«Academia e bom senso» [Nuno Pacheco, “Público”]

Nuno Pacheco refere neste artigo, a respeito “de uma constante mistura de grafias, sem tino nem nexo“, um “exaustivo levantamento” que não é de minha autoria. Os “links” que inseri neste texto para ilustrar os exemplos apresentados por Nuno Pacheco são todos, como aliás todos são os de quaisquer outros textos de quaisquer outros autores aqui reproduzidos, retirados do levantamento exaustivo que é efectivamente de minha autoria.

logo_shareNo dia em que o Governo caía, discutia ali bem perto a Academia o bom senso da ortografia. Pode parecer o início de um péssimo verso, mas é a mais pura das verdades. A Academia das Ciências de Lisboa teve a louvável ideia de abrir as suas portas (dias 9 e 10) à discussão de um problema sério, o da ortografia nacional, que alguém resolveu “simplificar” em transnacional.

Em dois dias, profícuos, lá tivemos, em pacífica mas tensa convivência, acordistas (o corrector acaba de me emendar para açorditas, o que me obrigou a pô-lo na ordem) e não-acordistas, com muitos argumentos repetidos, uns frágeis e outros sólidos, e algumas novidades deste nosso mundo.

Do presidente da Academia, Artur Anselmo, ouvimos esta declaração: “A Academia não foi consultada no momento em que um ministro da Cultura decidiu pôr em vigor o que ainda estava em discussão” (o acordo ortográfico de 1990, AO90). Ninguém o contestou, mas os dois principais rostos do dito, Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara (que, diga-se, aguentaram estoicamente os dois dias que durou o colóquio) garantiram que tudo “está bem”. Malaca, que confessou “estar saturado” do tema (o que diremos nós, caro senhor!), remeteu as críticas para a “nota explicativa” (que ele acha que ninguém leu, quando muitos acham que foi ele que não a releu), garantiu que em Portugal o AO “está plenamente em vigor” e que “camadas jovens aprendem facilmente a nova ortografia”; e anunciou mais um simpósio para Timor-Leste (!) em 2016. Como se vê, o turismo da língua não cessa. Só a língua, pobre dela, não viaja nem se livra do monstro que lhe ataram às pernas. Ah, e o Vocabulário Ortográfico Comum, essa coisa essencial ao acordo que devia estar pronta logo, logo? Ouça-se Malaca: “Está em bom andamento.” Como se vê, nenhum problema. Bechara, por seu turno, além de se perder na história (recuou até 1911!), disse que o acordo visa “favorecer um ensino fácil da leitura e da escrita” e quase lamentou aquilo de que o Brasil abriu mão: “O Brasil fez as cedências necessárias”… Houve, ainda, alguns números de feira, como o da “infernização do hífen”, com diapositivos onde se lia “aspecto” — o autor era brasileiro, atenção — em lugar do “aspeto” que por aí se instalou; e uma “regra única” para “acentuação objetiva”  apresentada como mezinha (a mania das regras únicas é, pelos vistos, contagiosa), regra essa que afinal se verificou… serem várias. Um delicioso delírio.

Argumentações contra este acordo houve muitas: desde a importância da “expressão grafémica da ortografia” até à “formatação mutiladora do português europeu”, passando pela ridícula imposição à ciência (as propriedades “ópticas” dos minerais passam a “óticas”, o que nos levará a encostá-los aos ouvidos para confirmar), à idiotia de fazer regredir palavras já consagradas (“reescrever” passa a “reescrever”, segundo o AO, por ter duas vogais iguais seguidas), ao desastre da confusão entre “fonémica” e “fonética” ou ao “atentado contra a significação corrente das palavras”. Muito se afirmou e demonstrou. Disse Alzira Seixo que Evanildo Bechara (hoje paladino do AO) terá afirmado, num encontro nos Açores, que o texto actual do acordo não teria condições para servir de proposta normativa por ter “imprecisões, erros e ambiguidades”. O próprio, presente, podia ter tentado desmenti-la, mas não o fez. Já Malaca dissera que o acordo “tem com certeza algumas incongruências, não há acordos perfeitos”. Certamente. Ninguém pediu um acordo perfeito. Aliás, ninguém pediu acordo algum mas, a haver um, ao menos que fosse decente…

Com este, e abrindo agora as (agora generosas) portas da Academia para o mundo que lá fora o reproduz, vamos lendo horrores como “impato” por impacto, “fatos ilícitos” por factos ilícitos, “corrução” por corrupção, “seção” (à brasileira) por secção, “começamos” por começámos (confundindo tempos verbais, numa submissão à norma regular brasileira), “pato” por pacto, tudo isto em documentos oficiais (PR, Governo, autarquias, etc.), escolares, textos empresariais, imprensa, etc. Além, claro, de uma constante mistura de grafias, sem tino nem nexo. Há um exaustivo levantamento online feito por João Roque Dias, especialista em tradução técnica, e é assustador! Está tudo bem? Claro que está! Em 2016, haverá excursão gongórica a Timor! As escolas e o país… que se arranjem com o resto.

Nuno Pacheco

[Artigo de Nuno Pacheco, jornal “Público” de 15.11.15.]

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