“O poder despreza a cultura” [Belmiro Narino, “Luxemburger Wort”]

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EDITORIAL: Carta Aberta a Marcelo Rebelo de Sousa

Padre Belmiro Narino

Senhor Professor,

Declino conhecer o leque das competências que a Constituição lhe não pode recusar. Não é questão de leitura, é cabala em segunda mão, que não tem nada a ver com o Zohar, mas com o labirinto do rei Minos, sem asas nem ícaros, onde a maioria dos nossos eleitos passeia cinicamente a sua miopia e dislexia, a lupa que lhes serve para interpretar o que o que é vedado ao cidadão comum. Perdão, a metade do cidadão, porque a outra metade os ignora.

Não importam as competências titulares, o que importa é ser competente. E isso esperamos de V. Exa. Outrossim esperamos que a falta de experiência governativa não lhe seja empecilho mas desafio. Os anos não contam, na ágora do saber. “Um homem pode ser novo em anos, mas velho em horas, se não tiver perdido tempo. Mas isso é raro”. Sabemos que o nosso futuro presidente é raro, como foi o autor da citação, Francis Bacon.

Bacon escreveu o “Novum Organum”, V. Exa. escreveu um novo tratado de humanismo cristão: um livro sobre o evangelho de S. Lucas. O evangelista pode ter sido uma escolha, mas os seus, actuais, comentários são um compromisso. Lucas entremeia a narrativa com datas da historiografia profana. Dirige a mensagem da Boa Nova a uma comunidade adulta, feita de gente de muitos povos, a todos os povos aberta, já curada do êxtase da parusia iminente, disposta a cumprir a sua vocação redentora do homem, na praça da política contemporânea. Ontem como hoje.

Por isso esperamos, confiantes na fé de lusos e de cristãos, neste ano do Evangelho de S. Lucas, que V. Exa. não faça o que os cidadãos esperam do PR; faça mais do que aquilo que esperam. Que não se limite a ocupar os paços do seu alto cargo, que é o mais dispendioso da nação, mas entre no coração do povo.

No dia da sua tomada de posse, Lisboa explodirá de ovações. Alguns, da esquerda angélica e da “parusia” marxista, baterão palmas de mão coxinha (não com as duas mãos). Estes e todo o rebanho dos doutorecos e engenhocas de Universidades que deles já morreram. Muitos aplausos virão também da metade do Portugal desiludido, esquelético e esfarrapado, que os intocáveis dos microfones públicos reduziram ao estado de silêncio cívico. Só podem falar nos clubes de “boa” vida, a TV que desinforma e deforma.

Até aqui, falei a V. Exa. de esperanças. As metáforas incluem pedidos velados. Permita-me, ainda, para terminar, que lhe dirija uma petição explícita: salve a identidade de Portugal, a nossa história e a nossa língua, os dois pilares da nossa cultura.

Uma plêiade dos mais reputados escritores brasileiros denunciou a nódoa do “acordo ortográfico”, uma “interferência de burocratas de pouco tino”, segundo Hélio Schwatsman. “Cientificamente o acordo não se sustenta. Culturalmente, além de perverso, é irresponsável” critica Paulo Franchetti. “É a mesma coisa que matar a árvore: cortando a raiz dela, a árvore não existe mais”, diz Ivan Lins. O que nos une são as raízes, eternas, e não as ramagens, provisórias. O que faz a beleza da nossa língua é a unidade na diversidade. Por isso todos podemos dizer que a nossa pátria é a nossa língua, tanto em Portugal e no Brasil, onde é língua nacional, como em Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, onde é idioma oficial, em Macau e em muitos exóticos rincões da Ásia e Oceania. “Ai mundo de Portugal / Gente mãe de tantas gentes” (Manuel Bandeira).

Que as jóias da nossa história sejam guardadas em escrínios de filigrana, que é a nossa língua. E não na chita rota de ministros, políticos e altos pífaros da TV, que não sabem conjugar os verbos.

A cultura não é monopólio de ninguém. Mas quem quiser adquiri-la, mude-se e não a mude. Mudá-la, eis o intento do “aborto”, eufemisticamente rotulado de “acordo ortográfico”. Obra de novo-riquismo nacional. O novo rico, sobretudo o filho da política, é alguém que saltou “da classe oprimida para a classe opressora”, como diria W. Morris. O poder despreza a cultura. Queima os livros velhos e dita um livro novo. Único. “Queimar livros e fazer muros é obra comum dos príncipes”, pensamento de Jorge Luís Borges. Príncipes tiranos, gente de um só livro.

Senhor Professor, seja para nós príncipe, mas do génio da ínclita geração.

Com os melhores votos e orações.

Belmiro Narino

[“Luxemburger Wort”, 16.02.16]

Acrescentei destaques e “links”.

Nota: Marcelo Rebelo de Sousa é acordista, acha que “Portugal tem de lutar para dar a supremacia ao Brasil” e defende que “Lusofonia exige ‘acordo militante’ em Portugal“.

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1 Comment

  1. Oh, Jesus!

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