Dia: 22 de Março, 2016

Não há qualquer obrigação [por Octávio dos Santos]

Lula_doutor_UCQue não restem dúvidas, que não sobrem ilusões: o «(des)acordo ortográfico de 1990» não é susceptível de qualquer aperfeiçoamento, melhoria ou revisão mas sim de uma erradicação completa e irreversível. Que, sim, não só é possível mas também indispensável.

Há 25 anos eram muitos os que não imaginavam, que não acreditavam, que os seus piores pesadelos nesta matéria se tornariam realidade. Eu e outros contestatários do AO90 pensámos (prematuramente, percebeu-se depois) que o «dito cujo carcará» ficara definitivamente morto e enterrado quando então se tentou implementá-lo pela primeira vez; nessa altura já estávamos… «acordados» para combater os delírios de candidatos a ditadores. Entretanto, e à medida das possibilidades de cada um, tentámos promover a Lusofonia – a verdadeira, a respeitadora e apreciadora das especificidades, a do «todos diferentes, todos iguais» – de vários modos; no meu caso, lendo, estudando, recolhendo informações, participando em acções de promoção cultural, escrevendo artigos e um livro – «Os Novos Descobrimentos», com Luís Ferreira Lopes, que neste ano de 2016 celebra(rá) o décimo aniversário da sua publicação…

cavacoerrrrrrr… Até que, há cerca de dez anos, aconteceu que dois extremistas, dois radicais, alcançaram quase em simultâneo o poder em Portugal e no Brasil, e decidiram «desenterrar» uma aberração que tem tanto de imbecil como de inútil… e de ilegal. Curiosamente, um já esteve na prisão (José Sócrates) e o outro está quase a ir para lá (Lula da Silva). Porém, e o que é pior, os que continuaram no poder e/ou lhes sucederam não tiveram (não têm) coragem para acabar com esse atentado à cultura. Dois exemplos recentes… Primeiro, o de Aníbal Cavaco Silva – que, nunca é demais recordar, era primeiro-ministro quando o AO90 foi iniciado e Presidente da República quando aquele foi «finalizado»: não vetou em (Agosto de) 2015 uma resolução da Assembleia da República que ratificou em Portugal o acordo relativo ao Tribunal Unificado Europeu de Patentes, entidades cujas únicas línguas de trabalho são o Inglês, o Francês… e o Alemão; a resolução foi aprovada com os votos favoráveis do PSD e do CDS e com a abstenção do PS, isto é, os três partidos (ir)responsáveis pela subsistência do aberrante «acordês» – ou seja, os protagonistas desta capitulação são os mesmos da concepção e da implementação do AO90: diferentes momentos, diferentes assuntos, e, no entanto, a mesma incompetência, a mesma falta de patriotismo, a mesma subserviência face ao estrangeiro; este – lamentável – caso é mais um exemplo de como o dito «acordo» falhou, e continuará a falhar, no seu alegado objectivo principal – a de contribuir para o aumento da expansão e da projecção internacionais da língua portuguesa. Segundo exemplo, o de António Costa: o actual primeiro-ministro* afirmou em Janeiro último na SIC, no programa «Quadratura do Círculo», que «não tomo a iniciativa de desfazer o acordo ortográfico», mas, entretanto, não hesitou em tomar a iniciativa de desfazer a privatização da TAP; digamos que há coisas mais «desfazíveis», mais reversíveis do que outras… Os «acordistas» mencionam amiúde os (alegados) custos elevados de o «acordês» ser abandonado (patético «argumento»…); todavia, a «re-nacionalização» da transportadora aérea nacional poderá revelar-se tão ou mais dispendiosa do que mandar para a reciclagem livros e documentos cheios de erros.

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