Tropa de elite, o filme


Já existem diversas cópias (naturalmente “pirata”, ilegais) do hiper-premiado e polémico “Tropa de Elite”, do realizador brasileiro José Padilha. Esta primeira parte foi colocada na YouTube em 25 de Setembro do ano passado; para ver os ficheiros de sequência (29, no total), click no botão “menu” da aplicação e procure nos videoclips relacionados ou seleccione-os no endereço
http://youtube.com/profile_videos?search_query=elite&user=imweirdru&page=1.

Talvez seja de boa política ver o filme depressinha, como se costuma dizer, porque é uma questão de (pouco) tempo até estas cópias serem retiradas… por “copyright infringement“. E, para mais, pelo menos que eu saiba, esta obra ainda não estreou sequer nas salas de cinema portuguesas!

Uma pequena adenda, apenas para classificar este filme. Numa escala de 0 a 20? 19.
Apenas a sonoplastia deixa bastante a desejar, aliás como é costume no cinema brasileiro. De resto, argumento, guião, realização, efeitos especiais, caracterização, montagem… tudo absolutamente perfeito. Quanto a actores (protagonistas e secundários), bem, quanto a isso já estamos habituados a uma qualidade nunca inferior a pura excelência.
Um filme a não perder.

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Copiar é feio. Aiaiai.

Aqui o boteco tem uma lista de “links”, é conferir na coluna da direita, com a originalíssima designação de “Reciprocidades”: são aqueles blogs que, muito simpaticamente uns, por mero acaso outros, resolveram honrar-nos com a sua preferência, salvo seja. Aquilo é, por consequência, uma espécie de troca de galhardetes virtuais: tu “lincas-me” a mim, eu “linco-te” a ti, fica tudo em família.

De maneira que, vez em quando, há que actualizar a coisa, ver se há novas alminhas simpáticas por essa blogosfera fora.

Pois sucede que ainda há pouco, há poucochinho, surgiu na lista de ligações ao Apdeites (via Technorati) um novo blog, de sua graça “O Futuro é Agora”, e foi criado hoje mesmo, há apenas umas horitas; trata-se, pelos vistos, do blog de campanha de um dos candidatos à liderança do PSD, nada mais, nada menos do que o próprio Pedro Passos Coelho, em pantalha e código. Ena! Tão ilustres visitantes, por aqui? Olha que bem.

Conferido o link, e já quando me escorregava o gatilho para a reciprocidade, eis senão quando reparo nas vagas reminiscências que aquela lista de favoritos me traz à memória. “Mas onde é que eu já visto?”, pensei, como aliás é costume pensar-se nestas ocasiões. Bem, abreviemos, não foi difícil descobrir: foi no 31 da Armada. Talqualmente, é a mesma lista. Não sei ao certo o que isto significa, assim de repente, um novo blog ter exactamente a mesma lista de favoritos de outro já algo veterano, mas enfim, era só para dizer que assim a coisa não vale, é feio copiar, e tal, ora bolas, lá se foi um link de categoria. Ou se calhar dois.

[descubra as diferenças]
blog 31 da Armada blog O Futuro é Agora

Para apagar um link:
1. Edite o seu “template”.
2. Localize o sacana que pretende apagar.
3. Seleccione o texto e o código do link.
4. Carregue na tecla “Del” (que quer dizer “apagar”, ou “deletar”, em “brasileiro”).
5. Publique de novo todo o blog (geralmente, é onde diz “Publish”, ou coisa que o valha).

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Estado de coiso

À ATENÇÃO DOS PROFESSORES E DOS SINDICATOS
Numa comunicação escrita, datada de 15 de Abril de 2008, o Presidente do CE da EB 2/3 D. João I da Baixa da Banheira informa os docentes do seguinte:

Apesar das faltas legalmente equiparadas a serviço lectivo não contarem para efeitos da falta de assiduidade ao nível de avaliação, no entanto, de acordo com o que consta na ficha de avaliação de desempenho de 7/04/ 2008, o ponto A.2 do Anexo XIII – empenho para a realização das aulas previstas: compensações, permutas, preparação das substituições – remete para todo o serviço lectivo distribuído (total de aulas previstas). Ora, de acordo com este anexo, terá de se registar o número de aulas que não foi leccionado, independentemente das razões que originaram as faltas. Assim, continua o Presidente desta Escola, as aulas não leccionadas acabam por incidir na avaliação de cada docente, independentemente de ter sido leccionada toda a matéria curricular, podendo até agravá-la. E, para ultrapassar esta situação, terão de se aplicar modalidades compensatórias já implementadas na Escola, tal como a permuta e a reposição do serviço lectivo [reprodução não textual, mas fiel ao enunciado escrito].

Se todos os Conselhos Executivos seguirem a referida Escola – e ver-se-ão forçados, a curto prazo, a fazê-lo – esta ilegalidade que o ME, através de um Regulamento, lhes impõe executar, revoga o artigo 103.º do ECD, pois retira-lhe efeito útil.

Imaginem as subsequentes situações:

1. O docente faltou por motivo de greve.

Esse dia é-lhe descontado no vencimento. Ao “exigirem-lhe” que reponha o número de aulas em falta, a greve ficou sem efeito útil. Mais grave ainda: trabalha e não recebe, ou seja, repõe as aulas não leccionadas, mas não lhe repõem o pagamento do dia de greve.

2. O docente faltou por motivo de nojo.

Não recebe o subsídio de refeição correspondente aos dias em falta. Repõe as aulas não leccionadas, mas não recebe o subsídio de refeição correlativo.

3. O professor não lecciona por motivo de visita de estudo.

O professor que foi em visita de estudo organizada por outro grupo disciplinar tem de repor as aulas não leccionadas apesar de nesse dia ter trabalhado mais horas do que as referenciadas no seu horário de trabalho.

Caros colegas:

Temos de lutar contra esta aberração legislativa de compensar as aulas não leccionadas, pois põem em causa o princípio constitucional da igualdade.

Conhecem algum médico, juiz ou operário que seja obrigado a repor as horas que justificadamente não trabalhou?

Em Direito ensinaram-me que as leis inferiores não revogam leis superiores; que o respeito pela hierarquia das leis é um dos fundamentos de um Estado de Direito Democrático.

Ou ensinaram-me mal ou, pelos vistos o Estado de Direito Democrático não existe.

Vítor Barros

Texto recebido por e-mail

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Pouco verde-rubra, muito verde-tinto

Álvaro Parente venceu a primeira corrida do “GP2 Series”, no circuito de Barcelona.

Na cerimónia protocolar de entrega da taça ao piloto vencedor, como é tradição no automobilismo, ouviu-se o hino português e foram hasteadas as bandeiras do 1.º, do 2.º e do 3º classificados.

Os portugueses, como é natural, pelam-se por vitórias de compatriotas, seja em que modalidade for. Por regra, por definição e também como é natural, as nossas estações de TV costumam retransmitir estes (raros) eventos vezes sem conta, quando não até à exaustão. Curiosamente, desta vez (parece que) nem a RTP, nem a SIC, nem a TVI, nem sequer algum dos canais por cabo transmitiu esta. Porque será? Não é propriamente todos os dias – ou anos, ou décadas – que um português vence uma corrida de um Grande Prémio internacional…

Neste videoclip da cerimónia, de um canal estrangeiro, repare-se no pano que os catalães içaram ao centro.


http://uk.youtube.com/watch?v=e9R0ueLVWec

Está claro?

Via blog Perspectivas

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E o que é a verdade?

Uma carta fora do baralho
Rosa Coutinho a incentivar o MPLA contra os brancos?
António Barreto «lamenta ter incomodado» o almirante
POR PEDRO VIEIRA

Subscrita por «António Alva Rosa Coutinho, vice-almirante», há uma carta de 22 de Outubro de 1974, ao «Camarada Agostinho Neto», multiplicada em cópias, transcrita em livros, presente na blogosfera, que as ondas do tempo foram levando e trazendo como destroços da história post-25 de Abril. Mas foi uma crónica de António Barreto, no jornal Público do último dia 13, a relançar a polémica sobre as palavras aterrorizadoras postas na pena de Rosa Coutinho, presidente da Junta Governativa de Angola, de 24 de Julho de 1974 até 28 de Janeiro de 1975. Engenheiro hidrográfico, o almirante, agora com 82 anos, mostrou-se chocado com a referência do cronista à missiva: «É incrível como um indivíduo culto, com a categoria do António Barreto, vai buscar uma carta falsa publicada em 1975 pelo Século de Joanesburgo, um jornal que era pelo “apartheid”, disse à VISÃO, na sua casa do bairro de Alvalade, onde peças de arte africana testemunham os lugares por onde passou a sua carreira. Não é caso para menos, tendo em conta o teor da carta transcrito pelo articulista: «Camarada Agostinho Neto, dá instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando, incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos.»

Se tivesse lido “Holocausto em Angola – Memórias de entre o cárcere e o cemitério“, de Américo Cardoso Botelho, editado pela Nova Vega, talvez o almirante – «nem sequer sabia do livro» – tivesse sido mais compreensivo para o cronista do Público. Em resposta a um pedido da VISÃO, António Barreto lamenta mas explica a sua referência à missiva:
«Se a carta é falsa, como afirma o senhor almirante, lamento tê-la utilizado para apoiar um argumento ou para sobre ela tecer considerações. Tendo sido publicada em livro (não só uma transcrição, mas também um fac-símíle), em Portugal, há alguns meses, sem reacções conhecidas, considerei que a sua autenticidade não tinha sido posta em causa. Talvez o autor do livro Holocausto em Angola saiba mais sobre a origem deste documento. É também possível que o jornalista Ferreira Fernandes conheça mais pormenores: ele diz, no Diário de Notícias, que viu a carta há 30 anos, na África do Sul, e que sabe porque é falsa. Lamento ter incomodado alguém, nomeadamente o senhor almirante Rosa Coutinho.»

Ferreira Fernandes, na sua coluna do último domingo, sob o título “Barreto e a carta falsa (II)”, espanta-se por não ter havido «um sobressalto nacional para tirar a coisa a limpo».

Não nos foi possível falar com o autor do livro Holocausto em Angola, mas o historiador angolano, Carlos Pacheco, disse à VISÃO: «Lembrei há dias ao eng.° Botelho, “eu alertei-o de que se tratava de uma carta forjada”.» E considera que «António Barreto andou mal por ter dado demasiada dimensão àquela carta».

Carlos Pacheco viu uma cópia da mesma «há muitos anos» na secção de reservados da Sociedade de Geografia. «Nunca lhe atribuí o mínimo de valor», diz, não a citando, por isso, nos seus livros.

Rosa Coutinho de há muito conhecia a carta «absurda» com o timbre da República Portuguesa / Estado de Angola e «com a minha assinatura muito bem imitada». Diz que «o MRPP andava a vendê-la por dez escudos no Rossio, antes do golpe do 25 de Novembro», e ele mandou comprar uma cópia.

Como autores da carta falsa, aponta «dois radialistas da Beira», Moçambique, desconhecendo, porém, a sua identidade e não sabendo quem lhe fez chegar essa informação.

Rosa Coutinho afasta com um encolher de ombros a hipótese de recorrer à via judicial para defender a sua honra face à carta que lhe é atribuída. «Não, era perder tempo.»

Em termos de reacções verificou-se um empate. O almirante recebeu um telefonema de solidariedade do coronel Leitão Fernandes e uma carta de um tal António Costa, enviada de Coimbra. Dentro do sobrescrito vinha uma cópia da tal carta com a seguinte ameaça: «Ao ver isto, tu, mulato e tua família, vão sangrar até à morte.»

No mesmo dia, por coincidência, recebeu ainda uma carta de uma norueguesa, estudiosa da história de Portugal e coleccionadora de fotografias de personalidades mundiais. Alimenta um arquivo como o tesouro que quer deixar aos seus filhos. Eva Eriksen pedia-lhe para assinar duas fotografias. Uma em que Rosa Coutinho está com Leonel Cardoso, Altino Magalhães, Silva Cardoso e José Emílio da Silva. E outra em que aparece com Agostinho Neto e Jonas Savimbi.

VISÃO n.º 790, 24 DE ABRIL DE 2008

Este é, por assim dizer, o desmentido oficial da veracidade da carta que aqui foi reproduzida no passado dia 18.

O próprio António Barreto, que foi quem “lançou a lebre”, retractou-se ontem no mesmo jornal em que tinha publicado o artigo “Angola é nossa!” e reproduziu no seu blog Sorumbático essa retractação, com pedido de desculpas à pessoa em causa. O que se segue é um excerto desse último artigo, na parte que a isto diz respeito.

Correcção: Há duas semanas, citei, nesta coluna, uma carta atribuída ao antigo Alto-comissário em Angola, Rosa Coutinho. Esse documento fora reproduzido em fac-símile num livro de Américo Botelho editado em Lisboa em 2007, “Holocausto em Angola”. Desde então, que eu soubesse, a sua autenticidade não tinha sido posta em causa. O Almirante Rosa Coutinho acaba de negar, na revista “Visão”, a autoria de tal carta. Lamento ter utilizado como argumento esse documento apócrifo. As minhas desculpas ao senhor Almirante e aos leitores.
«Retrato da Semana» – «Público» de 27 Abr 08

Já hoje, 2.ª Feira, na ressaca de um fim-de-semana prolongado e na expectativa de outro ainda maior, inúmeros comentadores amadores e alguns “opinion makers” (idem) decidiram atirar-se furiosamente às canelas de António Barreto, chamando-lhe de tudo, até mesmo de “cronista”, coitado, e utilizando palavras caríssimas para o efeito. Diz que, por conseguinte, se trata de uma carta “apócrifa” e parece que, portanto, na respeitável opinião de alguns dos tais, a coisa não deveria ter sido publicada, haja respeito, haja coerência, isto só lá vai com censura prévia, mas com outro nome, “crivo de verificação factual” ficava bem, ou assim. Provavelmente com as orelhas a arder, nosso pobre “cronista” arrisca-se agora a penas terríveis como, por exemplo, duplicarem-lhe em público o tratamento privado e passar ele a ser conhecido já não como Tó, simplesmente, mas como “Totó” Barreto. Ou isso ou coisa pior ainda. Ouve-se ao longe o ruído das facas a amolar e das mocas a afiar, que nestas coisas de lisura aquilo é gente que não perdoa, ou não fossem eles mesmos os magníficos inventores de uma coisa chamada “a verdade a que temos direito”, essa elegantérrima aplicação das “amplas liberdades” políticas ao âmbito jornalístico em geral e à opinião individual em particular.

Ter António Barreto tragado um barrete, ainda que este lhe tenha sido servido em letra de forma (um fac-símile que tresandava a manhoso), se não abona muito em favor da sua perspicácia também não deveria servir para lhe enfiar umas orelhas de burro, isto é, albardá-lo com o peso da suspeita, para descrédito geral. Desejar a canga da censura é algo que encaixa na perfeição no discurso e na praxis dos ditos paladinos das “amplas liberdades”, mas que se não aplica de todo a quem sempre defendeu a liberdade, tout court, como é o caso.

Deveria o “cronista” ter tido mais cuidado com aquilo que tomou por genuíno? Claro que sim. A questão residiria então em saber por onde pegar no assunto: numa perspectiva factual ou de um ponto de vista meramente documental? A validação do documento deveria ter sido feita segundo uma lógica política e histórica ou apenas detectivista ou, pior ainda, através de simples “palpite”?

Foi um erro, a publicação da carta? Talvez. Testemunhal, por exígua sustentação e à míngua de provas, certamente. Mas terá sido um erro político? Sinceramente, não me parece. Já era tempo de ao menos se discutir seriamente aquilo que se passou na primeira infância da chamada “Revolução dos Cravos”, e nomeadamente quanto às tragédias que sucederam e se sucederam na então África portuguesa.

Ora, e não é isso mesmo que estamos agora discutindo? Não é essa a função do “cronista”, suscitar dúvidas, levantar polémicas?

Tivesse António Barreto anotado no seu artigo o carácter duvidoso da carta, quanto a origem e autoria, e outro galo cantaria certamente; não estaria agora de forma alguma em causa quem falsificou a assinatura do remetente, que papel foi usado e qual era o envelope; porque daquilo que se trata é do que a carta diz e, principalmente, que o destinatário era um povo inteiro ao encontro da sua História.

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O que as mulheres reclamam

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(Cousas curiosas solicitadas pelas feministas)

A recente agitação de certa parte do elemento feminino da Inglaterra, que pretendia a todo o transe ter voto nas eleições de deputados, não é a unica agitação feminina que a historia contemporanea tem a registrar.

Em outros paizes, tambem as mulheres se teem unido para reclamar cousas tão curiosas e tão desnecessarias como o voto, dando com isso bastante que fazer ao sexo feio encarregado de manter a ordem.

Por exemplo, as mães da povoação franceza chamada Vignieu, levaram, ha pouco, uma petição ao Senado francez, solicitando que seja concedida a Legião d’Honra e uma pensão a toda a mulher casada que haja criado oito ou mais filhos. As autoras do pedido opinam que o decrescimento da natalidade em França constitue uma grave ameaça para a nação, e consideram vergonha para o governo do paiz o não lhe ter occorrido ainda a idéa de recompensar as mulheres que cumprem os seus deveros para com o Estado, criando família numerosa. Já outras, de differentes pontos de França, apoiam a mesma reclamação, e receia-se que, se, em tempo opportuno, o Senado não a acolher favoravelmente, haja tumultos e até mesmo não menor numero de vidros partidos do que os que tem havido em Inglaterra.

As americanas, essas não teem papas na lingua para pedirem ao governo que prohiba ou auctorise aquilo que as incommoda ou agrada. Não ha muito ainda que as damas elegantes de Boston pediram ás auctoridades a publicação de um edital obrigando as companhias de viação publica a collocarem mais baixos os estribos dos carros de passageiros, para poderem subir e descer com mais facilidade as viajantes que, segundo a moda, usavam saias mais apertadas.

A Liga das Contribuintes de Cincinnati emprehendeu uma vigorosa campanha a favor dos passageiros que vão de pé na plataforma dos tranvias (electricos, como nós lhes chamâmos). Consideram essas senhoras não ser justo que paguem o mesmo que os que vão sentados, os que vão de pé; e pede que se abata um centavo, pelo menos, a estes ultimos.

Graças ás damas de Nova Wilmington, na Pennsylvania, não é permittido, nessa cidade, a venda de cigarros. As senhoras fizeram uma activa campanha anti-cigarrista, e conseguiram impor a sua vontade, não se fumando nem a sombra de um cigarrinho em toda a povoação.

Algumas advogadas dos direitos da mulher iniciaram, ha três annos, em Berlim, um movimento a favor do serviço militar obrigatorio para as mulheres. Asseguravam as defensoras do projecto, que assim existiria a liberdade legal entre ambos os sexos, e do mesmo modo que havia na Allemanha recrutamento de homens, tambem o devia haver de mulheres. Mas, não foi possivel pôr todas de accôrdo, nos diversos pontos do reclamado, porque, ao passo que umas se contentavam com que o governo as destinasse ás ambulancias, outras não queriam nada menos do que uma espingarda e completa instrucção militar, tal qual como a dos homens. Segundo as d’este bando, a mulher devia entrar em campanha como combatente e soffrer todas as incommodidades e perigos da guerra; mas por muito militarista que a Allemanha seja, o que é facto é que não acolheu a idéa com enthusiasmo; e por isso, e por já estarmos no terceiro anno de uma grande guerra sem ella reconsiderar, é quasi certo que não tenhâmos de ver amazonas no exercito allemão, apesar de todos os argumentos adduzidos em prol das suas vantagens.»

Fernandes Costa (270, Estrada de Bemfica, Lisboa), Almanach Bertrand, 1918

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O publico

«Por toda a parte, em livros, em jornaes, em discursos, em escriptos de todo o genero, abusa-se muito da palavra publico para designar a multidão orgulhosa, auctoritaria, quasi sempre imbecil, que tem tantas linguas e tão poucas cabêças, tantas orelhas e tão poucos olhos, e que, geralmente, os que para o seu juizo e o seu conceito appelam, tratam do mesmo modo que fazem aos tolos cheios d’importância, a quem affagam em voz alta e que, em voz baixa, desprezam.

Temos, felizmente, na nossa lingua, uma palavra muito mais propria para designar essa turba; temos a palavra vulgo. Esta, na grande maioria dos casos, é a que devia ser empregada.

Quer no louvor, quer no vituperio, o que as mais das vezes o orador, o escritor, o actor, o artista encontra a julgar-lhe a obra, não é o público; é a opinião do vulgo. E, d’uma á outra, é profunda a differença.»

Fernandes Costa (270, Estrada de Bemfica, Lisboa), Almanach Bertrand, 1918

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Os ridículos

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Por mais estranho que isso possa parecer, hoje em dia, houve um tempo em que os manuais escolares eram únicos e passavam do irmão mais velho para o seguinte, e deste para o seguinte, e assim sucessivamente até chegar ao “caçula” da família. E esses mesmos manuais únicos, já gastos e todos rabiscados, podiam ainda servir para algum primo mais novo ou até para um qualquer vizinho de mais fracas posses. Sei do que falo, neste particular, porque apenas me tocaram livros novinhos em folha já muito depois do 25 de Abril de ’74; fiz toda a escola primária, o Ciclo Preparatório e uma parte do Curso Geral dos Liceus com livros que recebi, directamente e não muito estragados, dos meus cinco irmãos, por azar e capricho da natureza todos eles mais velhos do que eu.

Esta coisa natural, naquela altura, seria agora absolutamente inconcebível, em especial na cabeça dos jovens que hoje “andam na escola”; nestes tempos de ideias modernas e problemas antigos, não apenas os livros escolares mudam todos os anos, como “estudante” algum jamais admitiria outra coisa que não a colecção nova, completa, reluzente, acabadinha de sair da livraria mais próxima. Não que das intenções desses estudantes conste a mais leve intenção de alguma vez folhear os ditos livros, mas apenas porque aqueles objectos com folhas servem de distintivo social, no microcosmos escolar, tanto como os “ténis” de marca ou as roupas com a etiqueta por fora.

As sucessivas “reformas” do Ensino, cuja finalidade consiste basicamente em liquidar a “reforma” anterior, constituem uma benesse do Estado para as editoras do ramo e, evidentemente, para todas as profissões que orbitam o planeta educacional ou, dito de outra forma, que se penduram na teta pedagógica: a começar pelos autores e a acabar na mais modesta papelaria, toda a gente ganha verdadeiros balúrdios à conta da obsessão pela novidade e, em resumo, da promoção do consumismo como método único de aprendizagem.

Curiosamente, é a mesma ideologia, é o mesmo pensamento dominante que alega promover a escola “geral, universal e gratuita”, aquela e aquele que geram e aprovam uma indústria de redundância e que criam uma novíssima (e estranhíssima) mecânica de exclusão: afinal, nem os manuais são gerais, muito menos gratuitos, nem é por conseguinte universal o acesso ao Ensino das famílias que não forem capazes de suportar os custos respectivos; afinal, esses custos exorbitantes, de novas edições a cada ano que passa, excluem do sistema de Ensino (são actualmente, aliás, o único factor de exclusão) todos os estudantes que não os puderem pagar.

Ou seja, afinal era tudo uma treta pegada. Não interessam para nada os conteúdos, mas apenas vender papel.

Olha a novidade.

Imagem digitalizada de

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Depositária dos Cromos de Estudo Arnaud

1-VIII-1963»

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