Dia: 11 de Setembro, 2015

Uma história (muito) mal contada [XIII]

Twitter-LogoDo azar e do medo

O primeiro “choque”, oh, santa inocência: nenhuma entidade se prontificou a patrocinar a ILC-AO e afinal tivemos de avançar com ela nós mesmos, um simples “grupo informal de cidadãos”, sem qualquer tipo de apoios ou meios.

No dia 19 de Fevereiro de 2010 a rádio TSF difundia uma notícia em que, nota-se, as dúvidas já eram mais  certezas:
«(…) alertou que o tempo urge, porque se não surgir essa entidade credível terá de ser o movimento a criá-la. Neste sentido, João Pedro Graça apelou à união de esforços e defendeu que os vários grupos que existem no Facebook e que apoiam a mesma causa teriam mais força unidos.»

O segundo “choque”, oh, santa ignorância: havia naquela altura mais de 73.000 “apoiantes” da iniciativa no Facebook mas afinal nem 1% deles se deram à maçada de subscrever a ILC-AO.

Logo em Junho de 2010, apenas dois meses após o início da recolha de subscrições, já se podia constatar o óbvio ululante no primeiro “balanço e contras“:
«São assim, pelos vistos, as chamadas “redes sociais”: muita parra e pouca (ou nenhuma) uva. Salvo raríssimas excepções, toda a gente “subscreve” seja o que for, por assim dizer a granel, desligando-se de imediato e para sempre de todos e de cada um dos assuntos, movimentos e causas que “apoiou” com um simples click de “rato”. Os motivos para este bizarro comportamento constituiriam excelente matéria para um estudo ou uma tese na área da Sociologia, por exemplo, mas há que reconhecer tratar-se de um fenómeno novo e que era, por consequência, imprevisível. Era, porque a partir de agora já não é.»

O terceiro “choque”, oh, santa paciência: o prazo para entregar as 35.000 assinaturas  no Parlamento foi marcado para 31 de Dezembro de 2010 mas em oito meses afinal nem 10% tínhamos conseguido.

A 2 de Janeiro de 2011 dizíamos que, afinal, apesar dos choques sucessivos, “o sobreiro vive“:
«Ainda valerá a pena continuar? Ainda poderemos ter sucesso? Seremos ainda capazes de travar o passo ao monstro “ortográfico”?
Respondamos então de forma clara e decidida: respectivamente, sim, sim e sim!
Ou, vendo a questão de outra forma, por exclusão de partes.
Existe alguma alternativa para acabar com aquele horror além da Iniciativa Legislativa de Cidadãos? Não, não há.»

Depois disto ainda se marcaram sucessivamente mais duas datas como “fim de prazo”, a 25 de Abril e a 15 de Setembro de 2011, mas é claro que também essas foram ultrapassadas e rapidamente esquecidas, como aliás se verificou ser bem melhor esquecer de todo essa malfadada ideia do “fim de prazo”: a nossa luta não pode ter fim, nunca teve data de validade, jamais será uma luta “a prazo”, até porque o fim do malfadado AO90 não tem (ainda) data marcada.

Na verdade, a luta começou por um objectivo imediato, isto é, entregar a ILC no Parlamento e com isso conseguir-se a revogação da entrada em vigor do AO90, mas com a simples passagem do tempo fomos vendo que o objectivo passava a ser também, e isso já era muito,  manter a luta viva: resistir, resistir, resistir!

Reiteremos:  a tarefa primordial era levar a iniciativa à Assembleia da República, mas combater a política do “facto consumado” tornava-se a cada dia mais importante; e isso implicava trabalho, muito trabalho. Foram criados diversos (outros) mecanismos, processos e sistemas de divulgação, de propaganda e, sobretudo, de incentivo à continuação e à organização da resistência: uma rede de postos de recolha de subscrições, a “Galeria” de subscritores e apoiantes,  listas de “voluntariado“, amostras (pelos selos) de subscrições vindas da diáspora, vídeos e gravações com manifestações de apoio, materiais de campanha, criação de selos dos CTT com o logótipo da campanha, etc., etc., etc.

Houve até algumas tentativas de organizar recolhas de assinaturas no terreno e um ou outro evento público para divulgação do movimento mas, infelizmente e por diversos motivos, com poucos, nenhuns ou péssimos resultados. Por exemplo, em Maio de 2010 pedimos autorização ao Governo Civil de Lisboa para uma “acção de rua” no Rossio; pois nesse mesmo dia (8) resolveu S. Pedro, sabe-se lá se por influência de algum Malaca, ou assim, despejar em cheio na Capital portuguesa uma das mais valentes (e prolongadas) chuvadas de que há memória. Por ali ficámos, Rocío Ramos, Maria do Carmo Vieira e eu, desolados, em silêncio, vendo a chuva a desabar sem dó nem piedade sobre a esplanada da pastelaria Suíça, submergindo o Rossio, afogando a capital e arredores numa estranha invernia serôdia . Foi azar, há quem diga, foi muito azar.

Poucos dias antes do dilúvio, a 24 de Abril, tínhamos reservado uma sala n’A Voz do Operário e havia um orador convidado: o advogado António Garcia Pereira. Pois sucedeu que o nosso convidado teve uma indisposição súbita quando se dirigia para lá, foi internado de urgência num hospital próximo. É claro que, assim sendo, naquela emergência, não havia alternativa a adiar de imediato a palestra; a assistência dispersou e nós fomos saber do estado de saúde do ilustre jurista; estava em observação mas não era nada de cuidado, pronto, menos mal, que alívio! Bem, neste outro caso de azar acabou por haver bastante sorte no desfecho, valha-nos isso.

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