Mês: Janeiro 2016

Uma história (muito) mal contada [XXIX]

TorreBabelO caos trocado em miúdos

Now this is not the end. It is not even the beginning of the end. But it is, perhaps, the end of the beginning.
Winston Churchill

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2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014. Ora, vejamos, portanto: a seguir a 2014 é… 2015. Certo. Bem visto.

Fiquemo-nos pelo relato do primeiro semestre daquele ano, já que a 19 de Junho foi publicado o “Fim”. O qual autopsiaremos na próxima ocasião.

Ao longo de 2015 desenvolvemos uma ideia original lançada em finais do ano anterior: o cAOs. Foi uma “moda” que pegou de estaca, pelos vistos, agora toda a gente faz a mesma coisa, em alguns casos até com o símbolo © e tudo, não vá alguém apossar-se aleivosamente de originalidades curiosas. Como sabemos, no virtual “star system” dos consumidores de causas é uma tradição “solidária” parasitar o trabalho alheio para brilhar cada estrelinha mais um bocadinho do que as outras.

Havia dantes umas listas com  inegável interesse, é certo, mas o conceito original da página “cAOs” (e a própria designação) não se restringe a “caçar” exemplos aberrantes da “implementação” do acordês. Servia e continua a servir para demonstrar não apenas que o AO90 é mesmo uma aberração como (ou principalmente) que os seus efeitos devastadores afectam (e infectam) já todo o tecido social português, da mais simples placa toponímica ao mais formal dos documentos publicados no Diário da República.

E ainda, como se não bastasse o que basta, que o cAOs ortográfico — ao contrário do que garantiam acordistas — contamina também a pronúncia, o que implica estranhíssimos fenómenos de hipercorrecção, em relação directa de causa e efeito. Imensas demonstrações deste desastre fomos detectando e publicando diariamente, sempre em primeira mão e segundo critérios de selecção coerentes.

Dos casos mais flagrantes serve este, como ilustração gráfica dos ditos conceito e critérios:  em 29 de Janeiro aterra num telhado um “helicótero” em segundas “núcias”.

Mais de 400 “amostras” (and counting), qual delas a mais tristemente anedótica ou quais delas as mais dolorosamente ridículas.

Inúmeras outras se poderiam apontar, em áreas tão diversas como a Medicina (bisseção, adómen, sução) ou a Física (dutilidadeimpato, compatar), a política (ilariante, patoostáculo) ou a Matemática (reta, seteto, conetar), a Geografia (Irã, hetares, Madri) ou a religião (tetosuntuosotrítico). Basta abrir aquela página, fechar os olhos e apontar ao acaso para um qualquer ponto da enorme lista: “click”! Pronto, já pode abrir os olhos, se calhar nem vai acreditar  no que eles vêem. E pode ser que assim se lhe abram os olhos, de uma vez por todas, para as reais, horríveis, desastrosas consequências da “maravilhosa língua unificada” que alguns pretendem impor a todos.

Imposição esta que, nem de propósito, atingiu o cúmulo da desfaçatez precisamente em 2015: a 12 de Março, por determinação ministerial, o AO90 torna-se obrigatório nos exames nacionais. O cAOs vigente, injectado de forma particularmente violenta no sistema de ensino, parece não incomodar nem um bocadinho os governamentais burocratas.

Os quais burocratas poderão continuar descansados na sua governamental empreitada de demolição da Língua Portuguesa, visto contarem com alguns supostos anti-acordistas especializados em sabotagem. Isto é, os especialistas em demolição podem contar com a expedita cooperação de sabotadores.

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“Ne varietur” – crónica de uma publicação almejada [por Graça Maciel Costa]

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«Há mais marés do que marinheiros», diz o ditado, neste caso e como vou sabendo, há por aí mais livros do que escritores publicados.

Também, diga-se em abono da verdade, há por aí mais impressores de livros do que editores – como referi na minha crónica anterior — mas se escreveu uma obra e quer vê-la publicada, leia-me com alguma atenção pois há cuidados a ter, quer com uns, quer com outros.

Nos primeiros, a qualidade da obra é irrelevante: ganham a vidinha deles imprimindo livros ao quilo. Nos segundos, podem nem lhe dar resposta mas pode vir a encontrar o seu livro ou a ideia nele contida plagiada por outro autor. Ah pois é, Nazaré!

Neste último caso, imagine que escreveu numa estrutura não convencional, ou que aborda um tópico verdadeiramente original. Pode não ver o seu livro palavra-por-palavra com assinatura de outro, mas poderá reconhecê-lo nos aspectos que mencionei — já aconteceu, acredite. O que fazer para prevenir esta situação?

Primeiro, registe a sua obra antes de a enviar. Passe pela IGAC, leve a obra em CD ou em papel e registe-a em seu nome. Em 2009, quando registei o meu blogue e o seu conteúdo, paguei 25,00€, não sei se se mantém o preço ou se sofreu alterações. Mas vale a pena pagar para se proteger. No caso de um blogue, não se esqueça que está a registar obras originais suas pelo que artigos de outros (que tenha copiado e colado), ou se tem a mania das fotos — como eu tinha — e foi buscá-las à Internet, lembre-se de apagar tudo isso, depois já pode enviar o seu original e, de preferência, mencionar o seu registo. O registo contém um número de processo, pode enviá-lo juntamente com a obra. Por aqui já estamos safos, vamos ao contrato.

Nenhum contrato retira a obra ao seu autor, esta é sempre dele, mas há aspectos da mesma que deve salvaguardar. Refiro-me a esse excremento-recrementício a que chamam “acordo ortográfico” — que nem uma nem outra coisa é, aliás, não é carne nem é peixe, nem uma omelete chega a ser.

Recebido o contrato, vai reparar — aposto — que não menciona ne varietur, que significa que a obra nunca poderá ser alterada sem o consentimento do autor… nem pelos seus herdeiros. Se não quer ver a sua obra transfigurada por um português macarrónico, exija a inserção expressa  daquela cláusula de salvaguarda.

Já imaginou alguém pincelar um Picasso, um Matisse, um Turner, ou outro, apenas porque as técnicas de pintura evoluíram noutro sentido? Imagine, então, que alguém se lembrava de acrescentar uns pilares à casa da Música do Porto, apenas porque voltavam a estar na moda.  Consegue? Claro que não. Então por que cargas de água podem fazê-lo a um livro? Pessoalmente, não consigo ler os nossos ilustres Camões ou Fernando Pessoa, por exemplo, nesta nova mistela de português com mixordês.

No meu caso, e por completa ignorância, confesso sem ter sido sujeita a tortura, a dita cláusula não foi aditada, mas fi-lo posteriormente e ainda, nas revisões da obra, por escrito na troca de mensagens. Guardem estas mensagens, são valiosíssimas no caso de se “esquecerem” de o exigir no contrato.

Tomem, também, atenção aos prazos de publicação mencionados no contrato, estes não devem exceder os seis meses sem que haja razão de força-maior.

E pronto, se já escreveu um livro e teve um filho, falta-lhe plantar uma árvore. Das três coisas, falta-me esta última.

A ver se trato disso na Primavera que aí vem.

Graça Maciel Costa

“Crónicas de Morramarta”

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Crónicas de Morramarta

Sinopse

«Escutai a prédica, ó gentes,
Pois hoje se lançarão as sementes
Do que o futuro nos destina (…) »

Um livro é coisa séria, mesmo quando não se deve levá-lo a sério.

Neste, uma cidade e uma Era perdidos no tempo trazem-nos de volta o estilo Vicentino nas suas figuras castiças e linguajar desbragado, qual consciências da primeira, e como disse Fernando Pessoa, “as figuras imaginárias têm mais relevo e verdade do que as reais”.

Chiado Editora

Graça Maciel Costa, veterana militante da nossa Causa, fez absoluta questão de que este seu  primeiro livro fosse publicado em Português correcto, tendo garantido o direito legal de que edições futuras desta ou de quaisquer outras obras suas não possam vir a ser corrompidas pelo “acordo ortográfico” de 1990.

 

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Tampinha

tampinha_gallo_img_67281. No dia 15 de Dezembro de 2013 publiquei no “site” da ILC-AO o “post” seguinte:

Da vergonha e da traição: perguntas e respostas.

O que se segue é a transcrição integral de uma entrevista, publicada ontem, 14 de Dezembro, do brasileiro Ernani Pimentel ao “blog” Triplo V.

Muitas considerações se poderiam tecer a respeito deste “depoimento”, mas as pessoas já estão suficientemente avisadas quanto às novas “ideias” que nos tentam impingir de além-Atlântico com a conivência e até com a colaboração de algumas pessoas extremamente confusas, para dizer o mínimo, que pelos vistos existem também cá deste lado do oceano.

Por conseguinte, e como já antes aqui mesmo dissemos em diversas ocasiões, quanto a este assunto, tire cada qual as suas próprias conclusões. Por uma questão de facilidade de leitura, introduzimos na cópia do texto original alguns destaques e sublinhados, bem como “links” relacionados, nos conteúdos que nos parecem ser de maior (e mais evidente) relevância: o que é este “movimento”, o que pretende, quem o apoia no Brasil e, principalmente, quem lhe dá alguma espécie de crédito em Portugal, desde quando, porquê e… como.

As respostas estão todas nesta (inacreditável) entrevista.

 

Entrevista ao Prof. ERNÂNI PIMENTEL

ERNÂNI PIMENTEL é Professor, Escritor, Palestrante e Presidente da Vestcon (um grupo editorial do Brasil).

Em 2010, fundou o MovimentoAcordar melhor”.

Foi escolhido pelo Senado brasileiro para ser um dos Coordenadores do Grupo de Trabalho Técnico que está a avaliar o Acordo Ortográfico no Brasil.

Recentemente, juntamente com o Senador PASQUALE CIPRO NETO, foi recebido na Assembleia da República.

ERNÂNI PIMENTEL respondeu às nossas perguntas.

 

[conteúdo da entrevista]

2. De imediato, esta reprodução suscitou variadíssimos comentários. O primeiro dos quais foi este, que transcrevo já com a respectiva resposta,:

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A revelação da língua portuguesa [por Olga Rodrigues]

7véus 8Os sete véus em que nos querem enredar

A implementação do AO é apenas a faceta mais visível de um amplo processo de afastamento induzido da gramática e da escrita e esta da leitura.

Se juntarmos ao progressivo empobrecimento geral, que será cada vez mais uma dura realidade para grande parte da população, a uma contínua exposição a reality shows de fraquíssima qualidade e a notícias que não o são realmente, tratando-se antes da mais pura propaganda, teremos a receita perfeita para a insuperável alienação e embrutecimento sem retorno da esmagadora maioria.

A revelação de algo, ao contrário do significado que lhe atribui o senso comum de tornar visível o que estava oculto, significa, strictu sensu, precisamente o contrário, ou seja, colocar algo debaixo de um véu ainda mais denso e imperceptível para toda a gente, com excepção de um pequeno grupo de eleitos.

Assistimos assim a uma verdadeira re-velacao da língua portuguesa, ou seja, à colocação de um denso véu sobre as suas mais ancestrais origens. Véu esse que nos é colocado antes de tudo pelas instituições do Estado que nos devia representar a todos e que trai a Nação que o sustenta, insultando os cidadãos que nele vivem ao utilizar o sistema de ensino público para propositadamente difundir uma concepção aberrante e errónea da língua portuguesa, ao mesmo tempo que defende leoninamente os espúrios interesses de uma quadrilha que a pouco e pouco desmantela e destrói o que é de todos.

Tentam colocar-nos um véu os grandes grupos editoriais e de comunicação social ao pactuarem cupidamente com uma comprovada mentira de Estado, apenas para obter ganhos meteóricos, apesar de chorudos.

Um véu também nos colocam todos aqueles que se limitam a encolher os ombros, a pactuar com a indiferença geral, mesmo quando têm diante dos seus olhos evidências irrefutáveis da mentira que é o AO.

Aliás, colocam-nos também um véu todos aqueles que tratam a questão da integridade da língua como uma questão menor, algo sem importância que não merece atenção nem estima. Um objecto mais entre os vários que fazem parte do seu quotidiano e que por isso seguem a tão portuguesa lógica do “deixa andar”.

Colocam-nos ainda um véu todos aqueles que temem irracionalmente o cacete do poder, que,  mesmo não concordando e sentindo repulsa até por este AO, cedem à totalizante mentalidade do “é assim”, conformando-se com o inconformável sem sequer esboçarem uma tentativa para reverter o que consideram ser já um facto consumado, não entendendo que com essa atitude apenas ajudam quem os quer privar de um dos seus direitos mais elementares.

Colocam-nos ainda um véu todas aquelas mentes melífluas que fingem pena por a situação ter chegado até este ponto de quase não retorno mas…”oops, agora já está aprovado e não se pode voltar atrás”. Mesmo quando em cargos de responsabilidade, não mexem uma palha para mudar uma situação com a qual nem mesmo eles convivem bem. Atitude perigosa porque detentores de um cargo de poder estão, com a sua atitude colaborante e veneranda, a conformar todo um povo ao inconformável e a contribuir por omissão para a alienação de um património que tinham o dever de preservar e de transmitir a quem depois deles vier. Um dos últimos exemplos desta atitude pouco saudável veio da segunda figura da Nação, o nosso Primeiro- Ministro Dr. António Costa que em intervenção recente num canal de televisão, e quando questionado especificamente sobre a questão do AO disse taxativamente que não o iria revogar!

Tentam também colocar-nos um véu, e isto é profundamente triste, alguns ditos opositores ao AO que tanto usam a lisonja e a adulação como o mais fulminante veneno; fingindo um denodado apoio à causa da língua portuguesa que devia ser a causa de todos, usam-na ora para promover as suas pequeninas figuras, ora para lançar as suas vis negociatas.

Estão tão cheios de si, tão convencidos da grandiosidade dos seus egos e não dos seus princípios, valores ou crenças, que o único golpe de vista que os seus incomensuráveis egos alcançam é a obsessiva e doentia ânsia de se renderem ao “star system” vigente. Pequeno desígnio para tão grandes umbigos!

Pensam que ser uma estrela é apenas brilhar acima de tudo e de todos, merecendo o aplauso de todos, esquecendo-se de que o brilho, por mais intenso que seja, é sempre fugaz e que o aplauso de hoje é o esquecimento de amanhã!

E entretanto, para satisfazer a sua ânsia de brilhar, arrastam um património que é de todos, a língua portuguesa, para um imenso e irreversível buraco negro. É por isso cada vez mais necessário (como pão para a boca, diria o povo) desmontar estes ruinosos arranjos de uns quantos em nome de todos e ir desvelando um a um os pesados véus com que nos querem sufocar. E tornar bem claro que vemos e rasgaremos sem hesitar estes e quaisquer outros véus.

Apesar de a imagem que enquadra este texto ser muito bela, a verdade é que a imagem da burqa também não ficava ali mal pois estamos a falar de véus intelectuais mas, conseguindo esses vingar, logo a seguir virão os véus em sentido literal e explícito. Aliás, um dos motivos porque os talibans foram tão bem sucedidos foi precisamente porque estavam a lidar com uma população maioritariamente analfabeta. Erradicar talibans, nazis, familiares do santo ofício e outros que tais é condição sine qua non, não só para vivermos em liberdade mas também, e sobretudo no caso que nos ocupa, para fazer vingar aquilo por que lutamos. O AO chegou até aqui precisamente porque essa gente tem tido toda a força quase sem nenhuma oposição.

Olga Rodrigues


[Imagem de Anaíde Resende, Companhia de Dança (Brasil)]

“O acordo é p’ra unificar a língua portuguesa com a espanhola”

Eureka!

Ora cá está, finalmente, uma explicação razoável para o AO90:  destina-se a unificar a língua portuguesa e a língua espanhola, pronto, ficamos com o Portuñol (ou com o Espanholês, a designação exacta da coisa ainda não foi apurada), e siga, assunto arrumado, não se fala mais nisso.

Diz lá então como é, jovem:
«O intuito do acordo era tentar unificar a língua portuguesa com a língua espanhola, né? A princípio, a ideia é que seja uma construção p’ra unificação e melhor unidade entre as línguas portuguesa e espanhola. Como isso vai modificar efectivamente na minha vida, eu acho que é só mais uma das regrinhas que a gente tem que aprender p’ra escrever correctamente.»

Quem assim fala, nesta entrevista de rua realizada por uma TV universitária brasileira, é um jovem estudante (brasileiro, por supuesto), mas há outros entrevistados na peça, salvo seja, cada qual competindo ardorosamente pela maior calinada nesta académica demanda: oi, cara, o que raio é o acordo ortográfico, hem?

Se aquele juvenil exemplar arruma tão brilhantemente a questão chutando para escanteio, já um outro dos jovens entrevistados consegue mesmo articular alguma coisinha de jeito (digamos assim, imbuídos de caridade cristã):
«O acordo ortográfico, na verdade, ele é uma ‘”forçação de barra'” porque as línguas…  primeiro que eu acho que nós não falamos português brasileiro, eu acho que nós falamos a língua brasileira. Nosso idioma, ele tem uma diferença enorme do português de Portugal e é até uma agressão à nossa identidade você querer unificar a escrita de dois idiomas que são completamente diferentes.»

Em suma, julgareis vós certamente que estarei eu aqui fantasiando, inventando, caçoando até. Mas não, de todo, não estou.

Ide, ide ouvir todos. Isto é o “corpus” universitário brasileiro derramando sabedoria p’ra cima da gente.