Dia: 29 de Abril, 2016

“Lost in translation”

lostintranslationNunca entendi esta “questão”. Há-de ser decerto um assunto importante, a julgar pelo número de pessoas (pelo menos aparentemente) normais que a ele se referem amiúde, mas confesso que me ultrapassa mesmo “o” para que raio isto interessa. Em que é que este antiquíssimo fenómeno, esta trivialíssima parvoíce, tal vulgaríssima labreguice afecta a Língua Portuguesa enquanto corpus são e escorreito?

Pois é claro que a TVI (por exemplo, mas com direito a destaque) capricha na liquidação sumária do Português. Pois sim. Mas isso, raios, não tem absolutamente nada a ver com aquilo que nos interessa!

Anglicismos? Francesismos? Barbarismos? Estrangeirismos?

Sim, sempre houve disso. So what?

O “acordo ortográfico” é que é assunto, ok?

Peço desculpa pelo estilo blunt: isto é pura e simples conversa fiada, verbo de encher, bull shit. Tentem lá mudar o chip, caramba, deixem-se de conneries.

 


logo_sharePerdidos na tradução

Nuno Pacheco

29/04/2016 – 00:10

Faz-nos falta a Grande Cruzada da Tradução Nacional!

——–

Anda por aí um vírus, teimoso e persistente, ao qual nos vamos habituando com alguma moleza: o vírus do Anglicismo. Nada de muito grave, diga-se. O seu irmão mais velho, o Galicismo, imperou com pompa e proveito no século XIX. Depois auto-extinguiu-se, sem intervenção de qualquer vacina. Os pais, esses, são eternos: o Desdém e a Tolice. Antes de continuar, convém dizer duas coisas positivas. A primeira é que os portugueses são, ou tentam ser, saudavelmente poliglotas, e para isso muito contribui o facto de não haver, por exemplo, tradução oral mas sim legendagem de filmes, documentários ou séries (ao contrário do que sucede, por exemplo, em Espanha, França ou Inglaterra), e assim desde muito novos que todos sabem como soa o inglês, o francês, o espanhol, o alemão ou o japonês. A segunda, é que o uso de palavras ou frases estrangeiras no dia-a-dia, por necessidade ou brincadeira, não faz mal a ninguém e nem sequer é criticável. Ninguém se lembraria, a não ser os mais puristas, de traduzir Facebook por Livro de Caras ou Twitter por Gorjeio.

No entanto, há casos onde o abuso do inglês se torna caricato. Vejam-se, por exemplo, muitos concursos televisivos nacionais (The Big Picture, Got Talent Portugal, Cook off, The Voice Portugal, Fama Show, Love on Top, etc); os nomes que travestiram tantas universidades; a gíria que infesta a economia e a gestão; ou o recém-inaugurado e prometedor News Museum. Quem escolheu o título em inglês deve tê-lo achado mais cosmopolita. Museu das Notícias? Que saloiada! Mas e o também recente Museu do Dinheiro? Não será este tão ou mais universal do que as notícias? Então, o que esperam para fazer dele um Money’s Museum, hã?

Ah, faz-nos falta a Grande Cruzada da Tradução Nacional! Ponhamos em Belém uma Tower e um Monastery, para ajudar os turistas; troquemos as ruas por streets; chamemos trains aos comboios e ATM aos multibancos, sejamos, como se diz?, universais! — que o Desdém pelo nosso idioma e a Tolice de ignorá-lo farão o resto.

Share

“O equívoco” politicamente incorrecto

CratiloUm artigo politicamente correcto veiculando uma opinião politicamente correcta sobre o fenómeno que nesta mesma frase aparece por duas vezes designado. Descontando o estilo de trabalho académico, pejado de referências a “fontes” que tornam a leitura quase impossível, o autor faz ainda assim despontar, por entre esse emaranhado de “impressionantes” citações, uma ideia ou outra de sua própria lavra. As referências a “conservadorismo” ou a “conservadores” são em si mesmas não apenas politicamente correctas (basta atentar nos respectivos antónimos, por assim dizer) como ilustram a mecânica intrínseca, a lógica inerente, o “modus operandi” não da linguagem mas do “pensamento” politicamente correcto: impedir que a porca da realidade estrague uma bela teoria.

 


 

logo_sharePlatonicamente correcto

António Guerreiro

29/04/2016 – 12:03

A ideia de que vivemos sob a ditadura do “politicamente correcto” não resiste a esta experiência: diante de uma plateia cultural e socialmente heterogénea, pede-se que levante o braço quem defende a “political correctness” e verifica-se que é diminuto o número de braços erguidos. Quem conta esta experiência é um académico americano chamado John K. Wilson, num artigo escrito no ano passado, onde actualiza e reafirma a sua tese de 1995, num livro intitulado The Myth of Political Correctness. The Conservative Attack on Higher Education. Para a maioria, ser politicamente correcto significa aderir a um hipermoralismo, a um puritanismo da linguagem, a um fundamentalismo ético. John K. Wilson não nega que houve uma revisão da linguagem no sentido de adequá-la a novos quadros ideológicos e a novas concepções culturais e sociais (reconhecendo, aliás, que não é possível excluir as idiotices de gente intolerante), mas os seus argumentos pretendem demonstrar que as denúncias do politicamente correcto como um fanatismo que tomou conta da Universidade e dos media, ameaçando a cultura americana, são reacções muito exageradas de uma “conservative correctness” a que John K Wilson também chama “patriotic correctness”. Este debate, cujos argumentos de um lado e do outro são difíceis de avaliar na sua adequação à realidade para quem está fora do contexto, torna bem claro que as operações de correcção política não consistem em querer impor uma linguagem artificial e cheia de maquilhagem contra uma linguagem neutra, pura e natural, como a água que jorra das fontes. Tais operações partem precisamente da ideia – incontestável – de que há regras gramaticais, usos e formações lexicais que se sedimentaram como históricas cristalizações ideológicas e culturais. O equívoco do politicamente correcto é o de que as pode destruir, quando elas têm é de ser desconstruídas (evoco a “desconstrução”, à maneira de Derrida, que está longe de ser o mesmo que “destruição”). Toda esta discussão tem a vantagem de nos reconduzir à política enquanto questão exclusiva dos seres falantes. Os regimes totalitários tiveram a pretensão de pôr a língua ao serviço dos seus desígnios, de a manipular até ao ponto de enxertar nela um novo idioma. Veja-se o estudo magistral que o filólogo alemão Victor Klemperer publicou em 1947, sobre a LTI, a Lingua Tertii Imperii, a língua do IIIº Reich. Mas não se pense que as democracias liberais não impuseram também uma língua ao serviço da mentira política. Basta pensar no uso que se faz de palavras como “crise”, “reforma”, “colaboradores”, “recursos humanos”, “empreendedorismo”, etc. Mas foi o comunismo soviético que se identificou totalmente com um “linguistic turn”, uma viragem linguística, ao ponto de querer governar através da linguagem e proceder a uma “linguistização da sociedade”. É esta a tese de um filósofo russo-alemão, Boris Groys, num livro de 2006 intitulado Das Kommunistische Postskiptum. Logo no início do livro, podemos ler esta asserção: “A revolução comunista é a transcrição, ao nível da praxis social, do medium do dinheiro [através do qual opera a economia] para o medium da linguagem [através da qual funciona a política]”. O comunismo pode assim ser definido como um fenómeno discursivo. E a União Soviética, diz Groys, “concebia-se como um Estado onde só a filosofia governava”, realização histórica da República de Platão, em que linguagem é elevada a medium de poder total. O politicamente correcto não é uma ideologia, como pretendem muitos ideólogos conservadores, mas tem uma forte dimensão platónica.

[Transcrição, exactamente conforme o original (sem parágrafos), de artigo de opinião da autoria de António Guerreiro. Jornal “Público” (suplemento “ípsilon”), 29.04.16. Destaques meus. Imagem de topo (não casual ou por lapso): Google Books. ]

Share