‘Come a papa, Joana, come a papa’

“Ponte Velha”, Zamora (Espanha) [fotografia de Rocío Ramos]

  • «Dizer que se perdem as raízes com o português do Brasil é igual a dizer que quem sai do Norte e vai morar para o Sul»
    Isto é de tal forma imbecil que se torna difícil tentar elaborar qualquer comentário ou, ainda pior, contrapor qualquer espécie de argumento. Como é possível argumentar contra ou sobre a total insanidade?
    Bem, talvez sintetizando alguns princípios elementares da cartilha básica — aquilo que até uma criança de 5 anos compreende — sirva para o efeito: como sucede quanto ao Galego, ao Castelhano ou ao Catalão, por exemplo, a língua brasileira tem estruturas gramaticais próprias, como o léxico, a construção frásica, as expressões idiomáticas, os regionalismos e até as idiossincrasias dos “linguistas” que por aquelas bandas se entretêm a inventar “inovações”; em simultâneo, a língua brasileira compreende também diversas componentes desgarradas, desconexas e caóticas (a escrita é uma espécie de transcrição fonética, por exemplo). Em oposição flagrante à bandalheira característica do brasileiro, a Língua Portuguesa obedece a uma norma estável, racional e inteligível; os diversos “modos de falar” portugueses (Açores, Madeira, Norte, Alentejo) não diferem em absolutamente nada da matriz gramatical do Português-padrão, diferindo apenas — pontual e localizadamente — na articulação (prosódia) e em características de tempo e modo.
    Portanto: absolutamente nada a ver com essa patacoada, senhora dona mãezinha de uma pobre criança. Volte lá para as suas queridas telenovelas, vá, não chateie as pessoas.
  • «Barrar conteúdos brasileiros em Portugal?»
    Não, senhora, quanto a isso pode estar sossegada. O que está a ser feito, alegre e alarvemente, é precisamente o contrário, é barrar conteúdos portugueses em Portugal!
    A erradicação da Língua portuguesa, tornando obrigatória a “adoção” do brasileiro como língua oficial de Portugal (e PALOP), sucede no âmbito de uma espécie de limpeza étnica — ao estilo nacional-socialista (nazi) — que implica a erradicação de todos e quaisquer conteúdos histórico-culturais portugueses, implicando este processo até os mais remotos vestígios de tudo aquilo que vaga ou claramente remeta para o carácter, a razão de ser e a própria noção de identidade lusitana.
    Como é evidente, a brasileirização compulsiva da Cultura portuguesa, com a óbvia finalidade do apagamento radical da nossa memória colectiva, implica a aniquilação sistemática dos sinais e das marcas identitárias que nos definem enquanto nação e como povo. Esta “metodologia” com vista à “solução final“, cuja primeira etapa foi o AO90 (e a 2.ª a criação da CPLB), implica a imediata substituição dos conteúdos portugueses e das suas referências.
  • «devido ao grande alcance internacional em diferentes países que ele tem conquistado»
    Sim, em Portugal, na “terrinha” e na Porcalhota. Ah, e em Valongo, suponhamos.
    A lapidar frase, mais uma de igual quilate e “brilhantismo”, uma estúpida e descabelada mentira, refere-se ao palhacito brasileiro que tem uma avó portuguesa (como todos os brasileiros que vêm cá vender os seus números de circo); é paleio típico de zuca, sempre a impingir banha-da-cobra a incautos (e pregando que “jizuiss isstá prêsêntchi” a ignorantes). Não irei, evidentemente, investigar em que «diferentes países» o cromo-artista terá um ou dois “espetadores”, se é que existe um único fora do Brasil e da Tugalândia; limito-me a presumir o óbvio, ou seja, que não existem “diversos países” coisíssima nenhuma, um cómico (?) a fazer umas macacadas para crianças não deve ser propriamente um grande sucesso nos States ou até na Argentina… precisamente porque ninguém entende brasileiro fora do Brasil e da sua colónia europeia.
  • «O meu marido gostava de mostrar vídeos do DragonBall ao nosso filho daqui a alguns anos e disse que só os encontra na versão de português do Brasil no YouTube»
    Mentira! É absolutamente mentira! MEN-TI-RA.
    Esta gentinha não olha a meios, de facto. Vale tudo, a começar pelas patranhas mais nojentas, sempre confiando os acordistas brasileiristas neo-imperialistas que o tugazinho típico seja tão burro quanto parece, um estúpido, tapado, cretino, um imbecilóide cuja atávica ignorância rivaliza apenas com os mais cegos dos crentes, retardados, indigentes mentais que o Brasil tem a granel (muitos milhões, calcula-se, como tanto gostam de fazer notar).

A longa “reportagem” do jornal “Sol” é um estendal de “impressões” (palpites) e “imprecisões” (mentiras), mais uma das inúmeras manobras de propaganda acordista e de intoxicação da opinião pública aproveitando o cansaço geral, visando a imensidão da boçalidade militante e contando com a ritual, habitual, providencial colaboração dos “contestatários” de serviço.


Crianças viciadas no português do Brasil

MARIA MOREIRA RATO | maria.rato@newsplex.pt
“Sol”, 10 de Janeiro 2022

 

Se há quem a veja como motor de “falsas polémicas”, outros garantem que existem crianças que mal sabem falar português de Portugal. Mães, uma tia, duas professoras, uma psicóloga e uma terapeuta da fala analisam a dimensão deste fenómeno.

 

A influência do português do Brasil é cada vez mais forte entre as crianças e os jovens portugueses devido aos conteúdos que consomem nas plataformas digitais. Os influencers do YouTube e do TikTok, assim como os vídeos de cariz didáctico destas redes sociais, captam a atenção dos mais novos. Apesar de o tema não ser recente, existem algumas questões que se impõem: os vídeos produzidos por portugueses são menos apelativos do que aqueles veiculados por brasileiros? Quais são as maiores falhas nos materiais educativos e recreativos criados em Portugal para os mais pequenos? Existe uma escassez dos mesmos?

“Sempre gostei do português do Brasil, acho que tem um som muito bonito e uso-o às vezes cá em casa. A minha filha e o meu neto de três anos também e não vejo problema algum”, começa por explicar a lisboeta Marina Ponte, adiantando que, na sua ótica, “não há YouTube a mais nem a menos”, sendo que, quando se encontra com a família na rua, nota que algumas pessoas estranham as brincadeiras que têm enquanto dialogam.

“Quando estou com a minha filha, por vezes, há pessoas que pensam que somos brasileiras. É uma brincadeira e não vejo que seja um problema: é português… Dizer que se perdem as raízes com o português do Brasil é igual a dizer que quem sai do Norte e vai morar para o Sul – ou vice-versa – também está a pôr em perigo as suas raízes”, argumenta, avançando que “pode explicar-se o uso correcto do português por motivos escolares”, contudo, não encontra outra justificação. “Por ‘medos’ não me parece que seja útil. Aproveitem a idade ‘esponja’ da criança e falem outras línguas em vez de procurarem cabelo em cabeça de careca”, remata.

“Alguma dificuldade de compreensão” “Tenho assistido a um número crescente de crianças filhas de pais portugueses que não têm ninguém na família que fale o português do Brasil, mas chegam às consultas de terapia da fala precisamente por dificuldades na língua”, confessa a terapeuta da fala Lígia Lomba. “Tendo em conta que há palavras que nós usamos no português de Portugal que são diferentes das do português do Brasil, começa a haver aqui alguma dificuldade de compreensão e misturam as duas”.

“No final, o discurso acaba por ficar confuso. O português do Brasil é mais apelativo e fácil de captar do que o português de Portugal, e quanto mais as crianças ouvirem dessa forma os vídeos mais vão assimilar essa forma de falar e o português de Portugal é deixado para trás”, observa, alinhando-se com a psicóloga Mónica Nogueira Soares que narra um caso peculiar que teve em mãos.

“Isto tem a ver com a forma como aprendemos ao longo da nossa vida: está muito influenciada por aquilo que o nosso meio ambiente nos dá. Portanto, uma criança que fica exposta, durante algum tempo, a conteúdos que não estão na língua que os pais falam, obviamente que vão fazer essa aprendizagem. Estamos a falar do português do Brasil, mas poderíamos estar a falar de outra como o inglês”, constata, recordando que acompanhou uma criança que só sabia dizer as cores nessa mesma língua.

“Identificava perfeitamente as cores, mas dizia ‘green’ e, quando eu respondia ‘não, é verde’, ela não entendia. Não associava as cores à nomeação portuguesa e tinha somente três ou quatro anos”, conta a profissional de saúde. “Os conteúdos em português do Brasil estão desenhados de forma a que as crianças se identifiquem com os mesmos. E os pais têm a tendência de reproduzir mais esses para conseguirem, em determinadas situações, manter o foco e a concentração da criança para que coma a sopa, esteja num restaurante sossegada, etc.”.
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O ponto 7


O PCP apresentou em 2018 um Projecto-de-Lei com a finalidade de que Portugal se desvinculasse do “acordo ortográfico” de 1990.

Agora, o CDS-PP inclui no seu programa eleitoral a reversão desse mesmo “acordo”.

São estes, pelo menos até mais ver, os partidos com representação parlamentar que expressamente declaram não apenas a sua oposição activa ao AO90 como a intenção de promover a desvinculação do Estado português ao tratado assinado em 1990 pelo delegado mandatado pelo então primeiro-ministro, que depois ascendeu à cadeirinha de Presidente da República.

O facto de CDS e PC representarem entre si a amplitude máxima do espectro político nacional, da esquerda à direita, implica a mais do que evidente independência daquilo que está em causa. Trata-se, portanto, dada a absoluta heterogeneidade das organizações partidárias que neste particular estão em excepcional sintonia, de caso único na matéria, ou seja, concordam num assunto que se insere na defesa do interesse nacional.

Das posições tomadas por todos e cada um dos partidos políticos demos conta aqui mesmo em Setembro de 2019; além das posições de rejeição já então manifestadas por CDS-PP e pelo PCP, dos diversos documentos e das declarações de destacados e históricos militantes dos partidos do chamado “centrão” (por exemplo, Manuel Alegre pelo PS ou Zita Seabra pelo PSD) indiciam claramente que também existem posições de rejeição política por parte de (pelo menos) largos sectores dos partidos do arco da governação.

Também o “Partido Animais e Natureza” (PAN) e o “partido eleitoral Os Verdes” declararam a sua oposição activa à cacografia, não sendo conhecidas posições oficiais de rejeição do AO90 por parte dos restantes concorrentes às próximas eleições legislativas.

Como sabemos, o “acordo ortográfico” de 1990 — que de ortográfico nada tem e de acordo ainda menos — foi uma negociata exclusivamente política com um único fundamento, o dinheiro, uma só finalidade, enriquecer obscenamente e depressa. Os nichos de mercado que os meliantes governamentais e seus serventes pretendem explorar, com o prestimoso auxílio de alguns idiotas úteis, abarcam diversas áreas de actividade “política”, desde o esbulho das riquezas naturais de Angola (petróleo, diamantes) e de Moçambique (gás natural) até à exploração de mão-de-obra (miseravelmente barata ou literalmente escrava), passando pelas mais imaginativas linhas de tráfico (de influências, de emigração ilegal, de substâncias várias).

Isto ele é gente que se serve de uma estranha retórica para “justificar” o injustificável, utilizando o discurso demagógico dos mandantes disfarçados de governantes, a desprezível mas inacreditavelmente próspera seita de DDT (donos disto tudo) cujo mister consiste na íntegra em mentir compulsivamente e assim mistificar infindavelmente o saque, o desfalque, o roubo, a corrupção endémica, essa droga dura de que militante e convictamente dependem em absoluto, à qual estão desesperadamente agarrados, como se os tolhessem para sempre as correntes da maldade ou os não sossegasse nem a tenaz da sua própria mão invisível.


 

Depois da ceia de Natal, a de Ano Novo, sem primos afastados, “só gente da casa”. “Estamos habituados a ressuscitar nas urnas”, diz Chicão

Uma semana após vídeo de Natal, Francisco Rodrigues dos Santos partilhou nova mensagem. Para além de garantir que CDS não morreu, apresentou “Linhas Azuis para a viabilização de um governo de direita”
Tânia Pereirinha

 

Acompanhado por caras do partido, “gente da casa”, como o número dois da lista de candidatos por Lisboa, José Ribeiro e Castro; ou as cabeças de lista pelo Porto, Filipa Correia Pinto, ou por Setúbal, Cecília Anacoreta Correia, Francisco Rodrigues dos Santos deu a conhecer as doze condições que o partido tenciona impor na hora de negociar um possível apoio a um governo de direita:

7. Regresso das parcerias com escolas particulares e cooperativas e reversão do acordo ortográfico;

 


 

PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS
Grupo Parlamentar
Projecto de Resolução N.º 1340/XIII-3ª

Recomenda o recesso de Portugal do Acordo Ortográfico de 1990, acautelando medidas de acompanhamento e transição, a realização de um relatório de balanço da aplicação do novo Acordo Ortográfico da língua portuguesa e uma nova negociação das bases e termos de um eventual Acordo Ortográfico. [“post” Recesso, já!]

 


 

Ora, em tal conformidade é totalmente inviável a apresentação em sede de Parlamento de qualquer iniciativa política que por algum motivo não agrade ao partido do Governo ou escape ao controlo dos partidos maioritários em coligação. Do que resulta a total e absoluta irrelevância dos deputados, que para o efeito (aprovação ou rejeição de iniciativas e diplomas) cumprem apenas o papel de corpo presente: o seu sentido de voto foi previamente determinado pelos respectivos directórios partidários. Portanto, a votação pelos deputados desta iniciativa do PEV — ou de qualquer outra entregue em mão a São Bento — foi totalmente inútil, como é invariavelmente inútil, tratando-se, na prática, de um simples ritual regimental sem o menor vestígio de democraticidade e sem qualquer espécie de relevância ou efectividade; se os votos dos deputados não são dos deputados (são do respectivo “chefe”) e se o resultado dessa “votação” já estava previamente determinado, então será legítimo (e justo) que um qualquer cidadão pergunte a si mesmo para que raio servem as votações na Assembleia da República; com efeito, em vez da cena teatral com 230 actores, cinco ou seis chamadas telefónicas para as sedes partidárias bastaria para aprovar ou chumbar qualquer iniciativa legislativa ou diploma legal.

Não houve portanto nesta sessão qualquer tipo de votação, a não ser a ritual e inútil, assim como também não houve qualquer espécie de “discussão” sobre o Projecto de Resolução em causa, debitando as diversas bancadas parlamentares um discurso impermeável a um único argumento que não seja da sua própria lavra; sequer dão-se à maçada de ouvir as intervenções alheias (tagarelam, de costas para a oradora, em amenas cavaqueiras). [“post” Trinta anos de luta]

[Imagem de topo: Relógio da Sala do Senado, Carlos Pombo, 2010.]
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A/O/X – acordo acorda noventa no vento

O assunto destas duas notícias não diz respeito a algo que tenha a ver directamente com o AO90; não no conteúdo, pelo menos; já quanto à forma como o tema é apresentado, isso sim, não só tem tudo a ver como ilustra perfeitamente, pela enésima vez, a inacreditável arrogância com que o Brasil ignora a CPLB por grosso e Portugal a retalho.

Trata-se de uma polémica actualmente muito em voga no Brasil e que em Portugal também já vai soltando alguns miados: o género “neutro”. Se bem que o género do próprio “género” seja masculino (não consta que exista “a génera”), e ainda que a génese do substantivo seja substantiva, o berbicacho apenas importa para alguma coisa, no âmbito do AO90, como ilustração da forma como uma ex-colónia portuguesa na América do Sul apossou-se da designação “língua portuguesa” para nomear a sua própria língua nacional, o brasileiro.

Essa forma, mais selvática do que meramente impositiva e ditatorial, impingida a Portugal e PALOP como sendo uma espécie de língua a que chamaram“univérsáu”, não passa de mero restolho da vasta e sinistra operação política inventada por uma quadrilha de “académicos”, políticos e idiotas úteis de ambos os lados do Atlântico. No que ao Brasil diz respeito, o AO90 não teve o mais ínfimo efeito nem implicou uma única alteração (na língua brasileira todas as alterações resultaram do “acordo” de 1945, nenhuma do rubricado em 1990), pelo que tanto no passado como hoje em dia é perfeitamente consequente que o Brasil continue a modificar a seu bel-prazer a língua que sempre foi a sua e que agora nomeia como sua propriedade (daí capitalizando dividendos políticos, estratégicos e económicos).

Não carecerá de grande destreza visual nem de especial acuidade neuronal detectar a carga ultra-nacionalista do discurso que se refere à sociedade… brasileira; ou as menções ao idioma… brasileiro; às “regras gramaticais… brasileiras; aos “acordos”… brasileiros. Portugal e PALOP não entram sequer em equação, não contam para absolutamente coisa alguma. O costume, portanto, uma evidência comezinha que entra pelos olhos dentro, por mais que jurem o contrário os vendidos, por mais que estrebuchem os “académicos” pagos e os políticos subornados.

Também como sempre sucede, até porque na língua brasileira o AO90 apenas “afetou” o que já tinha sido acordado em 1945, a actual polémica sobre a língua e o sexo (passe a obscenidade) incide exclusivamente em utilizar de novo o dito AO90 como arma de arremesso política (o que é, de facto), usando esse instrumento (passe novamente a mesma coisa) para efeminar e/ou tornar de repente machões determinados substantivos. Isto significa, portanto, que em breve também Portugal será contaminado pela maleita no sexo das palavras (idem), ditando o Brasil, enquanto potência colonial, como passará a ser obrigatoriamente a nova regra na sua colónia europeia e nos agora seus indigenatos africanos.

Este mais recente desiderato ditatorial — uma lindeza, aliás, como podemos constatar — fundamenta-se nuns trocadilhos a armar às gramáticas que teoricamente sustentam o direito natural dos donos da língua a torturá-la e a, depois de devidamente estropiada, entregá-la aos escravos das colónias para que a usem a chicote.

A respeito da pretensa relação directa entre o AO90 e as palavras e os palavros dizem os zucas: «esses acordos ocorrem de maneira natural e são atualizados pelo uso do dia-a-dia». O uso deles, é claro; o dia-a-dia deles, evidentemente; “atualizados” por eles, ora pois não; e “natural” o tanas, está bem de ver, mas adiante.

Mais “consideram”, no mesmo embrulho linguístico-político-ocioso, que «o acordo contempla a atualização da língua». Ah, mas que engraçado (salvo seja). Isto significa, então, que mudando a situação política no Brasil (o que não é nada costume, é até raríssimo, isso só acontece à média de quatro ou cinco vezes por década) muda também a língua brasileira, logo, muda o AO90, logo, Portugal que se desenrasque a “adotar” a mais recente cambalhota dos “coroné”. Lindo.

Acrescenta ao arrazoado com feijão uma obscura sumidade lá do pedaço que «a língua portuguesa começa com uma inclinação machista» e já não sei quem, ao certo, perdi-me no emaranhado de delírios, acrescenta que é preciso uma intervenção cirúrgica (coitado do idioma, aquilo deve doer à brava) para obter uma espécie de sacrossanta «“neutralização de gênero” da Língua Portuguesa [brasileira]».

Não adianta sequer tentar entender estas subtilezas e muito menos as respectivas miudezas. Todo este paleio desconchavado diz exclusivamente respeito ao Leblon, a Búzios e a outros destinos turísticos do género. O problema é que meia dúzia de turistas portugueses trocaram a sua identidade por uns quantos fins-de-semana em tão solarengas paragens.

E isso sobrou para nós. Todos e todas.

Língua Portuguesa se adapta à sociedade

Acordos ortográficos ocorrem de maneira natural aos acontecimentos da sociedade. Atualmente, discute-se sobre a inclusão do gênero neutro no idioma

por Alfredo Carvalho
m.leiaja.com, 16.21.21

 

Nesta quinta-feira (16), completam-se 31 anos desde que foi firmado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor a partir de 2004. Por ser considerado um idioma vivo, as regras gramaticais costumam se adaptar aos atuais momentos da sociedade, o que torna comum a existência desses acordos.

Segundo o professor dos cursos de comunicação social da Universidade Guarulhos (UNG) e Doutor em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Inácio Rodrigues, esses acordos ocorrem de maneira natural e são atualizados pelo uso do dia-a-dia.

Por conta desses acordos, algumas regras da língua portuguesa foram modificadas no decorrer dos anos, entre elas, Rodrigues destaca o uso da supressão que foi retirado de algumas acentuações e a abolição da trema ( ¨ ). “Algumas acentuações em paroxítonas caíram e também alguns hifens (-)”, ressalta.

Apesar das mudanças, Rodrigues lembra que o mais importante é a maneira como o acordo contempla a atualização da língua, como por exemplo, uma das discussões que ganharam foco nos últimos tempos, que é a inclusão do gênero neutro no idioma. “A língua portuguesa começa com uma inclinação machista para este lado, uma vez que o latim por exemplo, possui o artigo neutro para definir aquilo que não é masculino ou feminino”, exemplifica.

Rodrigues explica que mesmo o alemão, que não é uma língua neolatina, possui o artigo neutro, enquanto a língua portuguesa, que tem como base o latim, não dispõe de opções para nomear o que não é nem masculino nem feminino. “Uma língua não evolui sozinha, e sim dentro dos procedimentos de uso dela em uma sociedade. Então, essa discussão de termos o artigo neutro, passou batida durante muito tempo”, afirma.

Agora que a pauta está em discussão, o professor espera que a língua abrace todos os gêneros. “A ideia é que o idioma seja inclusivo. A língua normativa, aquela que tem uma regra, é elitizada, excludente e possui essas características estranhas”, aponta Rodrigues. “Mas ao mesmo tempo, ela possui uma regra, que de uma certa forma, ordena um pouco o pensamento, principalmente quando saímos do nosso grupo linguístico e vai para outro”, complementa.

Por ser algo novo, Rodrigues salienta que o debate sobre a inclusão do gênero neutro na língua, causa um estranhamento na sociedade. “Eu considero viável, pois é necessário incluir as pessoas, inclusive linguisticamente. Só não podemos banalizar a discussão”, relata.

Para Rodrigues, se todos tivessem acesso a uma boa educação, que garantisse o entendimento das normatizações do idioma, seria um ganho para a sociedade. “Para isso, precisaríamos entender o uso da língua, os mecanismos textuais e gramaticais e as estratégias do texto, que estão ligados ao estudo do idioma, mas que infelizmente possui pouco acesso”, comenta.

O professor pontua que todo mundo deveria saber ler e escrever bem, além de dominar minimamente o idioma falado, para além do seu grupo linguístico. “Infelizmente, no Brasil temos as elites sociais, que possuem uma formação melhor e entendem melhor o texto. Eles terão mais acesso e mais estudos, com isso a língua se torna excludente, já que nem todo mundo tem acesso a essa formação”, lamenta Rodrigues.

 

[Transcrição ipsis verbis: jornal brasileiro, articulista brasileiro, portanto foi mantida a cacografia brasileira do original. Destaques, sublinhados e “links” meus.]

Pais decidem se unir contra o “gênero neutro” em escolas

Grupo lançou abaixo-assinado contra a medida após colégio no RJ promover a mudança

Pleno News

 

Após um colégio do Rio de Janeiro decidir inovar e adotar o “terceiro gênero” dentro da instituição, um grupo de pais resolveu promover um abaixo-assinado contra a “neutralização de gênero” da Língua Portuguesa dentro da instituição de ensino.

O documento pede a “não mudança da norma culta da língua Portuguesa em documentos e comunicados oficiais das escolas” por entender a medida “como um movimento de ‘ideologia de gênero’”.

O abaixo assinado ressalta ainda que “discursos ideológicos e com viés partidário dentro das instituições escolares tradicionais e apartidárias promovem maior polarização e dividem a comunidade escolar e a sociedade como um todo”.

A petição já conta com mais de 2.380 assinaturas e pode ser vista aqui.

NEUTRALIZAÇÃO DE GÊNERO
Em um comunicado, o Colégio Franco-Brasileiro, do Rio de Janeiro, informou que a “neutralização de gênero” foi adotada devido ao “compromisso com a promoção do respeito à diversidade e da valorização das diferenças no ambiente escolar”.

No documento, o colégio explicou que a “neutralização de gênero gramatical consiste em um conjunto de operações linguísticas voltadas tanto ao enfrentamento do machismo e do sexismo no discurso, quanto à inclusão de pessoas não identificadas com o sistema binário de gênero”.

Eles também citaram como exemplos a substituição de “queridos alunos por querides alunes”, já que a mudança “passa a incluir múltiplas identidades sob a marcação de gênero ‘e’”.

O colégio, no entanto, deixou claro que “essa iniciativa não configura, absolutamente, a obrigatoriedade da adoção de estratégias de neutralização do gênero” por parte dos alunos e professores, “até mesmo porque a normatividade linguística inerente à redação de documentos oficiais ainda configura certa restrição a esses usos”.

[Transcrição ipsisverbis de página do jornal online (?) “pleno.news” (Brasil). Não datado. Jornal brasileiro, articulista brasileiro, portanto foi mantida a cacografia brasileira do original. Imagem: “Pleno.News” . Destaques meus.]

[Imagem/citação de Morgan Freeman de: “Joker Club” (Facebook). Imagem de cachaça: da marca.]

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“O pai pobre”

Sísifo

Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

 

O “acordo ortográfico” de 1990 veio destapar um caldeirão em que esteve a cozer em lume brando, durante quase dois séculos, uma mistela nauseabunda — espécie de arroz com feijão sem feijão e sem arroz — constituída por abundantes pedaços de ressentimento alucinado para com a “terrinha”, desprezo por Portugal, grandes nacos de desdém pelos portugueses e ainda, à laia de tempero, um fio de gordura vingativa por putativas malfeitorias que desde Álvares Cabral os tugas andaram e andam ainda por lá a fazer.

Tal pitéu, cuja receita e respectivas variantes é comum a outros países não muito civilizados, é o que de mais típico da gastronomia mental brasileira nos vão servindo alguns lacaios tugas, brasileiristas empedernidos, deslumbrados em geral, cobardes, vendidos e mercenários, numa vã tentativa de convencer as pessoas normais dos méritos (e da inevitabilidade) do por eles imensamente ambicionado II Império brasileiro (ou coisa que o valha).

O AO90 veio destapar o panelão fervente e expor as suas sobras gordurosas, desde sempre varridas para debaixo do tapete das conveniências, tornando-se assim ainda mais intolerável o enxovalho permanente, a tortura da História, a desonestidade e a maldade, em suma, dos agentes ao serviço dos interesses brasileiros. Esta conjuntura politicamente (isto é, economicamente) motivada inclui, à cabeça, uma tão bizarra quanto presumida unção divina para emporcalhar e insultar em total impunidade a nossa memória colectiva, a identidade, a singularidade, o carácter distinto e distintivo do povo português.

Dos traidores não reza a História. Por mais “argumentos” que inventem e por mais propaganda à mentira que façam, ainda assim, apesar de tudo, há sempre a limpidez resplandecente da verdade fazendo-lhes frente, há sempre resistência firme, há sempre alguém que diz não.

O Brasil tem vergonha da herança portuguesa. Parece não querer reconhecer o pai pobre”

, diz investigador

O jornalista Carlos Fino fala de uma vergonha inconsciente por parte do povo brasileiro, que tem uma tendência para não o reconhecer, no mais recente trabalho de investigação

cnnportugal.iol.pt, 01.01,22

A relação entre Portugal e o Brasil tem sido descrita como uma experiência de ambiguidades e geradora de estranhamento. O Brasil tem vergonha das origens portuguesas e os portugueses menosprezam a antiga colónia, são estas algumas considerações feitas no mais recente trabalho de investigação do antigo jornalista da RTP Carlos Fino, “Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento”.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Carlos Fino fala daquilo que classifica como a existência de uma vontade de “apagar a importância da memória portuguesa” no Brasil, devido ao que diz ser umavergonha da herança portuguesa”.

Há vergonha da herança portuguesa, que é vista como tudo o que era mau, como a origem de todos os males. Rejeitando essa herança, o Brasil rejeita tudo o que é mau, porque há sempre esse lado mau em todas as coisas. Mas perde também todo o lado bom, e esse lado bom nunca é verdadeiramente assumido como sendo uma herança genuína brasileira”, insiste.

Fino diz ainda que essa vergonha não é algo consciente por parte do povo brasileiro e que é “até rejeitada”, particularmente pela “intelectualidade brasileira”, onde a “tendência é de não reconhecer isso”.

Outros dos factores destacados por Carlos Fino são as piadas depreciativas aos portugueses, que fazem com que haja sempre “um olhar por trás de um olhar”.

“Eu sei que, no fundo, assim que eu virar as costas, ou talvez mesmo na minha frente, haverá alguém que conte a anedota do português. Porque o brasileiro pode até perder o amigo, mas não perde a graça. O brasileiro parece que não quer reconhecer o pai pobre”, sublinhou.

Para o jornalista esse desconforto em relação à herança portuguesa deve-se também a uma ausência de debate do colonialismo em Portugal e destaca a marca de 40 anos de salazarismo e propaganda do Estado Novo no país, que exaltou continuamente os feitos heróicos dos portugueses.

[O texto em acordês (cacografia brasileira) no original foi corrigido automaticamente para Português-padrão pela solução Firefox contra o AO90. Destaques, “links” e sublinhados meus.]

Jornalista Carlos Fino lança obra “Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento”

Nova obra do jornalista português traz 500 páginas profusamente ilustradas com imagens de carácter histórico sobre a complexa relação Portugal-Brasil.

21 de Novembro de 2021
“Mundo lusíada”

Da Redacção

 

Uma tese de doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e pela Universidade de Brasília do jornalista português residente no Brasil, Carlos Fino, deu vida ao livro “Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento”.

Segundo o autor, a força da relação Brasil-Portugal por via da história, do sangue e da língua, por um lado, contrasta com a permanência de um sentimento de estranhamento e incomunicação. Confrontado com estas duas realidades contraditórias, quis aprofundar estudo nessas razões.

Em mais de 500 páginas profusamente ilustradas com imagens de carácter histórico sobre a complexa relação Portugal-Brasil, o autor estuda nesse passado comum as razões de um estranhamento e (in)comunicação, como por exemplo, cita um “sentimento anti-lusitano” que existe disseminado no Brasil.

O livro está em fase de pré-lançamento nos dois países pela Editora LISBON BOOKS – Livraria Atlântico.

Sinopse

A relação entre Portugal e o Brasil tem sido descrita como uma experiência de ambiguidades geradora de estranhamento. Se, por um lado, se reconhece existir proximidade histórica, por outro, é notório que o vínculo entre os dois países é muito menos intenso do que faria supor a partilha de uma mesma língua e um passado de três séculos de convívio sob governo comum.
(mais…)

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Bom Ano Novo em Português!

Boas entradas em Português!

Saúde!

José António Carlos de Seixas [Wikipedia]

[Nota 1: se quiser ouvir outras obras deste extraordinário compositor português do século XVIII, tem à disposição a (por acaso, minha) página “Carlos Seixas” no Facebook. Se porventura preferir uma passagem de ano em paz e sossego, visite também a página de Domingos Bomtempo (idem) e até, enquanto ouve alguma coisa dos nossos geniais compositores clássicos, pode lavar a vista em alguns excertos de Eça de Queirós (aspas).]
[Nota 2: a entrada Wikipedia sobre Carlos Seixas está no Inglês do original porque não existe versão em Língua Portuguesa daquela plataforma.]


Materiais de propaganda da Causa anti-AO90

Digitalizações e fotos minhas.

Composições de imagem em Vistaprint.

Como é evidente, não tenho absolutamente nada a ver com quaisquer empresas ou negócios seja de que espécie for. Descubra, consulte e encomende o que entender no fornecedor que preferir.

[A imagem de topo foi composta a partir de uma figura em formato PNG disponível em múltiplas formas na Internet.]

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Período de nojo

Por vezes surge na imprensa escrita algo tão surpreendente que ficamos mudos e quedos, como se tivéssemos mergulhado de repente numa espécie de suspensão viscosa, quase afogando no imenso vazio de um caldeirão cheio de nada; incapazes de articular palavra ou de sequer pensar seja o que for, a sensação será algo parecida — se bem que não se recomende experimentar o lance para tirar dúvidas — com levar uma paulada em plena testa, um taco de baseball em cheio e com toda a força.

É o caso deste artigo publicado há dias no jornal online “Observador”.

I-na-cre-di-tá-vel.

Ainda que felizmente raro, o estranhíssimo fenómeno afecta (episodicamente, é certo, mas alucinadamente, decerto) alguns “colunistas” tugas, de entre um colectivo de artistas circenses que não desmerecem da parelha Batatinha e Companhia. Desta vez, daí a tacada, o assunto é… bem… enfim… confesso que nem sei bem como qualificar aquilo; a gente lê uma vez e outra e outra, volta atrás e lê de novo, depois experimenta ler na diagonal, de baixo para cima, respingos, parágrafo por parágrafo, linha a linha — e nada: não se entende patavina. O que diabo quererá o fulano dizer?

Entende-se vagamente que repisa a telenovela brasileira por episódios (1 a 6) já aqui relatada, mas agora com novas e absolutamente delirantes elucubrações — praticamente ininteligíveis, de tão dementes — que apenas encontram algum paralelo no discurso esfarrapado e no instinto de rasteira bajulação de um tal Nuno Artur Silva, outro que tal.

Do que me foi possível entrever, por entre a névoa resultante da supra referida paulada, resultante de agressiva palhaçada, este brasileirista militante (tradução para língua brasileira: tuga puxa-saco) advoga, augura e deseja que se assuma de uma vez por todas que Portugal não passa de uma (minúscula) província brasileira, o 28.º Estado daquela que, depois de anexados os territórios europeu e africanos, será a Confederação Brasileira.

Fundamenta-se o notável cromo, para sustentar a sua mirabolante tesão (grau aumentativo de “tese”, é claro), numa putativa “supremacia” de génese quantitativa: como no Brasil «são mais de 210 milhões de falantes, caramba!», então acha o tipo que «a nossa língua é e será maioritariamente a língua dos brasileiros». O “argumento” do costume, portanto, mas desta vez com todos os éfes e érres, de caras, demonstrando assim o brasituga, com indisfarçável orgulho, que é absoluta e incondicional a sua naturalidade “adotiva”.

É a partir desta massa retorcida que se fabricam os seguidores da Santa Madre Igreja da Lusofonia (SMIL), fiéis beatos que seguem na procissão em forma de lombriga que vai percorrendo as calçadas do “Portugal profundo” que existe entre Belém e São Bento. Da récua crente e penitente sobressaem alguns presbíteros cujas funções consistem em brandir varapaus, soqueiras e mocas sortidas por sobre as cabeças alheadas de infiéis e indiferentes, reconduzi-los ao redil da fé no Império (brasileiro, claro) e ainda, quanto aos mais renitentes, aquelas ovelhinhas tresmalhadas que se estão blasfemamente nas tintas para o Brasil dos “córóné”, sujeitá-los, aos amaldiçoados hereges, à novel Mesa Censória, a tratos de polé, crucificação e excomunhão pelos cumpridores esbirros da Santa Inquisição.

Abjecto, enfim. Reformulemos o adjectivo, que é fraco o primeiro. Isto não é inacreditável, é simplesmente abjecto — em todas as suas cambiantes e em qualquer dos seus sinónimos e correlatos: desprezível, miserável, ignóbil, infame.

Será talvez de boa política não desperdiçar com aquele reles textículo — ou com o seu autor — todo um arsenal de impropérios que, se bem que plenamente merecido cada um dos adjectivos, com toda a certeza não perfuraria tão maciça quanto repugnante casca-grossa.

Como maltratar brasileiros

observador.pt, 26.12.21
Tiago de Oliveira Cavaco

 

O brasileiro não sabe que, se tivesse chegado cá nos anos 80, era rei e senhor. Era o tempo de Portugal fechado em casa ao serão, derretido diante das telenovelas da Globo. Quando alguém do Brasil se dignava a pôr pés aqui, a aclamação era total. Desbravavam o nosso futuro na televisão, na publicidade e a tratar-nos dos dentes. Nas Igrejas Evangélicas, os brasileiros eram missionários e pastores que flutuavam um palmo acima dos restantes mortais, santificados numa religião que não tem santos. Portugal era todo deles. O início dos anos 90 mudou tudo. E geralmente atribui-se essa mudança à Igreja Universal do Reino de Deus.

O brasileiro não sabe que a IURD (como dizemos com desdém) mudou o jogo quando se atreveu a julgar que a liberdade religiosa em Portugal era mesmo liberdade religiosa. As pessoas cultas, que obviamente nunca maltratam ninguém, acorrentaram-se ao Coliseu do Porto para impedir a queda de um símbolo nacional no culto da ignorância sul-americana. Como junto com os pastores da seita vinham prostitutas, mulheres-a-dias e empregados de restaurantes, conseguimos com sucesso desprezar todos os brasileiros sob a aparência de defendermos a cultura portuguesa.

O brasileiro não sabe que os anos 90 (e o início do milénio) foram a glória do mau-trato que lhe demos. O Herman José em prime time misturava no mesmo sotaque pregadores e pegas e o país ria, certíssimo da nossa superioridade. Claro que aqui e ali condescendíamos em continuar a esgotar o Coliseu ao Caetano, em passar luas-de-mel no Nordeste e, até permitir que alguns dos nossos (classe média a atirar para a baixa, claro) casassem com uns quantos deles (sei do que falo porque me recordo de dizer à minha irmã Rute que ela podia casar com quem quisesse, excepto brasileiros). A chegada do Alessandro à Família Cavaco demonstrou a besta que eu era e, nesse sentido, trouxe um tempo novo.

O brasileiro não chega preparado para um mundo que suspeita daquilo que ele idolatra: a alegria. As razões para isto são muitas mas religiosas também. Uma vez escrevi um texto chamado “Os Evangélicos são os Pretos do Cristianismo” (googlem) em que trato do assunto, que agora faz parte de um livro que só está editado no Brasil mas que em breve cá chegará pela FlorCaveira, intitulado “Arame Farpado no Paraíso — o Brasil visto de fora e um Pastor visto de dentro”. Por exemplo, quanto mais um brasileiro elogia Portugal à sua chegada, menos Portugal o receberá. Como a história da nossa desconfiança lhes é desconhecida, a exuberância que os brasileiros usam naturalmente para se quererem aproximar torna-se o que os manterá para sempre longe, mesmo que entre nós.

O brasileiro não sabe que, mesmo quando não tem religião, a fé que tem no futuro é-nos blasfema. Em 2010 gravei uma canção chamada “Doutor Soares”, dedicada à tragédia que foi termos Mário Soares como Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa. As vetustas e vigilantes palavras do patrão da nossa democracia diziam que “os protestantes evangélicos são muito fanatizados”, que são senso comum ainda em 2021 para sabermos que esta é a religião que só com muito custo toleraremos, especialmente aos pobres do Sul Global. Portugal tem pouco Deus porque tem pouca gente. O Catolicismo consegue ainda no Século XXI o feito de deter o monopólio da seriedade e todos os outros credos são corridos a banha da cobra. A ironia é que a Esquerda, pouco inclinada a elogiar a Igreja Romana, é hoje o capanga que mais eficazmente expulsa quem queira quebrar a homogeneidade espiritual do nosso santo povo. O Brasil, que é grande para xuxu, muda com facilidade (até de religião) porque o futuro exige, ao passo que nós ainda adoramos o passado.

Mas o que o português não sabe é que o futuro não é, definitivamente, português. Amo o Padre António Vieira mas houve um erro no que ele profetizou: o futuro não é Portugal para o mundo mas o mundo para Portugal. E o mundo futuro que nos dá vida nova é, nesta época, essencialmente o Brasil. Não é preciso alinhar no último acordo ortográfico para entender que a nossa língua é e será maioritariamente a língua dos brasileiros (só lá dentro são mais de 210 milhões de falantes, caramba!). Os evangélicos portugueses não sabem que estão mais à frente do que todos os outros portugueses pelo facto de as nossas comunidades se abrasileirarem há décadas (isto não significa que qualquer abrasileirização é boa mas que é, de facto, inevitável). Os portugueses, notáveis na arte da pedinchice, vão abrindo muito resignadamente os olhos porque descobrem muito surpreendidos os novos brasileiros ricos que escolhem viver cá. Diante do imigrante, o português acredita muito em Portugal até que ele tenha mais money do que nós.

O que eu sei é que maltratar brasileiros só rende enquanto a nossa adoração do passado tiver mais crentes. Eu, que apenas creio na pátria eterna, invisto em qualquer outra que conjugue a nossa língua no futuro.

[Transcrição integral, mantendo a cacografia brasileira do original, de artigo da autoria de Tiago de Oliveira Cavaco publicado no jornal onlineObservador” de 26.12.21. Destaques, sublinhados e “links” meus; 2 imagens adicionadas ao texto: logótipo da IURD, sem autoria; fotografia do Presidente Mário Soares de “Holofote“. Fotografia de “swing” (baseball) em diversos “sites”. Fotografia de Batatinha e Companhia de: “TV7dias“]

Nasci a 17 de Outubro de 1977. Licenciei-me em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e estudei teologia no Seminário Baptista de Queluz. Fundei a editora musical FlorCaveira em 1999, trabalhei em televisão durante uma década, fiz crítica literária para as revistas Atlântico e Ler, abri uma Igreja Baptista em 2007, e publiquei o meu primeiro livro em 2013, chamado “Felizes Para Sempre e Outros Equívocos Acerca do Casamento”. De lá para cá, continuo obcecado pela palavra, pregando-a, escrevendo-a e musicando-a.

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