Ardeu a língua “passada dos carretos”? [por Rui Valente]

alx_incendio-luz-20151221-05_originalNo passado dia 21 o Museu da Língua Portuguesa, que ocupa uma parte significativa da Estação da Luz em São Paulo, foi destruído por um incêndio. Foi um acontecimento trágico, desde logo por ter sido a causa da morte de um bombeiro, mas também pelo interesse arquitectónico daquela estação ferroviária com mais de cem anos.

Quanto ao acervo propriamente dito, diz a responsável pelo Museu que não será difícil repô-lo, tendo em conta que é inteiramente digital e existem cópias de segurança dos documentos expostos.

Assim sendo, imagino que o custo da recuperação do Museu deva incidir, na sua maior parte, nas obras de reconstrução do edifício. De seguida, virão os custos da reposição do hardware — computadores, vídeo-projectores, painéis, equipamento de luz e som e reimpressão dos painéis da exposição permanente. Tanto quanto me lembro, o maior destes écrans vídeo tinha mais de cem metros de comprimento.

No próprio dia do incêndio o Ministro da Cultura de Portugal fez uma importante declaração, anunciando que o seu Ministério fará tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo a recuperar o Museu.

Não sei se João Soares já visitou a Estação da Luz ou, em caso afirmativo, se terá visto o mesmo Museu que eu vi.

O Museu que eu vi, apesar do nome que lhe deram, não é um Museu da Língua Portuguesa. É um Museu do Português do Brasil. Toda a lógica do Museu gira em torno dessa variante da Língua Portuguesa: a História que se conta é a da viagem da Língua até ao Brasil, as influências que o Português do Brasil sofreu do Espanhol, do Francês, do Inglês, do Tupi-Guarani e de outras línguas. Deixando de lado as línguas indígenas cuja influência no Português Europeu é residual, mesmo o Francês, o Inglês e o Espanhol deixaram marcas que são substancialmente diferentes no Brasil, em Portugal e nos restantes países de expressão oficial portuguesa. O espaço de confronto entre estas diversas variantes do Português, que seria o coração de um verdadeiro Museu da Língua Portuguesa, é reduzido ao estatuto de “curiosidades” do Português Europeu e remetido para um pequeno painel de meio metro de largura, onde se diz aos visitantes que “perder a paciência”, em Portugal, é “passar dos carretos”.

Como é óbvio, o Brasil tem toda a legitimidade para fazer um Museu do Português do Brasil — afinal, o Museu ESTÁ no Brasil e é um museu brasileiro. Nada disto belisca a sua qualidade enquanto museu. A Estação da Luz continuará certamente a ser passagem obrigatória no roteiro de quem visita São Paulo. Nada disto invalida sequer as palavras de João Soares, que traduziu da melhor maneira a solidariedade que a todos obriga um momento de dificuldade vivido por quem nos é próximo.

Mas é também verdade que a Língua Portuguesa é uma área em que os portugueses costumam pensar mais com o coração do que com a razão — o que é particularmente verdade num momento de grande emoção como este. Pela parte que me toca, e por muito que goste do Português do Brasil, não consigo embarcar no provincianismo acrítico que me faz visitar um Museu e não perceber sequer que os seus promotores não acertaram no nome do dito.

Ou se calhar acertaram… e acham que, sendo o Português do Brasil a variante mais utilizada, deve ser essa a linha mestra definidora do Museu. Ou, pior ainda, já perceberam que, com a ajuda do Acordo Ortográfico, mais tarde ou mais cedo o Português do Brasil deixará de ser uma variante para passar a ser A Língua Portuguesa… e o Museu acabará finalmente por ter o nome certo, sem ter de mudar nada.

Rui Valente

[Imagem de: revista Veja]

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2 Comments

  1. Sobre o que diz João Soares, transcrevo aqui o comentário que na altura fiz no meu “mural” FB.

    «Em declarações à Agência Lusa, João Soares disse tratar-se de “um acontecimento trágico, absolutamente lamentável” naquele que “era seguramente o mais importante Museu de Língua Portuguesa no mundo, com uma dinâmica assinalável”.»

    Não entendo mesmo. “O mais importante museu de Língua Portuguesa no mundo”? Mas existe outro “museu de Língua Portuguesa no mundo” além daquele?

    Aliás, existem outros museus de qualquer outra Língua no mundo? Onde é o museu da Língua Inglesa? E o de Língua Francesa? E os museus de Mandarim, Árabe, Hindi, Bengali, Russo, Japonês? Onde são?

    Que eu saiba, mas deve ser ignorância minha, a coisa mais remotamente parecida com aquela fábrica de propaganda foi criada na Argentina em 2011 e não serve para enganar ninguém, tem intenções perfeitamente claras e definidas:
    «La presidenta argentina, Cristina Fernández, encabezó en Buenos Aires la inauguración oficial del primer museo de la lengua española de América Latina, un centro que va a dedicar una especial atención a la evolución histórica y las particularidades del idioma en Argentina.»

  2. O remate é certeiro. O propósito de apropriação do português é inegável.
    João Soares é um imbecil chapado.

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