Dia: 4 de Julho, 2015

«O “Estado Novo” da ortografia» [Octávio dos Santos, “Público”]

logo_shareO “Estado Novo” da ortografia

Octávio dos Santos

04/07/2015 – 05:30

Com o AO90 não há “evolução”, “modernização” e “progresso”, há sim um retrocesso para antes de 1986… e de 1974.

 

A 8 de Maio último, em Famalicão, numa sessão de apresentação da sua biografia, Rui Rio afirmou: “Uma minoria impor-se a uma maioria, compreendo e aceito numa ditadura. Em democracia, respeita-se as minorias, mas quando elas chocam com as maiorias, tem de prevalecer o interesse colectivo.”

O ex-presidente da Câmara Municipal do Porto estava a referir-se concretamente aos pilotos da TAP, então em (mais uma) greve, mas aquelas suas (lógicas e sensatas) palavras podiam aplicar-se a qualquer outra minoria. Como, por exemplo, a dos que têm vindo a preconizar activa e persistentemente a alteração da ortografia da língua portuguesa. Entre as minorias identificáveis no nosso país serão uma das mais pequenas: mesmo entre os que estudam, ensinam e divulgam o nosso idioma pode ser considerada uma minoria de uma minoria, porque a maior parte dos seus colegas, considerando os dados disponíveis, foram e são contra o denominado “Acordo Ortográfico de 1990”. E, segundo artigo no jornal i de 28 de Maio último, eles são principalmente quatro: Carlos Reis, Fernando Cristóvão, João Malaca Casteleiro e Pedro Dinis Correia. A questão principal mantém-se: porquê, como, é que este estes quatro “cavaleiros do “apocalise”“ da cultura nacional, com mais uns quantos obedientes e estridentes “escudeiros” (entre os quais Edviges Ferreira, Francisco Seixas da Costa, José Carlos de Vasconcelos e Lúcia Vaz Pedro), obtiveram e exerce(ra)m tanta influência sobre o poder político em Portugal.

A ponto de, “cavalgando” não de Braga mas sim de bafientos gabinetes universitários, terem protagonizado uma nova “revolução de Maio”, pois que, supostamente, iniciou-se no dia 13 do mês cinco deste ano o “Estado Novo” da ortografia, cujo objectivo último – e ilusório – é a “unificação” da ortografia do Minho a Timor. Aliás, o título de outro artigo do i, mas de 1 de Junho de 2014, era precisamente “Palavras de todas as cores para usar do Minho a Timor”, e tinha como tema principal o denominado “Vocabulário Ortográfico Comum”, que como que representa a “Constituição de 1933” deste “novo (e mau) Estado” do Português; aquele pouco deve ao rigor e aquela pouco devia aos direitos humanos, e ambos são, foram, o resultado de mentalidades não democráticas. Ironicamente, Jorge Barreto Xavier, secretário de Estado da (In)Cultura, que em Janeiro último, durante a apresentação da “”Ação” Cultural Externa” (“eco” da Acção Nacional Popular?), proclamou que em Portugal “as novas regras (do AO90) estão a ser aplicadas sem atropelos”, assim admitindo que vive numa realidade alternativa, como que evocou o relato oficial do referendo que, precisamente, “ratificou” a Constituição de 1933, e que garantia que aquele decorrera “com absoluta ordem e tranquilidade em todo o país”.

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«Não temos de ser clones uns dos outros» [“Público”, 04.07.15]

logo_share“O idioma português é o mais rico e o mais elástico do planeta”

Nuno Pacheco

04/07/2015 – 11:01

Este sábado, 4 de Julho, no Grande Auditório do CCB, Ana Laíns e vários convidados celebrarão em conjunto os 8 Séculos da Língua Portuguesa. Às 21h.

 

Ana Laíns, portuguesa, Ivan Lins, brasileiro, ambos cantores, ambos fascinados pela língua portuguesa nas suas variantes, estarão no mesmo palco este sábado, 4 de Julho, no Grande Auditório do CCB, em Lisboa, precisamente a celebrar a língua portuguesa e os seus (oficiais, porque já conta mais do que isso) oito séculos de existência.

Com eles estarão outros músicos, actores, cantores ou declamadores que Ana Laíns, embaixadora nomeada pela Associação 8 Séculos da Língua Portuguesa, decidiu convidar. Além de Ivan Lins, estarão no CCB Aline Frazão, Celina Pereira, Karyna Gomes, Luiz Avellar, Marta Dias, Paulo de Carvalho, Júlio Soares, Joaquim de Almeida, Elsa de Noronha, Olinda Beja, Jorge Arrimar, Valéria Carvalho e os grupos Adufeiras de Idanha e A Moda Mãe, além dos músicos Paulo Loureiro (piano e direcção musical), Carlos Lopes (acordeão), João Coelho (percussão), Miguel Veras (viola), Hugo Edgar Silva (guitarra portuguesa), Rolando Semedo (baixo) e Iuri Oliveira (percussão).

A ideia nasceu num recital onde Ana Laíns cantou António Ramos Rosa. A presidente e fundadora da Associação 8 Séculos da Língua Portuguesa, Maria José Maya, ouviu-a cantar e lançou-lhe o desafio de ser embaixadora, enquanto cantora, do projecto. Ela aceitou e fez um primeiro concerto na abertura das comemorações, em Outubro de 2014, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Agora, a pretexto do encerramento das comemorações, propuseram-lhe um novo concerto, mas num palco maior. E ele teve a ideia de um “concerto maior”. “Achei que fazia sentido um concerto reunindo todos os povos que falam português. E já que vamos pensar nisto, vamos pensar em grande.”

O CCB embarcou na aventura e foi fazendo os convites. E, embora seja um concerto de Ana Laíns e convidados, a ideia é pôr os músicos a dialogar em palco uns com os outros. “De outra forma não faria sentido. Se este concerto visa representar a partilha, a união, a escrita de um futuro diferente entre estes povos, então essa partilha tem que estar representada em palco. Todos vamos ter momentos comuns, em dueto ou não.” No concerto ouvir-se-ão, além de vários temas dos cancioneiros de cada país, três inéditos com as assinaturas de José Eduardo Agualusa, João Gil, Nuno Júdice Luiz Caracol.

Ivan Lins, por sua vez, diz sentir-se “muito confortável” neste formato de várias vozes. “Estou acostumado a ser chamado para concertos lusófonos. Acabei de fazer um em São Paulo, produzido e dirigido pelo guitarrista norte-americano Lee Ritenour. Ele costuma gravar compositores brasileiros e percebeu que todos nós temos um pé na África, quer dizer, a nossa música é muito contaminada pela cultura negra, que veio através dos escravos e das colónias portuguesas em África. E ele ficou muito curioso em relação a essas colónias e resolveu fazer isso através do idioma. Porque há um encontro muito poderoso através da palavra. E vieram músicos dos vários países: Guiné, Angola, etc.”

Ivan acha muito importante este tipo de encontros. “Para mostrar culturalmente as nossas semelhanças e as nossas diferenças. As nossas culturas são muito amarradas, porque o idioma português, o nosso idioma, é muito especial, eu acho que ele é o mais rico e o mais elástico do planeta. Temos uma capacidade de fazer um trabalho artesanal com o nosso idioma que eu acho que não existe em outro lugar do mundo.”

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