«Uma voz que não se ouve» [Nuno Miguel Guedes, “Macau Hoje”]

Carta manuscrita de um voluntário de recolha de assinaturas para a ILC contra o AO90. Caligrafia espantosa!

A caligrafia, como a memória, passaram em certa altura a ser consideradas coisas “anti-pedagógicas”. Às crianças portuguesas, algures num passado recente, foi impingida a política oficial da “escola” lúdica, transformando aquelas “vetustas” e “reaccionárias” actividades escolares comuns no Ensino Básico (então chamado “Primário”) em letra morta… literalmente.

Trata-se, portanto, de uma já antiga lacuna no nosso “sistema de Ensino”, que, a par com a História da Língua, poderia muito bem e deveria ainda mais preencher o enorme buraco, a cratera de (re)conhecimento da nossa identidade colectiva e de uma parte nada desprezível do sentir colectivo, por oposição ao hedonismo obsessivo que em Portugal brutalmente se apossou de todas as estruturas de Poder político. Ninguém se pronunciou (ou foi sequer consultado) sobre a extinção administrativa da Caligrafia.

E, contudo, ela move-se.

Com a nossa letra

Nuno Miguel Guedes
“Hoje Macau”, 18.11.20

 

A cidade ficou deserta, outra vez. Ou melhor: tornou-se uma espécie de bonita colónia penal onde os reclusos gozam de saídas precárias para logo regressarem às celas segundo o horário imposto. Pelas melhores razões, quero acreditar. Mas uma privação da liberdade, mesmo em casos de força maior e de bem comum, como este é, será sempre retirar a única coisa que me levaria a pegar em armas para a preservar. E sim, dói um bocadinho.

Existe a vantagem triste, no entanto, de já termos conhecido esta sentença ainda há poucos meses; e embora o cansaço seja maior, consegue-se lidar melhor com a solidão que é sempre estar confinado – mesmo que o estejamos numa casa cheia de gente. Arranja-se artimanhas, artifícios para melhor suportar o torpor invisível das horas de chumbo.

Não sou excepção, amigos. E sem surpresa dei por mim a fazer arrumações há muito adiadas de memorabilia pessoal. Não por uma questão de nostalgia, apenas por motivos práticos. Enfim, a intenção pelo menos foi boa: mal olhei as fotos do prefácio de mim que um dia fui, artigos amarelados de jornal e bilhetes esquecidos de concertos as memórias dispararam sem filtro. Suponho que seja sempre assim quando confrontados com dias que julgávamos arrumados e etiquetados há muito. É por isso que devemos ter cuidado com estas arqueologias afectivas.

Mas de toda a parafernália de objectos avulsos que reencontrei os que mais me tocaram foram as cartas que recebi de amigos e amores. Ali, naqueles papéis, estavam estendidas pessoas, almas, juras de romance eterno, vontades de dominar o mundo, a certeza alegre e serena de que éramos imortais. As cartas possuem esse dom, de facto, e muito da civilização ocidental deve à forma epistolar: São Paulo, Abelardo e Heloísa, Séneca (Cartas a Lucílio). Os amores de Mariana Alcoforado ou do jovem Werther, que embora trágicos tiveram correspondência, sendo este meu trocadilho fraquinho mas intencional. E muitos outros testemunhos que nos devolvem o olhar de quem os escreveu, porque das cartas não existe muita distância: Sophia e Sena, Amis e Larkin, Beckett com quem lhe apetecia.

Mas ali, nas minhas mãos, estava algo que desapareceu e que faz toda a diferença. Confere humanidade, sentido e tempo ao que se escreve: a caligrafia. Não falo de grafologias ou outras “logias” que por mim fecharia de vez. É porque acho que a nossa letra também é parte do que somos. E essa a tragédia, amigos: já não me lembro como escrevo. Algo do que me é único e transmissível está em vias de se afogar no mar destes tempos. Não me posso queixar: a culpa é minha porque sem querer me rendi à forma anónima e instantânea como comunicamos hoje uns com os outros.

Num mundo dominado pela literalidade do comentário impulsivo, a caligrafia é um dos redutos possíveis. Longe de precisar de bonecos a reiterar emoções, o modo como se desenha a letra e o próprio acto de nos dispormos a tal já diz quase tudo. “Toda a palavra é fruto vivo”, avisava D. Francisco Portugal há quatro séculos. É verdade porque dizer “amo-te” continua a não ter a mesma força de escrever “amo-te” a alguém que amamos. A caligrafia assegura de forma espantosa a presença longínqua de quem escreve para quem lê.

É um rosto que não se vê, uma voz que não se ouve – mas que percebemos e sentimos.
Um dos poemas de amor portugueses de que mais gosto foi escrito por Fernando Assis Pacheco e termina com este verso belíssimo e absoluto: “Porque tudo se escreve com a tua letra”. Continuarei a acreditar nisto, sempre. Mas entretanto, e para me reencontrar, terei de voltar a aprender a escrever, com a minha letra.

Nuno Miguel Guedes

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Miguel Guedes publicado pelo jornal “Macau Hoje” de 18.11.20. Destaques e sublinhados meus. Imagem interior de “blog” homónimo.]

 

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Issu daí é porrtugueiss universáu, viu?

A reboque ou à boleia (“pegando carona”, em brasileiro) do AO90 e do respectivo paleio-para-enganar-idiotas-deslumbrados sucedem-se as aberrações, qual delas a mais “imaginativa” e absurda. Já conhecemos as verdadeiras intenções da CPLB e, como escorrência (ou vomitado) daquela inacreditável palhaçada, as consequências catastróficas do AO90 sobre a Língua Portuguesa (Portugal e PALOP), mas de facto seria impossível sequer imaginar esta: brasileiros e brasileiras pretendem, à conta da tão propalada “língua universal” (o brasileiro), emigrar para cá e vir-nos “ensinar” a falar… Português. Ou seja, gêntchi, qui légáu, vamu dizê qui akilo é porrtugueiss; eles, pelo menos, apropriaram-se já da “marca”, a fingir que são muito europeus.

Confesso que nunca, jamais, em tempo algum poderia ter sequer imaginado semelhante coisa: 4 mil pessoas (4 mil, raios!) do Brasil vêm para cá ensinar o indígena (o “portuguesinho”) a usar a sua própria Lingua!

O AO90 em todo o seu brasileiro esplendor, em toda a sua asquerosa dimensão de ex-colónia que coloniza o ex-colonizador, em toda a dimensão sem medida do mais horrível pesadelo que acontece debaixo do Sol.

Inacreditável?

Não, é “terapia da fala”.

Fonoaudióloga brasileira em Portugal luta para provar que fala português…

– Veja mais em https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/11/22/fonoaudiologa-brasileira-em-portugal-luta-para-provar-que-fala-portugues.htm?cmpid=copiaecola

Luciana Alvarez
Colaboração para o TAB, de Lisboa
22/11/2020 04h01

Quando Thaís Cruz chegou a São Paulo falando “tu vais”, “tu queres”, os colegas da faculdade de fonoaudiologia logo a apelidaram de portuguesinha. Thaís vinha na verdade de Belém, Pará, cidade onde se usa a segunda pessoa do singular (tu) por padrão. Thaís precisou viajar 2,5 mil km para fazer o curso porque, em 1997, não havia fonoaudiologia em nenhuma faculdade paraense.

Quase 23 anos depois, agora morando em Cascais, município do distrito de Lisboa, a portuguesinha não consegue exercer a fonoaudiologia porque seu português não é suficientemente português, segundo o órgão responsável por regular a profissão no país de Camões. Depois de passar por uma entrevista e escrever uma redação, recebeu um documento dizendo que ela não domina a semântica (sentido das palavras), a morfossintaxe (construção das frases), a fonética e a fonologia (os sons) do português europeu.

Preconceito linguístico ou reserva de mercado seriam as verdadeiras motivações para que seu credenciamento profissional em Portugal tenha sido negado, acredita Thaís. “A existência da prova é um disparate. Se eu não tivesse as habilidades linguísticas, sequer conseguiria me comunicar com as entrevistadoras. A justificativa é completamente inaceitável”, afirma a brasileira, que faz mestrado na área de linguagem na Universidade Nova de Lisboa.

Thaís não é a única fonoaudióloga formada no Brasil impedida de trabalhar como “terapeuta da fala” em Portugal — assim é a nomenclatura local. No dia de fazer a prova, conheceu outras fonos brasileiras, que acabaram se reunindo num grupo de WhatsApp, que foram chamando outras conhecidas. Hoje, o time das reclamantes têm quase 40 profissionais. Algumas ainda esperam ser convocadas para o exame, outras aguardam os resultados. O processo todo, entre dar entrada na papelada e receber o resultado, leva quase dois anos. Todas que já receberam resposta tiveram seus pedidos indeferidos com a mesma justificativa, ipsis litteris.

O número total de profissionais tentando obter o registro deve ser muito maior — nas redes das fonos brasileiras, especula-se que cheguem a 4 mil. Procurada pela reportagem, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) não informou até quinta-feira (19) qual era o número de pedidos de credenciamento total, quantos foram aceitos e quantos foram negados.

Com o recente aumento da emigração brasileira para Portugal, alguns setores de profissionais da saúde sentem pressão com a chegada de diplomados. Mais de 50% dos dentistas estrangeiros que atuam em Portugal vieram do Brasil; são quase 500 com autorização para trabalhar. Entre os médicos, há quase 600 registros de brasileiros, com número de pedidos de autorização recorde em 2018.

Sem conseguir o registro, muitas fonos acabam trabalhando em funções de baixa especialização. Thaís conta que já trabalhou na parte administrativa de um asilo, mas não gostou. “Sou fonoaudióloga. Foi a profissão que escolhi para a minha vida e não sei ser outra coisa.”

A prova para comprovar que falam português passou a ser exigida apenas em 2018. Quando questionada, a ACSS não explicou por que decidiu submeter os profissionais a um exame de proficiência no seu seu idioma materno, tampouco mostrou os referenciais teóricos para classificar o português europeu, uma variante regional, um fator decisivo para a atuação de terapeutas da fala.

As diferenças na forma de se expressar fazem com que um cidadão português reconheça um brasileiro no primeiro “oi”, até porque, em Portugal, usa-se “olá”. Mas a língua em Portugal continua sendo a mesma falada oficialmente no Brasil e em mais sete países de África e Ásia.

Existem tratados internacionais, como o Acordo Ortográfico de 1990, e órgãos oficiais, como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), uma espécie de ONU, cujos objetivos comuns são a “defesa do prestígio internacional” e “promoção e difusão da Língua Portuguesa”. Assim, em maiúsculas, no singular e sem subdivisões.

Dentro do próprio território português, embora pequeno, há variações de palavras, construção de frases e de pronúncia. No sul do país, tênis é chamado de sapatilha. No Alentejo, usa-se o gerúndio como no Brasil e como usava Camões, embora no restante do país a construção normal seja diferente: dizem “estou a escrever”, em vez de “estou escrevendo”. No norte, o som do “v” se parece como o do “b”, como se fala no espanhol.

Na prática, as variantes do idioma não afetam o trabalho de um terapeuta da fala. Thaís faz um estágio em hospital não remunerado (porque não tem registro) e conta que nunca teve dificuldade de desempenhar qualquer função. “Faço vários exames. Em um deles, falo algumas palavras e as pessoas têm de repetir. Ninguém nunca reclamou”, garante.

Também já ajudou, informalmente, a filha de uma amiga portuguesa a pronunciar o /l/ do jeitinho português. “Cá em Portugal o fonema /l/ no final das palavras produz-se com a elevação da ponta da língua. Em duas semanas eu consegui instalar o fonema na miúda de 6 anos. Apesar de eu falar ‘Portugau’, porque sou brasileira, eu estudei a produção fonoarticulatória dos fonemas”, explica ela, já introjetando o “miúda” característico.

Por considerar o exame da ACSS “um absurdo”, Thaís tentou outro caminho para comprovar que fala, sim, português. Já tinha um laudo de um terapeuta da fala nascido, criado e estudado em terras lusitanas. O laudo foi apresentado, mas nada adiantou. Tentou fazer uma prova externa, mas a única certificação de idioma do Estado Português, do Instituto Camões, não é aplicada a brasileiros, pois dirige-se exclusivamente a quem fala português como língua estrangeira.

Enquanto aguarda uma solução, contínua no mestrado e faz até aulas de português europeu. “Resolvi estudar por causa do mestrado, não para mudar o sotaque, mas pelo fato de a gramática ser diferente — o que não quer dizer que seja melhor ou pior, certo ou errado. Como estudiosa da linguagem, penso ser interessante conhecer essas variações”, explica.

Apesar da frustração, Thaís mantém a esperança de conseguir validar de alguma forma seu diploma. Já contactou um advogado e deve ser a primeira do grupo das fonos brasileiras a levar o caso à Justiça. As demais se articulam para esperar a manifestação do juiz e, dependendo do teor, entrar uma ação coletiva. Para ela, a história realmente ainda vai dar o que falar.

[Transcrição integral de artigo com o título “Fonoaudióloga brasileira em Portugal luta para provar que fala português…”, com redacção da autoria de Luciana Alvarez, publicado online em “Tab” a 22.11.20. Destaques e “links” meus. Foi conservada, sem corrector automático ou manual, a cacografia do original em brasileiro. Base da imagem de topo: magalu (Brasil)]

[A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos).]

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Malhas que o II Império tece

Isto é uma das primeiras consequências visíveis, se bem que ainda de bandeirantes, das manobras de experimentalismo social e de engenharia política (ou vice-versa) da tremenda historinha a que se chamou — por facilitação propagandística — Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP) e, por arrasto estupidificante, o indizível, risível, incrível AO90.

Alunos brasileiros, na miragem do canudo académico para serem “doutores”, vêm para Portugal “estudar” enquanto na maioria espreitam a Europa por um canudo, para a qual se esgueiram à primeira oportunidade, honra lhes seja feita, lá fura-vidas são eles. Se bem que a dupla nacionalidade lhes dê muito jeito, é até condição sine qua non.

Em suma, e mesmo deplorando qualquer hipotética violência (de que, aliás, não há notícia, à excepção dos delírios catastrofistas habituais), não deixa a local de ter todo o interesse — até pelo ligeiríssimo e imediatíssimo aproveitamento de umas minudências (e de umas quantas “bocas” estudantis), que para o efeito tudo serve, mesmo (ou principalmente) se não existir.

Há racismo nas universidades portuguesas

Museólogo;
deputado do Bloco de Esquerda
publico.pt, 17 de Novembro de 2020

Chegaram a público relatos de comportamentos xenófobos para com estudantes da comunidade brasileira (a maior a estudar em universidades portuguesas). As queixas que começaram a bater à porta das reitorias resumem casos de insulto permanente, exclusão social por parte de docentes, insinuações sobre a presença das brasileiras no país, tratamento inferior em residências estudantis.

Desde a aprovação do novo Estatuto do Estudante Internacional (Decreto/Lei 36/2014) que o ensino superior português iniciou um novo caminho no sentido da sua internacionalização. Mas de que tipo de internacionalização estamos a falar?

Este movimento de internacionalização da Academia em Portugal pressupõe a capacidade de atracção de novos públicos para as instituições de ensino superior. Esse movimento, que não é novo — estude-se, a título de exemplo, o caso dos estudantes dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) a estudar cá —, tem tido, essencialmente, um papel de balança na tesouraria dado o valor elevado a que estes estudantes estão sujeitos na hora do pagamento de propinas. Por outro lado, todas as vantagens inerentes a um alargamento da base cultural e étnica do espaço académico português parecem ter ficado na gaveta. O racismo incrustado na sociedade portuguesa estalou no universo onde o pensamento crítico devia imperar. Liberalizou-se a sua entrada, feudalizaram-se ainda mais as relações sociais com quem que chega de fora.

Conselho Nacional de Educação recomenda recolha de dados raciais de alunos no combate ao racismo

Chegaram a público relatos de comportamentos xenófobos para com estudantes da comunidade brasileira (a maior a estudar em universidades portuguesas). As queixas que começaram a bater à porta das reitorias resumem casos de insulto permanente, exclusão social por parte de docentes, insinuações sobre a presença das brasileiras no país, tratamento inferior em residências estudantis. No mês passado, a Universidade do Porto sentiu a necessidade de se desmarcar de uma nova página nas redes sociais onde estudantes da Faculdade de Engenharia partilhavam insultos a estudantes internacionais, principalmente dirigidos a jovens brasileiras. A página foi apagada, os insultos não ficaram esquecidos. A demora na tomada de posição por parte dos órgãos da própria faculdade também é reprovável. Já em 2019, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, tinha assistido a um momento tão triste quanto revoltante. Um grupo de estudantes decidiu oferecer pedras aos colegas portugueses para as poderem atirar aos “zucas” que passassem à sua frente no mestrado. Não é brincadeira, é xenofobia.

Existe, a par deste quotidiano violento, um conjunto de regras e práticas preconceituosas. Na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, aos estudantes brasileiros é-lhes exigida uma média de 16 valores para ingressar no curso, ao contrário de todos os outros estudantes (nacionais ou internacionais), que precisam de 13 valores. Vários estudantes queixam-se de não poder utilizar o português do Brasil em testes, exames e trabalhos, exactamente nas mesmas provas onde é permitida a entrega desses instrumentos de avaliação em inglês (facilitando a participação da restante comunidade estrangeira).

A mesma instituição que assume como um dos seus objectivos actuais a internacionalização parece ter dificuldades em adaptar-se à nova realidade que a própria criou: o aumento do número de estudantes internacionais — maioritariamente brasileiros — a estudar em Portugal. A universidade feudal-neoliberal é isto: assenta a sua relação num tratamento socialmente desigual, enquanto trata estes estudantes como activo financeiro com propinas abismais para equilibrar as suas contas.

Os novos colectivos de estudantes internacionais no Porto, em Coimbra, em Aveiro ou de cariz nacional são o primeiro grito de revolta sobre as suas novas vidas e novas opressões. É responsabilidade nossa, cidadãos que nasceram neste território e com tanta história de emigração, compreendermos as suas razões e sabermos apoiá-los.

Há racismo nas universidades portuguesas. Só fecha os olhos a essa realidade quem não sente na pele, quotidianamente, o que é ser tratada de forma diferente pela sua origem ou cor da pele, língua ou cultura. Uma universidade sem muros nem fronteiras ainda é projecto por vir.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de um tal

Bom, enfim, em prol da nossa mais elementar sanidade mental, para espairecer de tantas amarguras alheias, aqui fica o poema de Fernando Pessoa que, por extenso, diz tudo (pronto, sim, tudo é exagero, vale, então, muito) do nosso extinto Império (e que serve de título a este “post”). Mal sonhava ele, Pessoa, bem como a maioria das pessoas, nanja no seu pior pesadelo, que a seguir viria outro, e ao contrário, o II Império (brasileiro).

O Menino de Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

[Foto de: “blog” Cartas das Trincheiras”]

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Negócios da China


Mais do mesmo.

Estas “notícias” não são notícias e não têm absolutamente nada a ver com a chamada “lusofonia”, uma artimanha brasileira para impor o seu próprio linguajar (e escrevinhar) aos indígenas de Portugal e dos PALOP. A qual artimanha — ou golpada, para ser rigoroso — não passa de um pretexto (grotesco), bem entendido, para a protecção e “difusão” dos interesses económicos do Brasil “no mundo”.

Neste caso, na China, que de facto é o lugar mais adequado para fazer negócios, como sabe perfeitamente qualquer vigarista.

Claro que da pompa e circunstância dos anúncios — a fingir que são notícias — o que inevitavelmente resultará há-de ser exclusivamente uma universidade brasileira em língua brasileira, com a conhecida cortina de fumo (AO90) para esconder negócios da China brasileiros. Apesar de Macau, do Japão e de todas as orientais paragens que portugueses descobriram e colonizaram (ou ali se estabeleceram), criando laços comerciais duradouros, cooperação frutuosa, num encontro e simbiose de civilizações, algo absolutamente único no mundo, desde sempre e para nunca mais.

Temos, portanto, uma ex-colónia que não apenas coloniza a potência colonizadora como anda agora, 500 anos depois dos Descobrimentos portugueses, a apanhar bonés  nas outras ex-colónias portuguesas e a traficar os restos da nossa História no Oriente. Restos esses que lhes renderão lucros equivalentes aos de qualquer serralho saudita, ou de mil deles, como nas “Miu e Uma Noitchis”, mas a verdade é que o dinheiro não tem mau feitio.

O que virá a seguir? Para onde seguirá a ganância brasileira mai-las suas histórias para criancinhas (o AO90)? Para o Japão? A Indonésia? A Malásia? A Índia?!

Já sabemos de Angola e dos seus diamantes, de Moçambique e as imensas riquezas por descobrir, de Cabo Verde e as suas belezas naturais, de Timor-Leste e do seu mar de petróleo. Já sabemos (porque “vemos, ouvimos e lemos”) que Portugal está em época de saldos, cheio de coisas baratinhas, e até é calmo e tudo, não há cá massacres nem facadas nem tiros nem assaltos como no Brasil — um dos países mais violentos do mundo — e traz de brinde uma porta, a de entrada na Europa; mesmo a calhar para usar “isto” como trampolim (ou tábua de chamada), contornando maçadas como o Acordo de Schengen e outras “papeladas”. Tudo a coberto de um outro papel, o “acordo ortográfico” de 1990, para o qual se recomenda um uso, errrr… digamos… portanto… mais escatológico; intestinal, por assim dizer.

Enfim. O Brasil não se chateia com nada e muito menos ainda com “minudências”. Para esses aborrecimentos têm cá os tugazitos, essa raça de canídeos mais fiel aos brasileiros do que um Serra da Estrela ao seu pastor.

É oficial: China abre a primeira faculdade dedicada à língua portuguesa

Primeira faculdade dedicada à língua portuguesa, na China — Imagem: Universidade do Porto

Pela primeira vez abriu, em território chinês continental, uma instituição académica pioneira dedicada à língua portuguesa: a Faculdade de Estudos Hispânicos e Portugueses da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim.

Aprofundar o ensino da língua e os conhecimentos sobre os países lusófonos, bem como aumentar o intercâmbio internacional são os primordiais objetivos da nova aposta universitária.

Até então, uma licenciatura em português só era possível na Universidade de Estudos Estrangeiros, sediada em Pequim, e na Universidade de Estudos Estrangeiros de Xangai. Contudo, desde 1999, as instituições de ensino superior chinesas têm apostado no incremento de licenciaturas lusófonas mais completas. Hoje em dia, mais de 1500 estudantes nacionais frequentam estes cursos. Contexto que será, ainda mais, impulsionado, devido à crescente procura por este tipo de formações.

Numa altura em que os mercados sino-lusófonos têm estreitado relações, a procura por pessoas que falem simultaneamente mandarim e português — atualmente a quarta língua mais falada no mundo —, tem crescido. Deste modo, graças à recém-novidade, serão abertas mais cadeiras de estudo, alicerçadas em sete áreas distintas: linguísticatraduçãoliteraturaciênciapolíticaeconomia e comércio.

É importante relembrar que o envolvimento económico chinês nos países lusófonos, nomeadamente em Portugal, Angola e no Brasil, tem sido fortalecido. Consequentemente, milhares de jovens têm demonstrado interesse em dominar o português — uma língua que começa a assumir-se, na contemporaneidade, como indispensável para o sucesso das transações inter-comerciais.

«Conexão “lusôfona”»]

Primeira faculdade de português na China quer aprofundar conhecimento sobre os países lusófonos

Faculdade de Estudos Hispânicos e Portugueses em Pequim vai sofrer uma reforma que reflecte a necessidade da China em formar melhores quadros para trabalhar com países de língua portuguesa.
A primeira faculdade dedicada ao português na China continental quer complementar o ensino da língua com conhecimentos “mais aprofundados” sobre os países lusófonos e “aumentar o intercâmbio internacional”, revelou hoje à agência Lusa a directora.” (fonte: Blogue do IILP)

Hiperligação para a notícia completa

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[Universidade do Porto]

[Notícia (e título) via Olga Rodrigues. Fotografia de topo de: “Expediente Sínico“. Fotografia do texto de: Barkyn.]

 

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Seu Brásiu

 

Nuno Artur Silva sobre o AO90: «Devíamos escrever todos brasileiro» Mais um texto dos que estavam  à espera de melhor oportunidade e de que se adequasse o timing da matéria em recheio.

É o caso, cada vez mais patente, da atávica aversão dos brasileiros para com tudo aquilo que lhes cheire a Portugal, aos portugueses, à História, à Cultura, aos nossos factores identitários, à maneira de ser aqui da “terrinha”.

Tudo coisas, aliás, que não passam na idiossincrasia brasileira (ou seja, a sua característica, impenetrável ignorância) de arquétipos distorcidos (e maldosos). É extremamente comum ouvir cantores e outros artistas brasileiros jurando — apenas desembarcam na Portela ou no Porto com seus batuques — que têm um Avô em Alguidares-de-Baixo, que seus paizinhos emigraram de Lamego, e que são “transmontanos” ou “minhotos”  de origem; mas, na verdade, brasileiro algum — ou a esmagadora maioria, admitamos — vai além de “Seu Zé” padeiro e da matrona deste, a “Dona Maria” de bigode e sem “calcinha”.

O mesmo fenómeno ocorre noutras “manifestações exteriores” do brasileiríssimo novo-riquismo neo-colonialista, como é o caso evidente da CPLP e da respectiva capa folclórica, o disfarce político a que se convencionou chamar “acordo ortográfico” (AO90).

Interessante também, ainda que esmagadoramente triste, é assistir ao apoio (descarado) de alguns pseudo-intelectuais da nossa praça a este neo-colonialismo serôdio bem como aos suportes idiotas dessa colonização ao contrário, revanchista e sumamente boçal.

Como o Brasil nos vê: o anti-lusitanismo histórico do sistema de ensino

Carlos FinoJornal “Público”, 09.08.20

 

Está tudo num estudo sobre a imagem dos portugueses nos livros didácticos de história do Brasil financiado pela Fundação Gulbenkian, em finais dos anos 80 [1]. Mais de três décadas depois – a julgar pela pesquisa que nós próprios realizámos [2] –, a situação, no essencial, não se alterou.

 

A narrativa sobre a imagem dos portugueses nos livros escolares brasileiros pode ser agrupada em três grandes blocos. No primeiro, abordam-se o descobrimento e os primeiros anos da colonização – os lusos começam por ter valorização positiva, sendo associados ao “nascimento” do Brasil por via da miscigenação; mas logo aí surgem valorações negativas quando se insiste na ideia de “abandono e descaso” a que a Coroa teria votado o território, a ele trazendo depois elementos sociais desqualificados (deportados e degredados), sempre se referindo também o “fracasso geral das capitanias hereditárias”.

No segundo, o elemento português “tem o seu anonimato acentuado”, ao mesmo tempo que se deixa implícita “a sua incapacidade administrativa como colonizador”. A tarefa dos portugueses ter-se-ia circunscrito à defesa da costa, que se limitavam “a arranhar ao longo do mar como caranguejos”, na expressão consagrada de Frei Vicente do Salvador. Nesta visão, a tarefa grandiosa de desbravamento do sertão teria sido já obra dos brasileiros, em particular dos paulistas, sem nunca se referir que – embora portadores de identidade regional própria – eles eram basicamente portugueses enquanto súbditos da Coroa e como tal percepcionados pelas nações vizinhas. Acentua-se que os paulistas eram os mais capacitados para penetrar os sertões, dada a sua origem mestiça de branco com índio, cabendo a este último a transmissão das características de maior aptidão para tal empreendimento.

No terceiro e último desses blocos, figura – por contraste com as valorações negativas dos lusos – o enaltecimento da administração holandesa quando da ocupação do Nordeste, no século XVII. Tudo somado, ter Portugal como descobridor e colonizador só trouxe como único resultado positivo o mito das três raças na base da formação étnica brasileira. “Todos os outros contornos associados ao colonizador português (…) são negativos.”

À medida que nos aproximamos da actualidade, cada vez menos a sociedade portuguesa da época dos Descobrimentos é abordada. “O Portugal que nos chega através dessa narrativa é um verdadeiro anónimo. Nada sabemos sobre os hábitos, costumes, estrutura familiar, etc., da sociedade portuguesa que nos veio colonizar”. Por fim, a vinda da família real para o Brasil é vista como mais uma expressão da incapacidade política portuguesa, de que “Portugal não tinha peito, não tinha tamanho, ou seja, de que Portugal não merecia o Brasil, não quis e não soube ser seu colonizador”. Na perspectiva dos livros didáticos brasileiros, Portugal deve, portanto, com um sinal de “até que enfim”, entrar definitivamente para a história “como metrópole e colonizador que gostaríamos de não ter tido, como fonte de todos os males, problemas e dilemas da história brasileira recente.

Temos assim uma justaposição de duas ideias: Portugal abandona, rejeita, não quer o Brasil nos primeiros momentos, interessando-se apenas quando se dá conta das riquezas que poderia auferir; mas, aqui, essas riquezas apontam já para que o Brasil é grandioso, apesar de Portugal. Daí que caiba ao Brasil remeter Portugal para o passado, “como uma presença que o Brasil encara como compulsória, que queremos que se torne ausente, que se vá embora”.

Jovens brasileiros saídos do ensino médio em Brasília confirmam-nos esta situação: “A história que nos é contada sobre a colonização portuguesa é brutal, muito violenta, o que deixa em nós um sentimento de ressentimento” (Mateus Fonseca); “Fiz todo o ensino médio e também o vestibular [acesso à universidade] com essa imagem do português transmitida pela escola: já não tanto do ‘português burro’, mas com essa ideia bem sólida do português agressivo” (Gabriel Oliveira); “Não há nostalgia ou ideia de que foi bom ter sido Portugal; o que há é o contrário – uma ideia de que isso aí – Portugal, eu não quero” (Artur Carreira). E assim por diante…

Na relação Portugal-Brasil, mesmo quando há avanços no relacionamento entre Estados, o anti-lusitanismo de fundo histórico que desde a Independência foi cultivado por razões políticas permanece, alimentado que é, até hoje, pelo sistema de ensino

Ao destacarem a presença humana já existente no território do futuro Brasil, anterior à chegada dos europeus, e ao diluírem as referências a Portugal e aos portugueses num contexto histórico mais vasto, em que surgem com (quase) idêntica ênfase outras nações europeias rivais, o que os manuais brasileiros do ensino médio acabam por fazer é atenuar ou mesmo praticamente ilidir os laços específicos de ligação (sangue, língua, história, cultura e política) entre os dois países e as duas nações que chegaram a ser uma; e que – apesar de todos os confrontos, diferenciações, ressentimentos e rivalidades – se prolongam de uma ou outra forma até hoje, mas sobre os quais é em geral rasa a consciência dos brasileiros [3].

Vemos assim que na relação Portugal-Brasil, mesmo quando há avanços no relacionamento entre Estados, o anti-lusitanismo de fundo histórico que desde a Independência foi cultivado por razões políticas permanece, alimentado que é, até hoje, pelo sistema de ensino.

Esta realidade já era perceptível nos anos 40. No Congresso de História Luso-Brasileira, Serafim Leite pediu um voto para “a purificação do ensino da história” (à semelhança do que já fora convencionado, em 1934, entre o Brasil e a Argentina), “com supressão dos textos susceptíveis de criar desamor entre uma e outra nação e dar parte mais ampla ao estudo dos factos históricos que interessam a cada um dos dois povos, com três séculos de história comum” [4].

Um voto que permaneceu pio até aos nossos dias, com os consequentes reflexos negativos em termos de relacionamento bilateral mais profundo. Não espanta, por isso, que os brasileiros de hoje não se vejam como continuadores dos portugueses de ontem que aqui chegaram – primeiro, como pioneiros das grandes navegações marítimas; depois como conquistadores, desbravadores e colonizadores do território; em seguida, como protagonistas da primeira grande corrida ao ouro do Ocidente, que precedeu em dois séculos a do Far-West; e por fim, já nos séculos XIX e XX, em sucessivas levas de imigrantes em busca de um futuro melhor que não encontravam na sua própria pátria. Haverá aí maior estranhamento, gerador de (in)comunicação?

História e memória, como se sabe, não coincidem; mas se os historiadores não podem deixar de investigar, já a escolha do que reter e divulgar é opção livre de cada nação como “comunidade imaginada” em relação a si própria e às outras. Quase dois séculos volvidos sobre a sua independência, não estará já na hora do Brasil rever a forma como olha a sua relação histórica com Portugal?

[1] Coordenado pelo antropólogo brasileiro Roberto Damatta, o estudo foi realizado no âmbito de um projeto mais vasto sobre imagens dos portugueses e de Portugal no Brasil (Barbosa & Medeiros-Portela, 1987)
[2] Fino, C. Raízes do Estranhamento: a (in)comunicação Portugal-Brasil, UMinho, 2019
[3] Vicentino, C. & Gianpaolo, D. História para o Ensino Médio. Editora Scipione, São Paulo, 2001
[4] Ramos, M. B. et al (org.), O Beijo através do Atlântico – o lugar do Brasil no panlusitanismo, Argos, Editora Universitária, Chapecó, 2001

[Transcrição integral de artigo, da autoria do jornalista Carlos Fino, publicado no jornal “Público” de 09.08.20]

[Os textos que eventualmente sejam publicados na imprensa usando a cacografia brasileira no original (por exemplo,da Agência brasileirusa) e aqui reproduzidos são automaticamente corrigidos com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

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No Brasil, erros ortográficos não são erros…


Ora aqui está. Era mesmo esta exacta porcaria o que procurava  e finalmente  encontrei. Um caso oficial brasileiro (ou privado, mas sobre assuntos governamentais) que trata com os pés — e servindo-se das características arrogância e ignorância brasileiras — assuntos de admissão na função pública daquele “país-continente”. País incontinente, melhor dizendo.

Esta coisinha inacreditável reza assim na sua página “about“:

O portal Notícias Concursos foi criado em 2010 com objetivo de ajudar aqueles que almejam uma vaga na carreira pública, através de notícias e dicas relacionadas a Concursos Públicos. Nossos conteúdos prezam pela qualidade e objetividade.

Graças aos nossos leitores, resultado de um trabalho árduo, hoje atingimos mais de 15 MILHÕES de visualizações de páginas mensais.

Estamos sempre em busca de melhorias, tanto na qualidade do conteúdo quanto na disponibilidade de novas ferramentas.

“sobri nóis” ou equivalente

Ficamos cientes. Trata-se portanto de um site oficial-comercial-particular cujo “produto” maior é a estupidez, as cunhas ao pontapé, presume-se, e em suma um imenso apego à língua brasileira — isenta de erros porque tal coisa sequer existe, dizem aqueles brincalhões — que pretendem impingir à força a toda a população de expressão portuguesa.

Extraordinário. A maneira que o Brasil inventou para acabar com o erro na língua brasileira, falada ou escrita, foi abolir administrativamente o próprio conceito de erro. Não há disso no Brasil porque o erro não é erro. E o erro não é erro porque sim, ou, melhor, não existe erro em brasileiro porque não!

São de facto especialistas na matéria, isto é, a inventar coisas estapafúrdias e completamente imbecis: inventaram a CPLP, a “lusofonia”, a “difusão” da língua (brasileira) no mundo, a quarta (ou quinta, é indiferente) “língua de trabalho da ONU” e por fim o AO90 para servir de pretexto à colonização ao contrário e â promoção dos interesses geoestratégicos do Palácio do Planalto.

Caso alguém porventura duvidasse da intrincada maquinação que foi o “acordo ortográfico” — com os prestimosos serviços prestados por meia-dúzia de traidores e vendidos portugueses — tem aqui uma pequena amostra do que ganharam com a sua aposta mercenária.

Ridículos. Que a terra lhes seja pesada.

 

Um erro de ortografia é um erro de português?

por Wlianna Araújo  –  10 de novembro de 2020

 

É comum encontrarmos diversos sites que falam sobre “erros de português” que devem ser evitados em textos escritos ou mesmo na fala dos estudantes. Os tais erros muitas vezes são apenas marcas de oralidade ou problemas de ortografia. No entanto, há diversas questões delicadas quando se fala em “erro de português”.

O que é ortografia?

Primeiramente, é preciso compreender o que é a ortografia para saber o do que se trata um erro de ortografia. Muitas línguas naturais são ágrafas, diferente do português que tem uma longa tradição de cultura escrita. Desse modo, já se pode observar a partir disso que a ortografia não é natural, mas sim uma convenção.

A ortografia é, então, um conjunto de normas que padronizam a grafia das palavras de uma língua, ou seja, como se deve escrever os seus vocábulos seguindo um direcionamento oficial. Desse modo, a ortografia é uma decisão política e dita diversas regras para que haja certa unidade na escrita da língua. Sendo assim, esse sistema pode mudar ao longo dos anos. Exemplo disso é o que ocorreu recentemente com o Novo Acordo Ortográfico firmado entre os países lusófonos e que nos fez retirar, por exemplo, o acento agudo da palavra ideia.

Nesse sentido, é aceitável que se fale em erro de ortografia, caso o estudante escreva uma palavra fora das regras da ortografia vigente. No entanto, nomear tais problemas de escrita como “erros de português” é incorreto.

Existe erro de português?

O português, como qualquer língua natural, não funciona de acordo com regras preestabelecidas por um seleto grupo de falantes, como ocorre com a ortografia. Por mais que muitos alunos brasileiros acreditem que “não sabem português”, isto não é uma realidade do ponto de vista da Linguística, ciência que estuda as línguas.

Todos os falantes que adquiriram o português como sua língua materna, sua língua primeira, sabem português, pois sabem falar nessa língua, compreendem o que é dito e conseguem produzir uma infinidade criativa de sentenças nessa língua. Por mais que o falante não domine a norma culta do português ou qualquer outra norma privilegiada que seja bem vista socialmente, se essa é sua língua materna, ele não cometerá um “erro de português”.

Desse modo, há um grande equívoco em atribuir um problema de escrita de alguma palavra, como “caza”, “fui ao mossar” e “atensão“, por exemplo, a um erro de português. Na verdade, se trata de um problema de ortografia, já que as regras estabelecem que a escrita de tais palavras seja de outro modo: casa, almoçar e atenção.

Em suma, erros de ortografia não são erros de português.

Além disso, estes últimos não existem no que tange àqueles que tem o português como língua materna.

 

Notícias/Concursos (Brasil)

[Transcrição integral. Original publicado por Notícias/Concursos (Brasil). Destaques e sublinhados meus. Imagem de topo gerada no serviço WordClouds. Desenho de rodapé copiado do “blog” Timor Agora.]

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