Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Mês: Janeiro 2016

Uma história (muito) mal contada [XXX]

vitral«Vejo, peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossos mares, me estais respondendo e convindo, que também nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas e muito maiores e mais perniciosas traições. E sobre o mesmo sujeito que defendeis, também podereis aplicar aos semelhantes outra propriedade muito própria; mas pois vós a calais, eu também a calo. Com grande confusão, porém, vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis, pois não o posso negar. Mas ponde os olhos em António, vosso pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano. E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser português, não era necessário ser santo.»

Para Memória Futura

[PMF], funcionando como acrónimo, serviu para ir guardando registos de  acontecimentos, eventos, documentos, factos aparentemente desgarrados e até algumas ideias dispersas que mais tarde muito provavelmente dariam jeito. Foi com base nestas memórias que se conseguiu contar (menos mal) a história da ILC contra o AO90.

Que terminou, cronologicamente falando, com o  “Fim”, a 19 de Junho de 2015.  Esse foi apenas mais um texto, contudo. Nada mais. Não foi, de todo, o fim da luta. Ou, na lapidar formulação de Winston Churchill, “Isto não é o fim. Não é sequer o princípio do fim. Mas é, talvez, o fim do princípio.

Podemos dizer, com propriedade, que se tratou afinal de uma saída honrosa. De facto, colocando a questão à maneira do inefável Pangloss, foi, dadas as circunstâncias, o que de melhor poderia ter acontecido: assim, do mal o menos, a ILC-AO não findou derrotada pelos acordistas; retirou-se “de cena”, simplesmente, no momento em que surgiu outra iniciativa. A qual, esta outra, fora apresentada pelos seus promotores como tendo um carácter igualmente cívico, ao que acresce o facto incontornável de a maioria dos subscritores, apoiantes e activistas da Iniciativa Legislativa ter-se alheado desta e ter-se passado, literalmente, para aquela “Iniciativa de Referendo“.

Ora, passando-se quase toda a gente para o lado daqueles que desde 2012 mantiveram a ILC debaixo de fogo cerrado, não poderia eu continuar praticamente sozinho a lutar por algo de que a maioria tinha gradualmente desistido. Apanhado de surpresa pelo lançamento do tal referendo, tinha de reagir com urgência: praticamente de um dia para o outro, informei os meus leais companheiros do que se estava a passar e por fim tomei a decisão de publicar o “Fim” da ILC-AO; contrariando a opinião de metade desses poucos resistentes, é certo, mas, na verdade, a nenhum dos objectores ocorreu qualquer espécie de alternativa. O que tem de ser tem muita força, lá diz o povo.

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Ideologia, viu?

MuseuLPshort

logo_FolhaSP

Literatura portuguesa naufraga no Brasil

Flora Bender Garcia e José Ruy Lozano

A proposta beira o absurdo. O Ministério da Educação, por meio do documento intitulado Base Nacional Comum Curricular, elimina a obrigatoriedade do estudo da literatura portuguesa, como se, até hoje, ela tivesse sido desnecessária à educação dos jovens que conseguiram terminar o ensino médio.

Desde a primeira proposta da reforma ortográfica agora vigente, o governo brasileiro argumentava a favor da padronização linguística, dadas as afinidades culturais e a unidade em torno da língua dos países de fala e escrita portuguesa.

A lusofonia, afinal. Falamos o mesmo idioma? Então somos irmãos. Linguistas, literatos, gramáticos, historiadores, intelectuais em geral não foram convidados ao debate. E hoje ocorre o mesmo com a discussão da base curricular. Quem elaborou as atuais propostas? Ninguém sabe, ninguém viu.

O projeto do MEC para o ensino da literatura nesse segmento apresenta inovações, já adotadas por alguns colégios menos formalistas, como a inversão temporal da sequência da história literária: os alunos do primeiro ano leriam autores contemporâneos e, nas séries seguintes, mais maduros e preparados, teriam contato com obras de períodos anteriores.

Também louvável é a ênfase ao estudo da contribuição dos países africanos de língua portuguesa e à cultura dos povos indígenas.

Como, porém, apagar Europa e Portugal de nossas origens? Tirando do mapa? Surgiram artigos, nem todos contundentes, sobre a base curricular, mais focados, porém, na área de história –e um tantinho na linguagem, na norma dita padrão e na gramática. O resto é silêncio.

É difícil imaginar uma justificativa para a discriminação da cultura europeia e da literatura portuguesa. Será que, mais uma vez, a seleção de conteúdos foi contaminada por um viés político e ideológico anacrônico?

Já que Portugal teria sido uma metrópole colonialista europeia que explorou as riquezas de suas colônias e escravizou populações negras e indígenas na América e na África, agora seria o momento de dar voz à cultura dos oprimidos, em detrimento da Europa elitista e opressora.

Escritores lúcidos e críticos ao processo político colonizador lusitano, como os portugueses José Saramago e António Lobo Antunes, não poderiam ser estudados por não serem africanos, tal qual o moçambicano Mia Couto.

A Base Nacional Comum Curricular cobre apenas um rol mínimo de informações e conceitos obrigatórios, a serem complementados com outros tantos conteúdos de cunho eletivo ou facultativo. Mas deveria o estudo da literatura portuguesa ser opcional? Camões e Fernando Pessoa, sem falar do Padre Antônio Vieira e de Eça de Queiroz, dependem agora do gosto e/ou da escolha de colégios ou professores?

Como compreender a cultura popular nordestina, suas canções, seus repentes, seus cantos de aboiar, sua literatura de cordel, sem reconhecer a presença da literatura medieval da Península Ibérica, em particular as cantigas trovadorescas e as novelas de cavalaria?

E “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, nada devem ao teatro humanista português de um Gil Vicente? Fugir ao diálogo Brasil/Portugal é negar origens e contextos produtivos.

A quem interessa mudar tanto o programa de literatura? Em que buraco negro estão as milhares de sugestões feitas por quem tem conhecimento da base curricular?

O que fazer com as toneladas de livros didáticos já oferecidas anteriormente pelo próprio MEC às escolas públicas e/ou compradas pelas famílias de alunos de escolas particulares? Como atualizar os professores que aprenderam literatura portuguesa, por vezes a duras custas?

Passaremos a ter melhores classificações nas avaliações internacionais sem a cultura europeia e a literatura portuguesa? Seremos mais finlandeses, talvez.

 

FLORA BENDER GARCIA é doutora em teoria literária e literatura comparada pela USP
JOSÉ RUY LOZANO é autor de livros didáticos e professor de produção textual do Instituto Sidarta

[Transcrição integral de artigo publicado pelo jornal “Folha de S. Paulo” (Brasil) em 28.01.16. Os destaques e sublinhados são meus.]

[Imagem (recorte) de: revista Veja]

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A Wikipédjia lusôfuna

Wikipedia República Federativa do Brasil
wikipediawaldirA chamada “Wikipédia Lusófona” já não é mistério nenhum: “lusófona” na capa, brasileira no conteúdo.

Com a aquiescência passiva de um ou outro mas, principalmente, com a colaboração activa de meia dúzia de portugueses, aquela espécie de enciclopédia virtual não passa, hoje em dia, de mero instrumento de difusão da Cultura brasileira e de simples máquina de propaganda do AO90. Máquina essa que, por conseguinte, (lhes) serve como dispositivo de intoxicação acordista.

Não era assim, de todo: durante alguns anos, desde a fundação da plataforma Wikipedia, coexistiram nela, sem qualquer problema, as duas versões normais: PT e PT-BR.

Então, afinal, como sucedeu a endlösung  da Wikipedia em Português-padrão?

Bem, a “solução final” foi decidida por um enorme universo de… 22 pessoas. Na imagem aqui ao lado estão os resultados de uma “votação” que determinou a extinção sumária do Português de Portugal na “Wikipédia Lusófona”; na citação em baixo está o respectivo relatório de extermínio.

No final, contabilizámos 17 opiniões favoráveis (incluindo as de três usuários que tinham votado contra a primeira proposta), quatro neutros e um voto contra. Apesar de não se ter conseguido a tão almejada unanimidade (possivelmente uma utopia, considerando o caráter controverso do tema), este resultado espelha uma muito maior convergência de opiniões do que o da primeira consulta.

Votação encerrada: Adoção faseada do Acordo Ortográfico na WP
Período de votação: 16 de agosto – 15 de setembro
A FAVOR: 17 — CONTRA: 1 — CONCLUSÃO: APROVADO

Porque aconteceu semelhante desgraça? Quando foram removidas todas as marcas distintivas da nossa ortografia? Desde quando começaram a ser demolidas e substituídas por conteúdos brasileiros as entradas respeitantes à Cultura portuguesa?

Vamos por partes. O “Livro de Estilo” daquela coisa reza assim:

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‘Os poderes do Maranhão’

Há ainda quem ponha em causa o carácter estrita e exclusivamente político do “acordo ortográfico”. Devido a este estranho fenómeno de renitente cepticismo em relação a tão espectacularmente flagrante evidência, continuamos a tropeçar amiúde em textos sobre as “incongruências” técnicas e as “inconsistências” ortográficas do dito “acordo”; pura perda de tempo (e feitio), conforme não me tenho cansado de repetir há já longos anos.

Com a devida vénia ao autor, reproduzo seguidamente um artigo, incluindo duas fotografias, que não apenas condensa em pouco tempo (e espaço) os factos históricos exactos,  como demonstra — sem hesitações, opiniões ou outras complicações — que o AO90 é política, todo política e nada mais do que política. Ou, para usar a “carinhosa” designação popular que adoptei, pulhítica.

 

RibamarCorrea_Maranhao

Especial: O dia em que Sarney liderou seis presidentes e transformou São Luís em centro mundial da lusofonia

presidentes-lusófonos_Maranhao_1Sarney (ao centro) na recepciona os seus colegas dos países de íngua portuguesa: Lopo Nascimento (representante de Angola), “Nino” Vieira (Guiné-Bissau), Mário Soares (Portugal), Aristides Pereira (Cabo Verde), Joaquim Chissano (Moçambique) e Manoel Costa Pinto (São Tomé e Príncipe)

O dia 31 de dezembro de 2015 entrou para a História dos sete países lusófonos como a data em que o acordo para a unificação Língua Portuguesa, com a eliminação das diferenças ortográficas, entrou em vigor para valer, abrindo assim caminhos para uma aproximação cultural entre os povos que falam o idioma luso, criando, portanto, meios para um processo de integração politica e econômica. Considerada a mais importante iniciativa desde que as guerras por meio das quais Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe se libertaram das amarras coloniais portuguesas e também desde que Portugal derrubou em 1974, com a histórica Revolução dos Cravos, a ditadura salazarista, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa nasceu, de fato, no dia 2 de novembro de 1989, data em que, sob a liderança de José Sarney, então presidente do Brasil, São Luís se transformou, durante 48 horas, no coração da comunidade de Língua Portuguesa em todo mundo, na qual o português era falado por 180 milhões de pessoas. A Capital do Maranhão sediou o Encontro de Chefes de Estado e de Governo dos Países de Língua Portuguesa: José Sarney (Brasil), Mário Soares (Portugal), Joaquim Chissano (Moçambique), Aristides Pereira (Cabo Verde), João Bernardo “Nino” Vieira (Guiné-Bissau), Manoel Costa Pinto (São Tomé e Príncipe) e o ministro da Cultura de Angola, Lopo Nascimento, que representou o presidente José Eduardo Santos. Desse encontro nasceu Instituto Internacional de Língua Portuguesa, entidade que a partir de então organizou todos os esforços que resultaram na construção do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa, editado em 2009 e que, após seis anos de adaptação, ganhou forma definitiva há exatos 16 dias.

presidentes-lusófonosMaranhao_2Presidentes reunidos no Palácio dos Leões durante o encontro que fez história

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Tão subtil como uma marretada na cabeça

inqueritoacordistaFBNovo Acordo Ortográfico

A aplicação do novo acordo ortográfico em Portugal provocou críticas e um certo desagrado na opinião pública.
A insistência na adjectivação (“novo acordo”, “novas regras”) com conotações positivas (novidade, moderno, etc.), quanto a uma coisa com mais de 25 anos, indicia uma postura claramente favorável à dita “novidade”. Quando o jovem autor introduz o “inquérito” referindo não o AO90 no seu todo mas apenas a sua “aplicação”, isto implica um nexo de causalidade nada subtil: o “acordo” não levanta qualquer problema, só “a aplicação” do dito é que, na opinião de apenas alguns “críticos”, “provocou um certo desagrado”. Nem o tempo verbal (“provocou”, no Pretérito) é casual: pois claro, se “provocou” é porque já não provoca, aquilo afinal é, por conseguinte,  uma maravilha.

Estes pressupostos, logo à cabeça, bastariam para detectar de imediato as intenções subjacentes ao “inquérito”: proselitismo, propaganda, intoxicação acordista. Mas se ainda assim subsistissem dúvidas, temos bem pior na forma enviesada como as perguntas são formuladas.

Como avalia o seu conhecimento das novas regras impostas pelo acordo ortográfico?
Aparentemente, a expressão “regras impostas” conteria alguma conotação negativa. Porém, a construção da pergunta, no seu todo, demonstra a intenção inversa: “o seu conhecimento” implica necessariamente que este existe e que, portanto, é natural ter-se conhecimento de “regras” (absurdas) que são afinal uma simples inerência; logo, essas “regras” são “impostas” e… muito bem impostas.

Como avalia o seu interesse pelo novo acordo?
Ou seja, presume-se — mesmo que a avaliação desse “interesse” seja zero — que algum “interesse” aquilo terá. Aliás, se existe “interesse”, mesmo que pouco, não faz sentido que seja interesse nenhum. Portanto, colocada a questão nestes termos, tenta-se fazer com que até um respondente anti-acordista possa “avaliar o seu interesse” com pelo menos “1” e não “0”.

Sentiu dificuldades ao adaptar-se às novas regras?
Note-se, de novo, o Pretérito: “sentiu”, ou seja, isso é passado, já lá vai e afinal aquilo só tinha umas “dificuldades”, coisa pouca. Portanto, a formulação “ao adaptar-se” pretende significar que, “evidentemente”, o respondente já se adaptou. A repetição obsessiva do substantivo “regras” (que não existem, de facto) pretende conferir um carácter técnico (ortográfico) a algo que não passa de uma golpada exclusivamente política.

Concorda com a aplicação do novo acordo ortográfico?
Mais uma vez, a “pergunta” implica não apenas a resposta pretendida pelo autor do “inquérito” (“sim”, evidentemente) como, ainda por cima, visa emparedar mentalmente quem responde: pode até não concordar com a “aplicação” mas não há alternativa a essa mesma aplicação. Aliás, o respondente julgará, por simples reflexo mecânico, que a “pergunta” se refere à forma como a aplicação do AO90 “foi feita” (outra ideia induzida) e não se foi ou não foi feita.

Continua a escrever como fazia antes do acordo?
Outra forma de impingir a ideia de que o que é “novo” é bom porque o contrário de “novo” é “velho” e, portanto, segundo o processo de infantilização em curso, tudo o que é “velho” é “mau”. A “pergunta” contém esta infantil dicotomia usando uma barreira mental fictícia: há um “antes”, velho, antigo, caduco, reaccionário, o que se opõe ao “depois” ou ao “hoje” que é por inerência jovem, moderno, progressista. E induz, de novo, uma “ideia” de inevitabilidade, de facto consumado. Como brinde extra, insinua ainda que só um mentecapto poderá responder “sim”; o jovem autor do “inquérito” deve ter apagado a parte final da pergunta, para não dar muita “bandeira”: continua a escrever como fazia antes do acordo, seu burro?

O novo acordo veio afetar a língua portuguesa
Quanto à horrível calinada acordista, nem vou comentar. O “inquérito” foi redigido em acordês, ponto. Mas esta “pergunta” não tem, como as anteriores, resposta por pontuação de zero a cinco nem por escolha simples entre “sim” ou “não”; neste caso, as opções são “positivamente” ou “negativamente”. Não havendo a opção “insuportavelmente” (ou a opção “o acordo não existe”, vá), é impossível responder ao jovem.

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‘Indigno de presidir’ [por Octávio dos Santos]

Indigno de presidir

Não é só quando se realizam em Portugal eleições para a presidência da mesma que se deve recordar e reforçar a verdade, os factos: no nosso país a República é um regime ilegítimo, imposto em Portugal por uma minoria através de um golpe de Estado em 1910 e de um duplo crime (o assassinato do então Chefe de Estado e do seu filho e sucessor no cargo) em 1908, nunca legitimado por um referendo específico e que, na sua actual (e terceira) «versão», persiste em não ser plenamente democrático por, na corrente Constituição, não só preconizar (ainda) no preâmbulo «abrir caminho para uma sociedade socialista» mas também limitar (ainda), no artigo 288º, as leis de revisão à «forma republicana de governo». Tudo isto sob o estandarte verde e vermelho, símbolo de iberistas e de terroristas, «ignóbil trapo» para Fernando Pessoa e que até Guerra Junqueiro rejeitou.

Porém, e porque Portugal tem sempre prioridade, enquanto não se faz a restauração há que ser pragmático e, perante a realidade, as situações, deve-se adaptar e actuar, se não pelo ideal e pelo preferível, então pelo mal menor, neste caso na escolha do próximo Chefe de Estado. E, a 24 de Janeiro, a opção, ou opções, não oferece(m) dúvidas: todos menos Marcelo Rebelo de Sousa. Para um cargo uninominal como o de Presidente da República, o carácter importa e interessa, pelo menos, tanto quanto a ideologia. E Marcelo não o tem; ele é, ou pode, ser, dizer e fazer tudo e o seu contrário; ninguém duvida de que o crónico comentador é capaz de mentir, de se contradizer, constantemente, consoante as circunstâncias e os contextos; a hipocrisia é a sua segunda natureza. Para o demonstrar, nem é preciso recuar muito no passado e ir buscar o episódio de uma certa sopa que se serve fria. Já na presente campanha eleitoral, ele: desmentiu ter considerado inconstitucional a rejeição, pelo Tribunal respectivo, do Orçamento de Estado para 2012, apesar de existir uma gravação que demonstra o oposto; manifestou-se favorável à adopção por «casais» do mesmo sexo, apesar de continuar a declarar-se cristão, católico, que reza «o terço todos os dias»; e assumiu-se como estando na (ou vindo da) «esquerda da direita», apesar de, uma semana antes, ter garantido que «não sou o candidato da direita».

No entanto, nenhum aspecto da personalidade e do posicionamento de Marcelo Rebelo de Sousa é mais preocupante do que a sua atitude, de total e acrítica aceitação e sujeição, perante o dito «Acordo Ortográfico de 1990» – aliás, é o único dos principais candidatos a tê-la. Preocupante não só por aquele que é supostamente um dos mais competentes e eminentes juristas portugueses nunca ter detectado nem denunciado as flagrantes ilegalidades, tanto ao nível nacional como ao nível internacional, inerentes à imposição do AO90; também por acreditar que «para Portugal conseguir lutar pela lusofonia no mundo tem de lutar por dar a supremacia ao Brasil» – disse-o em 2008 e não consta que entretanto tivesse mudado de opinião. Por outras palavras, a pessoa que poderá ser o principal líder deste país entende que é seu dever contribuir para que aquele se submeta, se inferiorize, em relação a outro. Só isto seria suficiente para o desqualificar da corrida ao Palácio de Belém. Ele é indigno de presidir aos destinos nacionais… tal como Aníbal Cavaco Silva foi e (ainda) é, por ter iniciado o processo do AO90 enquanto primeiro-ministro e o ter finalizado (?) enquanto «residente da república».

Octávio dos Santos


Texto publicado também nos “blogs” Octanas, do autor, e no Mil-hafre.

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