Dia: 1 de Abril, 2016

Voltar a casa

«E havemos de morrer com este desgosto? Esta língua matricial tão bonita há-de continuar a ser violada pelo inimigo? Tivessem estes bárbaros lido “Le Silence de la Mer”, de Vercors, saberiam que há legados que é preciso acarinhar. As palavras de uma língua são pequenas hastes de um ninho, estão interligadas, entretecem-se, criam laços, acalentam. Ter vivido num outro país e reconhecê-las num qualquer corredor, numa rua estranha, escrita em paredes, sussurrada em igreja com volutas de incenso ou gritada em novelos de fúria é voltar a casa. É já estar em casa. É a casa acolher-nos.»

Maria Oliveira

 

Ou, como se dizia dantes, regressar a penates.

Neste 1.º de Abril, data muita adequadamente popularizada como “Dia das Mentiras”, não se completam quaisquer tempos certos, anos ou meses, não há nisto efeméride, mas já passou ao menos o tempo suficiente desde aquele outro dia em que uma mentira lançada de véspera aqui me trouxe, de volta a casa.

Por este facto já tinha agradecido e tornado a agradecer mas, como sabemos, os agradecimentos nunca são demais. De mais a mais quando são mais do que merecidos. Devo, portanto, agradecer novamente, aos outros, pela liberdade que fizeram a fineza de me conceder, por este abençoado sossego que é, tão simplesmente, ter um blog pessoal, esta leveza de espírito que é poder a gente escrever quando e como quiser, usando apenas a primeira pessoa do singular em vez de plurais pomposos, majestáticos pronomes pessoais.

Desde aquela data, que em breve dobrará o cabo do primeiro aniversário, posso dizer tudo e mais alguma coisa, sem espartilhos mentais, sem auto-censura, sem prudentes reservas. Portanto, agora sim, já me é possível “falar” apenas por mim mesmo, livre de  quaisquer responsabilidades “institucionais”, o que equivale a dizer aquilo que, por vezes, mais ninguém se atreve a sequer… pensar.

Uma velha aspiração, uma ânsia que, devo confessar, me compeliu durante muito tempo a invejar todos aqueles que sempre puderam dar-se ao luxo de emitir apenas e somente a sua própria opinião. Há por aí alguns destes “livre-pensadores“, digamos assim, à maneira do século XIX, que nunca lhes doam os dedos (nem as meninges) por isso, e a essa livre comunidade me junto agora alegremente, todos unidos — apesar de algumas possíveis divergências acessórias — numa Causa (por fim) ideal, instintivamente solidária: a luta contra o pensamento único, a ideia-feita, o lugar-comum; portanto, contra a intoxicação e a mentira. Não é coisa pouca…

Porque, sejamos claros, os opinadores da ordem, os “fazedores de opinião” — quantas vezes pagos à peça — nunca vão ao fulcro da questão; evitam-no, aliás, utilizando para o efeito um imenso arsenal de manobras de diversão.

E isto sucede, por maioria de razões, em tudo aquilo que diz respeito ao “acordo ortográfico”. Tema de eleição para o establishment, ainda para mais, visto que a oposição ao dito “acordo” já dura há longos anos, persiste, resiste em alguns espíritos e ao menos nestes não dá sinais de vir a enfraquecer.

Sejamos justos, reconheçamos que os tais “fazedores de opinião” costumam operar verdadeiros milagres nas áreas mais diversas. Prova disto é o facto, facilmente comprovável através das inúmeras “entrevistas de rua” com que somos sistematicamente bombardeados, de o chamado “homem da rua” (ou o ainda mais conhecido “popular”) reproduzir alegre e militantemente toda e qualquer imbecilidade que lhe impingirem.

Nos dias que vão correndo, a “opinião pública” tuga (mainstream) não é mais do que simples caixa de ressonância das patranhas que os profissionais da mentira divulgam com método e por sistema. Como ilustrações objectivas de como está gordurosamente oleado o método e de como espectacularmente funciona o sistema podemos apontar, por exemplo, algumas das referidas afirmações televisionadas. A gente ouve e pasma: que “devia haver mais descidas do preço da gasolina” (ah, mas que bela ideia, excelente, nunca tal me ocorrera) ou que “acho bem as multas, as brigadas de trânsito e as operações stop dão muito jeito, devia haver mais, é uma questão de segurança” (ora, ora, pois claro, isso da “caça à multa” não passa de um mito urbano).

E se isto é assim com tão triviais coisas como os aumentos dos combustíveis ou as multas de trânsito a granel, então fácil será, pelo mesmo processo de intoxicação da opinião pública, constatar com horror a passividade geral, a bovina aceitação que nosso bom povo português manifesta em relação ao “acordo ortográfico”: não há novidade alguma neste “fenómeno”, as pessoas engolem facilmente tudo aquilo que a estatal máquina de propaganda lhes enfia goela abaixo.

Evidentemente, sendo pagos à peça os fazedores de opinião (a não ser que sejam “do quadro”, porque nesse caso são pagos ao mês), a respectiva entidade patronal (o referido statu quo, isto é, o Estado) exige resultados palpáveis, salvo seja, aos seus empregados e avençados; caso contrário, despede-os (ou, mais vulgarmente, chuta-os para cima, arranja-lhes algures um tacho para que se calem de uma vez por todas) e contrata outros para o efeito, escolhidos de entre os filhos, sobrinhos e afilhados dos membros da colectividade partidária que na ocasião detiver o poder político-administrativo.

A nossa Constituição, à semelhança do que sucede em outras “democracias ocidentais”, contém um artigo sobre a pública “liberdade de expressão e informação”, o que se designa genericamente por “liberdade de opinião”. Mas nem no Texto Fundamental nem em qualquer outro nacional escrito está prevista a mais ínfima restrição a que a opinião pública seja formatada pelo establishment. E isto quanto à “opinião”, porque quanto à parte da sua expressão (ou seja, da “informação”), no que toca a liberdades, a coisa ainda vai pior: atente-se no que diz a legislação avulsa ou pontual sobre o assunto, as diversas, miudinhas, inúmeras restrições a essas mesmas “liberdades”, por regra e definição exaradas a pedido, ou seja, à medida dos interesses particulares de certa casta, deste ou daquele lobby específico.

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