Contra-contra-informação (ou contra-desinformação)

Coral_snake
Por vezes, não abusando, podemos perfeitamente pegar num qualquer produto tóxico e usá-lo “a contrario”, isto é, para obter dele efeitos inversos, logo, benéficos. É aliás o que se passa com boa parte dos medicamentos; em doses mínimas ou infinitesimais, aquilo que na Natureza é uma substância letal (arsénico, “Botox”, veneno de cobra, etc.) pode tornar-se em algo muito benéfico, quando não verdadeiramente salvador para alguém.

Outro tanto se passa, de certa forma e salvas as devidas distâncias conceptuais, quanto à desinformação ou à contra-informação (coisas venenosas, por definição), à mentira em geral e às patranhas, tretas, tangas em particular. Claro que não se pode comparar, por exemplo, a dentada de uma cobra coral (Leptomicrurus collaris), na perna ou no braço de um pobre terráqueo, com a mordedura violenta da mentira mais retinta nas meninges das pessoas.

Na variante escrita, é deste último género (tangas a granel) o exemplar que seguidamente reproduzo, saído a páginas 47 no “Público” de hoje. As mordeduras estão assinaladas a “bold”, sendo as mais graves também sublinhadas; e há ainda aquelas dentadas na inteligência que, de tão perigosas para a saúde mental, vão marcadas a vermelho.

 

Opinião

O Brasil e o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Mário Vilalva

09/02/2016 – 06:15

Embora o AOLP possa conter imperfeições, constituiu o primeiro instrumento palpável de harmonização da ortografia da língua portuguesa.

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O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AOLP) passou a ter plena vigência no Brasil a partir de 1.º de janeiro de 2016. A fase discursiva do exame de acesso à Universidade de São Paulo (USP), realizada em 10 de janeiro do corrente, com a participação de 26 mil estudantes, foi o primeiro grande exame de acesso ao ensino superior brasileiro a aceitar apenas a ortografia prevista no AOLP.

O Acordo Ortográfico, firmado em 1990 por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, representa ponto de inflexão na trajetória internacional do idioma. Desde 1911, Brasil e Portugal ou realizaram reformas unilaterais ou ensaiaram esforços baldados de aproximação ortográfica. O AOLP interrompe essa tendência e manifesta a disposição dos países da CPLP de evitar maior dispersão da grafia do idioma.

Ademais, a uniformização das normas ortográficas contribui para a internacionalização do português ao reduzir os custos de sua transformação para língua de trabalho ou oficial em organismos internacionais. Ademais, propicia sua disseminação em sistemas de comunicação globais, como a Internet; possibilita a circulação de bens culturais entre os países de língua portuguesa, num espaço ampliado, com mais de 250 milhões de pessoas; e favorece o seu ensino como língua estrangeira ao reduzir a discrepância entre suas variantes.

Como se sabe, a incorporação do AOLP ao ordenamento jurídico brasileiro remonta a 2008, quando se finalizou o processo de ratificação do Acordo e de seus dois Protocolos Modificativos. Na ocasião, foi previsto período de transição de quatro anos (2008-2012). No entanto, com o intuito de assegurar sua implantação em todo o território nacional (o Brasil é do tamanho de um continente), bem como de ajustar os prazos de aplicação obrigatória com os outros países da CPLP, o Brasil optou por prorrogar o período de transição até 31 de dezembro de 2015. Desse modo, a plena aplicação do AOLP, em 1º de janeiro de 2016, ocorreu em data mais próxima de sua vigência em Portugal (maio de 2015) e em Cabo Verde (outubro de 2015).

Mesmo antes de se tornar obrigatória, a nova ortografia já estava sendo amplamente adotada no Brasil. Em 2008, passou a ser utilizada nos documentos do Governo, bem como pelos meios de comunicação impressos e pelas editoras brasileiras. Entre 2009 e 2012, foi introduzida no sistema escolar brasileiro, tendo em conta o cronograma trienal do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), considerado um dos maiores programas de distribuição de livros didáticos do mundo. Segundo a Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros), a totalidade das obras didáticas editadas no país já segue as normas do Acordo Ortográfico.

Entre 2008 e 2015, durante o período de transição, o Brasil sempre reiterou seu compromisso com a plena aplicação do AOLP. Internamente, como já mencionado, por meio da utilização da nova ortografia nas comunicações oficiais, no sistema educacional e nos meios de comunicação social. Internacionalmente, por intermédio de declarações emanadas de Cimeiras e Reuniões Ministeriais da CPLP; de Cimeiras bilaterais Brasil-Portugal; e dos documentos finais das Conferências sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial (Brasília, 2010, e Lisboa, 2013).

Tive a safisfação de também confirmar o compromisso em duas cartas dirigidas aos deputados da Assembleia da República, respectivamente, em 12 de setembro de 2013 e 20 de fevereiro de 2014, ocasião em que esclareci não haver qualquer intenção do Brasil de questionar ou recuar na aplicação do AOLP, a despeito de notícias em sentido contrário aqui divulgadas.

A adoção de regras ortográficas comuns pelos países de língua portuguesa representa passo pioneiro e decisivo no sentido da gestão multilateral do idioma, que tem, até o momento, no AOLP e no Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) suas expressões mais concretas. A ortografia comum possibilitará, ainda, o aprofundamento da convergência, por meio, por exemplo, de um vocabulário técnico comum, que impulsionará o português como língua de comunicação científica e de inovação tecnológica.

Embora o AOLP possa conter imperfeições, constituiu o primeiro instrumento palpável de harmonização da ortografia da língua portuguesa, após décadas de tentativas frustradas. A sua plena vigência em países como Brasil, Portugal e Cabo Verde deve servir de estímulo ao seu aperfeiçoamento, sempre por meio de ação coordenada dos Estados membros da CPLP e com a participação da sociedade civil de nossos países.

Mário Vilalva
Embaixador do Brasil

[“Público”, 09.02.16. Inseri destaques e sublinhados. Imagem: Wikipedia (Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=456892)]

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2 Comments

  1. Isabel Coutinho Monteiro

    E lá vem a sugestão do “aperfeiçoamento”. Ainda não perceberam que é impossível. Revogue-se! Fim de polémica.

  2. Dir-se-ia que este artigo é como que um compêndio, ou um «condensado», de todas as falácias, mentiras e promessas (não concretizadas nem concretizáveis) relativas ao AO90. Pelo que até pode ter alguma «utilidade». 😉

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