Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Uma história (muito) mal contada [XXI]

A resistência tem razões que a razão bem conhece

«Se estamos numa de palpites, deixo o meu: daqui a cinco anos ninguém se vai lembrar das razões de tanta resistência.»
Rui Tavares

Isto dizia Rui Tavares a propósito do AO90, em 24 de Julho de 2008. Quatro anos depois da tavariana “profecia”, a resistência estava mais fervilhante do que nunca.

RT5anos

 

2012 foi de facto um ano de viragem, em todos os aspectos. Em especial depois de franqueada a fronteira psicológica do “2 de Fevereiro”, isto é, a data em que  Vasco Graça Moura anulou o AO90 no Centro Cultural de Belém, os acontecimentos precipitaram-se espectacularmente. Além dos eventos realizados (e alguns falhados), dos sucessos (e certos insucessos), das notícias (e das não-notícias), dos avanços e retrocessos já relatados nesta história (muito) mal contada, houve ao longo desse ano de 2012 outras datas marcantes.

Por ordem cronológica, anotemos algumas delas.

Logo no dia 7 de Fevereiro, também a FLUL* anula o acordo ortográfico, segundo notícia da M80 rádio que posteriormente diversos OCS* viriam a difundir e que nós próprios tivemos o cuidado de confirmar junto da fonte original. Curiosamente (ou não, que já estamos habituados a estas governamentais trapalhadas), a notícia áudio refere que «Contactado pela M80 o Ministério da Educação fez saber que desconhecem o caso, já que as Faculdades são autónomas» mas o facto é que posteriormente, em data indeterminada, pelo menos o “site” daquela Faculdade acabou por ser totalmente arrasado pela máquina trituradora acordista. Ordens do patronato, deduz-se.

Avancemos.

Apenas uma semana após a decisão de VGM* no CCB*, o Editorial de dia 9 do Jornal de Angola — uma espécie de órgão oficioso do Governo angolano — deixava perfeitamente claro que aquele país não ratificou nem ratificará o “acordo ortográfico”; denotam-no com clareza expressões como “nada o justifica” ou “ninguém ouse impor regras“. Numa formulação ainda mais incisiva sobre a Língua Portuguesa, resulta claro que a posição oficial de Angola jamais será a de «pô-la a reboque do difícil comércio das palavras». Apenas alguns excertos desse editorial são o suficiente para entender toda a mensagem.

(…)
A Língua Portuguesa é património de todos os povos que a falam e neste ponto estamos todos de acordo. É pertença de angolanos, portugueses, macaenses, goeses ou brasileiros. E nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes ou uma indústria editorial mais pujante.
(…)
O importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige. Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às “leis do mercado”. Os afectos não são transaccionáveis. E a língua que veicula esses afectos, muito menos.
(…)
E o veículo utilizado foi o português. Queremos continuar esse percurso e desejamos que os outros falantes da Língua Portuguesa respeitem as nossas especificidades. Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais. Sabemos que somos falantes de uma língua que tem o Latim como matriz. Mas mesmo na origem existiu a via erudita e a via popular. Do “português tabeliónico” aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas. Intelectuais de todas as épocas cuidaram dela com o mesmo desvelo que se tratam as preciosidades.
(…)
Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP. A escrita é “contaminada” pela linguagem coloquial, mas as regras gramaticais, não. Se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável que através de um qualquer acordo ela seja simplesmente ignorada. Nada o justifica. Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.

[Excertos do editorial de 08.02.12 publicado no “Jornal de Angola“. Texto integral publicado no “site” da ILC-AO em 9 de Fevereiro de 2012.]

Aqui está outro marco fronteiriço, por conseguinte, e desta vez com uma relevância política incomparavelmente superior à do primeiro. Trata-se já não apenas de simples desautorização de um Governo por um único político, agora é todo um Governo, um país inteiro (e, ainda por cima, um país enorme, o segundo maior da CPLP) que não só desautoriza como liminarmente recusa uma intolerável tentativa de imposição de países terceiros sobre a sua soberania nacional. Aquela que deveria ter sido a posição de Portugal quanto ao “acordo ortográfico”, em suma, mas ao que parece no caso do nosso país tal não sucedeu porque “valores mais altos se levantaram”: “valores” em sentido literal, bem entendido, “valores” expressos em números, verbas, cifrões, dinheiro.

Bom, já todos estamos fartos de saber como se confeccionou o AO90 à portuguesa, ponhamos de lado, arrojemos esse prato que cheira a esturro, que tresanda a podre, prossigamos pois com a nossa breve cronologia de 2012.

A “Galeria” de subscritores, voluntários e activistas da ILC-AO lá se ia compondo, por essa época, de forma vertiginosa, com — parafraseando o lema da cidade do Porto — “mui nobre, sempre leal e invicta” gente (sobretudo sempre leal, note-se), pessoas das quais destacamos (sem sombra de elitismo, bem pelo contrário), por exemplo: no dia 1 de Fevereiro, juntou-se à nossa Causa o Doutor Gentil Martins. No dia 12 seguinte,  Manuel Luís Caupers de Bragança. A 16, também nesse mês, o (grande) poeta Pedro Tamen. No dia 22, ainda em Fevereiro, José de Faria Costa, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, co-autor de um importantíssimo texto, de enorme impacto na opinião pública: «O chamado ‘novo acordo ortográfico’: um descaso político e jurídico». A 16 de Maio todos os quatro “Gatos Fedorentos” já tinham subscrito a ILC e consentido na publicação dos respectivos “perfis”. Francisco Ferreira de Almeida, Professor de Direito da Universidade de Coimbra e co-autor do texto já referido, passou a constar da “Galeria” em 21.11.2012. Para terminar esta pequena “selecção” de aderentes ao longo do ano de 2012, de referir ainda a publicação, em 22 de Agosto, do “perfil” de Sandra Vinagre, uma das pessoas com mais valiosa intervenção na rede social Facebook.

Outros acontecimentos serão também de realçar, de todos — e foram imensos – os que ocorreram durante esta fase de actividade especialmente frenética.

Após meses de preparação, conseguimos disponibilizar impressos de subscrição da iniciativa nos pavilhões de três das editoras presentes, entre 24 de Abril e 13 de Maio, na Feira do Livro de Lisboa; a Gradiva, a Zéfiro e a Relógio d’Água.

No dia 1 de Junho, a ILC esteve na Feira do Livro de Coimbra, onde realizámos uma palestra sobre o AO90 com dois oradores convidados e “moderação” de HC*.

A 15 de Junho, toda a imprensa (bem, não exactamente “toda”) noticia mais uma tremenda machadada no statu quo “desortográfico”, outra desautorização política: «Câmara da Covilhã não adopta Novo Acordo Ortográfico». Não vale a pena virem agora os acordistas do costume tentar dourar a pílula: as Câmaras Municipais fazem parte da Administração (no caso, não a Central mas a Local), logo, se uma Câmara recusa “adotar” o AO90 então isso é uma desautorização política do Governo. Que a dita pílula lhes fique entalada na garganta, é o que se deseja. Em sentido figurado, bem entendido, cuidem-se lá dos gasganetes.

Adiante.

No dia 12 de Julho, uma delegação da ILC-AO é recebida por alguns deputados da Nação, tendo o respectivo relatório da Audiência Parlamentar (CECC) sido publicado no nosso “site” 15 dias depois. A solicitação foi de Maria do Carmo Vieira (como se pode ver, aliás, na “ordem de trabalhos” da audiência), e estiveram também presentes Hermínia Castro (pela ILC), os estudantes Pedro Afonso (AEIST*) e João Ricardo Rosa (aluno da UAlg*) e a escritora Teolinda Gersão.

O que se pode dizer sobre esta audiência, em termos de saldo? Bem, em resumo, que foi um sucesso, porque todas as intervenções correram muito bem, felizmente, e que não teve qualquer consequência prática, infelizmente. Mas pronto, como diz o outro, fomos ouvidos, ao menos marcámos presença, lá deixámos de alguma forma um testemunho.

Um efeito colateral (digamos assim) desta audiência parlamentar recaiu sobre um inocente  felino. Esperando não me levem ambos a mal, o gato e a sua dona, pela inconfidência, sucedeu que a nossa companheira HC* tinha acabado de recolher um gatinho abandonado, cheio de pulgas e com mazelas várias — chegou a estar às portas da morte –, e naquele dia, quando chegou a casa vinda de S. Bento, resolveu baptizar o bichano: chamou-lhe Pimpão. Vá-se lá adivinhar porque lhe terá ocorrido aquele nome…

Voltando à história. Tínhamos acabado de sair da audiência. “Cá fora”, longe das severas paredes do luxuoso palácio que serve de nacional “Casa do Povo”, as coisas estavam mesmo quentes de todo, e não era só por estarmos então já em pleno Verão, no que à luta contra o “acordo” diz respeito.

Não, de facto, essas quenturas pouco ou nada tinham a ver com a canícula. Aliás, tanto assim é que o Estio tinha estiolado há muito, fenecera-se até o Outono seguinte, estávamos já em pleno Inverno quando, na sequência de uma outra das nossas “visitas” ao Parlamento, o PCP* avança oficialmente com a formação do GTAO*, conforme despacho da agência Lusa com data de 20 de Dezembro.

E pouco depois disto rebenta em Portugal a notícia seguinte: «Brasil adia AO90 para 1 de Janeiro de 2016». Corria o gélido e simultaneamente tórrido dia 28 de Dezembro desse Ano da Graça de 2012.

Um ano alucinante, realmente, e nem sempre pelos melhores motivos. Muito de desagradável se passou também. Houve demasiados, estranhíssimos incidentes, uma tal saraivada de bizarras “coincidências” que podemos mesmo concluir ter sido aquele não apenas um ano de viragem nesta luta, como foi igualmente (ou principalmente) durante esse mesmo ano que o movimento anti-AO começou a devorar-se a si mesmo.

Como disse Pierre Vergniaud, um revolucionário a quem a Revolução Francesa premiou pela  sua valorosa participação cortando-lhe a cabeça, “a revolução devora os seus filhos”. Bem, a luta contra o AO90 não é propriamente uma revolução, é mais uma devolução: não queremos radicalmente mudar coisa alguma, apenas queremos que nos devolvam integralmente o que é nosso por direito.

Mas nem todos, ao contrário das aparências. O aforismo de Vergniaud pode verificar-se até mesmo numa luta cívica, pacífica, sem armas de fogo nem tiros nem motins. Bom, certo, sem armas de fogo nem tiros.

Veremos em pormenor como foi possível tal coisa.


[R1_201115]

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2 Comments

  1. O gatinho, para que conste, cresceu, fez-se lindíssimo e agora tem saúde para dar e vender. Se isso se deve ao nome ou não, já não sei, mas parece-me que deu sorte… 😉

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