Mês: Dezembro 2015

Uma história (muito) mal contada [XXVII]

Tipo grafia

 

Mas quem és tu, pá?

Foi com esta delicadíssima pergunta que, certo dia, em certo evento público, incerto rufia me interpelou.

E de facto a encanitante questão faz sentido, visto que terá causado incómodo a alguns, intrigado outros e indignado até bastantes: quem será este tipo que lançou a ILC-AO, de onde veio ele, que diabo de currículo terá para se “arrogar” semelhante “direito”?

Pois bem, vamos a isso, desfaçamos então as prementes dúvidas, desencanitemos a questão, aliviemos desagradáveis sensações de incómodo, tiremos, em suma, o pipo à bóia da indignação: quem é afinal o tipo, hã?


 

bandeira_papel1Aqui está uma bandeirinha em papel que tem a particularidade de ser muito viajada: fez mais de 26.000 quilómetros. Levei-a comigo para Timor e comigo regressou de Timor a penates, com passagens por Londres, Singapura e Darwin.

Fui um dos 144 professores de Português que fizeram o mesmo trajecto, no já longínquo ano 2000. À partida, no aeroporto de Lisboa, estava o então Ministro da Educação, que se lembrou de perguntar à minha bandeirinha se ela e eu íamos para Timor “com espírito de missão”.

Timor_ASS— Não, não, nada disso. Vou para Timor porque em Portugal não tenho colocação, tal como outros trinta e cinco mil “profes”.

Alguns jornalistas perguntavam sistematicamente a mesma coisa, como se o tal “espírito de missão” fosse obrigatório, “tipo” validar o passaporte ou ter em dia todas as 13 vacinas necessárias. Respondi sempre, se bem que me palpite ter sido o único na ocasião, que não, não sou missionário, vou para lá porque não tenho vaga aqui.

Esta coisa que alguns dizem apenas “da boca para fora”, o tal “espírito de missão”, é similar às “causas” à molhada. Há consumidores destas, como já vimos, que estão sempre, durante anos a fio, possuídos por estranhas forças verbais, o que terá porventura a ver com aquilo que misturam no tabaco.

Ora, também por isto, porque fumo exclusivamente tabaco, devo declarar que eu cá nunca fui muito dado a “causas” em geral, em série ou (muito menos) a granel. Tive na vida uma só, única, verdadeira Causa: a luta contra o AO90. Portanto, ou por dever de ofício, e apenas porque assim calhou, jamais me meti em outros assuntos, militantemente falando, além da ILC-AO.

Zippo2Claro que, esporadicamente e como toda a gente, lá fui tropeçando amiúde em outras coisas (mas não em causas) às quais dediquei alguma atenção. Não contam para o caso, concluamos, visto que a esta Causa única me dediquei e dedicarei ainda enquanto e quanto for capaz.

Mas de facto a questão permanece, que diabo, sempre fez imensa confusão a muita gente como raio tinha aparecido um tipo qualquer “à frente” desta Iniciativa Legislativa de Cidadãos. Porque, na verdade, não vale a pena dourar a pílula, um dos maiores problemas da dita ILC fui eu mesmo, o seu nada ilustre e totalmente desconhecido mentor.

Precisamente: eu. Se em vez de mim “à frente” da iniciativa estivesse alguém como Miguel Esteves Cardoso, “nosso” MEC, ou um outro nome ainda mais veterano (e venerável), Pedro Tamen, por exemplo, bem, pois com certeza, nesse caso outro galo cantaria, o pessoal mui naturalmente adora seguir um líder, mas que esse líder seja gente de algo, garantia à cabeça — literalmente — de que de sua ilustre cabeça jorrarão ideias em tropel e prestígio a rodos e brilho aspergido por todos em volta.

Mas, ai, assim, tendo calhado ser um tipo vulgaríssimo a encabeçar a Iniciativa, a coisa só poderia mesmo tornar-se difícil, problemática, penosa, arrastada e até aborrecida. De mais a mais tendo o tal tipo qualquer, isto é, eu, um feitio universalmente reconhecido como “lixadíssimo”, enfim, convenhamos, a coisa nunca esteve fácil neste não primordial mas algo relevante aspecto.

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Mais um lobby “com os políticos”

bbc-brPortugal quer liberdade de circulação e residência entre países lusófonos; Brasil enxerga ideia com cautela

BBC BRASIL.com
18 dez 2015 -12h28

O novo governo português quer derrubar a necessidade de visto e estabelecer a liberdade de circulação e residência para os cidadãos dos Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Uma iniciativa que o Brasil, por enquanto, trata com cautela e fora de suas prioridades momentâneas.

O projeto é detalhado oficialmente no programa de governo apresentado pelo Partido Socialista luso [pg 86 e seguintes, nota de JPG], que assumiu o poder em novembro, e já foi defendido em diversas ocasiões pelo recém-empossado primeiro-ministro António Costa.

“A autorização de residência garante a liberdade de circulação. É preciso eliminar barreiras, que tantas vezes têm dificultado não só o contato das famílias, como o desenvolvimento econômico e o contato cultural (entre esses países)”, argumenta Costa.

A proposta de derrubar as fronteiras no bloco lusófono também ganha força no setor empresarial. Em um fórum que acontece nesta quinta e sexta-feira, em Braga (Norte de Portugal), a Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP) garantiu que reforçará o coro pela liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais entre os Estados-membros.

“Precisamos de mobilidade, da livre circulação. Estamos fazendo um lobby persistente com os políticos para que isso aconteça. Nossa proposta é muito simples: abram as vias que os empresários farão o resto”, promete o moçambicano Salimo Abdula, presidente da CE-CPLP.

Itamaraty

Coordenador-geral para a CPLP do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, o diplomata Paulo André Moraes de Lima explica à BBC Brasil que o país não enxerga o bloco lusófono como uma nova versão da União Europeia ou do Mercosul, e sim com funções mais próximas a organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) ou a Secretaria-Geral Ibero-americana (Segib).

“Nós entendemos a CPLP como um importante foro de concertação política e diplomática, bem como uma plataforma de cooperação e de difusão e promoção da língua portuguesa, nos moldes de uma organização multilateral convencional, e não como um organismo com vocação supranacional”, argumenta Lima, que também não se mostra entusiasmado com as promessas do empresariado lusófono.

“O mesmo raciocínio se aplica para a circulação de bens e serviços. Nesse aspecto, nossas prioridades estão claramente no foro da OMC (Organização Mundial do Comércio) e nas negociações no âmbito do Mercosul, intra e extra-bloco”, explica à BBC Brasil o diplomata.

Apesar do posicionamento contido sobre as propostas portuguesas, o alto funcionário do Itamaraty para a CPLP confirma que a circulação de pessoas tem sido um tema recorrente na agenda do bloco e admite que “tecnicamente não há nenhum impedimento para que o assunto avance”.
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Atrasos (…) do Brasil são culpa dos portugueses

logo-tsfAtrasos na educação do Brasil são culpa dos portugueses

É a opinião do ex-presidente brasileiro, Lula da Silva, que responsabilizou Álvares Cabral e os primeiros colonos por nunca terem criado uma universidade no país.

O ex-presidente do Brasil Lula da Silva culpabilizou esta sexta-feira a colonização portuguesa pelos atrasos na educação brasileira, afirmando que Álvares Cabral descobriu o país em 1500 e a primeira universidade brasileira apenas foi criada em 1922.

“Eu sei que isto não agrada aos portugueses, mas Cristóvão Colombo chegou a Santo Domingo [actual República Dominicana] em 1492 e em 1507 já ali tinha sido criada a Universidade. No Peru em 1550, na Bolívia em 1624. No Brasil a primeira universidade surgiu apenas em 1922”, disse hoje Lula da Silva, numa conferência em Madrid, organizada pelo diário El País.

Para Lula da Silva, que comparou as atitudes dos países colonizadores Espanha e Portugal nas respectivas áreas de influência, este facto “justifica os atrasos na educação do Brasil”.

A primeira universidade brasileira foi a Universidade do Rio de Janeiro, que resultou na junção das Faculdades de Medicina, Direito e Engenharia. Ao contrário de outras ocasiões, Lula da Silva não referiu que as bases do Ensino Superior brasileiro foram lançadas muito antes, no final de século XVII e XVIII.

Em 1792, foi criada a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, instituição de ensino superior precursora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1808 foi criada a Faculdade de Medicina da Baía, na sequência da chegada ao Brasil da Coroa portuguesa.

O Brasil tornou-se independente de Portugal em 1822.

A argumentação de Lula da Silva em Madrid visava sobretudo as “elites brasileiras” dos últimos 100 anos, em comparação com o “legado” dos seus anos à frente do Brasil. Lula argumenta que o seu Governo triplicou o orçamento da Educação, construiu 18 novas universidades federais, 173 novos “campus” no interior do Brasil e três vezes mais escolas técnicas do que últimos 100 anos.

Atrasos na educação do Brasil são culpa dos portugueses – Internacional – TSF Rádio Notícias, 11.12.15

O acordo adormecido [por Isabel Coutinho Monteiro]

IMC_picbadge2No rescaldo do período de discussão, expectativa, resolução e inconformação de uns, resignação de outros e júbilo de alguns, em torno das legislativas de 4 de Outubro, o foco passa lentamente para as presidenciais. Um pouco hesitantes, os seis candidatos começam a expor as suas ideias e convicções, deixando transparecer o receio de que não correspondam às do eleitorado.

Essa insegurança está bem patente, por exemplo, nas declarações sobre a posição de cada um relativamente ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90). À excepção de um dos candidatos, todos dizem estar contra, mas depressa se verifica que o que dizem nem sempre corresponde ao que praticam. Pois é, falar é fácil! Mas o eleitorado já não se contenta com aquilo que ouve. Vai ler, procurar, verificar se é verdade.

Uma busca rápida pelos blogues e sítios das sedes de campanha para as presidenciais, na Internet, é o bastante para se perceber que o AO90 está como que adormecido nas declarações dos candidatos aos órgãos da comunicação social, mas acordado ou semi-acordado nos seus textos. Este tratamento diversificado da ortografia, conforme as conveniências, pode muito bem ser um reflexo daquilo que se pode esperar de um futuro Presidente da República que assim se comporta enquanto candidato.

O AO90 tem, de facto, a estranha característica de dormitar por períodos mais ou menos prolongados para, de repente, sem que ninguém perceba porquê, acordar com grande espalhafato perante a estupefacção geral.

Foi o que aconteceu em 2008, quando o Diário da República publicou, na mesma data – 29 de Julho – o Decreto Presidencial n.º 52/2008, assinado pelo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, a 21 de Julho do mesmo ano, ratificando o Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, e a Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, que aprova o mesmo Protocolo a 16 de Maio desse mesmo ano. O hiato que decorre entre a assinatura da RAR 35/2008 e a sua publicação em Diário da República, na mesma data em que é publicado o DPR 52/2008, parece sugerir que o assunto adormeceu temporariamente para acordar reforçado por dois diplomas.

ICM_ilcaoIsabel Coutinho Monteiro
14 de Dezembro de 2015

De 6 candidatos presidenciais, só Marcelo é acordista

Observador_logo

Ninguém arrisca. Candidatos presidenciais contra nova grafia

O Novo Acordo Ortográfico é um tema que ainda levanta debate hoje em dia, apesar de já ter entrado em vigor em 2009. Marisa Matias e Henrique Neto são dois candidatos que se mostram contra o Acordo.

“Não sou a favor do Acordo”, “contra o Acordo Ortográfico”, “tem de ser feita uma reavaliação”. São as posições de Marisa Matias, Henrique Neto e Maria de Belém Roseira, respectivamente. Um dos cartazes de Maria de Belém, inclusive, apresenta a antiga grafia: “Belém, a força de carácter”.

Foi assinado em 1990, estava Cavaco Silva à frente do Governo. Foi ratificado por Portugal, Brasil e Cabo Verde em 1996, era António Guterres primeiro-ministro. Entrou em vigor em 2009 e, no sistema educativo, em 2011 – ainda José Sócrates estava a governar. Os documentos oficiais do Estado já são escritos desta forma. Estes são apenas alguns dos passos pelos quais passou o Novo Acordo Ortográfico, e já lá vão 25 anos desde que foi assinado por Cavaco Silva. E, ainda assim, continua a não ser uma matéria consensual. Mesmo alguns dos candidatos presidenciais se mostram contra o Acordo.

 Henrique Neto é “contra o Novo Acordo Ortográfico”. Este candidato presidencial continua a “usar a antiga grafia”, tanto “pessoalmente”, como nos “textos de campanha”, algo que se pode constatar nos textos do site do candidato presidencial, em que ‘objectivos‘ ainda se escreve assim, como antes do Novo Acordo. Esta é a sua “decisão política” em relação ao Acordo Ortográfico que entrou em vigor em 2009.

Quando a questão lhe é colocada, Marisa Matias é directa: “Não sou a favor do acordo. Entendo que e língua evoluiu não por decreto e sim pela prática“. Na opinião da candidata do Bloco de Esquerda “há várias formas de falar português”, é algo que “depende do contexto” e, nesse sentido, Marisa Matias não pensa “que seja necessário um decreto que harmonize a língua”. Até porque, acrescenta, “a língua foi evoluindo ao longo dos séculos”, foi uma “evolução cultural”. Assim, Matias não concorda com uma evolução do português “por imposição”. Com esta posição, e como refere a candidata presidencial, Marisa Matias não se revê na posição do Bloco de Esquerda: “A minha posição é minoritária dentro do Bloco”. Apesar disto, os textos do site da candidata presidencial encontram-se escritos ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico: por exemplo “projetos“.

O BE é a favor do AO, no entanto, por considerar que isso ajudará a língua portuguesa “a ter outra afirmação do mundo”.

Por outro lado, o site de Maria de Belém Roseira está escrito de acordo com a antiga grafia da língua portuguesa. Exemplo disso são as palavras “directo” ou “objectivos” que, de acordo com o Novo Acordo Ortográfico, são agora escritas sem o ‘c’. Quando o Observador quis perceber qual a posição da candidata em relação ao Acordo, foi remetido para uma entrevista que Maria de Belém concedeu ao Expresso, no final de Outubro: “Tem de ser feita uma reavaliação do Acordo Ortográfico”. Importa “verificar se foram atingidos” os objectivos sob os quais o Acordo foi assinado. E, na altura, Maria de Belém relembrou que “Angola e Moçambique ainda não aderiram e o Brasil adoptou uma moratória”.

Edgar Silva actua da mesma forma que Maria de Belém e Henrique Neto. No seu sítio na Internet, o candidato presidencial apoiado pelo PCP também faz campanha com a grafia anterior ao Novo Acordo: “extracção” e “ruptura” são dois exemplos. Edgar Silva que tem “reservas ao Acordo Ortográfico de 1990, não incorporando nas mesmas as alterações ortográficas introduzidas”. O candidato coloca mesmo em cima da mesa uma desvinculação do nosso país em relação ao Novo Acordo: “Conhecidas que são opiniões divergentes e as reticências de alguns países na sua aplicação, não pode deixar de ser ponderada a necessidade de alterações profundas no processo de elaboração e dos conteúdos do AO90 ou mesmo uma eventual desvinculação de Portugal”.

Já os candidatos Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa apresentam as duas grafias nos seus sites. Se num texto sobre um jantar de Marcelo Rebelo de Sousa a palavra ‘diretor’ está escrita com a antiga grafia – “director” – num outro sobre a homenagem do candidato às vítimas dos atentados de Paris, a 13 de Novembro, a palavra ‘projetar’ está escrita assim mesmo, com a grafia actual.

Sampaio da Nóvoa apresenta a mesma dupla grafia. Se um texto incluiu a palavra ‘objetivo‘ sem o ‘c’, um outro apresenta “óptimas” com ‘p’ da grafia antiga.

Contactadas pelo Observador, as candidaturas presidenciais de Marcelo Rebelo de Sousa e António Sampaio da Nóvoa não quiseram esclarecer qual a posição que vincula o respectivo candidato.

*Texto editado por Helena Pereira

[Notícia “Observador”, 13.12.15 – 17:30 h. Transcrição integral, incluindo “links”. Corrigi os termos estropiados pelo acordismo militante daquele jornal “online”. Os “links” a vermelho foram adicionados por mim.]

Candidata Marisa Matias contra o AO90

MarisaMatias_NAOSe a Menina Marisa tiver um “poucochinho” de tempo no “interrogatório” fale-nos da sua visão sobre o acordo ortográfico. É a favor ? É contra? É a dialogar que a gente se entende. É um faCto, não acha ? Até logo . às (20h50).

Marisa Matias Sou contra. Acho que a língua não muda por decreto. É por isso que continuo a escrever sem as normas do acordo.

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[Página Facebook de Marisa Matias]

Henrique Neto e Sampaio da Nóvoa, igualmente candidatos à Presidência da República, também já se pronunciaram negativamente em relação ao “acordo ortográfico”.