Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Uma história (muito) mal contada [XXVII]

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Mas quem és tu, pá?

Foi com esta delicadíssima pergunta que, certo dia, em certo evento público, incerto rufia me interpelou.

E de facto a encanitante questão faz sentido, visto que terá causado incómodo a alguns, intrigado outros e indignado até bastantes: quem será este tipo que lançou a ILC-AO, de onde veio ele, que diabo de currículo terá para se “arrogar” semelhante “direito”?

Pois bem, vamos a isso, desfaçamos então as prementes dúvidas, desencanitemos a questão, aliviemos desagradáveis sensações de incómodo, tiremos, em suma, o pipo à bóia da indignação: quem é afinal o tipo, hã?


 

bandeira_papel1Aqui está uma bandeirinha em papel que tem a particularidade de ser muito viajada: fez mais de 26.000 quilómetros. Levei-a comigo para Timor e comigo regressou de Timor a penates, com passagens por Londres, Singapura e Darwin.

Fui um dos 144 professores de Português que fizeram o mesmo trajecto, no já longínquo ano 2000. À partida, no aeroporto de Lisboa, estava o então Ministro da Educação, que se lembrou de perguntar à minha bandeirinha se ela e eu íamos para Timor “com espírito de missão”.

Timor_ASS— Não, não, nada disso. Vou para Timor porque em Portugal não tenho colocação, tal como outros trinta e cinco mil “profes”.

Alguns jornalistas perguntavam sistematicamente a mesma coisa, como se o tal “espírito de missão” fosse obrigatório, “tipo” validar o passaporte ou ter em dia todas as 13 vacinas necessárias. Respondi sempre, se bem que me palpite ter sido o único na ocasião, que não, não sou missionário, vou para lá porque não tenho vaga aqui.

Esta coisa que alguns dizem apenas “da boca para fora”, o tal “espírito de missão”, é similar às “causas” à molhada. Há consumidores destas, como já vimos, que estão sempre, durante anos a fio, possuídos por estranhas forças verbais, o que terá porventura a ver com aquilo que misturam no tabaco.

Ora, também por isto, porque fumo exclusivamente tabaco, devo declarar que eu cá nunca fui muito dado a “causas” em geral, em série ou (muito menos) a granel. Tive na vida uma só, única, verdadeira Causa: a luta contra o AO90. Portanto, ou por dever de ofício, e apenas porque assim calhou, jamais me meti em outros assuntos, militantemente falando, além da ILC-AO.

Zippo2Claro que, esporadicamente e como toda a gente, lá fui tropeçando amiúde em outras coisas (mas não em causas) às quais dediquei alguma atenção. Não contam para o caso, concluamos, visto que a esta Causa única me dediquei e dedicarei ainda enquanto e quanto for capaz.

Mas de facto a questão permanece, que diabo, sempre fez imensa confusão a muita gente como raio tinha aparecido um tipo qualquer “à frente” desta Iniciativa Legislativa de Cidadãos. Porque, na verdade, não vale a pena dourar a pílula, um dos maiores problemas da dita ILC fui eu mesmo, o seu nada ilustre e totalmente desconhecido mentor.

Precisamente: eu. Se em vez de mim “à frente” da iniciativa estivesse alguém como Miguel Esteves Cardoso, “nosso” MEC, ou um outro nome ainda mais veterano (e venerável), Pedro Tamen, por exemplo, bem, pois com certeza, nesse caso outro galo cantaria, o pessoal mui naturalmente adora seguir um líder, mas que esse líder seja gente de algo, garantia à cabeça — literalmente — de que de sua ilustre cabeça jorrarão ideias em tropel e prestígio a rodos e brilho aspergido por todos em volta.

Mas, ai, assim, tendo calhado ser um tipo vulgaríssimo a encabeçar a Iniciativa, a coisa só poderia mesmo tornar-se difícil, problemática, penosa, arrastada e até aborrecida. De mais a mais tendo o tal tipo qualquer, isto é, eu, um feitio universalmente reconhecido como “lixadíssimo”, enfim, convenhamos, a coisa nunca esteve fácil neste não primordial mas algo relevante aspecto.

Afinal, caramba, terei de modestamente o reconhecer, não sendo de minha graça Rui Santos, ainda por exemplo, e não sendo, por conseguinte, um “defensor incansável das causas supremas (do futebol)“, então não apenas ninguém sabe quem sou como não tenho qualquer espécie de currículo na indústria das “causas” como ainda, para findar, não vivo no Bairro do Restelo, não frequento qualquer areópago chique nem tertúlias finas nem possuo lugar reservado com talher posto no Gambrinus. Só defeitos, portanto, dos quais sou o único culpado e pelos quais deveria penalizar-me amargamente, quiçá chicotear-me a cavalo-marinho pelas  madrugadas frias ou adornar-me de andrajos e pendurar um baraço ao pescoço, qual Egas Moniz, o aio, sacrifícios estes que me não apetecem porque, cá está, tenho mesmo um feitio lixado e portanto não sou muito dado a masoquismos.

Também não alinho em cunhas, outra agravante, nem em bajulações, olha, outra, valha-me Deus, isto já mais parece um cardápio de defeitos, é só escolher, ora realmente, com um tipo assim como diabo queriam vossemecês que a ILC singrasse, hã?

Pois parece que o tipo, hã, não passa afinal de um tipo como outro qualquer. Certo dia, porque ninguém fazia nada, esse tipo resolveu fazer alguma coisa. O tipo é só isto, hã, nada mais.

Desde o primeiro dia estive perfeitamente consciente desta espécie de tuga fatalidade, a falta de uma estrela ao alto embota gentes e paralisa vontades. De tal forma que fiz todos os possíveis para, na minha qualidade de mentor da ILC-AO, correr comigo mesmo para fora da mesma. Sabendo que era um empecilho e até, para algumas pessoas mais dilatadas, digamos assim, que estava sendo de alguma forma motivo de embaraço, procurei sempre encontrar uma alternativa à minha apagadíssima pessoa. Se necessário, sacrificando a própria Iniciativa: pois sim, se o problema consiste em estar eu “à frente” da ILC, então, por quem sois, avancem vossemecês com ela, ou façam outra, tanto faz, o que é preciso é que façam alguma coisa, com cem mil raios!

—– Original Message —–
From: joao.graca[at]netcabo.pt
To: **********@sapo.pt
Sent: Tuesday, March 01, 2011 8:15 PM
Subject: Re: MURO DE SILÊNCIO

(…)

«Por fim – desculpe-me a pergunta descabida –, precisa a I.L.C. de fracassar para haja alguém poderoso que atalhe eficazmente contra o aborto gráfico, nem que seja para ficar com os louros? É que essa ambição nós não a temos.»

E sobre isto, finalmente: pois é, companheiro, acertou mais uma vez em cheio. É realmente necessário que alguém se imole (adivinhe quem) e que assuma sozinho a responsabilidade pelo fracasso para que, então sim, surja algum salvador da Pátria cheio de trunfos na manga e com soluções a granel até para a carestia e a crise internacional, se for preciso. Porque diabo não apareceu esse “encoberto” até agora será um mistério insondável e irresolúvel, mas haja ao menos esperança. Passei estes dois últimos anos a aturar génios cheios de ideias e vazios de acções, pode ser que este seja o pretexto ideal, o empurrãozinho que faltava para que finalmente os génios avancem com as suas geniais ideias.

Uma das coisas que acho ainda não ter referido antes e que vem completar o rol de muitos “contras” e de quase nenhuns “prós” nesta luta: não tenho feitio para bajulações nem para pedir seja o que for seja a quem for. Infelizmente, é nesses dois pilares fundamentais que se fundamenta a vida social portuguesa; logo, como a recusa em ceder a nepotismo, amiguismo, seguidismo e nacional-porreirismo foi minha, é justo que seja eu o único crucificado por a coisa não ter vingado.

Seja, então. Que ao menos isso sirva para alguma coisa de perene.

Trata-se de intenção antiga, note-se, esta espécie de despojamento militante, o que poderá talvez servir-me de atenuante para o mais do que óbvio atrevimento da acção e, se calhar, havendo boa vontade por parte dos meus algo severos porém correctíssimos juízes de estirpe e linhagem, poderei modestamente alegar em minha defesa este despretensioso argumento.

Pois quantas vezes vos pedi, camaradas, que me livrásseis de tão pesado fardo, que arranjásseis uma alternativa, alguém “de algo” que servisse para “rosto” do movimento?

Mas as coisas são como são, como sabeis perfeitamente, camaradas. Nenhuma “estrela” se chegou à frente, que azar.

Ou terá sucedido algo ainda pior do que o azar. Como lá diziam os Antigos, em sua belíssima linguagem de Senado, “Hoc tempore obsequium amicos, veritas odium parit”  (Terencio, 194-150 a.C.), ou seja, usemos um tradutório escantilhão para a respectiva transcrição, nos tempos que vão correndo o servilismo gera amigos, a verdade gera ódio.

O que é aborrecido, convenhamos, porque se do ódio ninguém foge, de alguns “amigos” há muitas vezes que fugir.

De mais a mais num país como Portugal, cuja mais pujante indústria é a cunha, o tradicional compadrio. Aqui, à revelia da célebre lei de Lavoisier, nada se faz, nada se cria, nada se transforma sem o sistemático recurso à mágica fórmula “queria dar-lhe uma palavrinha” e nada se consegue sem o concurso, a cobertura, o patrocínio de “notáveis”, sejam estes (e estas) mais ou menos “sulistas, elitistas e liberais“, mas em todo o caso devendo ser o mais possível “figuras públicas” de excelsos recursos e, principalmente, possuindo relevantes “conhecimentos”…  pessoais.

Tudo aquilo que escape ou todo aquele que se mantenha alheio a esta antiquíssima rede de interesses está fatalmente condenado ao fracasso. Não de imediato, é claro, porque antes do fatal desfecho terá de passar por um longo processo de trituração social e de incineração pessoal, como forma de publicamente expiar seus imperdoáveis pecados cometidos contra o statu quo vigente. Processo este que será ainda pior caso o penitente se recuse a, no mínimo dos mínimos, comparecer em cerimónias de beija-mão preparadas com a finalidade de que ele aceite como boa a patranha da “união de esforços” e assim demonstre o seu sincero arrependimento, a sua embevecida admiração (e veneração) pela casta “superior”.

Quando sucessiva e sistematicamente procurei imolar-me, em sentido figurado ou não, em prol de uma Causa que a todos ultrapassa, tinha por intenção única provocar reacções — isto é, acções — para que outros tomassem a iniciativa e que assim se desfizesse o impasse em que a luta contra o AO90 se ia atolando. Essa auto-imolação implicava mesmo, por consequência, que passaria doravante a haver um bode expiatório: nada me daria mais alegria, devo confessar, do que arcar eu mesmo com todas as culpas por tudo o que de errado tinha sucedido (e até com o que de mal pudesse ainda vir a suceder) no movimento contra o “acordo”; mas isto, é claro, no pressuposto de que essa auto-imolação resultaria em pleno, quer dizer, que de facto originasse algo que radical e definitivamente aniquilasse o “acordês”.

Tal não sucedeu, como se sabe. O suicidário expediente não resultou e por conseguinte não pude refugiar-me na sombra, sequer um vislumbre de penumbra me concedeu o sentido do dever, essa estranha, íntima coisa a que vulgarmente se chama “espírito de missão” e que, por fim, existe mesmo quando vem do coração e não da boca.

Fui ficando, em suma. Sem beija-mão, para bode expiatório não servia.

Porém, um caprino da referida espécie não é boi manso. Portanto, marra.

Contar esta história é uma simples evidência desse natural reflexo.

[R1_271215]

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2 Comments

  1. Num país decente, o nome do primeiro subscritor não seria relevante. Podia ser um gajo qualquer. O primeiro que, por acaso, tivesse a ideia. E o resto do pessoal viria atrás, pois claro, ou não fosse este um assunto de superior interesse nacional, alheio a questões pessoais, partidárias, religiosas ou outras.

    Como “isto” é só um país assim-assim, o que aconteceu foi ligeiramente diferente: Quinze mil pessoas, de facto, souberam respeitar o superior interesse da causa e deixar de lado questões (forçosamente) menores. Mas outros ignoraram ostensivamente a Iniciativa, não se dignando sequer responder a apelos directos. Pacheco Pereira, Sérgio Godinho, Rodrigo Guedes de Carvalho, Manuel Alegre, Catarina Portas, Francisco Assis, Pedro Abrunhosa, para já não falar no referido MEC, e para nomear só alguns, tudo gente que deu publicamente a cara contra o AO mas que, por razões que só eles poderão explicar, não foram capazes de se associar à ILC.

    Num país assim, quinze mil assinaturas até nem é um mau resultado. Num país assim, desafiamos qualquer outro cidadão “normal”, ou mesmo uma “figura pública”, a conseguir um resultado melhor sem a ajuda de máquinas partidárias. Donde se prova que, no fim de contas, o gajo que deu início a esta ILC, afinal, poderá ser muita coisa — mas se há coisa que ele não é, definitivamente, é um gajo qualquer.

    1. Pedro Tamen recusou, aliás muito elegantemente, com bastas razões e não menor militância. Se pudesse, acho eu, teria encabeçado a iniciativa.

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