Dia: 6 de Março, 2016

“Ganhem coragem”!

O que se segue é transcrição de (parte de) uma “conversa” na caixa de comentários do “blog” Aventar. Acrescentei alguns destaques e “links”.


 

ThreadAventar_OdS1ThreadAventar_OdS2MJoão says:
26/02/2016 às 22:55
Há dias num teste tinha os alunos a olhar para a palavra “conceção” sem perceberem nada da questão. “Professora, a palavra concessão está mal escrita!” 🙁 🙁 Pois , eu não tenho culpa, mas sou obrigada a utilizar o AO.

Octávio dos Santos says:
26/02/2016 às 23:17
A senhora, ou seja quem for neste país, não tem qualquer obrigação de utilizar o AO.

MJoão says:
28/02/2016 às 14:17
Engana-se e demasiado. É obrigatório. E nem faltava mais nada que, por eu discordar, os meus alunos fossem prejudicados pelos erros que dão se não escreverem de acordo com o AO num exame .

Octávio dos Santos says:
28/02/2016 às 20:16
Não, não me engano. O AO90 não é obrigatório porque é ilegal; a sua imposição tem sido feita através da violação de uma série de normas nacionais e internacionais. Portanto, o que a senhora pode fazer é juntar-se aos seus colegas – da sua escola, do seu agrupamento, do seu distrito, do país – e recusarem-se a aplicá-lo. Se vos ameaçarem com sanções… recorram aos serviços jurídicos do vosso sindicato. Ganhem coragem. Tantas greves, tantas manifestações, que os professores têm feito ao longo dos anos para defenderem os seus direitos e as suas regalias… que tal, finalmente, se mexerem em prol dos alunos e da qualidade no ensino? E da cidadania e da democracia?

Maria Martins says:
28/02/2016 às 22:17
Pôs o dedo na ferida, Octávio dos Santos! Também já passei pelo ensino, cheguei a ser sindicalizada, e dei-me conta de que os sindicatos só se interessam pelo que ganham e por outras regalias dos professores, mas NUNCA pelo ensino. E os professores não são uma classe muito unida. Uma grande parte faz o seu melhor, mas estas coisas não se conseguem agindo individualmente. Os professores precisavam de uma associação que fosse muito para além dos objectivos dos sindicatos, pois é difícil lutar individualmente. Para já, não conheço nenhuma associação que se interesse realmente pelos problemas do ensino. Infelizmente!

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“Várias” literaturas… menos uma

logo_shareCânone literário lusófono: uma ideia que provoca resistências

Luís Miguel Queirós

06/03/2016 – 09:06

No momento em que o Brasil admite excluir a literatura portuguesa dos programas escolares, o PÚBLICO ouviu reacções à proposta de Vítor Aguiar e Silva de se criar um cânone literário comum a ser ensinado em todos os países lusófonos.

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Enquanto o Acordo Ortográfico (AO 90) continua a provocar discussões acesas, a criação de um cânone literário comum da língua portuguesa, visando garantir que autores fundamentais das várias literaturas sejam ensinados nas escolas de todos os países lusófonos, é um projecto que ainda pouco se debate fora dos departamentos universitários, mas que promete ser tão polémico como o AO 90.

A ideia, publicamente lançada em Dezembro pelo teórico da literatura Vítor Aguiar e Silva na conferência inaugural do Congresso Língua Portuguesa: Uma Língua de Futuro, organizado pela Universidade de Coimbra, é a de que cada um dos países escolha os seus autores e obras fundamentais, e que da conjugação dessas escolhas resulte um “cânone literário escolar” que dê a conhecer a alunos de todo o mundo lusófono a especificidade das diferentes literaturas nacionais e a diversidade da própria língua.

Tendo em conta que o Ministério da Educação do Brasil se propõe agora eliminar a obrigatoriedade do estudo da literatura portuguesa, retirando-a da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), ao mesmo tempo que novas leis têm vindo reforçar a presença das literaturas africanas nas escolas e universidades brasileiras, parece existir o risco de que, mesmo sem um cânone formal, esse esforço preconizado por Aguiar e Silva esteja de facto a fazer o seu caminho, mas deixando de fora a literatura da antiga potência colonizadora.

Aproveitando a presença de autores de quase todos os países lusófonos (só a Guiné-Bissau não esteve representada) no VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa promoveu em Fevereiro na Cidade da Praia, em Cabo Verde, o PÚBLICO pediu a um representante de cada país que indicasse quais os seus compatriotas que mereceriam integrar esse cânone comum destinado a alunos de quatro continentes. O resultado global revelou-se um tanto desequilibrado: houve quem se ficasse por um ou dois escritores e quem citasse quase 30.

O que de mais significativo haverá a retirar deste inquérito informalíssimo ainda será a naturalidade com que quase todos aceitaram o desafio. Não terá sido por acaso que a reacção mais cautelosa veio da angolana Ana Paula Tavares, que além de poetisa e ficcionista, é também uma académica, e está precisamente a trabalhar, no âmbito do Centro de Investigação (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, num levantamento dos textos africanos já estudados no ensino secundário português, com o objectivo de propor novas obras.

Admitindo que a questão do cânone “não poderá ser evitada”, Ana Paula Tavares acha que ela “não foi suficientemente discutida” nos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP), onde o debate “continua cheio da problemática dos nacionalismos, do ser-se ou não africano, e ainda se não chegou bem aos critérios da literatura”. Daí que lhe pareça prematuro lançar nomes, embora, como veremos adiante, tenha acabado por referir alguns.

Já Pires Laranjeira, professor de Literaturas Africanas da Universidade de Coimbra, acha mesmo que “não faz muito sentido esse projecto de Aguiar e Silva”, e observa que “estas ideias surgem sempre de Portugal ou do Brasil, e nunca dos países africanos”. Contestando a oportunidade de se tentar estabelecer um cânone em países que não dispõem ainda de uma história da literatura, Pires Laranjeira acredita, não obstante, que “se juntarmos 30 professores de literaturas africanas, vemos que há um conjunto de nomes consensuais”. Ele próprio distribui aos seus alunos uma lista das obras e autores que considera essenciais em cada uma das literaturas africanas lusófonas, escolhas que nem sempre coincidem com as opiniões que o PÚBLICO recolheu dos escritores desses países.

[…]

[“Público”, 06.03.16. Transcrição parcial. Acrescentei destaques a “bold” e “links” a verde.]

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