Dia: 17 de Fevereiro, 2016

Academia de Lisboa versus Académie française

frases-o-gloria-de-mandar-o-va-cobica-desta-vaidade-a-luis-vaz-de-camoes-14540Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a que chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

 

logo_ACLA Academia das Ciências de Lisboa é uma das mais antigas instituições científicas nacionais de existência contínua, tendo sido fundada no dia 24 de Dezembro de 1779 durante o reinado de D. Maria I, sobre o lema: NISI UTILE EST QUOD FACIMUS STULTA EST GLORIA.

A sua missão é assegurar ao Governo português consultoria em matéria linguística. Coordenar a sua ação com a Academia Brasileira de Letras e com a rede das academias europeias e mundiais, incluindo os países de língua oficial portuguesa e os núcleos portugueses no estrangeiro. Contribuir para a sociedade de Informação, do saber e da sabedoria com vista à valorização da participação portuguesa no globalismo.
(Dec-Lei Nº 7/78, de 12 de Janeiro)*.

Bem-vindo à Academia das Ciências de Lisboa

 

French_Academy_logoLa mission confiée à l’Académie est claire : « La principale fonction de l’Académie sera de travailler, avec tout le soin et toute la diligence possibles, à donner des règles certaines à notre langue et à la rendre pure, éloquente et capable de traiter les arts et les sciences. » (Article 24 des statuts.)

L’institution – Les missions -Défense de la langue française

Intéressons-nous maintenant au nom Immortalité, puisque la devise de l’Académie française est « À l’immortalité », en hommage à l’immortalité de la langue française.

Académie et immortalité

 

Como comparar o que não tem comparação possível?

A um conceito límpido e transparente, como seja o da imortalidade da Língua francesa, contrapõe-se (apresentada numa construção frásica muito duvidosa**) a locução latina cuja tradução pode ser “se o que fazemos não é útil, vã é a glória“.

De facto, pelo menos no que ao “acordo ortográfico” diz respeito, os doutos elementos da ACL bem podem, digo eu, com o devido respeito, limpar as mãos à parede. Glória? Qual glória? Nem vã nem sem ser vã, senhores!

De um lado, temos que a Académie française aprova, por unanimidade, uma declaração formal manifestando a sua firme oposição a qualquer modificação da ortografia.

Do outro lado, em posição diametral e estupidamente oposta, a “Academia” portuguesa não apenas aprova como apoia e promove um “acordo ortográfico” que não é acordo algum e que de ortográfico nada tem.

Num lado, a Academia francesa reafirma expressamente que não compete ao poder político nem a qualquer Governo em funções legislar sobre ou regulamentar em matérias da Língua.

Noutro lado, que agora mais parece um lado qualquer, a “Academia” portuguesa não apenas faz tudo para assegurar ao Governo português consultoria em matéria linguística como ainda promove a coisa “científica” o AO90, esse mero instrumento político ao serviço de interesses obscuros, que foi cozinhado nas costas dos portugueses e que não serve para absolutamente nada… a não ser para lançar o cAOs no Ensino, na Administração, nos media e, portanto, em todo o tecido social português.

Se o que fazem os ditos doutos senhores é assegurar ao Governo português consultoria em matéria linguística, então declaradamente não apenas se limitam a produzir inutilidades como não são sequer Academia, são uma simples agência de revisores de provas, funcionam como qualquer centro de explicações à hora, servem de gabinete especializado em desenrascar governantes ligeiramente iletrados. Produzindo tais e tão chocantes chorrilhos de inutilidades, das quais a mais espectacular é sem dúvida o famoso AO90, aos ilustres membros da ACL está já reservado um palanque inteiro no panteão da “vã glória de mandar”, adornando todas tão ilustres cabeças a etérea coroa de louros dos inúteis.

Temos, portanto, dois lados (salvo seja), um dos quais muitíssimo mal frequentado e nada recomendável. Não pretendo com isto dizer que devam agora as pessoas civilizadas e decentes do meu país emigrar para um outro que é decente e civilizado. Nada disso. É o que apetece, de facto, vistas bem as coisas, tentando comparar o que não é de todo comparável, mas ainda assim julgo preferível ficar a fugir, resistir a desistir e, sobretudo, continuar por cá a lutar pela reposição da normalidade ortográfica em vez de pedir asilo político a uma nação em que o direito à sanidade mental está legalmente protegido.

“Dura inquietação d’alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

 



*O Dec-Lei Nº 7/78, de 12 de Janeiro, mencionado no “site” da ACL, não tem absolutamente nada a ver com o assunto. Vamos presumir que isto será apenas (mais) uma “gralha”.
**Parece-me que a formulação correcta seria “sob o lema” e não “sobre o lema”.
Nota: a questão em França é apenas sobre umas quantas “simplificações” e não tem carácter obrigatório; nem remotamente o caso se parece com um “acordo ortográfico”

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“O poder despreza a cultura” [Belmiro Narino, “Luxemburger Wort”]

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EDITORIAL: Carta Aberta a Marcelo Rebelo de Sousa

Padre Belmiro Narino

Senhor Professor,

Declino conhecer o leque das competências que a Constituição lhe não pode recusar. Não é questão de leitura, é cabala em segunda mão, que não tem nada a ver com o Zohar, mas com o labirinto do rei Minos, sem asas nem ícaros, onde a maioria dos nossos eleitos passeia cinicamente a sua miopia e dislexia, a lupa que lhes serve para interpretar o que o que é vedado ao cidadão comum. Perdão, a metade do cidadão, porque a outra metade os ignora.

Não importam as competências titulares, o que importa é ser competente. E isso esperamos de V. Exa. Outrossim esperamos que a falta de experiência governativa não lhe seja empecilho mas desafio. Os anos não contam, na ágora do saber. “Um homem pode ser novo em anos, mas velho em horas, se não tiver perdido tempo. Mas isso é raro”. Sabemos que o nosso futuro presidente é raro, como foi o autor da citação, Francis Bacon.

Bacon escreveu o “Novum Organum”, V. Exa. escreveu um novo tratado de humanismo cristão: um livro sobre o evangelho de S. Lucas. O evangelista pode ter sido uma escolha, mas os seus, actuais, comentários são um compromisso. Lucas entremeia a narrativa com datas da historiografia profana. Dirige a mensagem da Boa Nova a uma comunidade adulta, feita de gente de muitos povos, a todos os povos aberta, já curada do êxtase da parusia iminente, disposta a cumprir a sua vocação redentora do homem, na praça da política contemporânea. Ontem como hoje.

Por isso esperamos, confiantes na fé de lusos e de cristãos, neste ano do Evangelho de S. Lucas, que V. Exa. não faça o que os cidadãos esperam do PR; faça mais do que aquilo que esperam. Que não se limite a ocupar os paços do seu alto cargo, que é o mais dispendioso da nação, mas entre no coração do povo.

No dia da sua tomada de posse, Lisboa explodirá de ovações. Alguns, da esquerda angélica e da “parusia” marxista, baterão palmas de mão coxinha (não com as duas mãos). Estes e todo o rebanho dos doutorecos e engenhocas de Universidades que deles já morreram. Muitos aplausos virão também da metade do Portugal desiludido, esquelético e esfarrapado, que os intocáveis dos microfones públicos reduziram ao estado de silêncio cívico. Só podem falar nos clubes de “boa” vida, a TV que desinforma e deforma.

Até aqui, falei a V. Exa. de esperanças. As metáforas incluem pedidos velados. Permita-me, ainda, para terminar, que lhe dirija uma petição explícita: salve a identidade de Portugal, a nossa história e a nossa língua, os dois pilares da nossa cultura.

Uma plêiade dos mais reputados escritores brasileiros denunciou a nódoa do “acordo ortográfico”, uma “interferência de burocratas de pouco tino”, segundo Hélio Schwatsman. “Cientificamente o acordo não se sustenta. Culturalmente, além de perverso, é irresponsável” critica Paulo Franchetti. “É a mesma coisa que matar a árvore: cortando a raiz dela, a árvore não existe mais”, diz Ivan Lins. O que nos une são as raízes, eternas, e não as ramagens, provisórias. O que faz a beleza da nossa língua é a unidade na diversidade. Por isso todos podemos dizer que a nossa pátria é a nossa língua, tanto em Portugal e no Brasil, onde é língua nacional, como em Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, onde é idioma oficial, em Macau e em muitos exóticos rincões da Ásia e Oceania. “Ai mundo de Portugal / Gente mãe de tantas gentes” (Manuel Bandeira).

Que as jóias da nossa história sejam guardadas em escrínios de filigrana, que é a nossa língua. E não na chita rota de ministros, políticos e altos pífaros da TV, que não sabem conjugar os verbos.

A cultura não é monopólio de ninguém. Mas quem quiser adquiri-la, mude-se e não a mude. Mudá-la, eis o intento do “aborto”, eufemisticamente rotulado de “acordo ortográfico”. Obra de novo-riquismo nacional. O novo rico, sobretudo o filho da política, é alguém que saltou “da classe oprimida para a classe opressora”, como diria W. Morris. O poder despreza a cultura. Queima os livros velhos e dita um livro novo. Único. “Queimar livros e fazer muros é obra comum dos príncipes”, pensamento de Jorge Luís Borges. Príncipes tiranos, gente de um só livro.

Senhor Professor, seja para nós príncipe, mas do génio da ínclita geração.

Com os melhores votos e orações.

Belmiro Narino

[“Luxemburger Wort”, 16.02.16]

Acrescentei destaques e “links”.

Nota: Marcelo Rebelo de Sousa é acordista, acha que “Portugal tem de lutar para dar a supremacia ao Brasil” e defende que “Lusofonia exige ‘acordo militante’ em Portugal“.

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