Dia: 20 de Dezembro, 2015

Uma história (muito) mal contada [XXVII]

Tipo grafia

 

Mas quem és tu, pá?

Foi com esta delicadíssima pergunta que, certo dia, em certo evento público, incerto rufia me interpelou.

E de facto a encanitante questão faz sentido, visto que terá causado incómodo a alguns, intrigado outros e indignado até bastantes: quem será este tipo que lançou a ILC-AO, de onde veio ele, que diabo de currículo terá para se “arrogar” semelhante “direito”?

Pois bem, vamos a isso, desfaçamos então as prementes dúvidas, desencanitemos a questão, aliviemos desagradáveis sensações de incómodo, tiremos, em suma, o pipo à bóia da indignação: quem é afinal o tipo, hã?


 

bandeira_papel1Aqui está uma bandeirinha em papel que tem a particularidade de ser muito viajada: fez mais de 26.000 quilómetros. Levei-a comigo para Timor e comigo regressou de Timor a penates, com passagens por Londres, Singapura e Darwin.

Fui um dos 144 professores de Português que fizeram o mesmo trajecto, no já longínquo ano 2000. À partida, no aeroporto de Lisboa, estava o então Ministro da Educação, que se lembrou de perguntar à minha bandeirinha se ela e eu íamos para Timor “com espírito de missão”.

Timor_ASS— Não, não, nada disso. Vou para Timor porque em Portugal não tenho colocação, tal como outros trinta e cinco mil “profes”.

Alguns jornalistas perguntavam sistematicamente a mesma coisa, como se o tal “espírito de missão” fosse obrigatório, “tipo” validar o passaporte ou ter em dia todas as 13 vacinas necessárias. Respondi sempre, se bem que me palpite ter sido o único na ocasião, que não, não sou missionário, vou para lá porque não tenho vaga aqui.

Esta coisa que alguns dizem apenas “da boca para fora”, o tal “espírito de missão”, é similar às “causas” à molhada. Há consumidores destas, como já vimos, que estão sempre, durante anos a fio, possuídos por estranhas forças verbais, o que terá porventura a ver com aquilo que misturam no tabaco.

Ora, também por isto, porque fumo exclusivamente tabaco, devo declarar que eu cá nunca fui muito dado a “causas” em geral, em série ou (muito menos) a granel. Tive na vida uma só, única, verdadeira Causa: a luta contra o AO90. Portanto, ou por dever de ofício, e apenas porque assim calhou, jamais me meti em outros assuntos, militantemente falando, além da ILC-AO.

Zippo2Claro que, esporadicamente e como toda a gente, lá fui tropeçando amiúde em outras coisas (mas não em causas) às quais dediquei alguma atenção. Não contam para o caso, concluamos, visto que a esta Causa única me dediquei e dedicarei ainda enquanto e quanto for capaz.

Mas de facto a questão permanece, que diabo, sempre fez imensa confusão a muita gente como raio tinha aparecido um tipo qualquer “à frente” desta Iniciativa Legislativa de Cidadãos. Porque, na verdade, não vale a pena dourar a pílula, um dos maiores problemas da dita ILC fui eu mesmo, o seu nada ilustre e totalmente desconhecido mentor.

Precisamente: eu. Se em vez de mim “à frente” da iniciativa estivesse alguém como Miguel Esteves Cardoso, “nosso” MEC, ou um outro nome ainda mais veterano (e venerável), Pedro Tamen, por exemplo, bem, pois com certeza, nesse caso outro galo cantaria, o pessoal mui naturalmente adora seguir um líder, mas que esse líder seja gente de algo, garantia à cabeça — literalmente — de que de sua ilustre cabeça jorrarão ideias em tropel e prestígio a rodos e brilho aspergido por todos em volta.

Mas, ai, assim, tendo calhado ser um tipo vulgaríssimo a encabeçar a Iniciativa, a coisa só poderia mesmo tornar-se difícil, problemática, penosa, arrastada e até aborrecida. De mais a mais tendo o tal tipo qualquer, isto é, eu, um feitio universalmente reconhecido como “lixadíssimo”, enfim, convenhamos, a coisa nunca esteve fácil neste não primordial mas algo relevante aspecto.

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