Dia: 3 de Fevereiro, 2016

“Manter a integridade”

D. Manuel II (1889 – 1932) subiu ao trono português após o regicídio (1908) e foi deposto pela instauração da República, em 1910, seguindo para o exílio em Inglaterra. Até ao eclodir da I Guerra Mundial, em 1914, multiplicavam-se em Portugal as acções armadas pela restauração da Monarquia. O Rei deposto exorta então os seus apoiantes a que parem de combater o regime que o depôs e que se juntem aos republicanos no combate ao inimigo comum, a Alemanha.

DManuelII

«O momento presente é tão excepcionalmente crítico que devemos pôr de lado qualquer ideia política e pensar única e exclusivamente na nossa Pátria. Devemos unir todos os portugueses sem distinção de causa ou de cor política e trabalhar para manter a integridade da nossa querida Pátria, quer servindo em Portugal para defender o nosso país, quer combatendo junto às fileiras do exército aliado.

É, pois, minha opinião e meu desejo que os monárquicos portugueses saibam mostrar neste momento angustioso que acima de tudo põem a ideia da Pátria e da defesa do seu solo sagrado. Por meu lado, e sempre com o mesmo fito, já me ofereci, sem reservas, a Sua Majestade o Rei de Inglaterra para tudo o que possa ser útil à tradicional aliança que data de há seis séculos.»
[Carta de D. Manuel II ao Conde de Sabugosa, 15 de Agosto de 1914]

«Ao contrário do que o antigo monarca pensava, poucos foram os que seguiram as suas instruções. D. Manuel era um patriota e, mesmo no exílio, sempre colocou o bem do país e a manutenção da integridade do território acima de quaisquer interesses políticos ou pessoais, pelo que, na hipótese de Portugal entrar na guerra, considerava mais importante unir esforços em prol do interesse nacional do que continuar com a luta pela mudança do regime. Por outro lado, desde sempre que defendera o reforço da aliança com a Inglaterra, posição que já marcara a sua política externa enquanto chefe de Estado  e que continuava a manifestar-se no apoio à causa aliada. A maioria dos monárquicos não compartilhava destas opiniões. Os sectores mais liberais e mais ligados a D. Manuel, bem como os que se encontravam em Inglaterra, partilhavam das suas ideias e seguiam os seus conselhos, como foi o caso de João Azevedo Coutinho, que, depois de receber a sua carta, escreveu ao presidente da República a pedir para servir no exército. A República recusou, como viria a fazer com todos os monárquicos que ofereceram os seus serviços.”
[Maria Cândida Proença, “D. Manuel II”, página 160]

[“D. Manuel II”, colecção “Reis de Portugal”, Círculo de Leitores, 2006. Imagem da capa do livro:  retrato da autoria de José Malhoa, Palácio Nacional de Mafra.]


Em 2008, cem anos depois do regicídio, o pretendente ao trono Duarte Pio de Bragança  manifesta publicamente  a sua satisfação pela “ratificação” do “acordo ortográfico” (coisa a que chama “língua universal”), apresentando essa ratificação (pelo Parlamento republicano) já como facto consumado, antes mesmo da respectiva votação.

“Após o infeliz fim do Reino Unido criado por D. João VI (no qual estava prevista a futura integração de Angola e Moçambique), ficámos com a língua que nos une. Mas até essa união estava a desaparecer, desde que um governo da 1ª república reformara a nossa ortografia, sem consultar o Brasil.

Esta semana (16 de Maio [de 2008]), os deputados decidirão ratificar o Acordo Ortográfico que a nossa Academia de Ciências e a Academia Brasileira da Língua vinham elaborando há anos. Alguns intelectuais condenam essa decisão, que consideram um atentado à nossa cultura e outros referem os grandes custos que resultarão da substituição dos dicionários e livros escolares. Seria preferível ficarmos “orgulhosamente sós” com a nossa ortografia?

Quanto aos custos financeiros, julgo que poderão ser evitados se nos dicionários for acrescentado uma “errata” explicando quais as palavras que foram alteradas, e que não são muitas. Ficou estabelecido que durante os próximos 6 anos poderemos escrever com ambas as ortografias. Quanto ao aspecto cultural, no Brasil todos os estudantes lêem Eça de Queiroz e outros clássicos portugueses na ortografia original, sem problemas.

Há quem pense que ainda muito se poderá fazer para tornar a nossa escrita mais lógica do ponto de vista fonético e menos dependente de critérios etimológicos que dificultam muito a sua aprendizagem por parte de milhões de crianças.

Devemos também insistir com ambas as academias para que traduzam para português os termos das novas tecnologias, para não ficarmos a falar uma espécie de crioulo em que se misturam várias línguas na mesma frase…

Gostei muito de ouvir no debate parlamentar os representantes da Galiza defenderem que “o português da Galiza deve unir a sua ortografia à do português universal, mas para que tal seja possível, é necessário saber enfim qual será essa ortografia”.

[O acordo ortográfico e o que pensa o Duque de Bragança
por Nuno Castelo-Branco, em 22.07.08]

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