Dia: 25 de Dezembro, 2015

Ardeu a língua “passada dos carretos”? [por Rui Valente]

alx_incendio-luz-20151221-05_originalNo passado dia 21 o Museu da Língua Portuguesa, que ocupa uma parte significativa da Estação da Luz em São Paulo, foi destruído por um incêndio. Foi um acontecimento trágico, desde logo por ter sido a causa da morte de um bombeiro, mas também pelo interesse arquitectónico daquela estação ferroviária com mais de cem anos.

Quanto ao acervo propriamente dito, diz a responsável pelo Museu que não será difícil repô-lo, tendo em conta que é inteiramente digital e existem cópias de segurança dos documentos expostos.

Assim sendo, imagino que o custo da recuperação do Museu deva incidir, na sua maior parte, nas obras de reconstrução do edifício. De seguida, virão os custos da reposição do hardware — computadores, vídeo-projectores, painéis, equipamento de luz e som e reimpressão dos painéis da exposição permanente. Tanto quanto me lembro, o maior destes écrans vídeo tinha mais de cem metros de comprimento.

No próprio dia do incêndio o Ministro da Cultura de Portugal fez uma importante declaração, anunciando que o seu Ministério fará tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo a recuperar o Museu.

Não sei se João Soares já visitou a Estação da Luz ou, em caso afirmativo, se terá visto o mesmo Museu que eu vi.

O Museu que eu vi, apesar do nome que lhe deram, não é um Museu da Língua Portuguesa. É um Museu do Português do Brasil. Toda a lógica do Museu gira em torno dessa variante da Língua Portuguesa: a História que se conta é a da viagem da Língua até ao Brasil, as influências que o Português do Brasil sofreu do Espanhol, do Francês, do Inglês, do Tupi-Guarani e de outras línguas. Deixando de lado as línguas indígenas cuja influência no Português Europeu é residual, mesmo o Francês, o Inglês e o Espanhol deixaram marcas que são substancialmente diferentes no Brasil, em Portugal e nos restantes países de expressão oficial portuguesa. O espaço de confronto entre estas diversas variantes do Português, que seria o coração de um verdadeiro Museu da Língua Portuguesa, é reduzido ao estatuto de “curiosidades” do Português Europeu e remetido para um pequeno painel de meio metro de largura, onde se diz aos visitantes que “perder a paciência”, em Portugal, é “passar dos carretos”.

Como é óbvio, o Brasil tem toda a legitimidade para fazer um Museu do Português do Brasil — afinal, o Museu ESTÁ no Brasil e é um museu brasileiro. Nada disto belisca a sua qualidade enquanto museu. A Estação da Luz continuará certamente a ser passagem obrigatória no roteiro de quem visita São Paulo. Nada disto invalida sequer as palavras de João Soares, que traduziu da melhor maneira a solidariedade que a todos obriga um momento de dificuldade vivido por quem nos é próximo.

Mas é também verdade que a Língua Portuguesa é uma área em que os portugueses costumam pensar mais com o coração do que com a razão — o que é particularmente verdade num momento de grande emoção como este. Pela parte que me toca, e por muito que goste do Português do Brasil, não consigo embarcar no provincianismo acrítico que me faz visitar um Museu e não perceber sequer que os seus promotores não acertaram no nome do dito.

Ou se calhar acertaram… e acham que, sendo o Português do Brasil a variante mais utilizada, deve ser essa a linha mestra definidora do Museu. Ou, pior ainda, já perceberam que, com a ajuda do Acordo Ortográfico, mais tarde ou mais cedo o Português do Brasil deixará de ser uma variante para passar a ser A Língua Portuguesa… e o Museu acabará finalmente por ter o nome certo, sem ter de mudar nada.

Rui Valente

[Imagem de: revista Veja]

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