Como diz a outra

Rever, corrigir, melhorar o AO90. A ideia tem barbas e já se percebeu que a isso mesmo se resumem as intenções de assumidos acordistas e de supostos anti-acordistas em igual número. Ambas as seitas passaram todos estes anos a entreter o pagode, uns fingindo que o aleijão era para ficar assim mesmo, outros a fingir que pretendiam acabar com a maleita, mas por fim, conforme infalíveis sinais emitidos por uns e por outros desde pelo menos 2013,  aí os temos chegando a uma forma explícita de entendimento tácito — desde há muito delineado, se não mesmo combinado ao pormenor — em que os interesses de todos eles (os assumidos e os supostos) ficarão salvaguardados.

Toca a música, ora aí está, começou a dança das cadeiras. Os membros efectivos dos dois grupos aparentemente antagonistas pretendem, hoje como antes, literalmente e apenas, salvar a própria pele e ainda vir a ganhar alguma coisinha (que se veja) nessa operação de epidérmico salvamento. Daí as mais recentes (e ainda mais descaradas do que era costume) “notícias”, todas elas muito profissionalmente cozinhadas, dando conta de inúmeras movimentações: iniciativas públicas, eventos mediáticos, palestras, entrevistas, conferências e até cimeiras.

À boleia da eleição do novo Presidente da República, não só mas principalmente, a recente enxurrada de “notícias” não passou e não passa de simples fogo de barragem, isto é, de intoxicação da opinião pública, no óbvio intuito de fazê-la distrair-se com histórias da Carochinha enquanto nos bastidores se vai já oficializando a distribuição de pelouros (vulgo, atribuição de tachos) numa putativa “Comissão de Revisão” a criar ad-hoc pelo statu quo vigente.

Parece-me até que não seria nada difícil adivinhar os nomes dos representantes pelo lado dos assumidos, uns oito a dez, e, pela banda dos não-assumidos, outros tantos. Guardo a lista para mim, no entanto, em privado mas para memória futura; sempre quero ver em quantas das apostadas graças muito em breve acertarei.

O descaramento, neste particular, já chegou ao ponto de ter a sede oficiosa do acordismo aberto recentemente um “projeto de melhoria do Acordo Ortográfico de 1990″. Descaramento mais descarado, passe a redundância, seria impossível, digo eu…

Provavelmente designarão os mandantes da casta esta novel sinecura como “Comissão Técnica”, ou coisa que o valha, algo assim a armar ao científico, como é de uso em Portugal quando se trata de constituir prebendas, pelo que usarei doravante, para simplificar, a presuntiva sigla “CTR AO90”.

Os “trabalhos”, é claro, serão regiamente pagos, nesta ilustríssima Comissão (não sei se à comissão), obviamente e como compete a recompensa dos serviços prestados, nos apertados tempos que vão correndo, e consistirão exclusivamente em expurgar do “acordo” os “constrangimentos” que alguns (aqueles e outros não menos) ilustres andam por aí a enumerar há que tempos:  portanto, tais 16 a 20 tão celebradas quanto “célebres” cacholas espiolharão as “incongruências”, catarão os “erros mais flagrantes” e extirparão as “graves lacunas” do AO90. Rejubilemos, por conseguinte. Sejamos ousados na rejubilação, digamos portanto mais ainda: iupi.

Evidentemente, todos estes aturados trabalhos levados a cabo, com imenso sacrifício pessoal, imagino, pelos prestigiadíssimos membros da CTR AO90, tanto os acordistas propriamente ditos como os que nem tanto assim, resultarão afinal (e fatalmente) em algo que será sempre mil vezes pior do que o texto original do “acordo”. Pois claro, é evidente, mas isso agora, como diz a outra, não interessa nada.

Concluída a versão “revista”, os portugueses passarão a ser o único povo do mundo cuja ortografia será determinada pela forma como se fala num país estrangeiro. Mas isso também,  de novo como diz a outra, agora não interessa nada.

Conseguiram, por conseguinte, finalmente. Há que mui respeitosamente a gente desbarretar-se, tiremos-lhes o (nosso) chapéu por nos terem a (quase) todos enfiado o barrete: doravante, concluída a patriótica missão da CTR AO90, qualquer português que pretenda escrever a palavra “recepção”, por exemplo, terá de se lembrar como se pronuncia (e escreve) “recepção” no Brasil; para saber se “espectador” ou “espetáculo” tem um C ou não tem um C, deverá o tuga puxar pela memória auditiva (ou perguntar ao colega do lado) e apurar se os brasileiros pronunciam ou não aquele C maroto. O mesmo para outras centenas (ou milhares) de termos, de A a Z, isto é, de “activo” a “zig-zag” (no Brasil tem hífen ou não tem?).  Bom, pronto, está bem, mas lá vem a outra, isso agora não interessa nada.

Não interessa nada mas há ainda, digo eu, um piqueno  problema. A ver se a genial CTR AO90 resolve esse: impor, porque é grande, uma grande nação a sua escrita a uma nação pequena, porque é pequena, não será uma coisa assim um bocadinho, digamos, nojenta, asquerosa, vergonhosa?

Dêem lá um jeitinho nisto, excelentíssimos académicos da CTR AO90: se a “pronúncia culta” passa para os portugueses a ser a de uns poucos brasileiros, assim todos nós teremos “só” de escrever ou também teremos de falar, nesta pequena porém honrada nação, como diz a outra?

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