Antena 1, “Espaço das 10”, 05.05.21

«05 Mai. 2021 No Dia Mundial da Língua Portuguesa falamos sobre o Acordo Ortográfico. Alexandre David entrevista Nuno Pacheco (jornalista, um dos subscritores da ILCAO) e Edite Estrela (defensora do AO, deputada do PS e antiga Presidente da comissão parlamentar que an[sic] »- 18m

 

Ao contrário do que poderá talvez parecer a algumas pessoas, Nuno Pacheco não é — de forma alguma — o único anti-acordista que existe em Portugal. Na verdade, produz imensos trabalhos contra o AO90, será de facto o mais activo (e visível) dos militantes, mas felizmente há bastante mais gente que também resiste ao aleijão cacográfico e que, pelo menos, faz o que pode para acabar com ele. Por isso, tanto esta entrevista na rádio como as intervenções na RTP reproduzidas no “post” anterior e ainda, ou principalmente, também os inúmeros artigos de jornal de sua autoria aqui transcritos, podem dar uma ideia de exclusividade — isto é, de que a Causa anti-“acordo” é uma iniciativa unipessoal. Não é, de todo.

Nem de propósito, essa espécie de hiperactividade, teve nos últimos dias, a propósito do Dia Mundial da Língua brasileira, que meia dúzia de vigaristas portugueses celebram a 5 de Maio, uma espécie de “pico”; daí os vídeos do “post” de ontem, a entrevista cuja gravação publico hoje e a sua mais recente crónica que espero poder reproduzir amanhã.

Seria excelente se a YouTube ou a RTP não apagassem os excertos em vídeo, que a Antena 1 não empastelasse a gravação e que, já agora, coisa que pode suceder a qualquer momento, como presente de boa viagem, não ocorresse ao “Público” alinhar na caça ao “copyrigt” de coisas incómodas.

Até ver, portanto, aqui fica a entrevista do jornalista à Antena 1 contrapondo a sua argumentação ao chorrilho de bojardas, ou seja, as mentirolas da “cassette” acordista que uma “linguista” ligeiramente tóxica recita com imensa lata.

Assim de assuntos sérios, salvo seja, temos que a função começa logo mal: nota-se perfeitamente que o apresentador não apenas não fez os trabalhos de casa como, literalmente, sobre o AO90 não vê um boi; diz qualquer coisa sobre “um grupo de cidadãos “que entregou no Parlamento” um pedido para revogar uma parte” do “acordo”; “uma parte”, bálhamedeus, mas que cromo!

Depois desta lindíssima formulação alternativa, a entrevista segue para a aldrabice maior, o chamado II Protocolo Modificativo, que transforma a subscrição de 3 em assinaturas de 8 países, passando com essa tremenda vigarice, a subscrição do trio, a implicar que o AO90 entra automaticamente em vigor em todos os 8. Um “automatismo” único no mundo, uma roubalheira, sem paralelo em todo o Universo, que os acordistas fingem ser a coisa mais natural e “legal” do mundo.

Este é que é o busílis da questão, minhas senhoras e meus senhores. O resto, opiniões diferentes e uma ou outra “estratégia” para “melhorar” aquela porcaria execrável, são apenas conversa fiada, ecos de egos, música para os ouvidos dos acordistas, apreciadores de cacofonia que adoram cacografia.

Cacofonia e cacografia essas em que se especializou Edite, exímia executante de paleiómetro, um instrumento de cordas que também é da corda. Não vale a pena, dado o concerto para surdos, ouvir o som fanhoso da cassete e a toxicidade do paleio destilado pela “linguista” e perder tempo a “malhar” no cianeto intelectual que destila. Algo que faz pessimamente, passe a redundância, à saúde mental das pessoas.

Como o acordo entre o Brasil e os brasileiros.


 

Uma nota sobre este “post”, sobre reproduções de conteúdos do grupo empresarial RTP

É muito provável que tanto esta gravação áudio assim como os extractos em vídeo do “post” anterior sejam censurados e, portanto, apagados na origem (YouTube). O mesmo sucede no Fakebook, o que signifca que, modestamente, tenho um grupo de fãs maior do que o do Emplastro. Esse tipo de censura, muito provavelmente originado por bufos, sucedeu já um ror de vezes. Por exemplo:

  • Filme animado de produção dinamarquesa/canadiana, dobrado em Português europeu.
    “Como se fazem os bebés”. Educação sexual para crianças e adolescentes.
    Help us caption & translate this video!
  • [Excerto do programa “Voz do Cidadão”, da RTP, emitido em 13.06.15.]
    Publicado no “site” da ILC-AO em 15.06.15: http://ilcao.cedilha.net/?p=18999
  • [Excerto do programa “Voz do Cidadão”, da RTP, emitido em 13.06.15.]
    Publicado no “site” da ILC-AO em 15.06.15: http://ilcao.cedilha.net/?p=18999
  • Extracto da “entrevista” de Ricardo Araújo Pereira a António Costa sobre o seu (deste) “pequeno” problema de dicção.
    Programa “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, SIC, 28.06.20.
  • O pai de Madeleine McCann interrompe uma entrevista e sai.
    Help us caption & translate this video! http://amara.org/v/EvGA/
  • O Porto dos fumadores (e dos não fumadores) a voo de pássaro.
    Restaurantes onde se pode fumar na zona do Grande Porto.
    Help us caption & translate this video! http://amara.org/v/EvFa/
  • Extracto da “entrevista” de Ricardo Araújo Pereira a António Costa sobre o seu (deste) “pequeno” problema de dicção.
    Programa “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, SIC, 28.06.20.

Assim, sendo, funcionando isto como aviso prévio para os meus 3 leitores, caso a bufaria acordista (ou a plagiadora) invente mais uma “acusação” qualquer (a YouTube não verifica, limita-se a apagar), então terei de eliminar o “post”. E/ou o anterior.

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RTP1, 05.05.21 – “É Ou Não É”

É Ou Não É? – O Grande Debate

Géneros: Informação – Entrevista e Debate

A opinião de quem sabe. O debate entre quem pensa diferente

Em “É Ou Não É? – O Grande Debate” é um espaço de debate onde se pretende promover a discussão e dissipar dúvidas, mas acima de tudo acrescentar conhecimento sobre os principais assuntos da actualidade, desde a Saúde, à Educação, à Justiça, mas também dos desafios com que o futuro nos interpela diariamente, designadamente ao nível tecnológico e ambiental.
Carlos Daniel é o moderador deste espaço de debate que contará com a presença de personalidades da vida pública e especialistas para uma reflexão tão interessante quanto profunda sobre os tempos de mudança onde a investigação, a inovação e os problemas do mundo global são fatores decisivos e presentes nas nossas vidas.
[“site” RTP, página do programa]

Em Português nos Entendemos?

Episódio 14 de 43 Duração: 130 min

Na semana em que lhe dedicam um dia mundial, vamos debater a nossa pátria maior, que é a língua portuguesa, a quinta mais falada no mundo, a primeira no hemisfério Sul. Que importância tem hoje no mundo o idioma de Camões, que valor económico tem de facto e qual é a estratégia para crescer e se afirmar num mundo dominado pelo inglês, espanhol e mandarim? “É ou Não É”… ainda em português que nos entendemos? [“site” RTP, página do episódio]

No “post” anterior sobre o mais recente “episódio” deste mesmo programa vimos, a traço grosso, em grandes pinceladas, o que foi e em que consistiu a acção de propaganda governamental genericamente designada como “Dia Mundial da Língua” brasileira: foi uma palhaçada feérica e consistiu num concurso que bem poderia chamar-se, por exemplo, “Quem Quer Ser Otário”.

Dirigidos às massas ignaras, à sua avassaladora ignorância e contando com que o  embrutecimento da população (a política de Estado vigente) tenha já provocado a paralisia total e uma geral, bovina anestesia, os “festejos” do dia da língua brasileira contaram com umas “sessões solenes” insuportavelmente soporíferas e ainda, fazendo de cereja no topo do bolo do caco, o tal programinha no canal principal da televisão estatal.

São dessa ressonante sessão filmada as gravações parcelares que se seguem. Recomenda-se a visualização de toda a fantochada, na íntegra, pelo menos a todos aqueles que sofrem de insónias, mas ao menos para efeitos de arquivo morto (e bem morto) aí ficam uns excertos da acordista, esquisitíssima, por vezes hilariante sessão.1.º excerto: Intervenção inicial de Nuno Pacheco, o único anti-acordista presente na tertúlia armadilhada. Nota-se-lhe a irritação, compreensível, e há que reconhecer-lhe o mérito de provocar rugas na testa ao apresentador, aos “convidados” e à “Excelência”, mais uns sorrisinhos condescendentes a armar ao superior nos diversos vendedores de livros, discos e cassettes pirata, entre os outros artistas que por igual “abrilhantaram” a emissão.

2.º excerto: ASS puxa dos galões e faz outros números a ver se impressiona a pategada; anuncia oficialmente quando e como Portugal se tornará na “porta dos fundos” para que os brasileiros, à conta da “língua universáu”, entrem à vontade na União Europeia, contornando o Acordo de Schengen.

3.º excerto: Outra intervenção de Nuno Pacheco. Vale, como “etiqueta”, a máxima de Mark Twain, em tradução livre: «nunca tentes argumentar com idiotas; eles vão arrastar-te para o nível deles e então tornam-se imbatíveis com a sua imensa experiência em  estupidez.»

4.º excerto: Um indivíduo que não sabe sequer que o “acordo” de 1990 não é de 1994 (porque 1990 foi em 1990, chavalo, 1990 não foi em 1994, bacano, topas?) debita umas coisinhas e (felizmente) cala-se.
Sob as rugas profundas na testa do bacano Carlos Daniel, lixado da vida com os “chatos” anti-acordistas, Nuno Pacheco fala dos dois sistemas vocálicos. Deve ter-se-lhe varrido no momento a patranha da “pronúncia culta”, entre outras enormidades acordistas habituais.

5.º excerto: Para o fim estava guardada a “discussão” do AO90 em sentido mais lato (digamos). Curiosamente, logo no início, ouve-se alguém da “régie” do programa a largar umas postas que parecem ser sobre o AO90; se calhar foi o encenador de serviço mas também pode ser ilusão ótica (não confundir “ótica”, de ouvido, com, nos termos do AO90, a “ótica” dos zarolhos).
A tal “escritora” desfia um chorrilho de idiotices (e mentiras), ASS puxa de novo dos galões e dá, em estreia mundial, desvenda ao bom povo que lavas no rio a sua profundidade intelectual (meio metro, mal medido): diz que, apesar de não ser linguista e, portanto, abster-se desse tipo de questões “mais técnicas”, acha sobre o AO90 uma data de coisas “mais técnicas” e discursa pormenorizadamente como se fosse um linguista (manhoso, mas pronto, vá, faz de conta).
https://youtu.be/PcaE7g1PWFgE ósdespois, como aliás é habitual, não morreram nem as vacas nem os bois, ou seja, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, a Oeste (e nos outros pontos cardeais) nada de novo, etc., basta escolher ao acaso uma das inúmeras expressões idiomáticas e trivialidades palavrosas para qualificar genericamente mais esta fantochada a propósito do “Dia Mundial da Língua” brasileira.

A táctica acordista mais uma vez funcionou, até porque está bem afinada e  generosamente untada, servindo uns quantos lacaios o arroz com feijão (e fubá) aos alegres convivas que, em amena cavaqueira e muito mal disfarçada galhofa, vão queimando com velinhas de aniversário as sobras da Língua Portuguesa.

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Não é

«A data de 5 de Maio foi oficialmente estabelecida em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) – uma organização intergovernamental, parceira oficial da UNESCO desde 2000, que reúne os povos que têm a língua portuguesa como um dos fundamentos da sua identidade específica – para celebrar a língua portuguesa e as culturas lusófonas. Em 2019, a 40ª sessão da Conferência Geral da UNESCO decidiu proclamar o dia 5 de Maio de cada ano como “Dia Mundial da Língua Portuguesa”» [“site” da UNESCO]

«Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora.» [Paulo Franchetti]

«Na perspectiva dos acordistas, tudo se resume a seguir a táctica preconizada por Goebbels, a qual consubstancia na prática o “pensamento” teórico do seu alucinado chefe: uns quantos agentes  papagueiam, sistematicamente e à vez, como servindo-se num rodízio com patranhas em vez de acepipes, sempre as mesmas aldrabices básicas. A táctica é de facto viável: basta repetir infinita e invariavelmente as mesmas tretas. E a técnica parece ser mesmo infalível: quanto maior e mais simples é a mentira, mais gente acredita nela — até porque ninguém concebe que “outros possam distorcer a verdade tão abominavelmente“. Neste caso concreto, quanto ao AO90, prato principal do alucinado repasto, com CPLP e “lusofonia” por acompanhamento e decoração, sequer existe “distorção da verdade” — isto ele é só mentiras mesmo.» [“Post” As Variações da Mentira]

Ontem, dia 4 de Maio, lá tivemos de levar com mais uma sessão de propaganda oficial (e oficiosa) do AO90. Na RTP, a cadeia televisiva do Estado, isto é, paga pelos nossos impostos, como o próprio Estado, foi montada mais uma encenação da fantochada a pretexto do tal dia mundial da língua brasileira, uma “comemoração” inventada por uns quantos indefectíveis do “gigante brasileiro”, a começar pelo actual Secretário-Geral da ONU, o alfacinha António Guterres.

E se o pretexto existe há dois anos (ena!, dois anos!, que farturinha!, e que coincidência!), então toca a reunir as tropas, o pessoal dos negócios, uns bacanos da CPLP a ver se a ideia de língua “universáu” cola, talvez um ou outro “do” Camões e do IILP, dá-se uma apitadela ao anti-receção que estiver para aí virado e pronto. Siga.

O truque é sempre o mesmo ou, esmiuçando a coisa à vol d’oiseau, pois que de contradições e paradoxos se trata, a armadilha é sempre igual: junta-se uma comandita de acorditas para fingir que estão a discutir o AO90 “democraticamente” com um qualquer anti-acordita (por regra, também eles sempre os mesmos) que no alegre evento os acorditas estraçalham à dentada; assim, sozinho, encolhido entre os mastins e tentando manter a compostura perante os seus rosnados, ao resistente apenas cabe o papel de bizarria esquisitóide; algo parecido com o que sentiam os cristãos de antanho quando atirados às feras nas arenas romanas, se bem que no caso seja bem pior, o povo nos anfiteatros ainda goza com o supliciado escarmentando dele e atirando-lhe à careca pedras pontiagudas (e acepipes já mastigados e sandálias rotas, lixos assim).

É de facto um triste, deprimente espectáculo este, e ainda por cima quando sinais e avisos não faltam, à primeira qualquer cai, à segunda cai quem quer. De mais a mais se a questão central é a de haver um “dicionário comum”, por exemplo, bem, então dir-se-ia que satisfeita tal “exigência” o assunto ficaria arrumado, problema nenhum, viva o Malaca, viva o Bechara, três hurra pelo Lula e outras tantas pelo Sócrates. Como se andasse tudo por aí, em Portugal e nos PALOP sobraçando dicionários, um timorense de Maubara tropeçando num guineense de Bafatá ou moçambicanos apanhando o autocarro para Cabo Verde e toda a gente a abrir seus calhamaços para consultar “desculpe” e “olá, como vai” e “cumprimentos à esposa” nas línguas das outras ex-colónias.

Claro que o tipo de eventos promovidos pela RTP (e pela SIC, outra agência governamental) é reservado até ao fundo da sanita, povo e mal vestidos em geral nem a 100 metros, essa escumalha que fique atrás dos cordões policiais agitando freneticamente suas bandeirinhas grátis.

Portanto, devidamente guardadas as distâncias higiénicas, a surrealista tertúlia televisiva pôde contar, além do referido anti-acordita, com a  inolvidável presença (inolvidável para ela, é claro) de uma se calhar conhecidíssima escritora portuguesa de livros à venda no Brasil  (talvez de culinária, desconheço a especialidade “literária” da senhora), um fulano de Moçambique, se bem me lembro, que toca viola ou canta yélélélélé ou lá o que é, um outro “notável” igualmente virtual a dizer não sei o quê sobre o que presumo nem ele mesmo saiba; e acho que havia ainda outro, mas confesso que também não me recordo ao certo (e não vou perder tempo a recuar até à gravação na “box”, não sou masoquista) e pouco ou nada interessa, outros da mesma safra que lá pusesse o realizador daquela pepineira diriam as mesmas ou quejandas baboseiras: em qualquer sessão de propaganda política ou de intoxicação de  massas ou em massa — e este programa “É Ou Não É” deu na perfeição para ambas as serventias — não importa absolutamente para nada o que se diz; apenas interessa quem diz, como diz e, principalmente, onde diz; o fascínio das lantejoulas, das luzinhas a piscar, os olhos carrancudos e gravíssimos das câmeras, em tão finérrimo ambiente qualquer bojarda é tolerada e elogiada, por entre “ah” e “oh” e “tch”, toda e qualquer mentira, por mais descarada e arrogante que seja, é aplaudida, e a soirée é tida pelo “honorável público”, “mininos e mininas”, emulando o Circo, como uma excelente série de números da contorcionista, do ilusionista, do trapezista e de toda a trupe, em suma, “qui méréci apiláusos, vá lá, palminhas, palminhas”.

Não esqueçamos, porém, a performance daqueloutro verdadeiro artista, da sua presença grave e circunspecta, uma variante do palhaço rico, prestidigitador e malabarista em simultâneo, o tipo que arvora “Excelência” como seu nome artístico.

Deste ligeiramente jovem patriarca e de seus rotativos comparsas nas artes circenses, feras amestradas, troca-tintas ortográficos, vigaristas da corda bamba cursiva, aldrabões das pilhas humanas, patinadores de gelo seco, enfim, dessa cambada já largamente se falou, que enjoo, e, palpita-me, pelo menos eu cá terei ainda de voltar ao dito quando de novo, ainda que ad infinitum, tiver de ser.

A vigarice, por maldição do destino, é nesse aspecto parente próximo da Língua Portuguesa: não prescreve.

 

Treta, Patranhas & Paleio de Chacha – Comércio de Tangas, SARL
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A espuma dos dias

“Impatos” há muitos, como os chapéus. E há ainda mais “inteletuais” do que chapéus ou “impatos”.

Há de tudo, no Diário da República, na Agência BrasiLusa, no “site” do Marcelo, no covil de Ali Babá e os 230 aldrabões.

<div align="center">https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/ActividadeDeputado.aspx?BID=4059&lg=XIII&fbclid=IwAR2eN9sxkOY4UFUuyc0c4Gp9TPbH6mcwxfEBQOT6AXldd3p-9Suf32tHdCk</div>https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/ActividadeDeputado.aspx?BID=4059&lg=XIII

https://dre.pt/home/-/dre/25693608/details/maximizedhttps://dre.pt/home/-/dre/25693608/details/maximized

Para quem gosta de coçar sarna, aqui está a ferramenta:
https://cedilha.net/ap53/caos/busca/#gsc.tab=0&gsc.q=impato%20OR%20inteletuais&gsc.sort=date

Além daquelas duas e de mais algumas das aberrações do costume, “tipo” lista das compras (o que vulgariza a anormalidade), este artigo de Nuno Pacheco menciona um dos dois casos que também já aqui referi uma série de vezes: a maiúscula inicial. Ou seja, uma das “cláusulas” acordadas entre Portugal e Brasil em 1945, que este rescindiu unilateralmente dez anos depois e que agora finge ser  “cedência” que os brasileiros, coitadinhos, tiveram de conceder em 1990. Treta, é claro, como tudo o mais. O AO90 é um horripilante repositório de mentiras oficiais, mentiras de Estado a Estado, mentiras políticas propaladas por mentirosos patológicos (e seus sequazes). Com a colaboração de um pequeno magote de idiotas, vendidos e traidores à séria, bajuladores do “gigante brasileiro”, basbaques deslumbrados pelo “país continente” e pela alucinação neo-imperialista com um zuca D. Pedro III à cabeça.

Voltando aos pormenores em apreço no artigo (pela “enésima” vez), isto é, quanto à maiúscula inicial, a outra “cedência” brasileira no acordo de 1945 foi a hifenização em geral. Ambas subscreveram eles e ambas atiraram  pelo cano de esgoto abaixo uma década depois. E agora, no “acordo” de 1990, dizem que são “cedências” o que já antes tinha sido acordado e por eles jamais cumprido!

Bem sabemos que alguns portugueses, felizmente poucos, uma desprezível minoria de idiotas tão desprezíveis quanto o seu número, fingem acreditar na vigarice e eles mesmos (os “puxa-saco” do Brasil, como lá se diz) encarregam-se de contabilizar as “cedências” ou, em suma, os “sacrifícios” dos brasileiros, coitadinhos.

Seria bom, mas se calhar isso é pedir muito, que em Portugal o “bom povo que lavas no rio” deixasse de se armar em  parvo.

Os dias da língua e a (tantas vezes má) língua dos dias

Nuno Pacheco

“Público”, 29.04.21

Pela segunda vez desde que foi instituído, vai ser celebrado no dia 5 o Dia Mundial da Língua Portuguesa. O dia não foi propriamente escolha da UNESCO, que consagrou em 2019 uma data, o 5 de Maio, já instituída pela CPLP como Dia da Língua Portuguesa e da Cultura (na CPLP, evidentemente) dez anos antes, em 2009. Tudo muito institucional. O programa das festas foi anunciado na segunda-feira à imprensa, com uma agenda internacional que, segundo as noticias, “inclui conferências, colóquios, concertos, concursos literários e de poesia e iniciativas académicas”. Coordenadas, claro está, “pelo Camões” (não o vate, mas o instituto que lhe copiou o nome),as iniciativas decorrerão “em todas as regiões do mundo”. Mais de 150 actividades em 44 países, é obra. Isto além de várias iniciativas locais, como a promovida pela Foz Literária, sugestivamente intitulada “A Língua Portuguesa tem dias…”, que contará com comunicações de António Aresta e Francisco Miguel Valada. Apresentada por José Valle de Figueiredo, será transmitida por Zoom no dia 5 de Maio, pelas 17h30.

Ora o título desta conferência (com participação livre na referida plataforma) adequa-se na perfeição ao estado actual da língua portuguesa. Tem dias, até oficiais, cheios de alegorias esperançosas; e tem outros, amiúde mais sombrios, em que é sujeita a tratos de polé. Passe a expressão popular, que significa sofrer torturas ou tormentos, estes dias são invisíveis aos promotores dos primeiros. A estes interessa-lhes quase em exclusivo a glória. “É uma língua em crescente expansão pelos quatro continentes. Utilizada por mais de 265 milhões de falantes e é a língua mais utilizada, ou falada, no hemisfério sul”, dizia em 2019 à ONU News o secretário-geral da CPLP, Francisco Ribeiro Telles. Agora, num artigo publicado na revista da Associação  25 de Abril, ‘O Referencial’ (n.°’140, Janeiro-Março 2021), escreveu Telles: “As estimativas das Nações Unidas apontam para a possibilidade de se alcançar 500 milhões de falantes no final do presente século.” No Diário de Noticias de 20 de Abril, Guilherme d’Oliveira Martins mostrou-se ainda mais ambicioso: “Independentemente de controvérsias, temos de tomar consciência de que se trata de um património cultural partilhado, língua de várias culturas e cultura de várias línguas, que terá mais de 500 milhões de falantes no final do século.” Terá mãos, “o Camões”, para gerir assim tantos “milhões”?
(mais…)

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‘La Reina de la Novela Rosa’


Portela, Setembro de 2000. “Vai com espírito de missão?”, perguntou ele (e os jornalistas todos). “Não”, respondi. “Vou porque não tenho lugar em Portugal.”

É de facto comovente a preocupação de nosso acordita-mor, Sua Excelência o Ministro dos Negócios Estrangeiros, com o seu inexcedível “respeito” pelos Tratados em geral e pelo cumprimento do “acordo ortográfico” em particular.

Mesmo havendo o pequeno senão de esse acordo em concreto, o AO90, não ser, de todo, em rigor ou após uma simples vista-de-olhos, um verdadeiro Tratado ou um papelucho que sirva para algo mais do que os da Renova, vá.

Não o é, seguramente, porque nem a martelo pode essa igualmente macia “folha dupla” ser de alguma forma encaixada no conceito de Direito Internacional nos termos previstos, tipificados e regulamentados pela Convenção de Viena, a que Portugal — como país teoricamente civilizado — está vinculado desde 2003. Não é um Tratado internacional, de Direito, e é absolutamente ilegal a sua entrada em vigor por via da Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008; tendo sido elaborado pelos directórios partidários este expediente parlamentar, à revelia de qualquer disposição normativa ou mecanismo legal, internacional ou doméstico, a entrada em vigor do Tratado perde ab initio, por consequência, qualquer efectividade, na forma, no articulado e nas suas disposições.

Desta falsa e ilegal aprovação da entrada em vigor de um Tratado internacional também ele ilegal  decorre, por fim, que toda e qualquer legislação, regulamentação ou simples ordem de serviço subsequente, sendo baseada na referida Resolução parlamentar, fica de imediato anulada, visto que todo o processo legislativo está ferido de ilegalidade; assim, são de igual modo de nenhum efeito, porque se estribam em processo legislativo inválido, o Aviso nº 255/2010 (do M.N.E., depósito dos instrumentos de ratificação), o Decreto do PR n.º 52/2008 (ratifica o II Protocolo Modificativo, nos termos da Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008) e ainda, por fim, a Resolução do Governo nº 8/2011 (determina a aplicação do AO90, também nos termos da RAR 35/2008).

Trata-se, portanto, de cabo a rabo, de papelada que não vale a tinta com que foi impressa. Um impressionante calhamaço de inacreditáveis tretas, mentiras, fábulas romanescas ao nível dos grandes (e eternos) sucessos mexicanos. Ainda assim, sabendo perfeitamente que o AO90 é uma fraude maneta (e perneta), pois a longínquas paragens mentais e alucinações filosóficas não chegará certamente a imaginação do pobre governante, o senhor Silva jura ao inválido incríveis coisas, uma oratória pungente regada a “até que a morte nos separe” e assim. Àquela pilha de papéis inúteis declara Sua Excelência sua paixão absoluta, a tal molho de folhas jura “nosso” ministro fidelidade para a vida, batendo no peito, quase ameaçando soltar sua lágrimazita de emoção. Chuif chuif, senhor ministro, até eu, senhor ministro, mais meia horita dessas suas juras e era bem capaz de desatar uma choradeira, ui, que romântico, chuif, repito, lá diz o povo, “o amor é louco, não façam pouco”. 

Bom, enfim, “deslarguemos” estas cenas ridículas “tipo” Corín Tellado, quando não, arriscamos a levar com outros 340 episódios da telenovela AO90, juras de marmanjos, zaragatas entre galãs ligeiramente trogloditas, maledicência à tonelada, listas de compras e mau feitio a gastar.

Todos temos mais que fazer, certo?

Certo. Temos. Só “nosso” coiso parece que não.

Santos Silva: “Acordo ortográfico é para cumprir”

Por Paulo Jorge Pereira
e Fábio Carvalho da Silva

Por que razão se insiste no acordo ortográfico? Não é já o tempo de o acordo voltar para trás?

Bem, isso é da área da Cultura, não é comigo, mas vou responder-lhe com o meu ponto de vista. Eu não.

tenho nenhuma competência técnica nesse assunto, mas pelo que me dizem este acordo ortográfico é um dos que gozam de maior vigência na história dos acordos, porque tem havido revisões sucessivas. As pessoas escandalizam-se muito hoje por “para” não ter acento, assim como o meu grande mestre Vitorino Magalhães Godinho, em plenos anos 80, ainda escrevia e escreveu até morrer “criar” com “e”, porque não tinha aceitado a revisão de um determinado ano.

Agora, eu sou ministro dos Negócios Estrangeiros e Portugal é conhecido e respeitado em todo o mundo por cumprir os compromissos que assume. Há um acordo internacional de que Portugal fez parte – e mais uma vez não encontrará a minha assinatura nesse documento, não porque eu não quisesse mas porque não fazia parte do Governo de então – e Portugal não é um país que não cumpre os acordos internacionais que celebra. De outro ponto de vista, o acordo ortográfico é uma convenção ao abrigo do qual hoje em dia milhares de crianças aprenderam a escrever na escola, que antigamente se dizia primária e agora ensino básico, e julgo que também devemos respeitar os interesses dessas crianças e tudo o que fizemos.

Mas enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros o que posso dizer é que é um acordo internacional que foi celebrado pelas autoridades competentes, um Governo propôs a sua aprovação, uma Assembleia da República aprovou, um Presidente da República ratificou, cumpre ao ministro dos Negócios Estrangeiros verificar que o país respeita esse acordo.

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Perfilados pelo dever

Perfilados de Medo

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido…

Alexandre O’neill


«E foi assim, parafraseando O’Neill, “ortografados de medo” (com medo que o português, como idioma, se desmembrasse, medo que contaminou certa intelectualidade e serviu de mote a actos políticos condenáveis), que impuseram a loucura da “unificação”. Agora, no dia 5 de Maio, hão-de tecer-se novas loas à língua, como convém. Ignorando que, se houve porta que Abril não abriu, foi a de reconhecer à língua portuguesa maturidade para integrar as suas diferenças (as suas variantes nacionais) sob uma denominação comum. Podendo e devendo partilhá-las num dicionário global normativo (que infelizmente não existe), embora distinguindo o que seria aplicável em cada país. É esse o futuro por que vale a pena lutar.» [Nuno Pacheco]

Não, não é.

O “futuro por que vale a pena lutar” é o passado por que vale a pena lutar. E esse passado, há que dizê-lo sem medo, que de cobardes estamos todos fartos, é ainda o presente, um presente de hiato entre decência e inteligibilidade, um laivo esplendoroso de clarividência no meio de um assomo de loucura.

Não existe no AO90 uma única palavra portuguesa “imposta” ao Brasil; é, aliás, 100% ao contrário, tudo pela inversa, toda a “nova grafia” é integralmente brasileira; trata-se, portanto, de um “acordo” sem acordo algum, já que uma das partes cede em rigorosamente tudo e a outra parte não cede absolutamente em nada. Pouco importa, face à crueza dos números e perante o roncar da porca da realidade, que uns quantos idiotas inventem de novo o fogo ou, em alternativa, finjam que o Brasil não assinou em 1945 e “desassinou” em 55 aquilo que no AO90 apregoam como sendo “cedências” dos “caras”.

E também não, não foi porque uns quantos medrosos tiveram “medo que o português, como idioma, se desmembrasse”, que meia dúzia de cretinos se lembraram de tentar impingir a todos nós o AO90. Essa patranha, o pretenso “medo” da extinção de uma putativa língua minoritária, essa mentira que ainda hoje circula foi apenas um dos pretextos para tentar disfarçar a vigarice e, do mesmo passo, vender como minimamente credível a tese do “gigantismo” brasileiro: se o Brasil é um país-continente, dizem eles, na sua “lógica” de técnicos oficiais de contas linguísticas, então basta “adotar” a espécie de língua que os brasileiros usam para comunicar entre si, amalgamar numa pasta todas as suas variantes (nordestino, carioca, paulista, amazónico, sulista, etc.) e levar Portugal a  “adotar” uma espécie de escrita fonética brasileira como sendo “comum”.

Consumada esta manobra de engenharia linguística, a coberto da CPLP e a pretexto de uma alucinada “expansão” (neo-colonialista), extinguindo por simples exclusão de partes o Português-padrão, as verdadeiras finalidades do AO90 revelaram-se por fim: está já em curso a liquidação da Língua Portuguesa, a transferência de poderes do Governo português para o brasileiro, a tomada de posse por parte do Palácio do Planalto das nossas instalações diplomáticas e, principalmente, das infraestruturas de Ensino, incluindo campus universitários, instalações e edifícios, organizações e instituições culturais portuguesas em África e na Ásia.

Com carta branca de traidores governamentais e com a solícita colaboração de vendidos “intelectuais” (linguistas e “investigadores” da treta), gente paga à hora e tarefeiros para o trabalho de sapa (intoxicação da opinião pública), uma fraude colossal — em estreia mundial — vai já garantindo, hoje por hoje, um nada despiciendo maná de tachos, além dos já conhecidos e muito mais por conhecer negócios da China.

A imposição selvática do AO90 anulou qualquer possibilidade de entendimento, antecipando em 50 ou 60 anos aquilo que será de todo inevitável, isto é, a “entronização” da língua brasileira como uma entidade imaterial independente. Seria talvez possível empurrar ainda mais para as calendas essa inevitabilidade, caso se acordasse (a sério) na fixação de duas variantes do Português (uma em Portugal e PALOP, a outra no Brasil), mas tal apenas teria alguma hipótese de sucesso caso os “homens de negócios” de ambos os lados fossem arredados das negociações, se em vez de linguistas pagos com tachos e sinecuras houvesse lá gente de saber, na muito difícil condição de a política e os políticos, mercenários, aldrabões e mentirosos profissionais ficarem de fora das académicas discussões.

Nessa absolutamente impossível conformidade talvez pudesse surgir alguma ponta (ou ponte) para um entendimento curial, com nenhuma obrigatoriedade e apenas para efeitos da mais elementar resolução de algumas discrepâncias.

Mas já nem isso é possível. Deixou de existir sequer formulação para designar, descrever ou delimitar, mesmo que grosseira e genericamente, todo e qualquer tipo de “acordo ortográfico” entre Portugal, Brasil, PALOP, Timor, Macau, Goa e diáspora(s).

O Brasil declarou a sua independência política em 1822. Parabéns.

Alguns vendidos portugueses declararam a extinção da Língua Portuguesa através da “adoção” por Portugal da língua brasileira. Malditos sejam.

Os traidores são por definição apátridas. Por definição e pela eternidade que deles já se esqueceu.

Completam-se, no domingo, 47 anos do 25 de Abril. Quase tantos, já, quantos os que durou a ditadura, que na verdade não foram bem 48 mas sim 47 anos, 10 meses e 27 dias, contados entre o golpe militar de 28 de Maio de 1926, que os partidários da ditadura celebravam como “revolução nacional”, e o golpe militar de 25 de Abril de 1974, que mundialmente se tornou célebre como “revolução dos cravos”. Não é mera questão de semântica, nem jogo de palavras: o que esteve em causa foi sempre a liberdade. Reprimida, durante a ditadura; ainda confusa na turbulência da transição; e finalmente consagrada na democracia.

Sinais dos tempos: em 1974, com os tanques na rua, tornou-se célebre uma fotografia onde, ao fundo, se via um grande cartaz de cinema a anunciar O Esquadrão Indomável. Nem de propósito. Em 2021 não há “esquadrão”, mas há Hollywood, com a cerimónia dos Óscares a ser transmitida (quem diria) pela televisão estatal, a RTP. Uma tardia “conquista de Abril”? Nem por sombras. A cerimónia costuma realizar-se em Fevereiro, às vezes em Março, e só devido à pandemia é que foi empurrada para Abril, coincidindo no nosso 25. Já agora, para não ficarem dúvidas, o tal “esquadrão indomável” do cartaz retratado em 1974 também não era um grupo de heróis, mas sim de polícias implacáveis e com métodos nada democráticos. “Quando eles estão em acção é difícil dizer quem são os polícias e os assassinos”, dizia na altura a propaganda do filme, que na versão original se chamava The Seven Ups.

Uma dúzia de anos antes de nos ser devolvida a liberdade, escreveu Alexandre O’Neill (no seu livro Poemas com Endereço, 1962) “Perfilados de medo”, que José Mário Branco viria magistralmente a musicar, gravando-o em 1971 no exílio, em Paris. “Perfilados de medo, agradecemos/ o medo que nos salva da loucura./ Decisão e coragem valem menos/ e a vida sem viver é mais segura.” (Poesias Completas, Ed. Assírio & Alvim, 2000, pág. 191). Pois bem: há casos em que é o medo que nos empurra para a loucura, em vez de nos salvar dela. E um deles, já gasto, cansativo, moribundo, é o da ortografia. Não havia em Portugal uma ortografia oficial até ser fixada em 1911, após o derrube da Monarquia. Foi a I República que nela insistiu, num país onde 76% da população era analfabeta. Mas o “bichinho” das alterações ortográficas não parou: deu mais reviravoltas em 1945 e em 1973, remexendo em acentos e letras, congeminou novas aventuras nos anos 1960, quis revolucionar as regras em 1986, recuou perante as muitas acusações escandalizadas, e finalmente ajustou-as em 1990, para depois, bem mais tarde, vê-las impostas numa coisa chamada “acordo ortográfico” com a inalcançável veleidade de criar uma ortografia comum ao universo da língua portuguesa.

Visto de fora, pode parecer normal. Mas, visto de dentro, o resultado é um pesadelo. Já em 1945, quando Portugal (então uma ditadura ainda com colónias em África) tentou acertar com o Brasil uma ortografia unificada, o gesto pecava por tardio. As divergências entre os dois países no domínio da língua eram já insanáveis. O Brasil concordou em 1945, mas dez anos depois desvinculou-se. As regras ortográficas de 1945 serviam o português de cá, o europeu, mas não serviam o português do Brasil, americano. Tudo quanto se fez depois, além de ser em vão, só serviu para descaracterizar o português de cá e de lá, sem proveito nem préstimo. Enquanto isso, as colónias africanas emanciparam-se após o 25 de Abril, cada qual com a sua bandeira, o seu hino, as suas leis, os seus sistemas e moedas próprias. Por que razão não deviam, também, dar livre curso ao uso feito do português, fixando as respectivas variantes? Por nenhuma razão. Só uma certa loucura lusitana imaginou que, escolhendo a sua própria via em tudo o resto, deviam ficar presos a uma ortografia comum.
(mais…)

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