Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Uma história (muito) mal contada [XXII]

possessos_dostoyevskyNo dia seguinte, Varvara Petrovna Stavrogina recebeu a visita de cinco homens de letras, três dos quais lhe eram desconhecidos. Com ar severo, declararam haver estudado o caso da revista em projecto e participaram a sua decisão: depois de fundado o periódico, devia ela ceder-lho com todos os capitais e nos termos de uma sociedade livre. Comprometer-se-ia também a voltar sem demora para o seu domínio, levando consigo Stepan Trofimovich Verkhovensky, esse velho farsante. Por delicadeza, reconheceram-lhe o direito de propriedade e prontificaram-se a pagar-lhe todos os anos a sexta parte dos lucros obtidos. O mais enternecedor de tudo foi o facto de quatro daqueles cinco indivíduos declararem não ter nenhum propósito lucrativo e só agir no interesse da «causa comum».

— Partimos desesperados — Contou Stepan Trofimovich. — Não percebia patavina do que se passava. Respirei de alívio ao chegar a Moscovo, como se naquela cidade pudesse encontrar coisa melhor. Ah, meus amigos — exclamava ele às vezes, diante de nós, como que tocado por uma inspiração súbita — não podeis medir a dor e a indignação que se apoderam da nossa alma quando uma ideia grande e nobre, que há muito tempo veneramos, é profanada por mãos inábeis e arrastada na lama. Depois encontramo-la assim conspurcada, sem forma nem harmonia, a servir de joguete a crianças desmioladas. Não! No nosso tempo as coisas passavam-se de outra forma. Isto agora desnorteia-me. Mas há-de vir uma época na qual se consolide o edifício que ameaça desmoronar-se. Senão, o que seria de nós?

Os Possessos“, Fyodor Dostoyevsky

———————–

“Quantas assinaturas temos?” – 1

Esta é realmente uma história (muito) mal contada, toda ela, sempre o foi, mas em especial quanto ao pormenor do número de subscrições recolhidas pela iniciativa. Pormenor esse que acabou por deixar de o ser, tornando-se a questão central a partir de certa altura: alguém, por algum motivo, em determinado momento, suscitou a polémica e urdiu a pretexto desse tema único uma estratégia de cerco, de assédio permanente e de insulto sistemático aos promotores da ILC-AO.

Perguntarem-nos “quantas assinaturas temos” começou por ser uma coisa perfeitamente natural, pois claro, não há nada mais natural do que a simples curiosidade, mas acabou — pelo menos para algumas alminhas — por se transformar numa verdadeira obsessão. De tal forma que aquilo deixou de ser uma pergunta e passou a implicar uma insinuação, primeiro, e uma ou várias acusações, por fim. Calúnias e mais calúnias, escusado será dizer.

Até à “fronteira” temporal já aqui referida, isto é, durante os primeiros dois anos, lá fomos respondendo com imensa tranquilidade a quem nos perguntava pelo número exacto, apenas de vez em quando porque a questão surgia só de quando em vez: a pergunta ainda era só isso mesmo, simples curiosidade.

Na verdade, após um breve período inicial em que as subscrições afluíram naturalmente em grande quantidade, entre Abril e Junho de 2010, rapidamente o afluxo começou a decrescer e seguiram-se longos meses de altos e baixos (com muito mais baixos do que altos) até a média diária chegar a um número que, sejamos directos, é de estarrecer: cinco por dia — cinco!

Desde o início da recolha de subscrições e até à tal “fronteira“, ou seja, de Abril de 2010 e Fevereiro de 2012, é facílimo fazer as contas, ainda que por simples estimativa (e de memória), a “quantas assinaturas”… tínhamos, nessa altura. Contando com cerca de 2.000 nos 3 meses de arranque, basta multiplicar por 5 o número de meses subsequentes (vezes 30 dias) até meados de Fevereiro de 2012, o que resulta numa bela contazinha. Vejamos então, assim à maneira das “contas de merceeiro”:
2.000+(5X20x30)=5.000.

É pouco? Claro que é pouco. É pouquíssimo, caramba! Mesmo sabendo nós que a “aldeia” anti-acordista é mais uma cidade de tamanho médio, com 200.000 “habitantes”, ainda assim temos de reconhecer as evidências: poucos desses “habitantes” se dão ao trabalho de preencher e enviar um impresso, é uma evidência, e, outra evidência ainda mais flagrante, parece que é ilegal andar por aí a apontar um revólver à cabeça dos cidadãos para que eles assinem um papel.

Portanto, em suma, a coisa foi esta mesmo: a ILC passou a “fronteira” do “2 de Fevereiro de 2012″ com cerca de 5.000 subscrições na “bagagem”; eram estes os “valores” que tínhamos a “declarar”, com aspas, nessa alfândega temporal.

Mas deveríamos tê-los efectivamente declarado, sem aspas? Deveríamos ter então divulgado esse quantitativo “maravilhoso”? E para quê? Com que finalidade, ao certo? Como reagiriam as pessoas se tomassem conhecimento dessa triste realidade? Não iriam os poucos militantes da Causa ficar (ainda mais) desmotivados? E, pelo contrário, do outro lado, essa divulgação, aquele número que era terrivelmente desmotivador para nós não iria dar (ainda mais) alento aos acordistas?

Naqueles primeiros anos, a “questão ortográfica” não era, de todo, como de resto ainda hoje não é e muito provavelmente jamais será, algo do interesse da esmagadora maioria da população. Espartilhado entre um desconhecimento geral e um alheamento desarmante, o AO90 estava nessa época ainda a “gatinhar”; não entrava, então, pela casa das pessoas adentro.

Como se tudo isto não bastasse, havia também que contar com outras dificuldades, neste aspecto, a começar pela confusão que imensas pessoas sempre fizeram entre a ILC e a petição de VGM, a qual, aliás, nunca deixou de recolher “assinaturas”, mesmo seis ou sete anos depois de ter sido arquivada, em 2008.

Ilustremos esta confusão com um exemplo prático.

«Acabo de falar com uma amiga dos tempos do colégio das Doroteias, do Liceu de Viseu e da Faculdade em Coimbra (que também conhece bem a Teolinda Gersão). Perguntei-lhe se já tinha subscrito a ILC, disse-me que sim, no Facebook! Lá lhe expliquei que tinha de ser em papel, etc… Ficou pasmada! Estava convencida de que já tinha assinado! Agora entendo porque é que anda tanta gente a “assinar” no Facebook e as assinaturas “a sério” não aparecem! Não é possível esclarecer isso de modo que toda a gente entenda?»

[Transcrição parcial de email de voluntária da ILC-AO,  30.07.12.]

Os esclarecimentos sucediam-se, é claro, mas apenas pontualmente, quase pessoalmente, este tipo de problemas se resolvia, um a um. Numa estimativa ainda mais “por alto” do que a anterior, podemos afirmar que cada subscrição da ILC “custa”, no mínimo, uma hora de trabalho.

Precisamente, como se nos pudéssemos dar a semelhante luxo, boa parte dessa hora passou a ser gasta, a partir de certa altura, respondendo à sacramental pergunta “quantas assinaturas temos“. E esta “certa altura”, como veremos oportunamente, teve início logo após a Feira do Livro de Lisboa  (Abril/Maio de 2012).

Muita gente usava todos os meios (email, formulário de contacto, espaços para comentários e até por carta) para repetir a mesma pergunta ad infinitum. De tal forma que, a partir de certa altura, já fartos de repetir ad nauseam os mesmos argumentos (e sem tempo ou disponibilidade  para tanto), passámos a usar uma “chapa 5”, ou seja, um de três modelos de resposta comum, consoante a credibilidade do remetente e o teor da sua mensagem.

O “modelo” que se segue é o mais elaborado, por assim dizer.

«Quanto à pergunta sobre as assinaturas, perdoará mas não podemos – porque não devemos – responder com um número concreto. Imensa gente faz essa pergunta, individualmente, pelo que teríamos de ter uma equipa para responder só a isso, todos os dias, dezenas de vezes por dia. De tal forma que acabámos por colocar uma resposta genérica nas “perguntas frequentes (FAQ) do site, que fará o favor de ler.

Aliás, esta pergunta é tão recorrente que nos parece já ter sido feita, se calhar, mais de 35 000 vezes. Ou seja, há muito mais quem pergunte quantas assinaturas temos do que gente a assinar a ILC. O que significa que muitas dessas perguntas são feitas por acordistas, com a finalidade óbvia de ficarem a saber o que fazer a seguir para dar cabo da ILC. Não lhes vamos dar isso de presente, não acha?»

A maior parte das pessoas compreendia isto perfeitamente, regra geral sem necessidade de que lhes fizéssemos “um desenho” da situação. Muitos dos voluntários e activistas da ILC-AO, a maior parte dos quais já veteranos na militância, chegaram mesmo a publicar textos em que, cada qual à sua maneira, todos defendiam que se não revelasse publicamente “quantas assinaturas temos”. Até porque, como sempre deixámos claro, iríamos necessitar de muito mais do que “só” 35.000 assinaturas para que a ILC-AO tivesse hipóteses de sucesso; logo, as já recolhidas seriam sempre “poucas”. E é evidente que a iniciativa tinha desde há muito deixado de ser “só” uma simples ILC, passando a servir, de forma abrangente e transversal, como plataforma unificadora do movimento anti-AO90 no seu todo.

O que ia incomodando muita gente, pelos vistos, a começar pelos próprios acordistas… mas não apenas estes.

As coisas começaram a correr mal, quanto a este particular do número de assinaturas, curiosamente, decorrido apenas um trimestre após o “2 de Fevereiro“: de repente e em catadupa,  começam a surgir de todos os lados imensos “voluntários” e — além de um ou outro com palpites avulso — alguns pareciam dispostos a colaborar em “acções de recolha de assinaturas para a ILC”.

De início ainda nos foram enviadas umas quantas subscrições, presumivelmente provindas daquele grupo, mas bem depressa passaram a chegar, em vez de assinaturas da ILC, questões — cada vez mais agressivas — sobre quantas assinaturas “temos”. E iam surgindo no Fakebook declarações expressas, dizendo alguns que não enviariam as subscrições que tinham recolhido

Mas o que diabo vem a ser isto? Chantagem?

Sim, pelos vistos era mesmo chantagem, algo como “ou nos dizem quantas assinaturas têm ou nós não vos enviamos as que temos em nosso poder”.

E a chantagem foi subindo de tom, de forma cada vez mais grosseira, rapidamente passando à pura e simples ameaça.

"click" para aumentar a imagemComo ilustração, salvo seja, aqui está um outro detrito avistado a boiar na rede anti-social Fakebook.

Felizmente, além do próprio, apenas duas  pessoas atenderam ao “apelo” do rapaz.

Este apelo à “desassinatura” em massa, publicamente dirigido a todos os subscritores da ILC-AO, não teve os efeitos pretendidos mas poderia ter tido: se a coisa tivesse “pegado”, teríamos de instalar um contador de assinaturas… decrescente!

Em resumo, como desfecho e por conseguinte: não se pode responder à pergunta “quantas assinaturas temos” quando alguns “voluntários” de “acções de recolha de assinaturas para a ILC” retêm, sequestram, sonegam sabe-se lá quantas dessas assinaturas que, pelos vistos, não eram “para a ILC”, eram para os próprios “voluntários”.

Aqueles subscritores saberão que destino foi dado às suas (deles) subscrições? Porque as sonegaram aqueles ditos “voluntários”? Com que direito? E com que finalidade, ao certo?

A recorrente, costumeira, frequente pergunta estava, afinal, (muito) mal formulada: a questão não era “quantas assinaturas temos”, a pergunta correcta seria “quantas assinaturas têm ELES”, os “voluntários” de si mesmos.

Como poderíamos dizer “quantas assinaturas temos” nós se não sabíamos quantas assinaturas tinham ELES?

E, afinal de contas…

Desde quando os crimes de injúria, calúnia e difamação são aceitáveis?

Desde quando é legítima a chantagem?

Desde quando deixou de ser crime sonegar documentos?

E até quando, até que ponto se deve “comer e calar”?

Falo apenas por mim próprio, evidentemente, quando digo que jamais verguei ou vergarei a cerviz perante canalhas. Sejam eles acordistas ou não.


Imagem de topo: General eBooks

[R1_201115]

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1 Comment

  1. Graça Maciel Costa

    Falas por ti mas eu junto a minha à tua voz – e não serei a única. Não estás sozinho, camarada de batalha, e a razão é e será, sempre, a nossa força.

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