, de ameaçar com um absurdo para fazer passar outro absurdo como se este fosse um “mal menor”.

Esta “Canção do Gonçalo (Acordo Ortográfico)“, de Ana Faria, foi publicada na ressaca desse primeiro susto, ainda no ano de 1986.

Foi, portanto, à conta desta originalíssima táctica terrorista que os acordistas lançaram o isco aos peixinhos mais distraídos — os quais engoliram de imediato o dito isco e, de brinde, tragaram também o anzol, a chumbada, o carreto e a cana. Do que resultou a imediata propagação de uma série de tretas, das quais a mais conhecida é a “lindeza” de que se junta “foto tipo passe”.

cagado

E assim conseguiram os ditos acordistas pôr os ditos peixinhos a trabalhar para eles: as tretas que fingiram retirar do AO90, como se isso fosse uma cedência, passaram a funcionar a contrario, ou seja, quem fala em “fatos”, em “cagados” ou em abolição de acentos nas palavras esdrúxulas está a mentir (o que é exacto), não percebe nada do assunto (idem) e não leu o texto do AO90 (pois claro que não, como 99,999% das pessoas).

Chama-se a isto terrorismo linguístico. E funciona, como se vê (e ouve).

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