“Manter a integridade”

D. Manuel II (1889 – 1932) subiu ao trono português após o regicídio (1908) e foi deposto pela instauração da República, em 1910, seguindo para o exílio em Inglaterra. Até ao eclodir da I Guerra Mundial, em 1914, multiplicavam-se em Portugal as acções armadas pela restauração da Monarquia. O Rei deposto exorta então os seus apoiantes a que parem de combater o regime que o depôs e que se juntem aos republicanos no combate ao inimigo comum, a Alemanha.

DManuelII

«O momento presente é tão excepcionalmente crítico que devemos pôr de lado qualquer ideia política e pensar única e exclusivamente na nossa Pátria. Devemos unir todos os portugueses sem distinção de causa ou de cor política e trabalhar para manter a integridade da nossa querida Pátria, quer servindo em Portugal para defender o nosso país, quer combatendo junto às fileiras do exército aliado.

É, pois, minha opinião e meu desejo que os monárquicos portugueses saibam mostrar neste momento angustioso que acima de tudo põem a ideia da Pátria e da defesa do seu solo sagrado. Por meu lado, e sempre com o mesmo fito, já me ofereci, sem reservas, a Sua Majestade o Rei de Inglaterra para tudo o que possa ser útil à tradicional aliança que data de há seis séculos.»
[Carta de D. Manuel II ao Conde de Sabugosa, 15 de Agosto de 1914]

«Ao contrário do que o antigo monarca pensava, poucos foram os que seguiram as suas instruções. D. Manuel era um patriota e, mesmo no exílio, sempre colocou o bem do país e a manutenção da integridade do território acima de quaisquer interesses políticos ou pessoais, pelo que, na hipótese de Portugal entrar na guerra, considerava mais importante unir esforços em prol do interesse nacional do que continuar com a luta pela mudança do regime. Por outro lado, desde sempre que defendera o reforço da aliança com a Inglaterra, posição que já marcara a sua política externa enquanto chefe de Estado  e que continuava a manifestar-se no apoio à causa aliada. A maioria dos monárquicos não compartilhava destas opiniões. Os sectores mais liberais e mais ligados a D. Manuel, bem como os que se encontravam em Inglaterra, partilhavam das suas ideias e seguiam os seus conselhos, como foi o caso de João Azevedo Coutinho, que, depois de receber a sua carta, escreveu ao presidente da República a pedir para servir no exército. A República recusou, como viria a fazer com todos os monárquicos que ofereceram os seus serviços.”
[Maria Cândida Proença, “D. Manuel II”, página 160]

[“D. Manuel II”, colecção “Reis de Portugal”, Círculo de Leitores, 2006. Imagem da capa do livro:  retrato da autoria de José Malhoa, Palácio Nacional de Mafra.]


Em 2008, cem anos depois do regicídio, o pretendente ao trono Duarte Pio de Bragança  manifesta publicamente  a sua satisfação pela “ratificação” do “acordo ortográfico” (coisa a que chama “língua universal”), apresentando essa ratificação (pelo Parlamento republicano) já como facto consumado, antes mesmo da respectiva votação.

“Após o infeliz fim do Reino Unido criado por D. João VI (no qual estava prevista a futura integração de Angola e Moçambique), ficámos com a língua que nos une. Mas até essa união estava a desaparecer, desde que um governo da 1ª república reformara a nossa ortografia, sem consultar o Brasil.

Esta semana (16 de Maio [de 2008]), os deputados decidirão ratificar o Acordo Ortográfico que a nossa Academia de Ciências e a Academia Brasileira da Língua vinham elaborando há anos. Alguns intelectuais condenam essa decisão, que consideram um atentado à nossa cultura e outros referem os grandes custos que resultarão da substituição dos dicionários e livros escolares. Seria preferível ficarmos “orgulhosamente sós” com a nossa ortografia?

Quanto aos custos financeiros, julgo que poderão ser evitados se nos dicionários for acrescentado uma “errata” explicando quais as palavras que foram alteradas, e que não são muitas. Ficou estabelecido que durante os próximos 6 anos poderemos escrever com ambas as ortografias. Quanto ao aspecto cultural, no Brasil todos os estudantes lêem Eça de Queiroz e outros clássicos portugueses na ortografia original, sem problemas.

Há quem pense que ainda muito se poderá fazer para tornar a nossa escrita mais lógica do ponto de vista fonético e menos dependente de critérios etimológicos que dificultam muito a sua aprendizagem por parte de milhões de crianças.

Devemos também insistir com ambas as academias para que traduzam para português os termos das novas tecnologias, para não ficarmos a falar uma espécie de crioulo em que se misturam várias línguas na mesma frase…

Gostei muito de ouvir no debate parlamentar os representantes da Galiza defenderem que “o português da Galiza deve unir a sua ortografia à do português universal, mas para que tal seja possível, é necessário saber enfim qual será essa ortografia”.

[O acordo ortográfico e o que pensa o Duque de Bragança
por Nuno Castelo-Branco, em 22.07.08]

Ainda em 2008, Duarte Pio apoia a integração na CPLP de um país como a Guiné Equatorial, sujeito à feroz ditadura de Teodoro Obiang, salientando que este (ditador) instalou “um regime democrático” naquele país africano de Língua oficial espanhola.

Boas notícias para a Lusofonia

Para participar na mais recente reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa veio a Lisboa o Presidente da República da Guiné Equatorial , o General Teodoro Obiang Nguema Mbasogo.

Esta visita tem um alto valor simbólico, porque por sua iniciativa esta antiga colónia espanhola, independente desde 1968, pediu a adesão à CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) e declarou o Português língua oficial, a par do Espanhol, nesse muito interessante país de 616.000 habitantes.

O Presidente ‘Teodoro Mbasogo derrubou o sanguinárío ditador Francisco Macias, instalando um regime democrático, com as próximas eleições marcadas para 2010 .

Esta iniciativa deveria ser um motivo de satisfação para todos nós e terá sido influenciada pelas excelentes relações com S. Tomé c Principe. Aliás, as ilhas de Fernando Pó (actual Bioko), e Ano Bom, encontram-se separadas pela Ilha de S. Tomé e estiveram a ela ligadas durante séculos. Quando passaram à Coroa de Espanha, a população nativa manifestou-se violentamente contra a mudança de soberania e ainda hoje falam o crioulo são-tomense.

0 Senegal, com os seus 12 milhões de habitantes, também decidiu aderir à CPLP..-

O mesmo sucede com a República das ilhas Maurícias, belíssimo país-arquipélago do Oceano  Índico de quase um milhão e meio de habitantes, membro da Commonwealth.

Os territórios de Macau e Goa já são “membros observadores”.

Estas excelentes notícias criam novas responsabilidades aos países lusófonos mais desenvolvidos. O Brasil e Portugal, e porque não Cabo Verde, deverão preparar a formação dos professores de português dos novos estados e territórios membros, e apoiá-los na organização e na obtenção de todo o material necessário, como livros , programas informáticos e de televisão, etc.

Esse desafio já se coloca hoje em Moçambique, Timor e na Guiné-Bissau, onde a falta generalizada de livros escolares está a pôr sérios entraves à manutenção da nossa língua comum.

Essa missão poderia ser, e muito bem, coordenada pelo Instituto Camões, se houvesse meios e vontade para tal.

O capital de simpatia que Portugal espalhou pelos 5 cantos do Mundo corre o risco de não só não dar juros. como também de desaparecer lentamente.

É nosso dever não deixar que isso aconteça, nem nesta nem nas gerações vindouras.

[Duarte Pio de Bragança, revista “Voz de Portugal”, Set/out 2008]

Três anos depois, em 2011, o mesmo pretendente ao trono reitera algumas das suas opiniões sobre a “comunidade lusófona”. Nesta gravação vídeo não há referências a uma putativa “língua universal”, felizmente, mas mantêm-se as “ideias” de recusa do “risco de isolamento” de um “piqueno país”.

 

Estas opiniões do pretendente ao trono são de 2008 e de 2011. Portanto, trata-se de tergiversações ultrapassadas, algo remotas. Os anos foram passando, conhecem-se hoje as (desastrosas) consequências do “acordo ortográfico” e aquilo em que realmente (sem trocadilhos) se transformou a CPLP. Esperemos que tenha entretanto Duarte Pio reflectido mais e melhor sobre a questão.

Caso essa reflexão não tenha afinal ocorrido ao pretendente, ou, a ter ocorrido, que não tenha de todo dado frutos, então que seja seu filho, S.A.R. Dom Afonso, a fazê-la.

E que o ilumine o espírito de abnegação, o sentido do dever e a dedicação à Pátria de que deu bastas provas El-Rei D. Manuel II há apenas um século.

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2 Comments

  1. Maria Oliveira

    E vamos nós ter esperança na “geração futura” dos Braganças?… Como é possível? Depois de tanta provável lavagem cerebral ia agora Dom Afonso recuar no desastre? A partir de que informações, de que escola de pensamento, de que escala de princípios? Suponho que ninguém no seu perfeito juízo crê, já, em imbecilidades como o Quinto Império, mas que podíamos sair mais limpos, direitos e dignos de uma fase negra a todos os níveis, é desejo legítimo, caramba!
    Precisávamos mesmo de ter descido tão baixo? Mas que povo é que vende a sua Língua-Mãe, se verga a ex-colónias, íntegra no seu seio uma ditadura sanguinária (passe o pleonasmo) como a Guiné Equatorial?
    De facto, um solo como este onde “marionetas profissionais” ao serviço do Brasil como Dom D. Pio são mais que as mães, só podia ter um destino cinzento, lúgubre, baço, a tal “apagada e vil tristeza” a que se referia Camões.
    Na próxima vida, se me fosse dado escolher, eu já nasceria no Estado Islâmico… Assim como assim, embora sejam óbvios doentes mentais, os gajos sabem pelo que e para onde correm, carago! Estes que nos desgovernam, nem lá vão, nem fazem mistério!… Fica-se tão fartinho, tão saturadinho até aos olhos, que um cristão até dá por si a desejar que a 3ª idade chegue prestes. O vermelho da bandeira, para mim, já é de vergonha há décadas!

  2. Foi nessa collecção de biographias reaes que li ser el-rei D. Miguel já espigadote e só capaz de escrever o seu nome Migel. É d’ onde vem a phonetica de D. Doarte Piu.
    Cumpts.

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