Turismo linguístico: “lusofonia” e… “Física Quântica”

A parte mais difícil deste trabalho não foi coligir e sequenciar materiais de “estudo”, porque há por aí muita coisa, foi seleccionar apenas o que de fundamental — para não cansar as pessoas — poderia servir para ilustrar o assunto: falamos de “turismo linguístico”, está bem, e de “lusofonia”, certo, mas… “Física Quântica”? Perdão? O que diabo vem a ser isso? E o que tem semelhante coisa a ver com o AO90?

Pois sim, bem sei, os três conceitos não são muito fáceis de entender e se os amalgamarmos no mesmo título então a confusão ainda é maior. Vejamo-los, portanto, um de cada vez.

Toda a gente sabe (enfim, pouco mais ou menos) o que vem a ser o termo “lusofonia” entre aspas, sempre entre aspas, significando estas que se trata de um conceito cujo significado original e verídico foi paulatinamente transformado em pura e simples, tremenda aldrabice.

Já a expressão “turismo linguístico” pode soar algo familiarmente, que ele há disso, por exemplo, em Espanhol, em Francês e em Inglês. Bem entendido, na acepção de que aqui e agora se trata, não têm o “tourism linguistique” ou o “linguistic tourism” rigorosamente nada a ver com a sua tradução literal para Português: uma coisa é um cidadão ir passar uns tempos num país qualquer para ali “mergulhar” na Língua local, outra coisa completamente diferente — mais uma originalidade absoluta integralmente inventada por portugueses — é um grupo excursionista organizar uns “colóquios” para “debater” a Língua dos excursionistas em destinos mais ou menos exóticos.

http://pgl.gal/xxii-coloquio-da-lusofonia-decorrera-em-setembro-em-seia/
Quanto ao terceiro dos conceitos amalgamados é que, enfim, lamento, eu cá tinha uma vaga ideia de que “Física Quântica” não era exactamente isto:

Transformar a consciência do Português. O processo deve começar na comunidade onde vive e convive o cidadão. A comunidade, quando está politicamente organizada em Associação de Moradores, Clube de Mães, Clube de Idosos, etc., torna-se um micro Estado. As transformações desejadas serão efetuadas nesses microestados, que são os átomos do organismo nacional – confirma a Física Quântica.

Ao analisarmos a conduta das pessoas nos países ricos e desenvolvidos, constatamos que a grande maioria segue o paradigma quântico, isto é, a prevalência do espírito sobre a matéria, ao adotarem os seguintes princípios de vida: (…)

Esta mui interessante “definição” de Física Quântica é o devaneio que está escarrapachado sob o  sub-título “Solução-síntese” num todo ele curioso documento intitulado como Historial dos Colóquios da Lusofonia Representantes da Sociedade civil Atuante“.

Do qual podemos destacar, apenas para ilustração do respeitável público ou, pelo menos, daquele que não é totalmente quadrado na matéria, algumas verdadeiras pérolas (favor não confundir com pérolas verdadeiras, que são umas coisas redondas):

Gostaria de começar usando a frase de Martin Luther King, 28 agosto 1963, I had a dream… para explicar como já realizámos vinte e quatro Colóquios da Lusofonia.
(…)

“O Português no século XXI, a variante brasileira rumo ao futuro. O risco real da separação ou não. Unificação ou diversificação: esta a agenda para as próximas décadas.” Assim, a verificar-se (e creio ser só uma questão de tempo) a emancipação da variante brasileira, a língua portuguesa europeia estará condenada a uma morte lenta associada a uma rápida diminuição e envelhecimento da população de Portugal que aponta para uns meros 8,7 milhões em 2050 contra os atuais 10,7 milhões.
(…)
O Português, ao contrário do que muitos pensam não tem pernas para andar sozinho com uma população entre 9 e 15 milhões se incluirmos os expatriados, e tem de contar sobretudo com o número de falantes no Brasil, na Galiza, em Angola, Moçambique, Timor, Cabo Verde, S. Tomé, Guiné-Bissau e por toda a parte onde haja comunidades de lusofalantes, mesmo nas velhas comunidades esquecidas de Goa, Damão, Diu, Malaca.
(…)
O espaço dos Colóquios [Anuais] da Lusofonia é um espaço privilegiado de diálogo, de aprendizagem, de intercâmbio e partilha de ideias, opiniões, projetos por mais díspares ou antagónicos que possam aparentar. É esta a Lusofonia que defendemos como a única que permitirá que a Língua Portuguesa sobreviva nos próximos duzentos anos sem se fragmentar em pequenos e novos idiomas e variantes que, isoladamente pouco ou nenhum relevo terão.
(…)

[Excertos de ” Historial dos Colóquios da Lusofonia Representantes da Sociedade civil Atuante“]

Não me pergunteis, por favor, o que levou o autor a atirar com o sonho de Martin Luther King para o passado, pois não sei, não faço a mais pequena ideia. Mas acho perfeitamente natural que me pergunteis, por exemplo e de novo, eich, o que raio vem a ser isto, hem?

Pois “isto”, hem, parece-me até bastante claro: O Português no século XXI, a variante brasileira rumo ao futuro” porque… “O Português, ao contrário do que muitos pensam não tem pernas para andar sozinho“.

E assim fica tudo dito, por conseguinte:É esta a Lusofonia quedefende a AICLcomo a única que permitirá que a Língua Portuguesa sobreviva nos próximos duzentos anos sem se fragmentar em pequenos e novos idiomas e variantes que, isoladamente pouco ou nenhum relevo terão”.

O que responde também à questão inerente: então o que são os “colóquios da lusofonia”, no fim de contas?

Bom, no fim de contas, digo eu, esses colóquios são materializações práticas dos objectivos traçados para “promover” a tal variante “rumo ao futuro”. Materializações essas que se verificam sob a forma de viagens e estadias, patuscadas e jantaradas, tertúlias e cavaqueiras. Da teoria à prática, nisto mesmo consiste o tal turismo linguístico da “lusofonia”, segundo uma interpretação alternativa de “Física Quântica” transmutada numa espécie de “Física Viajântica”. Conceito este que foi pelos próprios ilustrado num vídeo com seu quê de catita:

Pois é. Vinte e cinco colóquios já lá cantam, fora as viagens para eventos extra, essa é que é essa, e de destinos mais ou menos exóticos foram os convivas servidos, desde Macau (China) até Seia (Guarda), passando pelo Brasil e pelos Açores.

Após uns anos de tirocínio, digamos assim, a Associação organizativa formalizou a sua constituição notarial, com o beneplácito do próprio Governo português:

«Foi constituída em 28 outubro e legalizada em 6 de dezembro 2010, com início fiscal de atividades em 1 de janeiro de 2011, uma ASSOCIAÇÃO CULTURAL DE FINS NÃO LUCRATIVOS, denominada “COLÓQUIOS DA LUSOFONIA – AICL (por extenso, ASSOCIAÇÃO [INTERNACIONAL] dos COLÓQUIOS DA LUSOFONIA) ”, declarada de utilidade pública pela PRESIDÊNCIA DO GOVERNO por Despacho n.º 2683/2015 de 9 de dezembro de 2015.»
http://www.lusofonias.net/images/pdf/regulamento%20interno.pdf

E com outros apoios de peso, salvo seja, dos quais destaco os seguintes:

1. AGLP Academia Galega da Língua Portuguesa
2. IILP Instituto Internacional da Língua Portuguesa
3. Museu da Língua Portuguesa
4. MIL: Movimento Internacional Lusófono
4.2. revista nova águia

Faltará, quiçá, apenas apurar o que tem tudo isto a ver com o “acordo ortográfico”, directa ou indirectamente. Na minha opinião, olhando para os dois primeiros nomes da “Comissão Científica Permanente da AICL”, não há nisto tudo absolutamente nada de indirecto: 

AICL_comissaolusofonia2009.com.sapo.pt/

Voltarei ao assunto.

(Sim, há mais.)

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4 Comments

  1. Quem é esta gente?!

    (Se continua o meu caro com pérolas destas soltam-se-me mais palavrões; já descarreguei aqui dessa raiva incontida e por este caminho não haverá melhoras; ainda lhe desvirtuo cá a locanda; agarrem-me!)

    1. Bem, os dois nomes à cabeça da “comissão científica” toda a gente conhece, são os progenitores do nado-morto; pelo menos alguns dos outros nomes, nas diversas “fichas técnicas” dos pevidelaureantes eventos, deverão com certeza “ring a bell” (fazer soar campainhas, em sentido literal), ao menos pelas respectivas ressonâncias “quânticas”. E depois há outros (de centenas de vídeos, por exemplo) cujas bermudas e xanatos indiciam uma nada despiciente tendência viajântica.

  2. Maria Oliveira

    Pois eu… Confesso o meu luto. Conheço a personalidade número cinco. Sempre a tinha tido num lugar especial do coração, pela adrenalina que sabia acrescentar a aulas plenas de cultura, imprevisíveis, absolutamente brilhantes. Pré-AO90, claro. Acaba de descer ao nível dos sub-párias. Quanto a mim, acaba de falecer a pessoa, falecida a memória, falecida a dignidade que lhe era inerente. Se esta senhora também se vendeu ao Brasil, TUDO É POSSÍVEL.
    Há dias, falava-se, cá em casa, a propósito de familiares e amigos em viagem/missão no Afeganistão, da “Spider camel”, a maior aranha do planeta que, mal ataca, deixa necrosados os tecidos da presa, o que é, não raro, visto em humanos incautos. Reconheço a violência da analogia, mas é assim que sinto a memória a propósito deste assunto. Algo que me era querido e amado foi tocado e… Apodreceu.
    Até as brilhantes TED Talks estão absolutamente corrompidas. No Português do Brasil, nada aparece, mas a escumalha do “povo irmão” brasileiro chega lá, com apoio dos deste lado do Atlântico e ocupa o Português de cá, a Matriz da língua, impedindo quem a respeita de corrigir os erros grosseiros, toma de assalto, viola, escarra, usando expressões como, por exemplo, “nesse ínterim”, que nós dizemos “entretanto”…
    Dois dos meus últimos redutos da decência acabam de apodrecer. Oficialmente, a minha velhice começou hoje. Com a subida ao poder, em Março, do bobo da corte que alguns portugueses “elegeram” por descaso e que nos nega, elevando essa Vera Cruz que abomino, sinto, por fim, a dor desse Luís que a História tornou ainda mais único. Este é o único país que tem como dia nacional a data da morte do Poeta passado à eternidade. Nunca, como hoje, o vi ser tão cuspido e aviltado. Eu, que pensava já ter visto tudo, passarei, agora, a viver de memórias. De facto, tudo passa. Resta-nos a necrose de um povo.

    1. Olga Rodrigues

      É lamentável que tão excelsas figuras emprestem o seu nome e o seu prestígio intelectual para tão pífia causa. Ou melhor dizendo, que se prestem a erguer uma fachada de respeitabilidade para algo que não passa de simples excursões.

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