Dia: 12 de Novembro, 2015

O númerozinho [por Rui Valente]

A ideia era escrever uma pequena frase, para acompanhar a partilha [no Facebook] do episódio XXII da “História (muito) mal contada”. Acabei por me esticar um bocadinho.

O númerozinho

Sim, mas… quantas assinaturas temos?

Durante anos, o João suportou sozinho o fardo de saber “quantas assinaturas temos”. Ou seja, suportou sozinho o conhecimento de uma realidade que eu e outros militantes da ILC apenas intuíamos: o pessoal não quer saber, o pessoal não assina, o pessoal já assinou na Internet. Cinco mil assinaturas… teria eu feito o pouco que fiz se tivesse tido conhecimento deste número? Quero acreditar que sim.

De qualquer modo, eu não precisava de saber o número exacto para saber que era baixo. Revelá-lo seria desmotivador para militantes e motivo de alegria para acordistas.

De facto, a ILC foi um caminho que se abriu para todos quantos estavam e estão contra o Acordo Ortográfico — e não podíamos deixar de o percorrer. Mas era preciso salvaguardar uma questão essencial: a ILC teria de ser, apenas e só, uma mais-valia contra o AO e não podia transformar-se nunca em “munição” para os próprios acordistas. Era uma simples questão de bom senso. Haveria razão mais importante do que esta para não se revelar o número de assinaturas?

Neste contexto, não havia outra solução que não fosse continuar a trabalhar. Desde logo, para encontrarmos uma via para, rapidamente, obtermos TODAS as assinaturas em falta — e, como o João já relatou, estivemos várias vezes perto de o conseguir.

Mas também, e em alternativa, para que o número de assinaturas continuasse, no mínimo, a crescer, aproximando-se tanto quanto possível do objectivo das 35.000 subscrições, de modo a que a sua revelação fosse motivo de encorajamento e não o contrário.

Infelizmente, aquilo que para mim era evidente, era “estranho” para outras pessoas. E toda a dinâmica da ILC passou a ser contaminada pela pergunta: quantas assinaturas temos?

Como resolver esta contradição? Como explicar às pessoas que o número era baixo sem, de caminho, revelar esse dado aos acordistas? Como apelar à solidariedade e à militância dos subscritores deixando de lado essa informação que, aos olhos de todos, se tornou crucial? De pouco me serviu dizer que eu próprio não sabia o número. De pouco serviu dizer, off the record, a algumas pessoas: “se revelarmos esse dado a ILC acaba”.

Ninguém queria saber — o que interessava era o númerozinho.

E aqui entrou em acção a “máquina de indignação” que vulgarmente se designa por “redes sociais”: uma espécie de universo paralelo onde as leis da urbanidade e do civismo parecem não se aplicar. No Facebook toda a gente se “indigna”, toda a gente “exige”, toda a gente “faria melhor”. As pessoas começavam por “indignar-se” e, de seguida, munidos dessa carta de alforria passada a si próprios, passavam da indignação à desconfiança e da desconfiança ao insulto. O exemplo que o João apresenta não é o único: temos uma boa colecção de declarações em que, aparentemente sem se aperceberem da enormidade das próprias palavras, várias pessoas confessam publicamente ter assinaturas na sua posse que, “por desconfiança”, não iriam enviar para “o apartado de Carcavelos”. Será possível que estes “indignados” não tenham consciência de estar a trair quem neles confiou para subscrever a ILC?

De pouco me serviu tentar responder pessoalmente, em privado, a quem nos “exigia” esse número. As minhas respostas apareciam mais tarde escarrapachadas na mesma praça pública que eu tinha tentado evitar e eram apenas mais achas para a fogueira. Lamento não ter sido mais eficaz, mas lamento ainda mais que as energias de tanta gente, com capacidades que teriam sido preciosas para a ILC, tenham sido desbaratadas desta forma… a lutar contra a Iniciativa que tinham começado por subscrever e na qual tinham militado convictamente.

Mais tarde, o João acabaria por nos revelar o número de assinaturas. Fê-lo quando era um número ainda baixo, mas já bastante mais “suportável”: cerca de quinze mil subscrições. Em papel. É, apesar de tudo, um número de que me orgulho. Modéstia à parte, senti que fiz o que tinha de ser feito: não precisei de um número (nem de “fazer números”) para continuar a lutar.

Pouco depois, esse número foi tornado público. Como “incentivo”, gostaríamos que tivesse sido um número maior. Mas era o que era. E a mim, parecia-me um bom ponto de partida — bastava que cada subscritor angariasse mais duas assinaturas para que estivéssemos “quase lá”. Cheguei a fazer um texto propondo isso mesmo.

Como reagiu “a militância”? Vencido o tabu, iríamos agora assistir ao regresso dos colaboradores? Iríamos agora receber as assinaturas “retidas”? Iríamos finalmente ter paz e sossego e, acima de tudo, mais gente disposta a continuar a luta? Vamos lá pessoal!, quinze mil não é assim tão mau. Nós conseguimos! Alô…? Está aí alguém…?

Rui Valente


A foto de topo foi tirada pelo próprio RV numa das suas acções de distribuição de impressos em caixas de correio. Inseri os “links” no texto. JPG

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