Alves dos Reis

O ex-Reitor da Universidade Aberta diz nesta entrevista, por entre muitas outras imaginativas mentiras, que “foi insultado” por gente decente mas que ele “nunca insultou ninguém”. Uma verdadeira avis rara, este ex-Magnífico, capaz de afirmar uma coisa com denodo e empenho e logo a seguir jurar o contrário, o exacto oposto da tese inicial, proferindo ambas, a tese e o seu contrário, com a mesmíssima cara-de-pau. Mesmo a pedi-las, portanto, este outro Alves dos Reis.

Evidentemente, será mera coincidência que ambos os “amigos do alheio”, ora mencionados pela comum esperteza saloia, batam na aldraba os mesmos apelidos; porém, caso para tal sejamos servidos dos favores de Themis (ou Justitia, para os romanos e os amigos), há-de ser algo interessante interpretar certos sinais comuns, por assim dizer. De resto, se nos restringirmos ao essencial, podemos estabelecer um paralelo entre um roubo do século (XX) e outro roubo do século (XXI).

Alves dos Reis emitiu em nome do Banco de Portugal um camião cheio de notas de 500 escudos com a efígie de Vasco da Gama. Este outro Alves dos Reis, o ora entrevistado, participou activa e selvaticamente na eliminação administrativa do Português-padrão e sua substituição por uma espécie de cacografia fonética, a da língua brasileira.

Não resulta claro a qual dos dois será mais justo atribuir o “troféu” de Maior Roubo de Sempre, mas estou em crer que o assalto à Ortografia portuguesa tem uma preponderância que nem carece de comparação com a performance do outro vigarista profissional, o que forjou para si mesmo um diploma de “engenheiro” e que deixou para a História o inegável legado de ter lesado o próprio Banco de Portugal, num quantitativo obsceno representado por notas mais falsas do que o “leão” de Rio Maior ou as camisolas Lacoste das feiras.

Liquidar a Língua Portuguesa a golpes de garganta e com requintes de malvadez é, de facto, uma coisa para constar dos anais (salvo seja) que ameaça transformar-se na mais miserável traição à pátria de todos os tempos, na mais malévola manobra de demolição do património identitário nacional, na perversão radical do próprio conceito de Cultura e da consciência daquilo que o saber envolve.

Ou seja, porque o AO90 contende com tudo e é parte integrante da nossa memória colectiva, isto é, da nossa própria identidade enquanto povo, com uma História a preservar e verdadeiros tesouros ancestrais a defender, quem participou nas secretas negociatas do “acordo” deveria ao menos — caso tivesse um pingo de honestidade intelectual e mais do que dois neurónios — cobrir-se de vergonha.

Nesta matéria, nem a pusilanimidade característica dos auto-intitulados “anti-acordistas” explica tudo. Aliás, essa tibieza ilustrada não explica absolutamente nada mas a verdade é que toda a gente baixa as orelhinhas e segue cantando e rindo, lambuzando-se de vez em quando com uma ou outra pilhéria sobre o gang de meliantes que pretende acabar com o Português e “adotar” os sinais gráficos do falar brasileiro. Nem uma só palavra agora, ou as que há são escassas e tipicamente fraquinhas, nem mesmo um simples soerguer de sobrancelha quando, como sucede nesta entrevista, um dos patronos do AO90 mente com imensa lata e não menor cagança.

Mente quando diz que nunca insultou fosse quem fosse, à boleia do AO90, mas acusa todos os anti-acordistas de serem “autistas”.

Mente quando usa a cartilha da propaganda oficial, esse rol de pseudo-argumentos, todos eles inventados e todos eles ridículos por igual.

Mente quando garante ser um purista da língua, um “conservador” empedernido das enciclopédias “puras”, sempre equipado com uma faca nos dentes para estripar anglófonos, estrangeiristas e bárbaros, quando afinal pára em todos os sinais de “STOP” e se calhar tem já em casa um nada desprezível STOCK de livros em puro brasileiro.

Mente quando estabelece um paralelo, como se houvesse nisso algum nexo causal, entre um simples erro — uma das inúmeras bacoradas com que nos presenteiam intelectuais da corda e até ministros sem pasta nem tino — com a abominável caterva de aleijões sortidos que inventaram os malacas e os Reis deste vale de lágrimas.

Mente ao garantir que o “acordo” é um facto consumado, qual maldição divina, qual “decisão irrevogável” do Mafarrico, como se o embuste colossal  fosse um simples bilhete caducado, uma franquia carimbada, um pacote de bolachas já bolorentas.

Mente quando fala em “reajustar” o que sabe perfeitamente ser imutável, segundo os ditames dos brasileiros. O AO90 é uma golpada estritamente política, sem ponta de ortografia por onde se lhe pegue, portanto não é “reajustável” — é somente rasgável.

Enfim. Basta! Até espiolhar patranhas na cabecinha do ilustre cromo, como quem cata piolhos, acaba por transformar-se num exercício danado, cruel, excruciante, porque de facto na referida cabecinha vai um festival de piolheira, mentiras a rodos, aquilo morde, aquilo dá uma coceira danada, aquilo é às centenas de bichinhos. O homem é o cúmulo da bajulação ao “país-continente” e ao patronato das famílias paulistas e cariocas.

Que fique a penosa leitura da longuíssima (e chatérrima) entrevista — ou então só do pequeníssimo excerto aqui citado —  pelas alminhas de quem teve a sorte de ir arejar para mais razoáveis paragens, ou que por simples curiosidade antropológica, exercício de subtil masoquismo, caso a alguém porventura apeteça conferir as tangas deste Alves “dos” Reis que, ao invés do outro, não tem nada que saber, é só ler e constatar o óbvio: mas que aldrabão, Deus me perdoe.

Ou Belzebu, que bem mais é entendido na matéria, nos nada misteriosos descaminhos das palavras.

[…]

sA — Como é que a literatura, que é essa arte da paciência, vai resistir às sociedades impacientes, apressadas, fragmentadas que já substituem as palavras por abreviaturas?

CRHá indicadores que nos dizem que continuam a publicar-se muitos livros. O caso Harry Potter é um fenómeno interessante. Milhões de livros vendidos e fanaticamente lidos por jovens fazem-nos pensar em duas coisas: uma é que há esperança, afinal não há falta de leitores; a outra é que a leitura não será para toda a gente. E temos de saber viver com isso.

sA — E o que pensa dessas hipóteses que coloca?

CR — Quando digo que o acto de ler não será para toda a gente, faço a afirmação não no sentido elitista, mas na perspectiva da predisposição cognitiva individual. Encaro isso do ponto de vista técnico, não sócio-económico. Haverá pessoas com predisposição para os vídeos jogos, por exemplo, outras para outro tipo de interesses. É nesse sentido.

sA — Referia-me também ao uso crescente de abreviaturas, à perda de hábito da escrita completa. Considera que esta tendência conduz a um empobrecimento da linguagem e, com ela, do próprio pensamento?

CR — Existe, claro, esse risco. Devo dizer que eu não sou capaz, escrevo tudo direitinho, as palavras todas e completas, com pontuação, etc. Agora, o que é preciso é dizer às pessoas que há contextos em que essa forma mais simples de escrita não é correcta. Porque o que a linguagem tem, ao mesmo tempo, de complexo e de muito rico é a sua maleabilidade para se adaptar a diferentes contextos de comunicação.

sA — Paralelamente assistimos a outro fenómeno que é a introdução de expressões, sobretudo inglesas, na nossa linguagem corrente, quando existem palavras em português para dizer a mesma coisa.

CR — É verdade e contra mim falo. Ainda há pouco enviei uma mensagem para colaboradores e amigos da Fundação José Saramago, dizendo-lhes que precisamos de fazer um “briefing”, acrescentando depois, “com licença do estrangeirismo”. Atenção: eu não tenho preconceito de partilha contra o estrangeirismo. Revejo-me, a este respeito, muito na lição do Garrett quando, em As viagens na minha terra, escrevia em itálico os termos em inglês; termos, de resto, que hoje estão incorporados na nossa língua. Portanto, uma coisa é o uso de uma expressão que não tem ou dificilmente tem tradução em português; outra coisa totalmente diferente é a introdução de uma palavra em inglês quando existe uma em português que tem o mesmo significado. Nestes casos estamos perante uma espécie de novo-riquismo técnico, próximo de um exibicionismo pretensamente elitista, que nada de novo traz à língua.

sA — O que acha da qualidade da linguagem usada pela classe política portuguesa?

CR — Temos um destacado político que sistematicamente diz “precaridade”. Nunca houve um assessor que lhe dissesse que da mesma maneira que se diz solidariedade (de solidário) também se diz precariedade (de precário). Dir-se-á que não vem mal ao mundo com a pronúncia errada da palavra — o melhor era mesmo acabar com a precariedade no trabalho. É verdade, mas é uma questão de princípio, de rigor. Depois, para além da falta de sintaxe, palavras deformadas, e uso de lugares comuns, há expressões como “o que está em cima da mesa é” que denota uma grande falta de criatividade. Tudo isto tem a sua gravidade. Mas pior é pronunciar mal as palavras ou comer algumas sílabas. Mas estas falhas estão longe de se circunscrever aos políticos. Há um conhecido pivô de um canal de televisão que atropela as palavras de tal forma, que fico espantado. Como é possível que um pivô de telejornal, de um canal aberto de televisão, com as palavras, para mais ainda sendo escritor…

sA — Por falar em qualidade da linguagem: mantém a posição de defesa da nova ortografia em língua portuguesa?

CR — Mantenho, embora esse seja já um assunto ultrapassado. O acordo ortográfico de que se fala tão mal remonta a 1990, de novo não tem nada; discuti-lo, hoje, se calhar deveria ser na óptica de o reajustar…Enfim, respeito todas as posições, devo dizer que ao contrário do que sucedeu comigo, que fui insultado, eu nunca insultei ninguém. Faz-me confusão aquela posição de algumas pessoas que olham para a ortografia como se fosse uma vaca sagrada. Eu não tenho bem essa noção. De resto, é bom lembrar, que a ideia do acordo estava ligada a uma política da língua portuguesa, que nunca foi por diante.

sA —  Regressemos aos livros. Dados oficiais dizem-nos que nunca se publicou tanto, mas depois vamos a uma livraria e não encontramos — ou encontramos poucos — clássicos da literatura portuguesa. Como olha para este fenómeno?

CR — É uma espécie de tensão ou conflito entre a qualidade e a quantidade. E também pela cedência, certamente necessária, das livrarias aquilo que se vende ou está a dar. Há 30, 40 anos, quando publiquei aquele meu primeiro livro de que falávamos há pouco, era impensável assistir ao que está agora a suceder. Hoje, as editoras têm de pagar para que os livros, nas livrarias, estejam em lugar de evidência. Naturalmente que as editoras fazem esse esforço para com os livros que se vendem mais. Claro que a poesia de Sá de Miranda, A menina e moça, do Bernardim Ribeiro, o Amor de Perdição, do Camilo ou mesmo Os Maias, do Eça, não vendem tanto como os romances do pivô que come as palavras em directo.

[…]

Entrevista de
“sinalAberto” – 18 Fevereiro, 2021

[Transcrição parcial de entrevista a Carlos Reis, realizada por “sinalAberto” no dia 18 Fevereiro, 2021. Via Olga Rodrigues. Destaques, “links” (a verde) e sublinhados meus.]

Carlos Reis 2012«O professor universitário Carlos Reis classificou hoje como “comportamentos autistas” os daqueles que se opõem ao Acordo Ortográfico, numa conferência internacional e audição parlamentar sobre o tema hoje realizada na Assembleia da República.» [JN – “Jornal de Notícias” e Agência brasiLusa, 7 de Abril de 2008.]

«[Carlos Reis] concluiu que o Acordo permitiu que haja português com uma única norma (não português de Portugal e brasileiro), como aconteceu noutros países com a respetiva[sic] língua.» [Parlamento, 28.02.13]

 

Se conheces o inimigo e conheces-te a ti mesmo, não deves temer o resultado de cem batalhas. Se  conheces-te a ti mesmo mas não conheces o inimigo, por cada vitória ganha sofrerás também uma derrota. Se não conheces nem o inimigo nem a ti mesmo perderás todas as batalhas…
Sun Tzu

 

[Os textos que eventualmente sejam publicados na imprensa usando a cacografia brasileira no original e aqui reproduzidos são automaticamente corrigidos com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser. Imagem de topo (citação) de: Boombastis. Imagem do texto: Wikipedia. Imagem de topo/principal de: Wikimedia. Imagem de corpo de: Wikimedia.]

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The choldragate

«Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilos, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega:e é tudo em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…»
Eça de Queirós, Os Maias

Para baixar o manual do usuário tem de logar e subir o material viral que depois pode embedar ou deletar se há estoque.

A frase anterior não faz qualquer sentido, evidentemente, mas é uma pequena demonstração de uma das tendências concomitantes da “adoção” do AO90: no Brasil não apenas se utiliza terminologia inglesa (especialmente a técnica) como também, obsessivamente, são literalmente “traduzidos” os termos originais em Inglês (usuário, logar, subir, embedar, deletar, estoque e outras centenas ou milhares de verbos, substantivos, adjectivos e advérbios).

Dado que o “acordo ortográfico” não passa da extinção integral do Português-padrão e sua (selvática) substituição por uma espécie de ortografia fonética brasileira, somos obrigados, ainda por cima, a engolir “efeitos colaterais” em transliteração da cacografia brasileira; este “fenómeno” é especialmente (e asquerosamente) visível na legendagem de filmes ou documentários e também em páginas de Internet ou nos manuais do “usuário” feitos por… portugueses!

Não é exactamente o Inglês — a actual língua-franca, inócua e utilitária –, é o brasileiro imposto pelo AO90 aquilo que está a destruir o Português.

A adopção de termos técnicos em Inglês é comum a todas as Línguas ocidentais (com excepção, talvez, da muito patriótica França) e difunde-se tanto mais quanto a Internet, os “smartphones” e os computadores se democratizam e evoluem. A contaminação da Língua por estrangeirismos em geral e por anglicismos em particular é uma inevitabilidade, tanto quanto a mudança das estações do ano ou o “inescapável” pagamento de impostos. Não é por aí que virá algum mal ao mundo. Exceptuando os sistemas de escrita das Línguas pictográficas ou simbólicas orientais, a estrangeirização (ou barbarização) é um fenómeno comum e universal, com passado, evolução e tradição. Fica absolutamente impossível falar de comida, por exemplo, sem utilizar termos franceses (soufflé, mousse, etc.); ou de tauromaquia sem o Castelhano (chicuelina, capote e outros); e o mesmo já sucedia nos séculos XVIII, XIX e XX com o Inglês (just-in-time, football, lobby, bacon, whisky, spleen e assim por diante).

Nesta ordem de ideias, estabelecendo uma relação de causa e efeito, podemos concluir que o voluntarismo acérrimo dos puristas da Língua — linguisticamente anglófobos ou apenas sem outro entretém — esbarra no mais elementar raciocínio, o qual, funcionando como uma parede contra a qual se estampam consecutiva e repetidamente os ditos puristas, transforma a sua bela teoria num desastre pragmático. Acidentes deste tipo costumam suceder, por exemplo e por maioria de razões, a adeptos fanáticos de um qualquer clube de futebol; ora, maus tratos da bola é cousa tão diversa dos maus tratos na Língua que as pretensões ultra-nacionalistas terminam em puro e simples ridículo.

A arma de destruição linguística em massa é o AO90, epítome da estupidez, não é o estrangeirismo — esse incontornável  mal menor. Este, que é um fenómeno universal, não mata nada —  ao invés da língua brasileira “universáu”, que tudo arrasa e destrói.

Tá ligado, cara? Liga não pro anglicismo. Cê si cuida e si preocupa com aquilo que interessa pra você e pra todo mundo porrtugueiss: the choldragate. That’s the real thing: how did they do it?

Erradicar o Português: ponto de situação

Alexandre Borges

“Observador”, 20 Fev 2021

Tenho a certeza de que sabe que estamos praticamente a caminhar sobre um cadáver. Que nos sirvamos do Português roça a profanação de sepultura – deveria dizer: a necrofilia? A língua portuguesa caminha para a extinção mais depressa do que o rinoceronte e, no fim, embora possamos sempre resguardar em cativeiro porventura um bibliotecário macho e uma linguista fêmea, ou vice-versa, com vista à continuação da espécie, eu não depositaria demasiada fé na operação. Sabe-se lá que língua falarão então. E que líbido lhes restará.

Não culparei o infame acordo ortográfico, nem o Instituto Camões, nem as telenovelas, nem os sucessivos governos, nem as pessoas com necessidades especiais que a televisão filantropicamente emprega na inserção de caracteres com vista à criação no indivíduo de um sentimento de dignidade e amor-próprio. Não culparei os professores, nem os alunos, nem os Brasileiros, nem os Portugueses, nem o fado, nem o kuduro, nem ao menos a quizomba, nem necessariamente a televisão, que é capaz de ainda morrer primeiro. O português está prestes a bater a bota pela mesma razão que todas as outras línguas que não o inglês estão prestes a bater a bota: a monocultura do sucesso.

O que é a monocultura do sucesso? A forma mais curta que o presente autor encontrou de descrever a convicção generalizada de que: a) a felicidade individual é não só possível como o objectivo último da vida; b) a felicidade reside no sucesso; e c) há uma e uma só forma de lá chegar. E essa forma implica teses estruturantes como o trabalho estar acima de tudo e o crescimento ser um fim em si mesmo, e outras aparentemente acidentais, mas de que ninguém abdica, materializadas num comportamento de rebanho ou manada, e que significam, mormente: comermos todos a mesma coisa, fazermos todos o mesmo tipo de exercício, consumirmos todos o mesmo entretenimento, visitarmos todos os mesmos lugares, falarmos todos a mesma língua, através até das mesmas expressões.

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“Racismo epistémico” na Wikipedia brasileirófona

«By destroying the words themselves, the state would be able to destroy the concepts they represented.»
George Orwell, “1984”

Acompanhei a “votação”, como editor da Wikipedia, aí por volta de 2012 ou 2013, se bem me lembro. Essa “votação” propunha a escolha de uma de três vias possíveis, quanto ao endereço português (pt.wikipedia.com) naquela plataforma: ou a wikipédia lusófona “adotava” o AO90 ou os colaboradores  continuavam a utilizar a ortografia correcta ou então tanto os editores portugueses como os brasileiros adicionariam conteúdos consoante a sua preferência, isto é, em conformidade com o AO45 ou utilizando a desortografia brasileira; a única limitação, caso fosse esta última a opção mais votada, seria quanto à edição de conteúdos produzidos por terceiros: neste caso, como é evidente, estaria vedada a alteração da ortografia de cada artigo ou entrada. 

A fase seguinte dessa sequência de manobras foi uma espécie de “afinação” ou “resumo” das opções iniciais, com a inerente e mais do que expectável aldrabice: a “votação” passou a ser binária (ou primária), só havia que escolher entre sim ou não, o AO90 seria “adotado” ou não. Pois claro, “ganhou” o sim, ou seja, uma imensa maioria de brasileiros — que tinham o seu próprio endereço br.wikipedia.com — e uma desprezível minoria de mercenários portugueses obrigaram todos os outros à “adoção” faseada do Acordo Ortográfico na WP***.

Será talvez redundante dizer que essa “votação” estava inquinada logo à partida, tal era (e continua a ser) a disparidade entre o gigantesco número de editores wiki brasileiros em relação ao pequeno grupo de portugueses que então (como hoje) ali colaboravam. Por outro lado, essa “votação” inquinada implicava uma outra forma de perversão antecipada dos resultados: como está claramente expresso e perfeitamente formulado no texto do “Público” agora reproduzido (ver em baixo), existiam já naquela altura “relatos sobre empresas, instituições e até partidos que podem estar a pagar a pessoas para alterar artigos.” Bem sabemos que instituições, que partidos políticos e, como executores dessa solução final, que paus-mandados impuseram violentamente a “adoção” da cacografia brasileira a toda a comunidade wiki em Português, dezenas de colaboradores e milhões de utilizadores.

Assim, com um simulacro de votação e a  golpes de propaganda, a chamada Wikipédia lusófona passou a ser exclusivamente brasileira. Tal manobra, cavalgando as golpadas dos agentes acordistas (brasileiros e portugueses), foi e continua a ser completa e abjecta: além de terem sido vertidas para brasileiro todas as entradas originalmente escritas e publicadas em Português, foram também substituídos conteúdos por equivalentes brasileiros***: ilustrações, gráficos, tabelas de dados, fontes, referências externas, logótipos, fotografias, o camartelo brasileiro tudo demoliu, as matérias portuguesas foram integralmente eliminadas e trocadas. 

Repita-se, porque é mesmo difícil acreditar em semelhante horror: os acordistas extinguiram a Wikipédia portuguesa (e dos PALOP) e substituíram-na pela brasileira. Além da ortografia portuguesa eliminaram também todos os conteúdos portugueses, substituindo-os pelos respectivos equivalentes no e do “país-continente”. A título de exemplo, no artigo sobre o substantivo “palácio” trocaram o Palácio de São Bento pelo Palácio do Planalto .

O próprio endereço (URL) da versão portuguesa (www.pt.wikipedia.com) foi engolido pela sanha brasileirófona e passou a ser o endereço da Wikipédia brasileirófona, pretendendo esta fingir que é a “unificada”, a Wikipédia da “língua universáu”. Quanto ao endereço pt original, agora aloja os conteúdos em… Bretão! Fantástico.

Esta mega-operação de erradicação do Português-padrão é mais do que evidente na Wikipedia e o mesmo exacto processo atingiu, na Internet, todos os outros serviços e plataformas de utilização geral: Google, YouTube, “redes sociais”, “corretores” ortográficos, etc.

Extinguir a nossa Língua nacional substituindo-a pela brasileira, eis, em suma, o enunciado do golpe duplo perpretado por neo-imperialistas brasileiros e por um repugnante grupo de ratazanas. Como nos dizem em meio virtual os meios electrónicos, “operação realizada com sucesso“. Depois de “adotado” o brasileiro, os meios electrónicos passaram a funcionar como mais uma arma política — de extinção maciça.

entrada wiki: Metáfora

[*** Nota: desde 2012 muitos dos conteúdos da Wikipedia “pt” foram apagados, alterados e/ou relocalizados.]

 

“Variantes da língua” são maior motivo de discórdia entre editores da Wikipédia em português

Karla Pequenino publico.pt 11.02.21

https://www.publico.pt/2021/02/10/tecnologia/noticia/variantes-lingua-sao-maior-motivo-discordia-editores-wikipedia-portugues-1950186″


 

Homem, estudante e brasileiro, é este o perfil da maioria das 2817 pessoas que editam, regularmente, o conteúdo da Wikipédia em língua portuguesa. Ainda assim, as “variantes do português” são o principal motivo de discórdia entre os editores das páginas portuguesas da enciclopédia colaborativa online. É uma tarefa que junta pessoas a trabalhar no Brasil (70,4%), Portugal (23,9%), Moçambique, Angola, Galiza, Estados Unidos, Venezuela e Alemanha.

Três em cada dez sentem que existe racismo, xenofobia e desigualdade na edição da Wikipédia, em parte, devido às tentativas mútuas de imposição das diferentes variantes da língua portuguesa.

A informação surge numa versão preliminar de um relatório do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho, que se incumbiu da missão de descobrir a identidade dos editores da Wikipédia em português.

“Num tempo em que tanto se discute sobre notícias falsas, pós-verdade e confiança na informação, estudar e perceber como funciona e quem alimenta esta rede colaborativa poderá dar pistas sobre como se instalam socialmente a verdade”, justificou Pedro Rodrigues Costa que coordena o estudo da Universidade do Minho numa apresentação dos primeiros resultados do trabalho.

“[A Wikipedia] é uma das fontes de informação mais visitadas do mundo”, sublinha o investigador.

De acordo com Costa, dados recentes mostram que em Setembro de 2020 os utilizadores em Portugal consultaram 29 milhões de páginas da Wikipédia em português. No Brasil, foram consultadas 273 milhões de páginas e nos Estados Unidos foram consultadas 14 milhões de páginas.

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Línguas de trabalho na ONU: brasileiro não consta

United Nations – Official Languages

«There are six official languages of the UN. These are Arabic, Chinese, English, French, Russian and Spanish. The correct interpretation and translation of these six languages, in both spoken and written form, is very important to the work of the Organization, because this enables clear and concise communication on issues of global importance.»

Language Days at the UN

«The Translation Services translate all official United Nations documents, meeting records and correspondence at Headquarters from and into Arabic, Chinese, English, French, Russian, and Spanish.  Some official documents are also translated into German


«A questão de fundo a reflectir/refletir é a seguinte: porque é que o Português não é língua de trabalho nas Nações Unidas? Porque os critérios de selecção/seleção foram de natureza essencialmente política, não reflectindo/refletindo a importância das línguas no contexto do mundo de hoje. As Nações Unidas e o Conselho de Segurança surgem na sequência da geopolítica saída da II Guerra Mundial. Os seus vencedores, a China, os Estados Unidos, a França, o Reino Unido e a antiga URSS, hoje Rússia, integraram, como membros permanentes, o Conselho de Segurança. As suas línguas, isto é, o idioma de cada um dos vencedores, prevaleceram como as línguas de trabalho na então nascente ONU. O Alemão e o Japonês nunca poderiam ter sido escolhidas. Estes países – espanto dos espantos – ainda hoje são designados como países inimigos pela Carta das Nações Unidas…

A par das línguas dos países vencedores do último grande conflito mundial, foram ainda escolhidos o Espanhol e o Árabe. É sempre bom ter países árabes no leque de países amigos. O petróleo era essencial para alimentar as indústrias norte-americanas e europeias/européias e, por outro lado, era de bom tom dar voz aos países emergentes do chamado Terceiro Mundo. O Árabe era língua de uma série de países nestas circunstâncias. Quanto ao Espanhol pesou a sua própria relevância e, também, o empenho nesse sentido das autoridades de Madrid.

Este cenário geopolítico e linguístico está ultrapassado. As línguas, hoje, têm de valer pelo que representam no mundo da ciência, da cultura, da arte e da economia. E, não restam quaisquer dúvidas, a Língua Portuguesa tem hoje mais expressão nestes domínios do que algumas línguas de trabalho das Nações Unidas.»

[in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/aberturas/sobre-as-linguas-de-trabalho-na-onu/22 [consultado em 12-02-2021]


Já em 2008 Malaca Casteleiro  babujava uma das suas mentiras favoritas: «A língua portuguesa é a única com duas variantes que têm que ser traduzidas nas Nações Unidas

Esta é uma das patranhas favoritas dos acordistas. Pretendem, se bem que vagamente, para disfarçar, porque sabem que semelhante coisa está fora de cogitação, promover a língua brasileira, a pretexto do AO90 e de uma alegada “unificação”, à aparentemente suprema condição de língua de trabalho da ONU. A realidade, por mais que os acordistas encenem a esse respeito uma rapsódia delirante, é que as línguas de trabalho da ONU são aquelas que fazem sentido o sejam: o Inglês, como língua franca e por acréscimo sendo a oficial em inúmeros países, e outras cinco línguas que, de certa forma, incluindo a componente política, representam a esmagadora maioria dos 193 países que fazem parte da Organização. Do brasileiro, nada, nem pio, não consta nem conta coisa nenhuma; ninguém na ONU sequer refere a questão, que afinal não existe de todo; a Organização das Nações Unidas trata de assuntos sérios, não de brincadeiras de mau gosto.

Outra patranha de igual calibre é a do número de falantes de “português”. Nesta espécie de “copa” brasileira para apurar a língua campeã do mundo, para fingir que a língua brasileira ocupa um lugar “honroso”, os brasileiros torcem a realidade e torturam os números por forma a que o seu cadinho linguístico apareça na 5.ª posição ou, quando muito, classificado na 6.ª posição. Isto no pressuposto de que tal campeonato, mais uma invenção absurda, interessa a alguém com um mínimo de tino. Apenas os ultra-competitivos brasileiros (e alguns imbecis portugueses) se entretêm com este tipo de onanismo desportivo-linguístico e, reiteremos, tentam assim justificar o injustificável (o brasileiro como língua de trabalho da ONU) e se calhar impressionar sabe-se lá bem que tipo de labregos deslumbrados. Sob a capa rota da CPLP, montam uma ficção ao estilo do Teatro do Absurdo que nem Ionescu desdenharia.

Dos mencionados labregos deslumbrados podemos ler, por exemplo, no texto parcialmente citado acima, contendo as mentirolas do costume as suas deles “perplexidades” (digamos assim) por a ONU ignorar olimpicamente a sua amada língua brasileira. Pois parece que não estão com sorte nenhuma…

É isso mesmo o que vemos e lemos, na citação de topo, no extracto da página respectiva do site das Nações Unidas: aquelas são as línguas de trabalho e não lembraria nem ao careca introduzir nas 6 línguas oficiais um corpo estranho.

Em baixo, como contraponto (o enésimo, visto que há no Apartado 53 bastantes conteúdos sobre o tema), um texto em Inglês que mais uma vez repõe os números correctos, os factos, a verdade: o brasileiro (na figura diz “Portuguese” mas é gralha) é a 9.ª (nona) língua mais utilizada no mundo

 

thelanguagenerds.com

The 10 Oldest Languages That Are Still Spoken Today.

 

As of today, the world has 7111 languages according to Ethnologue. A staggering third of these languages are endangered and only spoken by very few people, 1000 speakers at best. what’s even more serious is that more than 50% of the world’s population is covered by 23 major languages.

Top 10 most spoken languages, 2019. By Ethnologue.

 

Languages appeared about 100.000 years ago and have been evolving ever since. Languages are always in a state of flux; some die out and some branch out and give us more languages. Exceptionally, some languages have survived long periods of time and erosion and made it to the modern world. Here are 10 of the most ancient languages that are still spoken today:
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Passar a ferro

«Depois, há para considerar o fator tempo que altera todas as coisas. Assim, não existe razão para que a língua escape a essa lei universal. A língua, igualmente as pessoas, quer palpitar, crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver.»

Valha-me Deus. Mas que cretinice.

Bem entendido, já sabemos que o “argumento” da “evolução” — com mais ou com menos ornamentos, como é o caso citado, pejado de palavras sem absolutamente significado algum — é um dos mais martelados pelos acordistas em geral. Usar verbos e adjectivá-los aos pulinhos, com imensa solicitude, numa construção frásica cheia de floreados do piorio, como se a rapariga autora do esgalhanço escrito estivesse a falar de plantinhas, coitadinhas, bem, convenhamos, bálhamedeus, repito, dá vómitos, é um nojo. Mas paradigmático, é claro; qualquer labrego acordista tende sistematicamente para os “simbolismos” pindéricos, a metáforazinha catita, o estilo… hum… estiloso.

A Língua não é exactamente um malmequer ou um girassol, nem na escrita peganhenta do poeta mais foleiro da Via Láctea e arredores. Mas isto ele para os brasileiros, mai-la sua verborreia tipo culto do vácuo, em especial se a coisa mete graveto (pilim, cacau, guito, c’roas), em suma, em cheirando-lhes a dinheiro vai mesmo tudo raso, até a língua deles passa por uma mui elegante (e quiçá periclitante) tulipa verde e amarela.

Note-se que o artigalho não começa por uma pergunta. A ausência do ponto de interrogação no título denuncia de imediato, sendo aquilo a constatação de um facto, o carácter tóxico-propagandístico do textículo (salvo seja) desta Bruna e demais Brunas e Brunos. Esta espécie de elegia histérica cheia de paleio a armar aos cucos (ou às catatuas) merece, portanto, para mais fácil entendimento do fenómeno, ser genericamente designada por brunismo.

A toxicidade da propaganda brunística ressalta imediatamente, “de fato” e gravata, pela “conclusão” implícita no “pensamento” veiculado: por exemplo, americanos, ingleses e canadianos, franceses, argelinos e tunisinos, espanhóis, mexicanos e chilenos, para já não falar em chineses, indianos, russos, japoneses, filipinos e coreanos, etc., essa malta toda, cerca de 99% da população mundial é constituído, segundo o brunismo, por uma cambada de imbecis, burros como cepos:  mantêm inalteradas há séculos as suas línguas nacionais, nativas ou adquiridas, que horror, que “retrógrados”, que “reaccionários” que “velhos do Restelo”. Extremamente espertinhos, por exclusão de partes e por paradoxalmente se entreterem a “mudar a língua brasileira tantas vezes”, são eles, os brasileiros (e os seus “camaradjinha” tugas), porque mudam amiúde a sua caótica escrita. De 20 em 20 ou de 30 em 30 anos lá vem mais «uma repaginada com o passar do tempo», como diz a Bruna. Caramba! Não é um crânio, a Bruna, não é mesmo uma maravilha, o brunismo? Légáu, né? Hem? “Oi”?

Oh, raio de texto, o que me havia de tocar pela proa! Canoijo. Bem perto da genialidade, realmente, e expondo — ainda por cima — sua inatacável premissa com artistices de fazer inveja ao cromo mais pintado. A florzinha pretende «crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver», oh, mas que lindo, que bela imagem, é fantástico, um gajo até parece que está vendo o malmequer a crescer, a tulipazinha a tornar-se flexível e colorida, ui, que beleza, enfim, isto não é bem escrever, enfim, «isto é viver».

Enfim, enfim, enfim.

É mais do que evidente o que pretendem impor-nos. Neste texto brunístico, ainda que de cariz comercial — ou por isso mesmo –, não é referido Portugal uma única vez. Claro. A língua brasileira é deles, portanto têm todo o direito a assassiná-la, ui, caríssimos, à vontade, chateiem lá os Tupi, os Guarani e os Zé Carioca, não venham é para cá brunir (passar a ferro, literalmente) a Língua Portuguesa. Nem em Portugal nem em qualquer dos PALOP. Xô.

O nexo de causalidade, reitere-se o que amiúde aqui é dito, aparece agora de novo espectacular e obscenamente nítido: o AO90 teria sido, quando muito, uma tentativa de normalização das várias desortografias fonéticas brasileiras, um acordo entre Estados, sim, mas estabelecido apenas entre os 27 Estados brasileiros, acabou por tornar-se, depois de desenterrado por Cavaco, Lula e Sócrates, numa fantochada inaudita à escala mundial. 

Impor a sete Estados soberanos um “Tratado” para transformar a língua de um oitavo país na “língua nacional” de todos eles (com a subscrição de apenas três), isso, repito, semelhante desconchavo, o “acordo” imposto pelo Brasil e propagado, propagandeado e pago por Portugal, é algo que  jamais ocorreu a qualquer dos “restantes” 191 Estados-membros da ONU.

Esta “ideia”, ó Brunas do universo, é um dos motivos pelos quais a língua brasileira muda tanto na acepção de tantas vezes e porque a sua cacografia varia infindavelmente.

Infelizmente, o brunismo medra. E não há peito ilustre que o mande ao anagrama de medra. 

Vão brunir longe.

Por que a Língua Portuguesa muda tanto

por Bruna Eckel
28 de janeiro de 2021

 

As pessoas se perguntam por que uma língua não permanece estável no curso da vida? Uma língua muda porque é falada segundo os costumes, a cultura, as tradições, modernização tecnológica e o modo de viver da população. Depois, há para considerar o fator tempo que altera todas as coisas. Assim, não existe razão para que a língua escape a essa lei universal. A língua, igualmente as pessoas, quer palpitar, crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver.

A mudança que se observa numa dada língua, no decorrer do tempo, tem paralelo na mudança dos conceitos de vida, na mudança das artes, da filosofia, da ciência e até da própria natureza. Essa evolução temporal, mudança diacrônica ou história, é um dos aspectos mais evidentes da variação ou mudança que se processa em toda e qualquer língua. Antigamente, no Brasil, se falava cutex ao invés de esmalte, petisqueira no lugar de armário, penteadeira ao invés de cômoda, ceroula ao invés de cueca. São exemplos que ilustram a mudança diacrônica ou histórica.

Considera-se, também, que a língua varia no espaço, razão porque a língua portuguesa apresenta variedades nacionais e internacionais. É a mesma língua, mas com traços peculiares das regiões, dos países como Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde, Timor Leste, Brasil.

A língua é viva

Como sabemos bem, a língua portuguesa foi trazida ao Brasil no século XVI em virtude do Descobrimento. O português era imposto como língua oficial às línguas nativas que havia aqui ou modificava-se dando origem a outros dialetos. Mas houve um longo processo para estabelecer o idioma no território brasileiro. O contato entre os indígenas, os africanos e os vários imigrantes que vieram de algumas regiões da Europa contribuiu para o chamado multilinguismo. Assim, além da fase bilíngue pela qual passou a nossa língua, o multilinguismo contribuiu – e continua contribuindo – para a formação da identidade do português brasileiro.

Assim como os demais idiomas, a nossa língua é viva, ou seja, se transforma e se reinventa com as pessoas ao longo do tempo, expressando uma maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas linguísticas. Algumas alterações ocorrem naturalmente; outras são determinadas formalmente, como o Acordo Ortográfico implementado pela CPLP, em 2009, com o objetivo de facilitar o intercâmbio cultural e científico entre os países que têm o português como idioma oficial e ampliar a divulgação do idioma e da literatura em língua portuguesa.

Diferenças e exemplos de variações

As variedades nacionais de um idioma não apresentam uma uniformidade interna, são constituídas por variantes geográficas que os dialetólogos denominam dialetos. Também há as variações decorrentes dos diferentes grupos sociais a que pertencem os falantes, tal como variações de faixa-etária, sociocultural e sócio profissional.

São exemplos de variações por faixa-etária:

Idoso – coroa – velho;

Homem – rapaz – tiozinho;

Baile – festa – balada.

São exemplos de variações socioculturais:

Festa – arrasta-pé ou piseiro;

Briga – confusão – furdunço – baixaria – barraco;

Namorar – ficar;

Moça – mina.
(mais…)

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Pangeia

O que se segue é um daqueles textos em que se arrisca passar tudo a “bold” e sublinhados, de uma ponta à outra, muito pouco ou nada restando intocado do original, sem qualquer forma de destaque e não implicando anotações mentais. Este Ray Cunha, do qual, confesso, nunca ouvi falar, dá-lhe com força, vejamos, distribui sem parcimónia alguma pontapés e caneladas a eito, mais uns murros para desenfastiar, em plenas canetas e fuças dos neo-colonialistas brasileiros, seus compatriotas mas pelos quais não parece nutrir grandes simpatias, que impuseram o AO90 a um portugalzinho imaginário.

O “estilo” uma no cravo, outra na ferradura desponta porém no arrazoado de Ray, o que é pena, mas não sejamos mesquinhos, no essencial Ray di-las das boas. Como, aliás, tantos outros brasileiros de tino. Nisso. nada de especial; lá como cá apenas uns clubezitos de maluquinhos decidiram aproveitar o espírito negocial  (ou seja, o “jeito para o negócio”) de Lula, Sócrates e Cavaco, a ver se lhes toca alguma coisinha na babugem.

Os laivos de grandiloquência as ressonâncias neo-imperialistas, de que o autor não consegue livrar-se, podem perfeitamente tolerar-se na leitura (o Brasil que fique lá com o seu saudoso II Império, é com eles, amanhem-se) se atendermos à mera, sólida e consequente — além de básica e elementar — constatação: uma coisa é a Língua Portuguesa e outra completamente diferente é a língua brasileira.

O AO90 é algo como espetar no chão duas estacas, uma do lado de cá e a outra do lado de lá do Atlântico, esticar entre elas uma corda e assim tentar bloquear a natural deriva dos continentes, algo que ocorre desde os primordiais tempos da Pangeia. Os continentes afastam-se uns dos outros como as Línguas se distanciam entre si. Tentar perverter (ou deter) o curso natural das coisas não é só tremenda estupidez — é impossível.

E ainda bem.

O português falado e escrito no Brasil tem alegria, sons, cheiros, sol, mar e democracia que nenhum decreto ortográfico de Lula poderá mudar

diariocarioca.com, 25.01.21

RAY CUNHA, DE BRASÍLIA

 

O ex-presidente e ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de honra do PT (Partido dos Trabalhadores), assinou, em 29 de setembro de 2008, na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, quatro decretos de promulgação do novo Acordo Ortográfico no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em homenagem ao escritor Machado de Assis, que completava cem anos de morto (1839-1908).

“Com esses atos, Machado de Assis será duplamente exaltado: de um lado, a Academia lhe rende a mais expressiva homenagem neste ano em que celebramos o centenário de sua morte. E, de outro, a assinatura pelo presidente Lula dos decretos que promulgam o Acordo Ortográfico dos sete países lusófonos” – declarou, então, o presidente da ABL, Cícero Sandroni.

Segundo Cícero Sandroni, a promulgação do Acordo Ortográfico concretizava uma antiga aspiração de Machado de Assis, manifestada em um de seus discursos, em 1897. “A Academia buscará ser a guardiã de nosso idioma, fundado em suas legítimas fontes – o povo e os escritores, todos os falantes de língua portuguesa” – disse, na altura, o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

O argumento para mudanças ortográficas na língua portuguesa é que a alegada unificação da escrita no Brasil e em Portugal tornaria o português língua oficial da Organização das Nações Unidas (ONU). Supondo-se que fosse possível unificar a escrita das duas variações linguísticas, mesmo frases burocráticas, de documentos, são marcadas pela sintaxe, pelo estilo oriundo da cultura de cada um dos dois países.

O fato é que o novo Acordo Ortográfico não unifica o português de Portugal e o português do Brasil, mesmo que se trate de escrita burocrática. Qualquer tradutor na ONU terá que ser bom de ouvido, tanto para o falar lusitano, típico dos países de clima frio, como para o falar brasileiro, tropical, aberto. Isso, sem mencionar a linguagem crioula.

A pergunta que lateja é: A “unificação” da língua portuguesa escrita no Brasil com o português grafado em Portugal tem alguma utilidade? No caso do Brasil, não seria melhor investir maciçamente no ensino básico? E, depois, o Brasil tem mais com que se preocupar.

Enquanto Lula levava seu palanque para a Academia Brasileira de Letras, o Correio Braziliense, maior jornal da capital do país, publicava uma série de reportagens sobre crianças, meninas e meninos, que embarcavam em carros de luxo, no coração de Brasília, para serem estuprados a troco de comida.

A propósito, exploração sexual de crianças e escravidão sexual são comuns na província potencialmente mais rica do planeta, mas onde a miséria humana, a escravidão, o assassinato, campeiam. Enquanto Lula decretava uma escrita comum entre Brasil e Portugal, a tragédia se abatia na escola pública, por meio da qual universitários semialfabetizados, como Lula, se diplomam.

Não demorou, porém, para que se percebesse a que viera o novo Acordo Ortográfico. Foi para beneficiar editoras, principalmente as que integravam a panelinha do Ministério da Educação. A perspectiva era de faturar bilhões.

Creio que seria mais produtivo criar o Instituto Machado de Assis e, por meio dele, difundir mundialmente a língua portuguesa escrita e falada no Brasil. Os grandes escritores deste continente chamado Brasil são tradutores da nossa mestiçagem mulata, cafuza e mameluca, das nossas cores, cheiros e alegria. Quanto à CPLP, pode e deve influenciar a democracia, que vem sendo defendida com unhas e dentes pelo presidente Jair Bolsonaro, e se aperfeiçoar como bloco econômico.

Considerando-se o Brasil isoladamente, passamos à frente de Portugal, como os Estados Unidos superaram a Inglaterra. No nosso caso linguístico, enquanto o português lusitano se esgotou, o português brasileiro é uma língua jovem, enriquecida por idiomas africanos, pelo tupi-guarani, por estrangeirismos e pelo calor, cores, aromas, sabores e contexturas dos trópicos e da Amazônia.

Cada vez mais o Acordo Ortográfico se assemelha mais a uma peça de marketing do governo lulapetista, em um país de esmagadora maioria de alfabetizados funcionais – que leem mas não entendem o que leem –, com pelo menos 20 milhões de pessoas que vivem na Idade da Pedra – não sabem ler e, muitíssimos deles, não têm sequer certidão de nascimento; outros, são escravos mesmo, principalmente nos medievais estados da Amazônia.

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