Dia: 29 de Setembro, 2015

Uma história (muito) mal contada [XVIII]

“O CCB e o AO90”

No dia 20 de Janeiro de 2012 foi noticiada a nomeação de Vasco Graça Moura (VGM) para a Direcção Administrativa e Financeira do Centro Cultural de Belém (CCB). Alguns dias depois, a 2 de Fevereiro, sai — com imenso e muito justificado estrondo mediático — a notícia de que VGM manda suspender, segundo o semanário “Sol”, ou anular,  garantia o “Diário de Notícias”, ou “manter em vigor a velha ortografia“, como diz a rádio “TSF”, ou ainda, como titulava o “Público”, “dá ordem aos serviços para não aplicarem” o “acordo ortográfico” no CCB.

Mas a notícia bombástica foi, em suma, que o AO90 estava a ser utilizado nos serviços de uma entidade dependente do Estado (Secretaria de Estado da Cultura) e o seu novo Director, nomeado pelo Governo, ordenou aos serviços dessa entidade que deixassem de utilizar o AO90.

Como é normal num país que se pretende livre, cada órgão de comunicação social (OCS) noticiou o acontecimento à sua maneira. As palavras escolhidas para intitular uma notícia não são meramente casuais ou arbitrárias e ainda menos arbitrárias ou casuais são as que se usam no tratamento, no desenvolvimento e na análise dessa notícia. Os conteúdos noticiosos dependem de uma série de factores, a começar pelas orientações (e ligações) políticas específicas de cada OCS e, em última análise, pelas opiniões do jornalista que relata o sucedido.

Ora, sucede que, de mais a mais quando uma opinião se forma (não só mas também) a partir de notícias que são elas mesmas mais opinativas do que noticiosas, qualquer cidadão tem também o direito de exprimir o seu próprio ponto de vista.

Vejamos.

Em relação à polémica decisão de banir o Acordo Ortográfico dos documentos do Centro Cultural de Belém, o recém-empossado director admite que possa ter causado algum incómodo junto do executivo, mas assegura que não houve intenção de afrontar o Governo com esta medida. E defende que sem vocabulário ortográfico comum, preparado com intervenção dos sete países signatários do Acordo através dos seus organismos e instituições, as alterações exigidas à grafia não são sequer aplicáveis.

Excerto de notícia (com ortografia corrigida) do “DN” de 12.02.12

«o recém-empossado director admite que possa ter causado algum incómodo junto do executivo»
“Algum incómodo”? Mas tendo sido nomeado para aquele cargo pelo mesmo executivo, em Janeiro de 2012, não terá o próprio dado conhecimento prévio dessa sua intenção ao executivo que o nomeou? E se houve conhecimento prévio, logo, acordo entre executivo e nomeado, então que “incómodo” poderá ter causado ao executivo a decisão do nomeado?

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