Dia: 19 de Agosto, 2015

Uma história (muito) mal contada [VIII]

trabalhotuga

As fundações

Existem inúmeros adágios populares que descrevem na perfeição o que tipicamente acontece quando alguém, cá no torrão pátrio, tem de repente a peregrina ideia de fazer alguma coisinha. “Quem está de fora não racha lenha”, por exemplo, serve como ilustração da coisa, mas a contrario.

A técnica aprende-se de pequenino (que é quando “se torce o pepino”), até a brincar ao esconde-esconde, e prolonga-se depois por todos os (de)graus de ensino, a começar pelo vulgar “copianço” e continuando nos chamados “trabalhos de grupo”, em que, por regra, um faz o trabalho todo e os outros assinam por baixo, depois de devidamente arrasarem com palpites avulsos o autor único, a porcaria que ele fez, a qual só assinam porque são muito amigos dele.

Quando porventura não há grupo algum para fazer o trabalho, então o processo torna-se ainda mais “curioso”, digamos assim, porque surge invariavelmente uma data de gente logo que o dito  trabalho “aparece” feito. Gente essa que, ainda mais invariavelmente, desata a “trabalhar” sobre o que já está feito, “contribuindo” com imensa generosidade e grande voluntarismo através de nada desprezível manancial de críticas (“construtivas”, note-se, ok?, isso está tudo uma porcaria, pá, mas olha que eu só digo isto para ajudar, hem, nada de confusões) e também com uma série de “ideias” maravilhosas que não ocorreram ao patego, oops, perdão, ao fulano que fez aquilo tudo.

Nós, portugueses, somos deste jaez, salvo seja, nada a fazer quanto à nossa patriótica vontade de nada fazer (além de dar palpites e apoio moral a quem trabalha), portanto “vamos em frente que atrás vem gente”, foi isto mesmo o que sucedeu quanto à ILC-AO.

Foram de facto meses alucinantes, aqueles, entre Maio de 2009, quando a petição foi “discutida”, e Abril de 2010, início da recolha de assinaturas para a iniciativa. Mas passaram muito depressa, esses meses, tal foi o ritmo de trabalho. Estava tudo por fazer e, para piorar o cenário, não apenas havia pouca gente disponível como o próprio conceito de “ILC” era então uma coisa nova, terreno desconhecido. Tratava-se de começar literalmente do zero e era tudo “para ontem”: a entrada em vigor do AO90 estava já ali mesmo à frente, logo ao virar da esquina — de 2009 para 2010.

NAOA primeira coisa a fazer era o logótipo. Correu bem, para variar. Em 10 minutos saiu aquilo, pois siga, antes este do que nenhum. Foi um acaso, não há que duvidar, a ideia era que parecesse alguém ter riscado a vermelho o “AO”. Calhou assim, nada mais, tracei um N “manual” sobre as letras AO em “Times New Roman” num preto austero e, por baixo, a palavra-de-ordem: “Não queremos o acordo ortográfico!” Apenas isto, sobre fundo branco, sem mais nada, nenhum adereço ou sequer bordadura.

Duvidei imenso do resultado, devo confessar, de tão simples que era, tão elementar, básico, mas —  para minha grande surpresa — pelos vistos o “boneco” pegou, rapidamente e “de estaca”. E não apenas “pegou de estaca”, enquanto logótipo da iniciativa, como acabou até por se tornar numa espécie de  símbolo visual da luta contra o “acordo”, em geral, o estandarte da Causa. E ainda hoje essa mesma imagem continua espalhada por aí, como que surgida do nada, de geração espontânea, já sem qualquer ligação à origem.

Bom, estamos com pressa, prossigamos. O que era absolutamente fulcral, o que tinha de ser feito imediatamente (já não para ontem mas para anteontem) era o texto da ILC.

Bonito serviço. E agora? Como? Por onde começar? O que dizer, ao certo? Quem poderia redigir a coisa? Teria de haver um jurista envolvido, é claro, e alguém da área da Linguística, mais uma pessoa qualquer, sem ofensa, com tarimba (na) política…

As necessidades e as exigências são facílimas de diagnosticar mas dificílimas de executar quando envolvem trabalho (especializado ou não, sendo ele no caso especializadíssimo) e, pior ainda, quando esse trabalho tem de ser voluntário, pro bono, gratuito.

Felizmente apareceu logo, via Twitter, uma professora portuguesa (e moçambicana) de Maputo. Pronto, a parte linguística (ou gramatical) está entregue, aquela voluntária comprometeu-se, porfiou, cumpriu.

Quem não cumpriu nem porfiou nada (mas prometeu muito) foi uma advogada do Porto que, também através do Twitter (e publicamente) se ofereceu para redigir a parte jurídica do texto. Advogada essa que tinha inclusivamente sido recomendada por Garcia Pereira (o qual me dissera, sobre a ILC, “acho que sim, acho que é de avançar“). Mas, fosse lá pelo que fosse, os dias foram passando, algumas semanas se esgotaram — e nada, da advogada do Porto nem uma vírgula, quanto mais um texto. Isto, aliás, “custou” as primeiras “baixas” na iniciativa mas também teve, pelo contrário, o mérito de começar a “separar o trigo do joio”, quem trabalha de quem diz, quem faz de quem só fala, quem é sério de quem gosta de brincar com coisas sérias.

O caso era que entretanto se tinha perdido um tempo precioso devido à espera inútil pela “generosa oferta”. Tornava-se ainda mais urgente redigir o texto. Sem texto não havia ILC, sem ILC acabava a luta — porque não havia mais nada.

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Afundamentalismo

logo_shareA pseudodefesa do português

Paulo Rangel

18/08/2015 – 07:41

1. A ratificação pelo Presidente da República do Acordo relativo ao Tribunal Unificado de Patentes e àquilo a que, com algum simplismo, se pode chamar o regime da patente europeia criou uma grande celeuma acerca da defesa do uso do português nas instâncias internacionais. Quem conhecer bem o andamento dos trabalhos na concepção e feitura desta legislação – e, designadamente, os meandros das discussões travadas no Parlamento Europeu –, logo se aperceberá como esta guerra em pretensa defesa da língua portuguesa não passa de uma bravata serôdia.

A ideia inicial foi sempre a de propor como única língua de trabalho o inglês. O que fazia todo o sentido. É sabido que hoje mais de 90 por cento das patentes são directamente redigidas em inglês, porque resultam do labor de grupos de cientistas e investigadores de equipas multinacionais, que adoptaram o inglês como sua “língua franca”. Por outro lado, porque, para afirmar a competitividade europeia no quadro global, é absolutamente determinante ter um regime comum de patente, que seja facilmente acessível a qualquer um dos outros agentes empresariais, científicos e competidores globais. Negar a evidência de que o inglês tem hoje, enquanto veículo de comunicação o papel de autêntica língua franca (embora não francesa…) é o mesmo que negar idêntico estatuto ao latim na Idade Média e até na Idade Moderna. Importa salientar que os alemães em geral aceitavam esta posição. E que mesmo italianos e espanhóis mostravam alguma abertura para não impor a sua língua como língua de trabalho, se a escolha recaísse única e somente no inglês. Sucede, todavia, que os franceses, com o seu habitual escrúpulo francófono, não aceitavam, em caso algum, deixar cair o francês. E, nessa hipótese, os alemães, cuja importância em matéria de patentes era evidente, não abdicavam do alemão. E idêntica posição assumiram espanhóis e italianos, que, porque as suas línguas não foram reconhecidas, acabaram por ficar de fora do Acordo. A posição alemã é compreensível: prescindiriam do uso da sua língua, se se conseguisse o objectivo de fixar uma única língua (o inglês). E a posição italiana ainda poderia ter alguma sustentação, já que 10 por cento das patentes europeias têm origem italiana (embora, como se frisou, a respectiva materialização seja já escrita em inglês). Já a espanhola, só se compreendia à luz de uma profícua indústria de tradução, que muito tinha a perder com este novo regime e de pruridos nacionalistas (ou castelhanistas) equivalentes aos franceses. A solução final foi a que tanto se critica: inglês, francês e alemão, deixando a Espanha e a Itália fora da cooperação reforçada.

2. Confesso que não compreendo o alcance da crítica. A defesa do português não passa por este tipo de “nichos”. Como dezenas de vezes, tentei explicar aos colegas espanhóis, a importância do espanhol e também do português impõe-se por si mesma e não por decreto. É antes do mais um facto demográfico e geopolítico – e por mais que alemães e franceses ponham em letra de forma a possibilidade de uso dos seus idiomas, nenhum desses tratados vai parar a expansão do espanhol ou do português. Não é pela circunstância de a França ser intransigente em cada negociação diplomática que o francês, enquanto língua de comunicação global, deixou de entrar em declínio irreversível. Insisto: não há lei que trave a dinâmica demográfica. Como, aliás, por experiência amarga, tem evidenciado a actual crise migratória…

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