“Arenques vermelhos” [Cláudio Quintino Crow, “Facebook”]

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Claudio Quintino Crow

Aos que desejam impor argumentos que não se sustentam resta somente o uso de sofismas e outros “arenques vermelhos” para desviar o foco.

A língua portuguesa foi, sim, ‘abastardada’ pelos proponentes do AO90 porque não é este uma evolução natural, fruto de anos de transformações ortográficas e fonéticas como costuma acontecer com todas as línguas vivas.

Se um dado grupo de ‘notáveis’, ainda que movidos por uma hipotética boa intenção, arvoram-se de custódios da língua e IMPÕEM mudanças, sem estudos amplos, sem critérios claros – como provam suas muitas exceções (ortografia brasileira pré AO90) e remendos – e mais grave, sem consultas, é evidente que tal arbitrariedade totalitária será mal recebida, gerando resistência e desobediência.

Há evidente má-fé por parte da autora do artigo quando jocosamente compara a causa do AO90 a outras mazelas sociais – pois não é uma ação (ortografia brasileira pré AO90) que traz danos à educação de gerações uma mazela social?

Acaso o desperdício de verbas públicas, os custos impostos a quem precisou ‘adequar-se’ aos termos do AO90 e a quantidade de livros da noite para o dia feitos obsoletos para atender a vaidade de uma meia-dúzia de pseudo-intelectuais não constituem um desrespeito à ‘res publica’, um atentado à economia de países que, convenhamos, não têm economias assim pujantes?

De fato há, no debate sobre o AO90, um enorme disparate: sua própria existência tosca, totalitária e, acima de tudo, desnecessária.

NEM BRASIL, NEM PORTUGAL querem o Acordo;
NEM BRASIL, NEM PORTUGAL precisavam do acordo;
NEM BRASIL, NEM PORTUGAL manterão por muito tempo o acordo – afinal, como bem disse o presidente brasileiro signatário do mesmo, “NO BRASIL TEM LEIS QUE PEGAM E LEIS QUE NÃO PEGAM.”

Palavras adequadas a um ex-presidente hoje mergulhado em sucessivos escândalos de pouco caso a leis e mal-versamento de verbas públicas: pois não é essa uma perfeita descrição do AO90?

NÃO A QUALQUER IMPOSIÇÃO TOTALITÁRIA DE ‘REGRAS’ – a língua viva vive por si;

NÃO À PADRONIZAÇÃO ESTÉRIL DE ‘ACORDOS’: A BELEZA E A FORÇA DO PORTUGUÊS ESTÁ MESMO EM SUA CALEIDOSCÓPICA DIVERSIDADE.

Logo vocês terão desistido de defender o indefensável: por puro descrédito e desuso, terá o rebotalho de acordo sido relegado ao esquecimento.

[Comentário de Cláudio Quintino Crow (São Paulo, Brasil), na rede social Facebook, a um artigo da autoria de Maria Helena Mira Mateus publicado no jornal “Público”]
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