Dia: 24 de Setembro, 2015

Uma história (muito) mal contada [XVII]

Zamora_RPB

A fronteira de Zamora

Há mais fronteiras para além das territoriais, sejam elas naturais ou políticas. Há também as fronteiras morais ou ideológicas e ainda as temporais. Em qualquer dos casos, uma fronteira é sempre uma linha imaginária que se pode desenhar fisicamente, por exemplo com um risco pintado transversalmente numa estrada, ou que se pode traçar apenas mentalmente — o tipo de linha fronteiriça mais sólido e perene que existe.

De facto, as fronteiras nacionais entre Portugal e Espanha ficam um pouco mais a Oeste da cidade leonesa de Zamora, mas esta história poderia dividir-se, como se faz com a.C. e d.C., em antes de Zamora (a.Z.) e depois de Zamora (d.Z.). Trata-se portanto de uma fronteira temporal, não física, e representa um marco muito significativo: dali (ou de então) em diante, tudo seria completamente diferente.

Os anos de 2008 a 2011 foram, por isso, uma espécie de pré-história da nossa luta contra o AO90: em 2008 aventámos a possibilidade de se avançar com uma ILC, em 2009 começámos a estruturar o movimento, 2010 foi o ano do lançamento da iniciativa propriamente dita e em 2011 reunimos apoios, juntámos esforços, promovemos e consolidámos a ideia de que o “acordo” poderia ainda vir a ser derrotado.

Mas não estava nada fácil, convenhamos. Ao longo daqueles quase quatro anos, até aos primeiros meses de 2012, parecia que a governamental “política do facto consumado” se tinha já instalado definitiva e irreversivelmente: na verdade, muito pouca gente acreditava sequer fosse ainda possível fazer alguma coisa para travar o passo àquele crime de lesa-património.

Fez-se o que se pôde, porém, nesses dificílimos tempos. E a pouco e pouco, muito lentamente, com a persistência que advém da convicção firme, fomos conseguindo fazer passar a mensagem, reunindo informação e contactos, recrutando voluntários e apoiantes (até no estrangeiro), promovendo acções públicas (geralmente com apenas um punhado de activistas),  publicando conteúdos de “agitprop” e tentando “furar” o mais possível a cortina de silêncio em que os “media” tinham encapsulado a iniciativa.

Pouco depois do gigantesco balde de água fria que nos foi atirado da Rua do Viriato, onde era a sede do “Público”, recebi um convite para ir a Espanha — ele há mesmo milagres, como se vê, e nem todos são pura ilusão de óptica — “falar sobre o AO90” na Fundação Rei Afonso Henriques, em Zamora.

Foi tudo (excelentemente) tratado, arranjado, organizado pela nossa camarada Rocío Ramos, escusado será dizer. Por mim, apenas teria de arranjar alguém para conduzir nas viagens de ida e volta, já que iria precisar do tempo do trajecto para rever notas e documentos, reavivar memórias, ensaiar minimamente  o “discurso”, digamos, e as perguntas da assistência a que provavelmente teria de responder. Viajando no próprio dia, iríamos chegar apenas uma hora antes do evento e ainda seria necessário mudar de roupa…

Ah, a propósito, por falar em roupa.

(mais…)

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